Mostrando postagens com marcador Transporte de massa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Transporte de massa. Mostrar todas as postagens

sábado, 22 de janeiro de 2011

Salathiel Muniz: O foguista

____________________
Pobre foguista
quando trabalha
deitando fogo
nesta fornalha

Exposto às chuvas
às ventanias
só vê a fornalha
todos os dias

Imundo e sujo
como um carvão
tu tens no entanto
um coração

Enquanto sofres
nessa corrida
no trem de ferro
levas a vida

Pobre foguista
como padeces
sofrendo penas
que não mereces

Levas a vida
a tantas cidades
e tu não tens
felicidades

____________________
Ferroviários, trabalho e poder Maria de Fátima Salum Moreira, 2008, Editora UNESP, São Paulo SP; Salathiel Muniz foi foguista da extinta EFS Estrada de Ferro Sorocabana, ex-Fepasa, e teve seu poema publicado no jornal O Apito (16.12.1931, pág.2), conforme citação em Ferroviários, trabalho e poder (pág.164).

quarta-feira, 1 de julho de 2009

O transporte popular e de massa na Grande São Paulo

Meus senhores e senhoras
quero aqui me apresentar,
meu nome é P. da Silva
faço gosto em versejar
declamando em cordel
o transporte popular.

Nesta cidade expandida
de população carente,
se faz falta educação
e ter saúde é premente,
priorizar o transporte
também me parece urgente.

Aqui na grande São Paulo,
onde não falta problema,
com o povo na miséria,
de dilema em dilema,
a equação do transporte
é um recorrente tema.

Estado e prefeituras
têm que fazer aliança,
é o que pensa o cidadão,
velho, mulher ou criança,
se não houver solução
o povaréu é quem dança.

Trem, metrô e lotação
com horários azeitados,
frota de táxi e ônibus,
todos juntos, combinados,
é com vontade política
que ficamos acertados.

Mostro, como cidadão,
a quase desesperança,
no entanto cito os fatos
sem querer causar lambança,
e dou pitaco nos passos
dessa política dança.

Afirmo, está condenado
o transporte radial,
sempre fica estrangulado
junto a qualquer marginal,
e mais, na hora do rush,
mata o usuário a pau.

Morar na periferia
onde Judas sangra o pé,
a bota ele perdeu antes
pro leitor ver como é,
lá se vão quase duas horas
pra vir à praça da Sé.

A solução do transporte
tá pra lá de complicada,
é tirar leite de pedra
com a prefeitura quebrada,
mas com o esforço de todos
dá pra pegar a estrada.

A responsabilidade
não é só da prefeitura,
é bom estarmos atentos
e ter correta leitura,
lembremos que todos nós
fomos contra a ditadura.

Não dá pra tratar o assunto
só na esfera local,
somemos os municípios
e o governo estadual,
e mais repasse de verba
do governo federal.

E unidos estaremos
a questão priorizando,
sem as picuinhas políticas
como se fôssemos bando,
e veremos que aos poucos
a coisa vai avançando.

Aqui faço um comentário
na carreira do cordel,
não sei se estou no inferno
nem sei se existe céu,
mas vejo com otimismo
as obras do RodoAnel.

Quando o tema é transporte
rima certa é confusão,
os governantes caminham
da teoria à ação,
só que ainda está longe
de rimar com solução.

Propriamente no tema,
segundo o regulamento,
eu me concentro nos trens
dando asa ao sentimento,
e tento ser otimista,
este é o meu intento.

A Companhia Paulista
de Trens Metropolitanos
nasceu da fusão de outra,
num maio, há oito anos,
com a empresa Fepasa
pra agregar os trens urbanos.

Os trens transportam por dia
um milhão de passageiros,
criança, mulher ou homem,
viúvo, casado ou solteiro,
peões ou engravatados
com pouco ou algum dinheiro.

Viajar na hora do rush
é dose pro coração,
quem quer sair não consegue,
quem quer entrar também não,
e a viagem acaba virando
uma rotina do cão.

O trem vem quente e lotado
com tanta respiração,
nem o ar condicionado
dá conta da situação,
e o usuário estressado
fica cheio de razão.

Chega atrasado no estudo
e no serviço também,
o chefe já olha torto,
a desculpa é sempre o trem,
ameaça com o desemprego
e outro emprego não tem.

Tem gente que gasta horas
pra ir e voltar da escola,
de casa para o trabalho
a coisa também enrola,
o cidadão se aperreia
se zanga e se amola.

A integração que é feita
em uma ou outra estação,
a fim de seguir viagem
indo em outra direção,
pode ser cordelizada
com outra interpretação.

De tanto viajarem juntos,
usuários do dia a dia
agem com cumplicidade
e vai-se a melancolia,
pois mesmo sofrendo agruras
no trem se nota empatia.

Primeiro puxam assunto
e em geral falam do trem,
que não está cem por cento
mas que com certeza vem,
e que depois do embarque
a viagem segue bem.

O usuário vezeiro
acaba criando esquema,
inventa cada rotina
que é coisa de cinema,
aprende com malandragem
se vira com o problema.

Antes de entrar no trem,
se perto está o destino,
aguarda os outros subirem,
sem cometer desatino
vai ficando junto à porta
mostrando que é ladino.

A solidariedade
sempre presente se faz,
pois quando o trem apita
deixando gente pra trás,
um bom pé segura a porta
como a dizer: - Cabe mais!

Em algumas estações,
em caudalosa torrente
a multidão vai surgindo
pelos lados, pela frente,
e o poeta diz: - Meu Deus!
Aonde vai tanta gente?

É de extrema importância
e é fácil de se ver
que na luta por saúde,
por emprego e por saber,
é necessário incluir
o transporte pra valer.

Aos senhores governantes
deixo aqui o meu recado,
olhem bem pra Argentina,
por favor, tomem cuidado,
pra que depois não lamentem
que o aviso não foi dado.

Com as últimas estrofes
faço agradecimento,
apresento este cordel
com meu humor do momento,
e espero não ter ferido
itens do regulamento.

Portanto, caros leitores,
Desejo um bom julgamento.
Acreditem, este tema
Só é um experimento,
Ilustrando-me nas trovas
Libertei-me de um momento.
Viajando pela poesia
Alimentei-me a contento.
____________________
P. da Silva e Genésio dos Santos são a mesma pessoa; este cordel foi a minha primeira experiência  iniciada e concluída neste gênero ou estilo de escrita. O fiz num prazo recorde, algo em torno de 10 dias e concluindo-o em 11.02.2002. Foi inscrito no 1° Concurso Paulista de Literatura de Cordel  2002, patrocinado pela CPTM Companhia Paulista de Trens Metropolitanos, no Governo Alckmin, Estado de São Paulo. O tema era a própria CPTM. Não foi premiado pelos organizadores, porém eu mesmo o premiei por eu ter conseguido plenamente realizá-lo.