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segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Fiama Hasse Pais Brandão: Crónicas


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Os falecidos
são essa memória
que depois se evoca

São a narrativa
das suas crónicas
e os extremos actos
de seus cercos
sítios
que a prosa acaso
acolhe lisos

Depois na leitura
tanto quanto ao ler
os mortos se aviltam
se debilitam
há uma maneira segura
de utilizar os feitos
para efeito de futura
vida ou sítio

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Poetas mulheres que pensaram o século XX [várias poetas, vários ensaios, vários ensaístas] — Apresentação e Organização de Regina Przybycien e Cleusa Gomes, 2008, Editora UFPR, Curitiba — PR; Fiama Hasse Pais Brandão (1938 2007), portuguesa e lisboeta, estudou Filologia Germânica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foi escritora, poetisa, dramaturga, ensaísta e tradutora; suas obras: Em cada pedra um voo imóvel (poemas dramáticos e poemas em prosa, 1957), Morfismos (em Poesia 61, 1961), Os Chapéus de Chuva (teatro, 1961), A Campanha (teatro, 1965), Barcas Novas (1967), Novas Visões do Passado (1975), O Texto de João Zorro (Obra poética, 1974), Homenagem à literatura (1976), Área Branca, Melômana (ambas em 1978), Quem move as Árvores (teatro, 1979), Âmago I / Nova Arte (1985), O Labirinto Camoniano e Outros Labirintos (ensaio, 1985), F de Fiama (antologia, 1986), Três Rostos (1989), Epístolas e Memorandos (1989), Teatro-teatro (1990), Obra breve (Obra poética, 1991), Movimento Perpétuo (prosa, 1991), Cântico maior (1995), Sob o olhar de Medeia (prosa, 1998), Cenas Vivas (2000), As Fábulas (2002), Noites de Inês-Constança (2005) etc.; traduziu obras de Bertolt Brecht, Novalis, John Updike, Antonin Artaud, Anton Tchekov e outros; recebeu diversas premiações por sua obra.

quinta-feira, 8 de setembro de 2022

Fiama Hasse Pais Brandão: História literária


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Dou graças a meus olhos
que apaziguaram o meu cérebro
estarrecido pela literatura.
Outrora era o poder das letras,
a beberagem, o filtro das sílabas
que brotavam em espiral
das páginas dos mestres insanos.
Era eu num alto poço, com o fundo
no topo inverso da minha cabeça,
a sorver o crânio dos antepassados.
Era eu, no mais dentro de uma britadeira
mental, a reunir a fragmentada
palavra una, ventre de todas as palavras.

Hoje ou agora, os meus olhos
são somente como o tacto: apalpam,
marcam, com sua secreção,
o rebordo de cada objeto, dos seres,
o limite de uma crónica dos dias.

[Cenas vivas]

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Poetas mulheres que pensaram o século XX [várias poetas, vários ensaios, vários ensaístas] — Apresentação e Organização de Regina Przybycien e Cleusa Gomes, 2008, Editora UFPR, Curitiba — PR; Fiama Hasse Pais Brandão (1938 2007), portuguesa e lisboeta, estudou Filologia Germânica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foi escritora, poetisa, dramaturga, ensaísta e tradutora; suas obras: Em cada pedra um voo imóvel (poemas dramáticos e poemas em prosa, 1957), Morfismos (em Poesia 61, 1961), Os Chapéus de Chuva (teatro, 1961), A Campanha (teatro, 1965), Barcas Novas (1967), Novas Visões do Passado (1975), O Texto de João Zorro (Obra poética, 1974), Homenagem à literatura (1976), Área Branca, Melômana (ambas em 1978), Quem move as Árvores (teatro, 1979), Âmago I / Nova Arte (1985), O Labirinto Camoniano e Outros Labirintos (ensaio, 1985), F de Fiama (antologia, 1986), Três Rostos (1989), Epístolas e Memorandos (1989), Teatro-teatro (1990), Obra breve (Obra poética, 1991), Movimento Perpétuo (prosa, 1991), Cântico maior (1995), Sob o olhar de Medeia (prosa, 1998), Cenas Vivas (2000), As Fábulas (2002), Noites de Inês-Constança (2005) etc.; traduziu obras de Bertolt Brecht, Novalis, John Updike, Antonin Artaud, Anton Tchekov e outros; recebeu diversas premiações por sua obra.

sexta-feira, 24 de junho de 2022

Else Lasker-Schüler: Jerusalem

 
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[tradução “quase textual” oferecida por Juliana P. Perez]

Deus construiu de Sua espinha: Palestina
De um único osso: Jerusalém.

Eu vago como entre mausoléus
Pétrea, nossa cidade santa.
As pedras descansam nos leitos dos mortos mares seus.
No lugar de seda, águas que lá brincavam: vêm e passam.

Duros os solos fixam o viajante
E ele afunda em suas noites fixas.
Sinto um medo que eu não posso superar

Mas se tu viesses.....
Envolto em lúcido manto alpino
E de meu dia o crepúsculo levasses
Meu braço te seria moldura, santa imagem auxiliadora.

Como antes, quando eu sofria no escuro do meu coração
Pois teus olhos ambos: nuvens azuis.
Eles me levaram da minha melancolia.

Mas se tu viesses
À terra dos antepassados
Tu me exortarias como uma criancinha:
Jerusalém ressuscite!

Saúdam-nos
As vivas bandeiras do ‘único Deus’
Mãos verdejantes, que semeiam o sopro da vida.

Else Lasker-Schüler

Jerusalem

Gott baute aus Seinem Rückgrat: Palästina
aus einem einzigen Knochen: Jerusalem.

Ich wandele wie durch Mausoleen
Versteint ist unsere Heilige Stadt.
Es ruhen Steine in den Betten ihrer toten Seen
Statt Wasserseiden, die da spielten: kommen und vergehen.

Es starren Gründe hart den Wanderer an
Und er versinkt in ihre starren Nächte.
Ich habe Angst, die ich nicht überwältigen kann.

Wenn du doch kämest.....
Im lichten Alpenmantel eingehüllt
Und meines Tages Dämmerstunde nähmest
Mein Arm umrahmte dich, ein hilfreich Heiligenbild.

Wie einst wenn ich im Dunkel meines Herzens litt
Da deine Augen beide: blaue Wolken.
Sie nahmen mich aus meinem Trübsinn mit.

Wenn du doch kämest
In das Land der Ahnen
Du würdest wie ein Kindlein mich ermahnen:
Jerusalem erfahre Auferstehen!

Es grüssen uns
Des »Einzigen Gotts« lebendige Fahnen,
Grünende Hände, die des Lebens Odem säen.
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Poetas mulheres que pensaram o século XX [várias poetas, vários ensaios, vários ensaístas] — Apresentação e Organização de Regina Przybycien e Cleusa Gomes, 2008, Editora UFPR, Curitiba — PR; Elisabeth Lasker-Schüler ou Else Lasker-Schüler (1869 1945), alemã de Elberfeld, foi poeta, escritora e artista plástica; seus primeiros poemas foram publicados na revista Die Gesellschaft (A Sociedade), em 1899, dando início à sua participação no círculo literário de Berlim; foi uma das fundadoras da revista expressionista Der Sturm, em 1910; obras: Styx (poesias, 1902), Meine Wunder (poesias, 1911), Hebräische Balladen (Baladas Hebraicas, 1913), Mein Blaues Klavier (O meu piano azul, 1943) e outros títulos; Else Lasker-Schüler, que ilustrava seus próprios livros, considerada a grande musa da geração expressionista, teve como uma de suas paixões o poeta Gottfried Benn, a quem ela chamava de Giselheer, nos poemas; de 1894 a 1933 a poeta viveu em Berlim e, depois, com a ascensão do nazismo e de Hitler ao poder, exilou-se em Jerusalém; em 1932, Else Lasker-Schüler recebeu o Prêmio Kleist, prêmio literário alemão concedido pela última vez antes da tomada de poder pelos nacional-socialistas [nazistas].

sexta-feira, 13 de maio de 2022

Else Lasker-Schüler: Davi e Jônatas

 
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[tradução “quase textual” oferecida por Juliana P. Perez]

Na Bíblia estamos escritos
em cores envoltos.

Mas nossos jogos de menino
ainda vivem na estrela.

Eu sou Davi,
tu, meu parceiro de jogos.

oh, de vermelho coramos
nossos alvos corações de carneiro.

Como botões nos salmos de amor
sob um céu festivo.

Teus olhos de adeus no entanto
sempre calas no beijo de adeus.

E o teu coração
que será sem o meu

Tua doce noite
sem os meus cantos.

Else Lasker-Schüler

David und Jonathan

In der Bibel stehn wir geschrieben
Buntumschlungen.

Aber unsere Knabenspiele
Leben weiter im Stern.

Ich bin David,
Du mein Spielgefährte.

O, wir färbten
Unsere weißen Widderherzen rot.

Wie die Knospen an den Liebespsalmen
Unter Feiertagshimmel.

Deine Abschiedsaugen aber
Immer nimmst du still im Kusse Abschied.

Und was soll dein Herz
Noch ohne meines

Deine Süßnacht
Ohne meine Lieder.
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Poetas mulheres que pensaram o século XX [várias poetas, vários ensaios, vários ensaístas] — Apresentação e Organização de Regina Przybycien e Cleusa Gomes, 2008, Editora UFPR, Curitiba — PR; Elisabeth Lasker-Schüler ou Else Lasker-Schüler (1869 1945), alemã de Elberfeld, foi poeta, escritora e artista plástica; seus primeiros poemas foram publicados na revista Die Gesellschaft (A Sociedade), em 1899, dando início à sua participação no círculo literário de Berlim; foi uma das fundadoras da revista expressionista Der Sturm, em 1910; obras: Styx (poesias, 1902), Meine Wunder (poesias, 1911), Hebräische Balladen (Baladas Hebraicas, 1913), Mein Blaues Klavier (O meu piano azul, 1943) e outros títulos; Else Lasker-Schüler, que ilustrava seus próprios livros, considerada a grande musa da geração expressionista, teve como uma de suas paixões o poeta Gottfried Benn, a quem ela chamava de Giselheer, nos poemas; de 1894 a 1933 a poeta viveu em Berlim e, depois, com a ascensão do nazismo e de Hitler ao poder, exilou-se em Jerusalém; em 1932, Else Lasker-Schüler recebeu o Prêmio Kleist, prêmio literário alemão concedido pela última vez antes da tomada de poder pelos nacional-socialistas [nazistas].

sexta-feira, 6 de maio de 2022

Else Lasker-Schüler: Meu canto silencioso

 
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[tradução “quase textual” oferecida por Juliana P. Perez]

(à minha querida pintora Alice Trübner)

Meu coração é um tempo triste
Tic-tac sem tom.

Minha mãe tinha asas douradas
Que não encontraram mundo.

Ouvi, minha mãe me procura.
Lúcidos seus dedos, e seus pés, sonhos errantes

E doces suspiros, com ventos azuis,
Aquecem meu sono

Sempre nas noites
Cujos dias trazem a coroa de minha mãe.

E eu bebo da lua mudo vinho
Quando a noite vem só.

Minhas canções traziam os azuis do estio
E voltavam para casa sombrias.

Escarnecíeis meu lábio
E falais com ele

Mas eu busquei vossas mãos
Pois meu amor é uma criança e queria brincar.

E eu parecia convosco
Por sentir saudades do homem.

Tornei-me pobre
Com vossas boas obras mendicantes.

E o mar vai lamentá-lo
A Deus.

Eu sou o hieróglifo
Que está sob a criação.

E meu olho
É o ápice do tempo.

Seu brilho beija a orla de Deus.

Else Lasker-Schüler

Mein stilles Lied

(Meiner lieben Malerin Alice Trübner)

Mein Herz ist eine traurige Zeit,
Die tonlos tickt.

Meine Mutter hatte goldene Flügel,
Die keine Welt fanden.

Horcht, mich sucht meine Mutter,
Lichte sind ihre Finger und ihre Füße wandernde Träume

Und süße Wetter mit blauen Wehen
Wärmen meine Schlummer

Immer in den Nächten,
Deren Tage meiner Mutter Krone tragen.

Und ich trinke aus dem Monde stillen Wein,
Wenn die Nacht einsam kommt.

Meine Lieder trugen des Sommers Bläue
Und kehrten düster heim.

Ihr verhöhntet meine Lippe
Und redet mit ihr.

Doch ich griff nach euren Händen,
Denn meine Liebe ist ein Kind und wollte spielen.

Und ich artete mich nach euch,
Weil ich mich nach dem Menschen sehnte.

Arm bin ich geworden
An eurer bettelnden Wohltat.

Und das Meer wird es wehklagen
Gott.

Ich bin der Hieroglyph,
Der unter der Schöpfung steht.

Und mein Auge
Ist der Gipfel der Zeit;

Sein Leuchten küßt Gottes Saum.
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Poetas mulheres que pensaram o século XX [várias poetas, vários ensaios, vários ensaístas] — Apresentação e Organização de Regina Przybycien e Cleusa Gomes, 2008, Editora UFPR, Curitiba — PR; Elisabeth Lasker-Schüler ou Else Lasker-Schüler (1869 1945), alemã de Elberfeld, foi poeta, escritora e artista plástica; seus primeiros poemas foram publicados na revista Die Gesellschaft (A Sociedade), em 1899, dando início à sua participação no círculo literário de Berlim; foi uma das fundadoras da revista expressionista Der Sturm, em 1910; obras: Styx (poesias, 1902), Meine Wunder (poesias, 1911), Hebräische Balladen (Baladas Hebraicas, 1913), Mein Blaues Klavier (O meu piano azul, 1943) e outros títulos; Else Lasker-Schüler, que ilustrava seus próprios livros, considerada a grande musa da geração expressionista, teve como uma de suas paixões o poeta Gottfried Benn, a quem ela chamava de Giselheer, nos poemas; de 1894 a 1933 a poeta viveu em Berlim e, depois, com a ascensão do nazismo e de Hitler ao poder, exilou-se em Jerusalém; em 1932, Else Lasker-Schüler recebeu o Prêmio Kleist, prêmio literário alemão concedido pela última vez antes da tomada de poder pelos nacional-socialistas [nazistas].