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sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Luiza Romão: Projétil de lei

 
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brasil
tu te tornas eternamente responsável
por aquilo que pões em cativeiro
da febem ao navio negreiro

sei que assusta
perder seus privilégios
somos o plano europeu que não deu certo

alerto:
reduzir a maioridade
não é questão de segurança
isso é genocídio de criança
extermínio de classe
do moleque roubar o passe
tirar a bola
é oferecer a prisão e não escola
tratar infância com escolta

então solta
larga o osso
agora não tem almoço
é fácil comer o pão
e o diabo ser o outro
mas vem do nosso rosto
o suor de todos os dias

brasil,
tu quer ser gigante?
então lembra do golias

o poder gestado pelas mãos da minoria
no país da escravidão
ainda é branca a democracia
é a bancada da bala
e seus projéteis de leis:
onde já se viu
tornar-se adulto aos dezesseis?

diga aí vocês:
o país seccionado
a fratura está exposta
nossa bandeira não é a mesma
nem durante a copa

alienistas alienados
querem o brasil-condomínio fechado
têm sangue nas mãos
e agora nos olhos
mergulham a bíblia em poça de ódio

sabe,
meritocracia é fácil
pra quem nasceu no pódio

por trás do discurso, investimentos:
células transformadas em cédulas
empresa de presos
desprezo
por qualquer matéria humana
é o capital privado financiando as campanha

o jogo é certeiro:
cercar a casa-grande
e colocar dois três porteiros
mas aê, cuidado
com quem você coloca em cativeiro.

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Pode Pá que é 10! — Antologia de Poesia e Prosa [diversas autorias], Organização: Mesquiteiros, Apresentação: ‘Literatura (é) possivel’, de Rodrigo Ciríaco, 2016, Realização: ProacSP, Mesquiteiros, Um por Todos Todos por Um, Biqueira Literária e Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo; Luiza Romão, nascida em 1992, paulista de Ribeirão Preto, formada em Artes Cênicas pela Universidade de São Paulo e pela Escola de Arte Dramática — EAD ECA-USP, e mestra em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com pesquisa sobre o SLAM no Brasil, é atriz, diretora de teatro, arte-educadora, poeta e slammer*; por seus traços biográficos, ficamos sabendo que a poeta “pesquisa as fricções entre a palavra e o cinema, dirigindo e atuando nos projetos Revide (2016) e Sangria (2017)”; suas obras: Koketel Motolove (2014), Sangria, edição bilíngue português-espanhol (2017), Também guardamos pedras aqui (poesia, 2021), Nadine (história de detetive narrada em versos, 2022); a poeta tem participação e é referência nos SLAMs da Guilhermina, apresentações poético-performáticas realizadas na ZL em sampa, junto à estação do metrô Guilhermina — Esperança; criou mais de quinze vídeopoemas, explorando a linguagem do spoken word; foi laureada com o Prêmio Jabuti de poesia, versão 2022, pela obra Também guardamos pedras aqui.

* Nota deste Verso e Conversa: algumas referências sobre SLAM — a) uma palavra inglesa que significa “batida”, to slam = bater, uma expressão cujo significado se assemelha ao som de uma “batida” de porta ou janela, “algo próximo do nosso ‘pá!’ em língua portuguesa”, é o que nos diz Cynthia Agra de Brito Neves, prefaciadora de Antifa — [10 poetas & 30 poemas]; b) nos anos oitenta do último século passado, consta que, surgido inicialmente em Chicago — EUA, virou sinônimo de poesia falada; c) a poetry-slam, assim conhecida, também chamada “batalha das letras”, é uma competição de poesia falada que traz questões da atualidade para debate; d) no Brasil, o movimento SLAM veio à tona em 2008; e) slammers: poetas do SLAM, participantes ativos do SLAM.

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Astrid Cabral: O dragão domado

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Tive em menina um dragão chinês
que se hospedava no vão das moitas
habitando a noite do meu jardim.
Das madrugadas às tardes viajava
pela antípoda penumbra de outro país
e ao regressar cansado espojava-se
sonolento na grama grávida de grilos
as patas enxotando os pirilampos
que fosforesciam estrelas verdes
por entre tranças de samambaias.
Drogava-se com o ópio das papoulas
e guloso engolia finas lagartixas.
Mariposas tontas carapanãs vadios.
Bebia choro de chuva e suor de sereno.
Urinava poças que viravam espelho.
De orgulho ou por descuido pisava
as unhas rosa esmalte dos junquilhos
e o coração de ouro das margaridas.
Humilhava sapos camaleões lagartos
insinuando que jamais cresceriam
até seu porte de ambulante montanha.
De sua tosse brotavam chispas e chamas
e fogueiras breves rubras se acendiam
iluminando o território do meu sonho.
Assim foi até que me pus a conquistá-lo
(tarefa em que se foram anos e enganos)
fiz-lhe então cócegas cafunés carinhos
sentei-o em meu balanço, dei de comer
do meu prato, dividi meu travesseiro
cobertor e quarto. Contei-lhe meu segredo.
Ele se fez todo doçura e manso obediente
se foi minguando enquanto eu crescia.
Até que se sumiu um belo dia.

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Poesia de Brasília (antologia: [várias autorias]), Organização de Joanyr de Oliveira e Apresentação [orelhas do livro] de Jason Tércio, 1998, Livraria Sette Letras Ltda., Rio de Janeiro — RJ; Astrid Cabral Félix de Sousa, nascida em 1936, amazonense e manaura, formou-se em Letras Neolatinas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro — UFRJ, em Literatura Inglesa e Norte-Americana pelo IBEU — Instituto Brasil-Estados Unidos, Rio de Janeiro, fez mestrado em Teoria Literária pela UNB, Brasília — DF e em Linguística Aplicada ao Ensino de Línguas Estrangeiras, foi/é poeta, contista, professora, pesquisadora, tradutora e diplomata; ainda adolescente mudou-se para o Rio e, depois, por força do ofício, residiu em Brasília, Chicago, Beirute, além de em Manaus; lecionou inglês, língua e literatura no nível médio e na UNB — Brasília, e, por concurso, ingressou no Itamaraty, tendo prestado serviços de chancelaria no Rio de Janeiro, em Brasília e nos escritórios de representação brasileira em Beirute e em Chicago; traduziu Resistance to Civil Government (A Desobediência civil) e Walden (Walden, ou a vida nos bosques) de H. D. Thoreau, ambos em 1984; escreveu e publicou Alameda (contos, 1963), Ponto de cruz (poesia, 1979), Toma-viagem (poesia, 1981), Zé Pirulito (1982), Lição de Alice (poesia, 1986), Visgo da terra (poesia, 1986), Rês desgarrada (poesia, 1994), De déu em déu (poesia — reunião de 5 livros, 1998), Intramuros (1998), Rasos d'água (2003), Palavra na berlinda (2011), Infância em franjas (2014) e outros títulos; desempenhou variados trabalhos fora e dentro da área cultural, tendo sido colaboradora em jornais e revistas especializadas; recebeu premiações: Prêmio José Décio Filho, da União Brasileira de Escritores de Goiás (1981, por Ponto de Cruz), Prêmio Olavo Bilac, da ABL — Academia Brasileira de Letras (1987, por Lição de Alice), Prêmio Nacional de Poesia Helena Kolody (1998, por Intramuros), Prêmio Nacional de Poesia, da ABL (2004, por Rasos d’água) e outros.

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

ana cristina cesar: conversa de senhoras

 
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Não preciso nem casar
Tiro dele tudo que preciso
Não saio mais daqui
Duvido muito
Esse assunto de mulher já terminou
O gato comeu e regalou-se
Ele dança que nem um realejo
Escritor não existe mais
Mas também não precisa virar deus
Tem alguém na casa
Você acha que ele aguenta?
Sr. ternura está batendo
Eu não estava nem aí
Conchavando: eu faço a tréplica
Armadilha: louca pra saber
Ela é esquisita
Também você mente demais
Ele está me patrulhando
Para quem você vendeu seu tempo?
Não sei dizer: fiquei com o gauche
Não tem a menor lógica
Mas e o trampo?
Ele está bonzinho
Acho que é mentira
Não começa

(A teus pés — 1982)

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ana cristina cesar — a teus pés [prosa & poesia], 1ª edição, 4ª reimpressão, 2016, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Ana Cristina Cruz Cesar (1952 — 1983), ou Ana C., carioca, formada em Letras pela PUCRJ — Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, com mestrado em comunicação pela UFRJ — Universidade Federal do Rio de Janeiro, foi escritora, tradutora, professora, crítica literária e poetisa; ainda criança, aos sete anos de idade, teve poemas publicados no jornal Tribuna da Imprensa, depois, antes de ingressar na Faculdade de Letras, como participante de um programa de intercâmbio estudou [em 1969] na Richmond School for Girls, em Londres; da Inglaterra, no retorno ao Brasil, “trouxe na bagagem livros de Emily Dickinson, Sylvia Plath e Katherine Mansfield, dedicou-se a escrever e a traduzir.”; a poeta também cursou Teoria Prática da Tradução Literária na Universidade de Essex, seu segundo mestrado [agora em 1980]; foi professora do ensino médio e em escolas de idiomas, escreveu para os periódicos Jornal do Brasil, Folha de São Paulo e foi analista de textos da TV Globo; obras publicadas: poesias: Cenas de abril (1979), Correspondência completa (1979), Luvas de pelica (produção artesanal, 1980), A Teus Pés (1982), Inéditos e Dispersos (1985), Novas Seletas (póstumo, organizado por Armando Freitas Filho), Poética (obra completa, 2013), crítica literária: Literatura não é documento (1980), Crítica e Tradução (1999); foi colaboradora do Jornal Opinião, um semanário da chamada imprensa alternativa que fazia oposição à ditadura militar iniciada em 1964; suicidou-se em 29 de outubro de 1983, atirando-se pela janela do apartamento dos pais, no sétimo andar de um edifício no bairro de Copacabana, Rio de Janeiro; é considerada um dos principais nomes da geração mimeógrafo — também conhecida como poesia marginal da década de 1970.

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Jules Laforgue: Caso Redibitório (Matrimônio)

 
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[traduzido por Nelson Ascher]

Minh’alma tem sete dons raros
e, em número maior que as obras-
primas, micróbios, aos milhares,
tornam-me campo de manobras.

Ora, o sufrágio universal!
Que chicaneia e clama insultos,
Cada instante, ao menor sinal,
Entre meus mil órgãos ocultos!…

Quisera viver com sucesso,
segundo um clássico programa,
associando-me, em congresso,
a alguma clássica madama.

Pode-se cogitar, na pauta,
em tirar exemplares, para
si, de si mesmo, quando falta,
porém, uma ideia, mais clara?…

(Revista Código nº 8, 1983, Salvador — BA)

Jules Laforgue

Cas rédhibitoire (Mariage)

Ah! mon âme a sept facultés!
Plus autant qui ‘il de chefs-d’oeuvre,
Plus mille microbes ratés
Qui m’ont pris pour champ de manoeuvre.

Oh! le suffrage universel
Qui se bouscule et se chicane,
À chaque instant, au moindre appel,
Dans mes mille occultes organes!…

J’aurais voulu vivre à grands traits,
Le long d’un classique programme
Et m’associant en un congrès
Avec quelque classique femme.

Mais peut-il être question
D’aller tirer des exemplaires
De son individu si on
N’en a pas une idée plus claire?…
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Litanias da lua: Jules Laforgue — Organização, Nota Introdutória, Notícia Biográfica e Tradução de Régis Bonvicino, edição bilíngue + Ensaios de Laforgue: Notas sobre Baudelaire (traduzido por Heloisa Braz de Oliveira Prieto e Régis Bonvicino), Um estudo sobre Corbière, Fragmento sobre Rimbaud e Fragmento sobre Mallarmé (os três, pela tradução de Heloisa B. O. Prieto) e Ensaios sobre Laforgue: Jules Laforgue, uma figura uruguaia (de Lisa Block de Bear, traduzido por Heloisa Prieto), Sob o Signo da Lua (de Nelson Ascher) e Anarquia, Verso Livre (de Régis Bonvicino), 1989, Iluminuras, São Paulo — SP; Julio Laforgue ou Jules Laforgue (1860 — 1887), nascido em Montevidéu — Uruguai, mas desde os seis anos de idade residindo na França, terra de seus pais, fez os estudos iniciais em Tarbes, no Lycée Théophile Gautier, concluindo-os em Paris no Lycée Fontanes (atual Lycée Condorcet), depois passou pela École des beaux-arts (Escola de Belas Artes) também em Paris, foi poeta, romancista, ensaísta, contista e tradutor; o poeta franco-uruguaio teve sua vida literária associada ao Decadentismo e ao Simbolismo francês; em 1879, produziu resenhas, críticas e desenhos legendados em sete edições da revista La Guêpe, em Toulouse, editada por ex-alunos de Tarbes, também contribuiu para a primeira edição da L’Enfer [revue], de curta duração; em 1880 publicou seus três primeiros poemas na revue La Vie moderne; em 1881 escreveu Stéphane Vassiliew, uma novela; consta de sua biografia ter escrito cerca de duas centenas de poemas, além de prosa criativa e prosa crítica, e que sua poética influenciou fortemente T. S. Eliot, Ezra Pound e Marcel Duchamp; traduziu Walt Whitman; Laforgue foi um dos primeiros poetas franceses a escrever em versos livres, sendo o primeiro a fazê-lo sistematicamente; suas obras: publicou em vida apenas quatro livros, Les Complaintes (1885), L’Imitation de Notre Dame de la Lune, Le Concile Féerique (ambos em 1886) e Moralités légendaires (1887); em Paris, teve artigos publicados no Le Figaro e na Revue Indépendante; postumamente, editaram-se os livros Derniers Vers (1890), Mélanges Posthumes (1903), Stéphane Vassiliew (novela escrita em 1881 e publicada em 1943) ...; a maior parte de sua obra só veio à luz após a morte do autor; na fase final de sua curta vida, desde 1881, Jules Laforgue exerceu ofício em Berlim, Alemanha — foi ledor/professor da Imperatriz Augusta [von Sachsen-Weimar-Eisenach], casada com Guilherme I, “lia, em francês, páginas de romances franceses e artigos de jornais como os da Revue des deux Mondes“; durante o período em Berlim, escreveu textos sobre a cidade e a corte imperial os quais foram publicados na Gazette des Beaux-Arts e na revista Lutèce, francesas; adoecido, o poeta deixou o cargo de professor em 1886; no Brasil, sua poética “fertilizou” Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade; morreu aos 27 anos, de tuberculose.

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Da Costa e Silva: Josafá

 
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A trombeta fatal os meus ouvidos chumba.
Sol Poente. Eu moribundo. Entra o cortejo roxo
Da Morte. O Padre meu irmão parece um mocho...
Rezas, Viático, a Cruz — passaportes da Tumba.

Choro da minha mãe — arrulhos de columba
Meus olhos a ninar... Fecho-os ao claror frouxo
Do círio bento e vejo, aos pulos, Satã Coxo,
Em roda do meu leito, à* espera que eu sucumba.

Deixa o corpo a alma e desce em espirais de tênia
Aos círculos do Inferno, à** maneira de um dobre
De sino, aos giros no ar... Dante faz-me uma nênia,

Voltaire, a assobiar, traça-me o necrológio
Verlaine, Mallarmé, Cruz e Sousa, Anto Nobre
Rezam juntos por mim num profano Eucológio.

(Sangue, pág. 77. — 1908)


Notas do Organizador Andrade Muricy:
  * Está sem acento;
** Idem.
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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 2 (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; Antônio Francisco Da Costa e Silva (1885 — 1950), piauiense de Amarante, licenciado em Direito pela Faculdade de Recife — PE, funcionário concursado do Ministério da Fazenda, exerceu funções públicas no governo federal e foi poeta assentado em dois períodos literários — o Simbolismo e o Parnasianismo; de sua biografia, consta que o próprio “dizia ter tido educação severa e ter começado a se interessar pela poesia ainda criança”, já aos 14 anos ensinou “as primeiras letras a alguns meninos da vizinhança”; infantolescente, também aprendeu e dedicou-se à escultura em madeira e à pintura; aos 16 anos [1901] teve seus primeiros poemas publicados na Revista do Grêmio Literário Amarantino; em Teresina, concluiu os “preparatórios” no Liceu Piauiense, em 1906 seguiu para Recife — PE, fez matrícula na Faculdade de Direito, cursou três anos, interrompeu os estudos por força de sua aprovação em concurso e, a convite do governo federal, iniciou no serviço público em Belo Horizonte, depois São Paulo, Rio de Janeiro, São Luis do Maranhão, Manaus e Porto Alegre; de volta a Recife, concluiu os estudos em Direito e se formou em 1913; teve seus textos — crônicas e crítica literária — publicados em jornais e revistas dos locais por onde andou, entre os quais o Correio da Manhã, O Malho, Ilustração Brasileira [do RJ], O Diário de Minas [MG], o Estado do Amazonas [AM], o suplemento do Diário de Notícias [foi co-diretor, RS] e outros; obras poéticas: Sangue ([coletânea de poemas escritos entre 1902-1908], 1908), Zodíaco (1917, premiado pela Academia Brasileira de Letras), Verhaeren ([poema/ensaio], 1917, publicado na revista Apollo), Pandora (1919), Verônica (1927), Antologia (seleção dos livros anteriores, 1934), Poesias Completas (coletânea póstuma e inéditos inacabados, 1950); o poeta, reconhecido como “Príncipe dos Poetas Piauienses [1928]”, também escreveu a letra do Hino do Piauí [1923] e foi o primeiro ocupante da Cadeira nº 21 da Academia Piauiense de Letras (1917); Da Costa e Silva, que “sempre fora franzino, frágil, nervoso”, desde o “início de 1932”, por causas emocionais e contingências havidas em seu cargo e no ambiente de trabalho, viu sua saúde se deteriorar, esteve “internado, em 1933, no Sanatório Botafogo [Rio de Janeiro]” e, sem esperanças médicas, passou seus últimos e longos 17 anos de vida com a “mente perturbada”.

domingo, 4 de outubro de 2026

Euclides da Cunha: Verso e reverso *

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Bem como o lótus que abre o seio perfumado
Ao doce olhar da estrela esquiva da amplidão
Assim também, um dia, a um doce olhar, domado,
               Abri meu coração.

Ah! foi um astro puro e vívido, e fulgente,
Que à noite de minh’alma em luz veio romper
Aquele olhar divino, aquele olhar ardente
               De uns olhos de mulher...

Escopro1 divinal — tecido por auroras —
Bem dentro do meu peito, esplêndido, tombou,
E nele, altas canções e inspirações sonoras
               Sublime burilou!

Foi ele que a minh’alma em noite atroz, cingida,
Ergueu do ideal, ao rútilo clarão.
Foi ele — aquele olhar que à lágrima dorida
               Deu-me um berço — a Canção!

Foi ele que ensinou-me as minhas dores frias
Em estrofes ardentes, altivo, transformar!
Foi ele que ensinou-me a ouvir as melodias
               Que brilham num olhar...

E são seus puros raios, seus raios róseos, santos,
Envoltos sempre e sempre em tão divina cor,
As cordas divinais da lira de meus prantos,
               D’harpa da minha dor!

Sim — ele é que me dá o desespero e a calma,
O ceticismo e a crença, a raiva, o mal e o bem,
Lançou-me muita luz no coração e na alma.
               Mas lágrimas também!

É ele que, febril, a espadanar2 fulgores,
Negreja na minh’alma, imenso, vil, fatal!
É quem me sangra o peito — e me mitiga as dores.
               É bálsamo e punhal.

17 de Novembro 18833


Notas:
da edição:
* Este poema, constante da Obra Completa (Cunha, Euclides da, Nova Aguilar, 2 v., Rio de Janeiro, 1966) não traz a data de composição;
1. Escopro: instrumento de aço, para cortar metal ou lavrar pedra, usado pelos escultores, cinzel;
2. Espadanar: deixar cair aos borbotões; lançar; jorrar.
do blogue Verso e Conversa:
3. Em pesquisa, no site https://euclidesite.com.br/obras-de-euclides-da-cunha/poesias/caderno-ondas/ consta a data 17 de Novembro 1983.
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Ondas: poesias + “Conferência: Castro Alves e seu Tempo” — Euclides da Cunha, Introdução de Adelino Brandão, Prefácio de Márcio José Lauria, e Textos Complementares de Abguar Bastos, Guilherme de Almeida e Francisco Venâncio Filho, acerca da poesia de E. Cunha, 2005, Editora Martin Claret, São Paulo — SP; Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha (1866 — 1909), nascido em Cantagalo — RJ, onde também iniciou sua vida escolar — Colégio Caldeira —, foi morar com os avós, em Salvador — BA, época em que estudou no Colégio Carneiro Ribeiro, de volta ao Rio de Janeiro, frequentou algumas outras escolas, entre as quais o Colégio Aquino, matriculou-se na Escola Politécnica, desistiu por razões financeiras, e ingressou na Escola Militar da Praia Vermelha, complementando depois seus estudos na Escola Superior de Guerra, foi escritor, sociólogo, ensaísta, repórter jornalístico, historiador, engenheiro militar e também poeta; seu grande feito literário foi ter escrito Os Sertões, publicado originalmente em 1902 e, de lá até os dias atuais, dezenas de vezes republicado e com inclusão de interpretações e análises de estudiosos consagrados; anteriormente, tal obra saíra em artigos reportagens do jornal O Estado de São Paulo, à época Província de São Paulo, para quem o autor trabalhava como colaborador e repórter, enviado que fora na cobertura da quarta expedição contra a Guerra de Canudos; o livro Os Sertões teve publicações nos idiomas alemão, chinês, francês, inglês, dinamarquês, espanhol, holandês, italiano e sueco; outras publicações do autor, a maioria póstumas: Contrastes e Confrontos (1907), Peru versus Bolívia (1907), À Margem da História (1909), Canudos — diário de uma expedição (1939), O Rio Purus (1960), Caderneta de Campo (1975), Um paraíso perdido (1976) entre outros títulos; em poesia, registre-se Caderno Ondas: 1883-1884; Postais: 1902-1906 e Esparsas: 1885-1909; o jornalista Euclides da Cunha, que em 1884 estreara publicando um artigo em O Democrata, jornal criado por ele e seus amigos, ainda estudante colaborou na Revista Acadêmica, depois, por várias ocasiões, colaborou com a então Província de São Paulo, hoje O Estado de São Paulo, e também na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, além de em outros periódicos; pertenceu à Academia Brasileira de Letras a ao Instituto Histórico Geográfico Brasileiro.

sábado, 3 de outubro de 2026

Goethe: Uma donzela diz *


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[traduzido por Eugênio de Castro]

Amor, lembras-me, ao ver-te carrancudo,
O teu busto de pedra arrefecida:
Como este, não me dás sinal de vida;
E mais do que ele estás fechado e mudo.

Oculta-se o inimigo atrás do escudo,
O amigo deve andar de fronte erguida,
Foges de mim, que após ti vou, dorida;
Pára! Não anda o mármore sisudo.

Ah! para qual dos dois voltar-me devo?
A frieza dos dois hei de agüentar,
De ti que és vivo e dele sem alento?

Basta de queixas vãs! Em doce enlevo
Tão longamente a pedra vou beijar,
Que dela enfim me arrancarás ciumento!

Goethe

Das Mädchen spricht

Du siehst so ernst, Geliebter! Deinem Bilde
Von Marmor hier möcht’ ich dich wohl vergleichen;
Wie dieses, gibst du mir kein Lebenszeichen;
Mit dir verglichen, zeigt der Stein sich milde.

Der Feind verbirgt sich hinter seinem Schilde,
Der Freund soll offen seine Stirn uns reichen.
Ich suche dich, du suchst mir zu entweichen;
Doch halte stand, wie dieses Kunstgebilde.

An wen von beiden soll ich nun mich wenden?
Sollt’ ich von beiden Kälte leiden müssen,
Da dieser tot und du lebendig heißest?

Kurz, um der Worte mehr nicht zu verschwenden,
So will ich diesen Stein so lange küssen,
Bis eifersüchtig du mich ihm entreißest.

[1808]

* Nota do Organizador Samuel Pfromm Netto: Uma donzela diz (Das Mädchen spricht). Goethe tinha perto de 60 anos quando fez esta poesia.
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Goethe: Poesias escolhidas [múltiplos tradutores], Organização, Apresentação, Musicografia goetheana e Notas sobre poesias incluídas de Samuel Pfromm Netto e Biografia — A Vida de Goethe e Cronologia de Emil Schostal, 2005, 2ª edição, Editora Átomo e Edições PNA, São Paulo — SP; Johann Wolfgang von Goethe (1749 — 1832), alemão de Frankfurt am Main (no antigo Sacro Império Romano-Germânico), teve na infância educação de múltiplas faces, formou-se em Direito, polímata, foi poeta, romancista, dramaturgo, diretor teatral, teórico de arte, filósofo, diplomata e funcionário do governo; Goethe realizou suas primeiras obras poéticas (canções e odes) ainda jovem; obras: Die Laune des Verliebten (1768), Götz von Berlinchingen (1771 e 1773), Prometheus (1774), Os Sofrimentos do Jovem Werther (Die Leiden des jungen Werther, 1774), Clavigo (drama, 1774), Urfaust (Fausto Zero, 1775), Egmont (1775), Ifigênia em Táurides (Iphigenie auf Tauris [prosa] 1779 e 1786 [versos]), Torquato Tasso (1789), Xenien (em conjunto com Friedrich Schiller, 1796), O Aprendiz de Feiticeiro (1797), Hermann e Dorothea (1798), Die natürliche Tochter (1801—1803), Fausto (parte I, 1806), Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (1807), Teoria das Cores (Farbenlehre, 1810), Aus meinem Leben Dichtung und Wahreit (De minha vida. Poesia e verdade, autobiografia, 1811—1833), Viagem à Itália (relatos autobiográficos, 1813—1817), West-östlicher Divan (Divã Ocidento-Oriental, 1819, e versão ampliada em 1827), Fausto (parte II, publicação póstuma, 1832) e muitas outras publicações em poesia, prosa e para dramaturgia; o poeta fez parte de dois movimentos literários importantes na Alemanha, o romantismo e o expressionismo, e influenciou a literatura em todo o mundo; Goethe teve muito de sua poesia musicada por centenas de compositores, entre os quais Beethoven, Franz Schubert, Anna Amalia, Hermann Behn, Hector Berlioz, Arrigo Boito, Johannes Brahms, Luigi Dallapicola, Robert Franz, François Gounod, Franz Liszt, Johann Carl Gottfried Lowe, Gustav Mahler, Mozart, Robert Schumann, Tchaikovsky, Giuseppe Verdi, Richard Wagner...

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

W. B. Yeats: Palavras

 
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[traduzido por Nelson Ascher]

Há pouco tempo me ocorreu:
“a amada é cega a quanto eu fiz,
quanto eu faria em meio ao breu
e fel deste país”.

E com o sol me desavim
até lembrar, sem véus na mente,
que meu melhor foi feito a fim
de expor-me claramente.

Dizia eu, ano a ano: “a amada
entende enfim quanto eu expresse,
pois meu vigor transborda e cada
palavra me obedece”.

Se fosse assimj, quem sabe, agora,
talvez num outro desenlace,
jogando as vis palavras fora,
viver já me bastasse.

W. B. Yeats

Words

I had this thought a while ago,
‘My darling cannot understand
What I have done, or what would do
In this blind bitter land.'

And I grew weary of the sun
Until my thoughts cleared up again.
Remembering that the best I have done
Was done to make it plain;

That every year I have cried, ‘At length
My darling understands it all,
Because I have come into my strength,
And words obey my call';

That had she done so who can say
What would have shaken from the sieve?
I might have thrown poor words away
And been content to live.
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Poesia Alheia: 124 poemas traduzidos, edição bilíngue [poetas diversos], Coleção Lazuli, Tradução, Prefácio e Notas biográficas por Nelson Ascher, e Apresentação [orelhas do livro] por Arthur Nestrovski, 1998, Imago Editora, Rio de Janeiro — RJ; William Butler Yeats ou W. B. Yeats (1865 — 1939), irlandês nascido em Dublin, recebeu educação em escolas irlandesas, foi poeta e dramaturgo, representante máximo do Renascimento Literário irlandês e um dos escritores mais destacados do século XX; Yeats circulou por diversos estilos e escolas literárias e foi co-fundador do Abbey Theatre; suas obras: Mosada: A Dramatic Poem (1886), The Wanderings of Olsin and Other Poems (1889), John Sherman and Dhoya, two stories (1891), Poems (1895), The Secret Rose — short stories (1897), The Wind Among the Reeds (O Vento entre os Juncos, 1899), Plays in Prose and Verse, Written for na Iris Theatre (1919), Discoveries — A Volume of Essays (1907), The Green Helmet and Other Poems (1910), Collected Works in Verse and Prose (8 volumes, 1918), Four Plays for Dancers (Quatro Peças para Dançarinos, 1921), The Cat at the Moon (1924), Later Poems (1924), October Blast — poetry (1927), The Winding Stair and Other Poems (1933), entre tantos outros textos em verso e prosa e para teatro; W. B. Yeats foi contemplado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1923.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Clarice Lispector: Os obedientes

 
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          Trata-se de uma situação simples, um fato a contar e esquecer.
          Mas se alguém comete a imprudência de parar um instante a mais do que deveria, um pé afunda dentro e fica-se comprometido. Desde esse instante em que também nós nos arriscamos, já não se trata mais de um fato a contar, começam a faltar as palavras que não o trairiam. A essa altura, afundados demais, o fato deixou de ser um fato para se tornar apenas a sua difusa repercussão. Que, se for retardada demais, vem um dia explodir como nesta tarde de domingo, quando há semanas não chove e quando, como hoje, a beleza ressecada persiste embora em beleza. Diante da qual assumo uma gravidade como diante de um túmulo. A essa altura, por onde anda o fato inicial? ele se tornou esta tarde. Sem saber como lidar com ela, hesito em ser agressiva ou recolher-me um pouco ferida. O fato inicial está suspenso na poeira ensolarada deste domingo — até que me chamam ao telefone e num salto vou lamber grata a mão de quem me ama e me liberta.
          Cronologicamente a situação era a seguinte: um homem e uma mulher estavam casados.
          Já em constatar este fato, meu pé afundou dentro. Fui obrigada a pensar em alguma coisa. Mesmo que eu nada mais dissesse, e encerrasse a história com esta constatação, já me teria comprometido com os meus mais desconhecíveis pensamentos. Já seria como se eu tivesse visto, risco negro sobre fundo branco, um homem e uma mulher. E nesse fundo branco meus olhos se fixariam já tendo bastante o que ver, pois toda palavra tem a sua sombra.
          Esse homem e essa mulher começaram — sem nenhum objetivo de ir longe demais, e não se sabe levados por que necessidade que pessoas têm — começaram a tentar viver mais intensamente. À procura do destino que nos precede? e ao qual o instinto quer nos levar? instinto?!
          A tentativa de viver mais intensamente levou-os, por sua vez, numa espécie de constante verificação de receita e despesa, a tentar pesar o que era e o que não era importante. Isso eles o faziam a modo deles: com falta de jeito e de experiência, com modéstia. Eles tateavam. Num vício por ambos descoberto tarde demais na vida, cada qual pelo seu lado tentava continuamente distinguir o que era do que não era essencial, isto é, eles nunca usariam a palavra essencial, que não pertencia a seu ambiente. Mas de nada adiantava o vago esforço quase constrangido que faziam: a trama lhes escapava diariamente. Só, por exemplo, olhando para o dia passado é que tinham a impressão de ter — de algum modo e por assim dizer à revelia deles, e por isso sem mérito — a impressão de ter vivido. Mas então era de noite, eles calçavam os chinelos e era de noite.
          Isso tudo não chegava a formar uma situação para o casal. Quer dizer, algo que cada um pudesse contar mesmo a si próprio na hora em que cada um se virava na cama para um lado e, por um segundo antes de dormir, ficava de olhos abertos. E pessoas precisam tanto poder contar a história delas mesmas. Eles não tinham o que contar. Com um suspiro de conforto, fechavam os olhos e dormiam agitados. E quando faziam o balanço de suas vidas, nem ao menos podiam nele incluir essa tentativa de viver mais intensamente, e descontá-la, como em imposto de renda. Balanço que pouco a pouco começavam a fazer com maior frequência, mesmo sem o equipamento técnico de uma terminologia adequada a pensamentos. Se se tratava de uma situação, não chegava a ser uma situação de que viver ostensivamente.
          Mas não era apenas assim que sucedia. Na verdade também estavam calmos porque "não conduzir", "não inventar", "não errar" lhes era, muito mais que um hábito, um ponto de honra assumido tacitamente. Eles nunca se lembrariam de desobedecer.
          Tinham a compenetração briosa que lhes viera da consciência nobre de serem duas pessoas entre milhões iguais. "Ser um igual" fora o papel que lhes coubera, e a tarefa a eles entregue. Os dois, condecorados, graves, correspondiam grata e civicamente à confiança que os iguais haviam depositado neles. Pertenciam a uma casta. O papel que cumpriam, com certa emoção e com dignidade, era o de pessoas anônimas, o de filhos de Deus, como num clube de pessoas.
          Talvez apenas devido à passagem insistente do tempo tudo isso começara, porém, a se tornar diário, diário, diário. Às vezes arfante. (Tanto o homem como a mulher já tinham iniciado a idade crítica.) Eles abriam as janelas e diziam que fazia muito calor. Sem que vivessem propriamente no tédio, era como se nunca lhes mandassem notícias. O tédio, aliás, fazia parte de uma vida de sentimentos honestos.
          Mas, enfim, como isso tudo não lhes era compreensível, e achava-se muitos e muitos pontos acima deles, e se fosse expresso em palavras eles não o reconheceriam — tudo isso, reunido e considerado já como passado, assemelhava-se à vida irremediável. À qual eles se submetiam com um silêncio de multidão e com o ar um pouco magoado que têm os homens de boa vontade. Assemelhava-se à vida irremediável para a qual Deus nos quis.
          Vida irremediável, mas não concreta. Na verdade era uma vida de sonho. Às vezes, quando falavam de alguém excêntrico, diziam com a benevolência que uma classe tem por outra: "Ah, esse leva uma vida de poeta." Pode-se talvez dizer, aproveitando as poucas palavras que se conheceram do casal, pode-se dizer que ambos levavam, menos a extravagância, uma vida de mau poeta: vida de sonho.
          Não, não é verdade. Não era uma vida de sonho, pois este jamais os orientara. Mas de irrealidade. Embora houvesse momentos em que de repente, por um motivo ou por outro, eles afundassem na realidade. E então lhes parecia ter tocado num fundo de onde ninguém pode passar.
          Como, por exemplo, quando o marido voltava para casa mais cedo do que de hábito e a esposa ainda não havia regressado de alguma compra ou visita. Para o marido interrompia-se então uma corrente. Ele se sentava cuidadoso para ler o jornal, dentro de um silêncio tão calado que mesmo uma pessoa morta ao lado quebraria. Ele fingindo com severa honestidade uma atenção minuciosa ao jornal, os ouvidos atentos. Nesse momento é que o marido tocava no fundo com pés surpreendidos. Não poderia permanecer muito tempo assim, sem risco de afogar-se, pois tocar no fundo também significa ter a água acima da cabeça. Eram assim os seus momentos concretos. O que fazia com que ele, lógico e sensato, se safasse depressa. Safava-se depressa, embora curiosamente a contragosto, pois a ausência da esposa era uma tal promessa de prazer perigoso que ele experimentava o que seria a desobediência. Safava-se a contragosto mas sem discutir, obedecendo ao que dele esperavam. Não era um desertor que traísse a confiança dos outros. Além do mais, se esta é que era a realidade, não havia como viver nela ou dela.
          A esposa, esta tocava na realidade com mais frequência, pois tinha mais lazer e menos ao que chamar de fatos, assim como colegas de trabalho, ônibus cheio, palavras administrativas. Sentava-se para emendar roupa, e pouco a pouco vinha vindo a realidade. Era intolerável enquanto durava a sensação de estar sentada a emendar roupa. O modo súbito do ponto cair no i, essa maneira de caber inteiramente no que existia e de tudo ficar tão nitidamente aquilo mesmo — era intolerável. Mas, quando passava, era como se a esposa tivesse bebido de um futuro possível. Aos poucos o futuro dessa mulher passou a se tornar algo que ela trazia para o presente, alguma coisa meditativa e secreta.
          Era surpreendente como os dois não eram tocados, por exemplo, pela política, pela mudança de governo, pela evolução de um modo geral, embora também falassem às vezes a respeito, como todo o mundo. Na verdade eram pessoa s tão reservadas que se surpreenderiam, lisonjeadas, se alguma vez lhes dissessem que eram reservadas. Nunca lhes ocorreria que se chamava assim. Talvez entendessem mais se lhes dissessem: "vocês simbolizam a nossa reserva militar". Deles alguns conhecidos disseram, depois que tudo sucedeu: eram boa gente. E nada mais havia a dizer, pois que o eram.
          Nada mais havia a dizer. Faltava-lhes o peso de um erro grave, que tantas vezes é o que abre por acaso uma porta. Alguma vez eles tinham levado muito a sério alguma coisa. Eles eram obedientes.
          Também não apenas por submissão: como num soneto, era obediência por amor à simetria. A simetria lhes era a arte possível.
          Como foi que cada um deles chegou à conclusão de que, sozinho, sem o outro, viveria mais — seria caminho longo para se reconstruir, e de inútil trabalho, pois de vários cantos muitos já chegaram ao mesmo ponto.
          A esposa, sob a fantasia contínua, não só chegou temerariamente a essa conclusão como esta transformou sua vida em mais alargada e perplexa, em mais rica, e até supersticiosa. Cada coisa parecia o sinal de outra coisa, tudo era simbólico, e mesmo um pouco espírita dentro do que o catolicismo permitiria. Não só ela passou temerariamente a isso como — provocada exclusivamente pelo fato de ser mulher — passou a pensar que um outro homem a salvaria. O que não chegava a ser um absurdo. Ela sabia que não era. Ter meia razão a confundia, mergulhava-a em meditação.
          O marido, influenciado pelo ambiente de masculinidade aflita em que vivia, e pela sua própria, que era tímida mas efetiva, começou a pensar que muitas aventuras amorosas seriam a vida.
          Sonhadores, eles passaram a sofrer sonhadores, era heroico suportar. Calados quanto ao entrevisto por cada um, discordando quanto à hora mais conveniente de jantar, um servindo de sacrifício para o outro, amor é sacrifício.
          Assim chegamos ao dia em que, há muito tragada pelo sonho, a mulher, tendo dado uma mordida numa maçã, sentiu quebrar-se um dente da frente. Com a maçã ainda na mão e olhando-se perto demais no espelho do banheiro — e deste modo perdendo de todo a perspectiva — viu uma cara pálida, de meia-idade, com um dente quebrado, e os próprios olhos... Tocando o fundo, e com a água já pelo pescoço, com cinquenta e tantos anos, sem um bilhete, em vez de ir ao dentista, jogou-se pela janela do apartamento, pessoa pela qual tanta gratidão se poderia sentir, reserva militar e sustentáculo de nossa desobediência.
          Quanto a ele, uma vez seco o leito do rio e sem nenhuma água que o afogasse, ele andava sobre o fundo sem olhar para o chão, expedito como se usasse bengala. Seco inesperadamente o leito do rio, andava perplexo e sem perigo sobre o fundo com uma lepidez de quem vai cair de bruços mais adiante.

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A Legião Estrangeira [contos]: Clarice Lispector + Suplemento de Trabalho [destinado a estudantes], Prefácio: Texto de Affonso Romano de Sant’Anna e Capa e Ilustrações de Elifas Andreatto, 5ª edição, 1985, Editora Ática, São Paulo — SP; Clarice Lispector (1920 — 1977) ou Chaya Pinkhasivna Lispector, nascida em Tchetchélnik — Ucrânia (então Rússia) e naturalizada brasileira, chegou ao Brasil ainda criança de colo, vinda com os pais e irmãs, desembarcou em Maceió — AL, ali residiu por um tempo, logo rumou para Recife — PE, cursou o primário no Grupo Escolar João Barbalho e no Colégio Hebreu-Ídiche-Brasileiro, estudou no Ginásio Pernambucano e, depois, já no Rio de Janeiro, completou o ginasial no Colégio Sílvio Leite, formou-se advogada pela Faculdade de Direito na Universidade do Brasil, foi romancista, contista, cronista, jornalista, redatora e tradutora; Clarice deu aulas particulares de português e matemática, aprendeu datilografia, frequentou a Cultura Inglesa; em 1940, teve seu primeiro conto, O Triunfo, publicado na imprensa, Revista Pan; naquele ano também iniciou-se no ofício de jornalista: primeiro na Agência Nacional (órgão do DIP — Departamento de Imprensa e Propaganda do governo Getúlio Vargas), depois no jornal A Noite; escreveu artigos e outros textos, publicou contos na revista Vamos Ler!, no Diário do Povo (Campinas — SP), no semanário Dom Casmurro, na revista Época; conheceu escritores e jornalistas; em 1943 casou-se com o diplomata Maury Gurgel Valente (com quem teve dois filhos) e, por força das atividades consulares do marido, mudou-se para Belém — PA, depois Nápoles — Itália, Berna — Suiça, Torquay — Inglaterra, Chevy Chase — EUA (próximo a Washington DC); conheceu cidades e regiões europeias e nos Estados Unidos; em 1959 se separou do marido embaixador, retornou ao Rio de Janeiro e ali, com os dois filhos, fixou residência; após volta ao Rio, escritora já reconhecida, Clarice trabalhou nos periódicos Correio da Manhã, Diário da Noite, revista Senhor, Manchete, Jornal do Brasil; em seus textos literários fez valer recursos técnicos modernos: a análise psicológica, o monólogo interior, etc.; suas obras: Perto do Coração Selvagem (romance, obra de estréia, 1943), O Lustre (romance, 1946), Alguns Contos (1952), Laços de Família (contos, 1960), A Maçã no Escuro (romance, 1961), A Paixão Segundo G. H. (romance, 1964), A Legião Estrangeira (contos e crônicas, 1964), O Mistério do Coelho Pensante: uma história policial para crianças (infantil, 1967), A Mulher que Matou os Peixes (infantil, 1968), Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres (romance, 1969), Água Viva (ficção, 1973), A Vida Íntima de Laura (infantil, 1974), A Hora da Estrela (novela, 1977), e outros títulos, entre edições e reedições; recebeu premiações; teve obra que virou filme (A Hora da Estrela) e encenações teatrais (Um Sopro de Vida e La passion selon G. H.).