quinta-feira, 31 de março de 2022

Jules Laforgue: Mediocridade

 
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[traduzido por Régis Bonvicino]

No infinito coberto de eternas belezas,
Como átomo perdido, incerto, solitário,
Um planeta chamado Terra, dias contados,
Voa com os seus vermes sobre as profundezas.

Filhos sem cor, febris, ao jugo do trabalho,
Marchando, indiferentes ao grande mistério,
E quando um dos seus é enterrado, já sérios,
Saúdam-no. Do torpor não são arrancados.

Viver, morrer, sem desconfiar da história
Do globo, sua miséria em eterna glória,
Sua agonia futura, o sol moribundo.

Vertigens de universo, todo o seu só festa!
Nada, nada, terão visto. Partem do mundo
Sem visitar sequer o seu próprio planeta.

Jules Laforgue

Médiocrité

Dans l'Infini criblé d'éternelles splendeurs,
Perdu comme un atome, inconnu, solitaire,
Pour quelques jours comptés, un bloc appelé Terre
Vole avec sa vermine aux vastes profondeurs.

Ses fils, blêmes, fiévreux, sous le fouet des labeurs,
Marchent, insoucieux de l'immense mystère,
Et quand ils voient passer un des leurs qu'on enterre,
Saluent, et ne sont pas hérissés de stupeurs.

La plupart vit et meurt sans soupçonner l'histoire
Du globe, sa misère en l'éternelle gloire,
Sa future agonie au soleil moribond.

Vertiges d'univers, cieux à jamais en fête!
Rien, ils n'auront rien su. Combien même s'en vont
Sans avoir seulement visité leur planète.
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Litanias da lua: Jules Laforgue Organização, Nota Introdutória, Notícia Biográfica e Tradução de Régis Bonvicino, edição bilíngue, 1989, Iluminuras, São Paulo SP; Julio Laforgue ou Jules Laforgue (1860  1887), nascido em Montevidéu Uruguai, mas desde os seis anos de idade residindo na França, terra de seus pais, foi poeta, romancista, ensaísta e tradutor franco-uruguaio; fez seus estudos iniciais em Tarbes, concluindo-os em Paris, no hoje Liceu Condorcet, depois passou pela Escola de Belas Artes, também em Paris, e em 1879 publicou sua primeira poesia; escreveu cerca de duas centenas de poemas, além de prosa criativa e prosa crítica; de sua biografia, consta que sua poética influenciou fortemente T. S. Eliot, Ezra Pound e Marcel Duchamp; traduziu Walt Whitman; Jules Laforgue foi um dos primeiros poetas franceses a escrever em versos livres, o primeiro a fazê-lo de forma sistemática; obras: publicou em vida apenas quatro livros, Les Complaintes (1885), L’Imitation de Notre Dame la Lune, Concile Féerique (ambos em 1886) e Moralidades Lendárias (1887); postumamente vieram à luz Derniers Vers (1890), Mélanges Posthumes (1903), a maior parte de sua obra só foi publicada postumamente; no Brasil, sua poética fertilizou Pedro Kilkerry, Marcelo Gama, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade; morreu aos 27 anos, de tuberculose.

quarta-feira, 30 de março de 2022

Dalton Trevisan: picos na veia [nanocontos II]

 
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Conto 21:

Assim o cãozinho quer pegar no chão a sombra do vôo rasante do pássaro, você persegue no tempo a lembrança em fuga dos teus mortos queridos.

Conto 36:

O menino para a mãe:
 A vovó buliu no meu pintinho. Ela diz pra não contar.
Essa não, meu Deus, pensa a nora, iluminada. O grande segredo do filho dela. Porque ele é assim... tão...

Conto 42:

 Ai, querido, você não deve me censurar. Eu não volto sempre para você? E sempre mais experiente, mais segura de mim. Não fossem os outros, me diga, saberia eu comparar? Cada um deles só me faz reconhecer que você é o grande, o único, o eterno amor de minha vida.

Conto 123:

No balcão da lanchonete, o senhor de terno e gravata, duramente:
 Uma cerveja preta e dois sonhos.

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Pico na Veia, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ, 2002; Dalton Jérson Trevisan, nascido em 1925, paranaense e curitibano, formou-se pela Faculdade de Direito do Paraná (atual UFPR Universidade Federal do Paraná), foi advogado, jornalista e é escritor e contista; obras: Sonata ao Luar (contos, 1945) e Sete Anos de Pastor (1948), ambos posteriormente renegados pelo autor, Novelas Nada Exemplares (1959), Cemitério de Elefantes (1964), O Vampiro de Curitiba (1965), Desastres de Amor (1968), A Guerra Conjugal (1969), A Trombeta do Anjo Vingador (1977), A Polaquinha (romance, 1985), Pico na Veia (2002), além de mais uma vintena de obras; Pico na Veia é composto, em sua maior parte, por microcontos (minicontos ou nanocontos), uma das especialidades do escritor; o eterno curitibano Dalton Trevisan editou entre abril de 1946 e dezembro de 1948, fora do eixo cultural Rio São Paulo, a Joaquim — revista mensal de arte em homenagem a todos os joaquins do Brasil, porta-voz de uma geração de escritores, críticos e poetas nacionais e que reunia ensaios assinados por Antonio Candido, Mário de Andrade e Otto Maria Carpeaux, poemas até então inéditos como "O caso do vestido" de Carlos Drummond de Andrade, além de trazer traduções originais de Joyce, Proust, Kafka, Sartre, Gide e ilustrações de artistas como Poty, Di Cavalcanti e Heitor dos Prazeres; em 2002, os vinte e um números da Joaquim foram reeditados em edição fac-similar pela Imprensa Oficial do Paraná, patrocinados pela Secretaria da Justiça e da Cidadania do Governo do Paraná; o contista teve obras publicadas nos idiomas alemão, espanhol, francês, inglês, holandês, polonês, e participou com contos em antologias alemãs, argentinas, americanas, polonesas, sueca, venezuelana, dinamarquesa e portuguesa; seu livro A Guerra Conjugal serviu de base para o filme de mesmo nome, com histórias e diálogos do autor, e com roteiro e direção do cineasta Joaquim Pedro de Andrade, em 1975; Dalton Trevisan foi várias vezes premiado pela sua atividade literária: o Prêmio Camões (Instituto Camões, Lisboa Portugal), o Prêmio Machado de Assis (Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra), ambos em 2012, diversos prêmios Jabuti de Literatura e outros.

terça-feira, 29 de março de 2022

Giacomo Leopardi: O Infinito

 
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[traduzido por Henriqueta Lisboa]

Sempre caro me foi este ermo outeiro
e esta sebe, que ao último horizonte
circundando me impede ao longe a vista.
Sentado e contemplando mais além
os espaços, silêncios sobre-humanos
percebendo e uma calma profundíssima,
em pensamento me transfundo. Quase
meu coração se espanta. E ao ouvir o vento
que sussurra entre as árvores, comparo
ao silêncio infinito sua voz.
Sobreleva-me então o eterno: evoco
as mortas estações e da presente
sinto a vida através de seus rumores.
Na imensidão mergulho o pensamento
e nestes mares naufragar me é doce.

([1819] publicado em Canti 1831)

Giacomo Leopardi

L’Infinito

Sempre caro mi fu quest'ermo colle,
e questa siepe, che da tanta parte
dell'ultimo orizzonte il guardo esclude.
Ma sedendo e mirando, interminati
spazi di là da quella, e sovrumani
silenzi, e profondissima quïete
io nel pensier mi fingo, ove per poco
il cor non si spaura. E come il vento
odo stormir tra queste piante, io quello
infinito silenzio a questa voce
vo comparando: e mi sovvien l'eterno,
e le morte stagioni, e la presente
e viva, e il suon di lei. Così tra questa
immensità s'annega il pensier mio:
e il naufragar m'è dolce in questo mare.

([1819] Canti 1831)
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Antologia de Poemas para a Juventude (vários autores) — Organização e Apresentação de Henriqueta Lisboa, 2003, 2ª edição, Ediouro Publicações S/A, Rio de Janeiro — RJ; Giacomo Leopardi (1798 1837), italiano de Recanati, incentivado pelo pai e com uma vasta biblioteca à sua disposição, desde os seis anos de idade estudou com preceptores, aprendeu latim, grego, hebraico, francês e outras línguas modernas, cultivou interesses filológicos, traduziu e comentou os clássicos que lia (Homero, entre outros), foi ensaísta, filólogo e poeta; obras: Storia dell’astronomia (1813), Saggio sopra gli errori popolari degli antichi (1815), Canti (coleção de poemas, 1ª edição em 1831) e outras obras em prosa, estudos e pensamentos.

segunda-feira, 28 de março de 2022

Góngora: A uma casa de campo onde estava uma dama a quem celebrava* . . . [soneto]

 
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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]

42 1594

Se a vista já, de prantear cansada,
de coisa pode prometer certeza,
belíssima é aquela fortaleza
e generosamente edificada.

Paço é de minha bela celebrada,
templo do Amor, alcáçar da nobreza,
ninho da fênix de maior beleza
que hoje se vê bater pluma dourada.

Muro que subjugais o verde plano,
torres que defendeis o nobre muro,
ameias que das torres sois coroa:

quando de vosso dono soberano
mereçais ver a celestial pessoa,
representai-lhe o meu desterro duros.


A una casa de campo donde estaba una dama a quien celebrada

42 — 1594

Si ya la vista, de llorar cansada,
de cosa puede prometer certeza,
bellísima es aquella fortaleza
y generosamente edificada.

Palacio es de mi bella celebrada,
templo de Amor, alcázar de nobleza,
nido del Fénix de mayor belleza
que bate en nuestra edad pluma dorada.

Muro que sojuzgáis el verde llano,
torres que defendéis el noble muro,
almenas que a las torres sois corona:

Cuando de vuestro dueño soberano,
merezcáis ver la celestial persona,
representadle mi destierro duro.

* Nota do tradutor Péricles Eugênio da Silva Ramos: O título consta em López de Vicuña (1627).
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Poemas de Góngora — Tradução, Introdução e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, edição bilíngue, 1988, Art Editora, São Paulo — SP; Luis de Góngora y Argote (1561 1627), espanhol de Córdoba, foi poeta do período barroco, considerado líder da corrente literária autodenominada cultismo e desenvolvedor de um estilo, o gongorismo, reconhecido pelo uso sistemático continuado de ‘hipérboles, metáforas obscuras e dubiedades’ em seus textos; fez estudos religiosos em Salamanca e ordenou-se sacerdote; sabia latim, italiano e português; obras: Fábula de Polifemo y Galatea (1612 1613), Soledades (1612 1613), Panegírico Al Duque de Lerma (1617), Fábula de Píramo y Tisbe (1618); Góngora, além dos sonetos e dos romances poéticos, também compôs duas peças teatrais.

domingo, 27 de março de 2022

Gonçalves Crespo: Na roça

 
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[Ao Dr. Luís Jardim]

Cercada de mestiças, no terreiro,
Cisma a Senhora Moça; vem descendo
A noite, e pouco e pouco escurecendo
O vale umbroso1 e o monte sobranceiro2.

Brilham insetos no capim rasteiro,
Vêm das matas os negros recolhendo;
Na longa estrada ecoa esmorecendo
O monótono canto de um tropeiro.

Atrás das grandes, pardas borboletas
Crianças nuas lá se vão inquietas
Na varanda correndo ladrilhada.

Desponta a lua; o sabiá gorjeia;
Enquanto às portas do curral ondeia
A mugidora fila da boiada...


Notas da edição — Vocabulário:
1. Umbroso — Sombrio, que tem ou produz sombra.
2. Sobranceiro — Que domina; altivo.
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Poesia Brasileira para a Infância (diversos autores), Seleção, Organização e Texto/Apresentação de Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, Coleção Henriqueta 1, 3ª edição revista, 1968, Edição Saraiva, São Paulo — SP; Antônio Cândido Gonçalves Crespo (1846 1883), nascido no Rio de Janeiro, filho de mãe escrava à época de seu nascimento e de pai negociante português, fez seus estudos em Lisboa e formou-se em Direito na Universidade de Coimbra; em terras portuguesas, dedicou-se no entanto ao jornalismo e à poesia, foi redator do Jornal do Comércio, de Lisboa, e colaborou com os periódicos O Ocidente, Mosaico e Literatura Ocidental, e também com a revista A Folha, na qual publicavam Guerra Junqueiro e Antero de Quental, além de outros notáveis da época; escreveu e publicou Miniaturas (primeira edição, 1871), Noturnos (várias edições, primeira edição em 1882), Contos para Nossos Filhos (em conjunto com Maria Amália Vaz de Carvalho, esposa e também escritora, 1882); foi membro da Academia Real de Ciências de Lisboa; faleceu vitimado pela tuberculose.

sábado, 26 de março de 2022

Eugenio Montale: Ó vida, não te peço lineamentos . . .

 
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[traduzido por Ivo Barroso]

Ó vida, não te peço lineamentos
fixos, vultos plausíveis ou possessos.
Sinto que no teu giro inquieto o mesmo
sabor que tem o mel tem o absinto.

O coração propenso todo ao vil
raro se afeta com pressentimentos.
Tal como soa às vezes no silêncio
do descampado um tiro de fuzil.


Mia vita, a te non chiedo lineamenti
fissi, volti plausibili o possessi.
Nel tuo giro inquieto ormai lo stesso
sapore han miele e assenzio.

Il cuore che ogni moto tiene a vile
raro è squassato da trasalimenti.
Così suona talvolta nel silenzio
della campagna un colpo di fucile.
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O Torso e o Gato — O Melhor da Poesia Universal, Tradução e Organização de Ivo Barroso, Prefácio de Antônio Houaiss, 1991, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Eugenio Montale (1896 1981), italiano genovês, interrompeu seus estudos em 1915 para servir na Primeira Guerra Mundial, foi poeta, escritor, jornalista e tradutor; colaborou na seção literária do Corriere dela Sera; verteu para o italiano obras de Shakespeare, T. S. Eliot, Eugene O’Neil, Herman Melville e outros; obras: Ossi di seppia (Ossos de Sépia, coletânea de poemas, 1925), Poesie (1938), Le occasioni (As Ocasiões, 1939), Finisterre — versi del 1940—42 (1943), Farfalla di Dinard (1956), Satura 1962—1970 (1971) e outros títulos; o escritor afastou-se das atividades públicas após ter-se recusado a aderir ao Partido Fascista; recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1975.

sexta-feira, 25 de março de 2022

Lúcio de Mendonça: XV — No fundo do abismo

 
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(paráfrase de um dito popular)

Paramos de descer e de rolar,
Paramos: é o fundo já do abismo.
Tirou de todo a máscara o cinismo;
É noite negra na alma popular.

Nasceu esta miséria deste par
A Monarquia e o Ultramontanismo.
Despojou-nos o negro banditismo,
No covil-trono e no balcão-altar.

Ó Pátria! surge deste inferno em que ardes!
Concidadãos! debalde esperareis,
Se das mãos do opressor tudo esperardes.

Não! vós não vos salvais se não bebeis
Todo o sangue do último dos padres
Pelo crânio do último dos reis!

Minas [Gerais], 1879.
(Murmúrios e Clamores — poesias completas, 1902)

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Revolta e protesto na poesia brasileira — 142 poemas sobre o Brasil [diversas autorias], Organização e Apresentação de André Seffrin, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Lúcio Eugênio de Meneses e Vasconcelos Drummond Furtado de Mendonça (1854 1909), fluminense de Piraí, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo atual USP do Largo de São Francisco , foi advogado, magistrado, jornalista, contista e poeta; colaborou em diversos periódicos da época, entre os quais O Ipiranga e A Província, de São Paulo, A República, do Rio de Janeiro e Colombo, de Campanha  MG; obras: Névoas Matutinas (1872), Alvoradas (1875), O Marido da Adúltera (1882), Visões do Abismo (1888), Esboços e Perfis (1889), Vergastas (poesia, 1889), Canções de Outono (1896), Horas do bom tempo (1901), Murmúrios e Clamores — poesias completas (1902), Páginas Jurídicas (1903), A Caminho (1903); Lúcio de Mendonça foi o “pai” da idéia de criação de uma academia de letras, levando-a a efeito; como um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, coube-lhe a cadeira nº 11, cujo patrono é o poeta Fagundes Varela.

Tristan Corbière: Soneto póstumo

 
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[traduzido por Marcos Antônio Siscar]

Dorme: é tua cama… Dorme sossegado.
Mais vale quem Deus ajuda. Dorme bastante.
O amado é sempre o Outro Tu serás amado…
Sonha: A mais amada é sempre a mais distante…

Dorme: apanhador de estrelas vais te chamar!
Cavalgador de raios!… em noite sombria;
O anjo negro, a aranha, em casa vai fiar
Sem azar — suas teias na fronte vazia.

Mordaçador de véus! um beijo se desvenda
Sob o véu… para veres onde, feche os olhos.
Ri: Sob o lençol te espera a tua prenda.

Teu nariz sofrerá o golpe do incensório,
Doce aroma!… na cara cheia de oferendas
Íntimas de um sacristão com seus acessórios.

Tristan Corbière

Sonnet posthume

Dors: ce lit est le tien… Tu n’iras plus au nôtre.
Qui dort dîne1. à tes dents viendra tout seul le foin.
Dors: on t’aimera bien L’aimé c’est toujours l’Autre…
Rêve: La plus aimée est toujours la plus loin…

Dors: on t’appellera beau décrocheur2 d’étoiles!
Chevaucheur de rayons!… quand il fera bien noir;
Et l’ange du plafond3, maigre araignée, au soir,
Espoir4 sur ton front vide ira filer ses toiles.

Museleur5 de voilette! un baiser sous le voile
T’attend… on ne sait où: ferme les yeux pour voir.
Ris: Les premiers honneurs t’attendent sous le poêle6.

On cassera ton nez d’un bon coup d’encensoir7,
Doux fumet!… pour la trogne en fleur, pleine de moelle
D’un sacristain très-bien, avec son éteignoir.

Notas do tradutor Marcos Antônio Siscar:
1. Na entrada de certos albergues franceses do passado, lia-se esse aviso: “Qui dort dîne”, aquele que se hospeda deve também jantar no local. Mas a expressão é também um provérbio, aliás mais apropriado no contexto, que sugere o fato de o sono alimentar ou fazer esquecer a fome. Usamos aqui uma das variantes de um provérbio, em português (“Mais vale quem Deus ajuda do que quem cedo madruga”), que efetivamente pode ser um convite ao sono...;
2.Décrocheur” é um neologismo;
3. e 4. Engenhoso entrelaçamento de uma expressão (“avoir des araignées dans le plafond”) e um dito popular (“Araignée au matin — chagrin; araignée ao soir — espoir”). Usamos, adaptando-a à aranha, a crendice popular de que “borboleta preta dentro de casa traz azar” (ou luto);
5.Museleur” é um neologismo;
6.Poêle” designa a grinalda de uma noiva ou a mortalha do defunto. Lençol, em português, também pode ter essa segunda acepção;
7.Casser le nez de quelqu’un à coups d’encensoir”: fazer elogios exagerados a alguém, de maneira mais ofensiva que lisonjeira.
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Os Amores amarelos — Tristan Corbière, Introdução, Tradução e Notas de Marcos Antônio Siscar, edição bilíngue, 1996, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Tristan Corbière, ou Édouard-Joachim Corbière (1845 1875), francês de Morlaix Finistère-Bretagne, estudou em regime de internato num liceu de Saint-Brieuc e em regime de externato num liceu de Nantes, foi poeta simbolista e caricaturista; de sua biografia consta que seus primeiros poemas e caricaturas vieram à luz durante o período em que foi aluno interno e que seu mais antigo poema, com data de 1860, satiriza um professor de história; escreveu e publicou um único livro em vida, Les Amours jaunes (Os Amores amarelos, 1873) e a revista La Vie Parisienne registra alguns de seus poemas; o livro é considerado um fracasso total e não obteve reconhecimento público; o poeta só teve seu trabalho valorizado após Paul Verlaine o citar em Les Poètes maudits, 1883; consta que tal recomendação bastou para trazer Tristan Corbière ao público e firmá-lo como um dos mestres reconhecidos do Simbolismo; sua poética é considerada precursora do Surrealismo; de saúde frágil, morreu de tuberculose aos 29 anos de idade; em 1891, pelas mãos do editor Léon Vanier, veio a público a 2ª edição de Os Amores amarelos e, desta vez, foi absorvida e benquista nos meios literários; depois, vieram outras edições e reimpressões.

quinta-feira, 24 de março de 2022

Arthur Rimbaud: Depois do dilúvio

 
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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes e
Maurício Arruda Mendonça]

          Assim que a idéia do Dilúvio sossegou,
          Uma lebre se deteve entre trevos e campânulas cambiantes, e fez sua prece ao arco-íris, através da teia de aranha.
          Oh! as pedras preciosas que se escondiam, e as flores que já olhavam.
          Na grande rua suja açougues se abriram, e barcos foram lançados nos degraus do mar lá no alto como nas gravuras.
          O sangue correu, no Barba-Azul, nos matadouros, nos circos, onde o selo de Deus empalidecia as janelas. O sangue e o leite correram.
          Castores construíram. “Mazagrans” enfumaçaram os botecos.
          Na imensa mansão de vidros ainda gotejantes, meninos de luto admiraram imagens maravilhosas.
          Uma porta bateu, e sobre a praça da vila, o menino girou os braços, compreendidos os cataventos e galos dos campanários de toda parte, sob um temporal cintilante.
          Madame *** instalou um piano nos Alpes. A missa e as primeiras comunhões foram celebradas nos cem mil altares da catedral.
          As caravanas partiram. E o Splendide-Hôtel foi erguido no caos de gelo e da noite polar.
          Desde então, a Lua ouviu o uivo dos chacais nos desertos de timo, e écoglas de tamancos grunhindo no pomar. Depois, na floresta violeta, florescente, Êucaris me disse que era a primavera.
           Lago, salte, Espuma, role sobre a ponte e por cima desses bosques; panos negros e órgãos, trovão e raio, subam e rolem; águas e tristeza, subam e renovem esses Dilúvios.
          Pois desde que dissiparam, oh as pedras preciosas se enterrando, e as flores se abrindo! tudo é um tédio! E a Rainha, a Feiticeira que acende sua brasa num pote de barro, não vai querer jamais nos contar tudo o que sabe, e que nós ignoramos.

Arthur Rimbaud

Après le déluge

          Aussitôt que l'idée du Déluge se fut rassise,
          Un lièvre s'arrêta dans les sainfoins et les clochettes mouvantes et dit sa prière à l'arc-en-ciel à travers la toile de l'araignée.
          Oh! les pierres précieuses qui se cachaient,  les fleurs qui regardaient déjà.
          Dans la grande rue sale les étals se dressèrent, et l'on tira les barques vers la mer étagée là-haut comme sur les gravures.
          Le sang coula, chez Barbe-Bleue,  aux abattoirs,  dans les cirques, où le sceau de Dieu blêmit les fenêtres. Le sang et le lait coulèrent.
          Les castors bâtirent. Les "mazagrans1" fumèrent dans les estaminets.
          Dans la grande maison de vitres encore ruisselante les enfants en deuil regardèrent les merveilleuses images.
          Une porte claqua, et sur la place du hameau, l'enfant tourna ses bras, compris des girouettes et des coqs des clochers de partout, sous l'éclatante giboulée.
          Madame2*** établit un piano dans les Alpes. La messe et les premières communions se célébrèrent aux cent mille autels de la cathédrale.
          Les caravanes partirent. Et le Splendide-Hôtel fut bâti dans le chaos de glaces et de nuit du pôle.
          Depuis lors, la Lune entendit les chacals piaulant par les déserts de thym3 et les églogues4 en sabots grognant dans le verger. Puis, dans la futaie violette, bourgeonnante, Eucharis me dit que c'était le printemps.
           Sourds, étang,  Écume, roule sur le pont, et par-dessus les bois;  draps noirs et orgues,  éclairs et tonnerres,  montez et roulez;  Eaux et tristesses, montez et relevez les Déluges.
          Car depuis qu'ils se sont dissipés,  oh les pierres précieuses s'enfouissant, et les fleurs ouvertes! c'est un ennui! et la Reine, la Sorcière qui allume sa braise dans le pot de terre, ne voudra jamais nous raconter ce qu'elle sait, et que nous ignorons.

(Illuminations, 18731875)

Notas dos tradutores:
1. Mazagrans. O termo remonta à época da conquista da Argélia pelos franceses. Café frio ao qual se adiciona álcool, servindo-se em recipientes grandes e fundos;
2. Madame ***. O manuscrito original está rasurado. Impossível determinar quem seja;
3. Thymus. No original, “thym”: timo ou tomilho. Arbusto da família das babiadas. Erva encontrada na região mediterrânea e também em regiões secas. Talvez Rimbaud se remeta à palavra “Thymnias”, que indica um golfo da Cária, Ásia Menor;
4. Éclogas. No original “églogues”. Composição poética do genêro bucólico, geralmente dialogada, cujas personagens são quase sempre pastores ou mesmo pescadores e caçadores, em que se fala dos seus amores ou das cenas da vida campestre.
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Iluminuras — Gravuras coloridas: Arthur Rimbaud, tradução, Notas e Ensaio de Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça, edição bilíngue, 2002, 3ª edição, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 1891), francês de Charleville, estudou no Collège Charleville e foi poeta do simbolismo francês; recebeu influências de Victor Hugo, George Izambard seu professor de retórica , Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandonou a literatura e retomou a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 18731875); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.; em 1878, deixou a Europa e partiu para o Oriente Médio, passou a viver em Aden, Harar e outras localidades, realizando expedições, comercializando peles e marfim e traficando armas em regiões inóspitas e de deserto; em 1886, a revista La Vogue, publicou grande parte de Illuminations, com a informação errada de que o poeta já havia falecido; de fato, Arthur Rimbaud morreu a 10 de dezembro de 1891, após hospitalização em Marselha e ter a perna amputada devido a um tumor cancerígeno em seu joelho direito.

quarta-feira, 23 de março de 2022

John Keats: Ode a uma urna grega

 
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[traduzido por Oswaldino Marques]

Noiva da quietude, ainda inviolada,
Pupila do silêncio e do tempo remansoso,
Campestre historiadora que assim podes narrar
Mais doce que nossos versos, um conto florido,
Que legenda, debruada de folhagem, povoa tua forma
De deidades ou mortais, ou mesmo de ambos,
Em Tempe ou nos vales da Arcádia?
Que homens ou deuses estes? Que virgens relutantes?
Que louca perseguição? Que esforços para escapar?
Que frautas e pandeiros? Que transe de alegria?

Doces são ouvidas melodias; mais doces, porém,
As que não se ouvem; tocai, tocai, pois, maviosas frautas,
Não para o ouvido corpóreo; mais enternecidas.
Tocai para o espírito silenciosas cantigas.
Belo mancebo, sob as frondes não podes estancar
Teu canto, nem essas árvores podem-se despir;
Amante audaz, nunca, nunca darás teu beijo,
Embora tão próximo ao alvo não te queixes, todavia;
Se não fruis teu gozo, ela não pode estiolar-se,
Para sempre amá-la-ás, e ela não será bela!

Felizes, ramos felizes, que não podeis soltar
Vossas folhas, nem jamais dar adeus à primavera;
E tu, afortunado melodista, infatigável,
Para sempre tocando árias sempre novas;
Mais venturoso amor! Feliz, feliz amor!
Para sempre ardente, sem nunca ser possuído,
Sempre ofegante e para sempre jovem;
Muito, muito acima das paixões humanas,
Que deixam o coração triste e entediado,
A fronte em brasa, a língua ressequida.

Quem são estes rumando ao sacrifício?
A que altar virente, Ó sacerdote misterioso,
Levas essa novilha a mugir para os céus,
Os flancos sedosos cobertos de guirlandas?
Que cidadezinha à ourela de rio ou mar,
Esvaziou-se desta gente, nesta pia manhã?
Ah, pequena vila, para sempre tuas ruas
Ficarão silenciosas; e nenhuma alma que diga
Por que estás deserta, jamais tornará.

Oh, forma ática! Nobre equilíbrio! Num friso
De mármore, homens e virgens vos rendilham,
Ramos, e a erva sob os pés calcada;
Tu, forma silente, nosso pensamento dilaceras
Como a eternidade gélida pastoral!
Quando a idade consumir os vivos de hoje,
Tu permanecerás, em meio a outros tormentos,
Outros que os nossos, a amiga do homem,
A quem dizes: “Beleza é verdade, verdade beleza”,
Eis tudo que sabeis na terra, tudo que é mister saber.

John Keats

Ode on a grecian urn

Thou still unravish’d bride of quietness,
        Thou foster-child of silence and slow time,
Sylvan historian, who canst thus express
        A flowery tale more sweetly than our rhyme:
What leaf-fring’d legend haunts about thy shape
        Of deities or mortals, or of both,
            In Tempe or the dales of Arcady?
What men or gods are these? What maidens loth?
        What mad pursuit? What struggle to escape?
            What pipes and timbrels? What wild ecstasy?

Heard melodies are sweet, but those unheard
        Are sweeter; therefore, ye soft pipes, play on;
Not to the sensual ear, but, more endear'd,
        Pipe to the spirit ditties of no tone:
Fair youth, beneath the trees, thou canst not leave
        Thy song, nor ever can those trees be bare;
            Bold lover, never, never canst thou kiss
Though winning near the goal yet, do not grieve;
        She cannot fade, though thou hast not thy bliss,
            For ever wilt thou love, and she be fair!

Ah, happy, happy boughs! that cannot shed
        Your leaves, nor ever bid the Spring adieu;
And, happy melodist, unwearied,
        For ever piping songs for ever new;
More happy love! more happy, happy love!
        For ever warm and still to be enjoy’d,
            For ever panting, and for ever young;
All breathing human passion far above,
        That leaves a heart high-sorrowful and cloy’d,
            A burning forehead, and a parching tongue.

Who are these coming to the sacrifice?
        To what green altar, O mysterious priest,
Lead’st thou that heifer lowing at the skies,
        And all her silken flanks with garlands dressed?
What little town by river or sea shore,
        Or mountain-built with peaceful citadel,
            Is emptied of this folk, this pious morn?
And, little town, thy streets for evermore
        Will silent be; and not a soul to tell
            Why thou art desolate, can e’er return.

O Attic shape! Fair attitude! with brede
        Of marble men and maidens over wrought,
With forest branches and the trodden weed;
        Thou, silent form, dost tease us out of thought
As doth eternity: Cold Pastoral!
        When old age shall this generation waste,
            Thou shalt remain, in midst of other woe
Than ours, a friend to man, to whom thou say’st,
            «Beauty is truth, truth beauty,»  that is all
            Ye know on earth, and all ye need to know.
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Poemas Famosos da Língua Inglesa [diversos autores], Compilação, Tradução, Prefácios das 1ª e  2ª edições e Notas de Oswaldino Marques, edição bilíngue, volume 599 da Coleção Antologia de Poetas Universais, 1968, Edições de Ouro, Rio de Janeiro — RJ; John Keats (1795 1821), britânico de Londres, teve educação irregular, abandonou os estudos e as práticas de medicina para se dedicar às letras e foi o último dos expoentes do Romantismo na literatura inglesa, ao lado de Byron e Shelley, seus contemporâneos; compôs odes e sonetos, teve seu primeiro poema, o soneto ‘O Solitude’, publicado no Examiner, jornal editado por seu amigo Leigh Hunt, jornalista, ensaísta e também poeta; suas obras: Poems (1817), Endymion (Endimião, 1818), Hyperion (inconcluso, 1819), The Eve of St. Agnes and Other Poems (A Véspera de Santa Inês, poema narrativo, 1820), Isabella, Lamia; morreu jovem, em Roma, de tuberculose.