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[traduzido por José Paulo Paes]
IX
Esta horrível mas soberba tela
a parábola dos cegos
sem vermelho algum
na composição mostra um bando
de mendigos um a
guiar o outro atravessando
diagonalmente o quadro
desde um lado
para tropeçar enfim num charco
onde a pintura
e a composição terminam atrás
do qual nenhum homem vidente
é representado os rostos
sem barbear dos in-
digentes com seus poucos
e miseráveis pertences vê-se
uma bacia de lavar numa casinha
campônia e a ponta de uma torre de igreja
as faces estão erguidas
como que para a luz
não há nenhum detalhe estranho
à composição cada um
segue os outros bordão
na mão triunfante até o desastre
(Quadros de Brueghel e outros poemas — 1962)
The parable of the blind
IX
This horrible but superb
painting
the parable of the blind
without a red
in the composition shows a
group
of beggars leading
each other diagonally downward
across the canvas
from one side
to stumble finally into a bog
where the picture
and the composition ends back
of which no seeing man
is represented the unshaven
features of the des-
titute with their few
pitiful possessions a basin
to wash in a peasant
cottage is seen and a church
spire
the faces are raised
as toward the light
there is no detail extraneous
to the composition one
follows the others stick in
hand triumphant to disaster
(Pictures from Brueghel and other poems — 1962)
De
Parabel van der Blinden – 1568 [Bíblia: Mateus 15:14]
Pieter Bruegel de Oudere [1525-1530 – 1569]
Pieter Bruegel de Oudere [1525-1530 – 1569]
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Poemas: William Carlos Williams — [edição bilíngue], Seleção, Tradução,
Estudo crítico e Notas de José Paulo Paes, 1987, Companhia das Letras, São
Paulo — SP; William Carlos Williams (1883 — 1963), estadunidense de Rutherford,
New Jersey, formou-se pela Faculdade de Medicina da Universidade da
Pensilvânia, foi médico pediatra e clínico geral, romancista, ensaísta e poeta
do modernismo e do imagismo estadunidense; Williams, antes mesmo de aprender o
inglês, aprendeu o espanhol, visto que sua mãe, de origem basca, nascera em
Porto Rico, Caribe, e em casa seus pais conversavam neste idioma; suas obras:
Poems (1909), Kora in hell: improvisations (poema-prosa, 1920), The great american
novel (novela, 1923), Spring and all (Primavera e o mais, 1923), Novelette and other
prose (1932), Collected poems — 1921-1931 (Poemas reunidos, 1934), An early
martyr and other poems (Um mártir precoce e outros poemas, 1935), White mule
(novela, 1937), Life along the Passaic River (contos, 1938), The complete collected
poems of William Carlos Williams 1906—1938 (Poemas reunidos completos, 1938),
The wedge (A cunha, poesias, 1944), Paterson — books I, II, III, IV and V (1946
— 1958), Autobiography (1951), The desert music and other poems (A música do
deserto e outros poemas, 1954), Selected essays (1954), Pictures from Brueghel
and other poems (Quadros de Brueghel e outros poemas, 1962), Many loves and other
plays: the collected plays of William Carlos Williams (drama, 1962) e outros
textos em verso e prosa; William Carlos Williams recebeu premiações por sua
obra, entre as quais o National Book Award for Poetry, o Prêmio Bollingen e,
postumamente, o Pulitzer de Poesia, por Pictures from Brueghel and other poems.



