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terça-feira, 26 de maio de 2026

Maranhão Sobrinho: Poetas Malditos

 
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Quando, pelo clamor dos meus pecados, tive
de, à Treva Inferior, descer, à voz do Eterno,
ralando-me do Mal no aspérrimo declive,
como um deus rebelado e tonto de falerno,
sobre os antros mais nus, como Alighieri, estive
suspenso, a contemplar o delírio eviterno
das pompas sensuais de Gomorra e Nínive,
situadas ao pé do Stramboli do Inferno...

Gritos e imprecações, que as chamas retalhavam,
como gládios de bronze, em bárbaras campanhas,
de entre as lavas de sangue e sulfo se elevavam,
enquanto, aos olhos meus, nos infernais retiros,
o fogo, devorando o ventre das montanhas,
dava uns tons de gangrena às asas dos vampiros...

Com as unhas lacerando a púrpura sangrenta,
que, dos ombros de auroque, em pregas, lhe caía,
vi Nero, inda exibindo a mesma fronte odienta
que, no incêndio de Roma, às chamas exibia...

Raivava como um cão, mostrando a saburrenta
língua e, a espaços, também, às escâncaras, ria
epiléptico, ao ver as almas em tormenta
atravessando o horror da satânica orgia
de fogo, no solar do Príncipe Demônio,
para, empós, como os cães corridos, lazarentos,
encolher-se, entrevendo o vulto do Petrônio,
que, arrepanhando a toga e erguendo a ebúrnea fronte,
ia e vinha, a cantar, nos antros* pestilentos
do Inferno, uma canção de amor de Anacreonte...

Entre uma legião de cetro e tonsuras,
Voltaire, viu-me e sorriu, com um sorriso endiabrado
de caveira, a expelir das órbitas escuras
ironias, de um tom de bronze avermelhado...

Blasfemava, estalando as hirtas ossaturas
do esqueleto e mostrando o braço descarnado,
num gesto de rebelde às lívidas alturas
e a enterrar-se ainda mais no Inferno, brado a brado...

Erguia, empós, o olhar da treva aos coruchéus
e escarrava, dizendo, em nojo, que o fazia
no orgulho de Lusbel, sobre a fronte de Deus!
E, quando assim falavam os seus lábios, à míngua
de fé, de gota em gota, assombrado, eu via
como um visgo de fogo a escorrer-lhe da língua...

Também lá te encontrei, Tristan Corbière, nas grutas
do Demônio, cantando umas canções remotas
como o oceano, que morde as praias de oiro, enxutas,
no virente esplendor das vivas bergamotas...

Tremia-te entre as mãos, em púrpuras volutas
de sons, a Harpa do Mal, fazendo sob as cotas
dos hoplitas do Inferno, o amor ao sangue e às lutas
triunfar transluminoso, em túmidos Eurotas...
Os seus olhos cruéis, em flamas de palhetas
de oiro jalde, varando as vastidões aflitas
silenciavam do fogo as púrpuras trombetas
de bronze, que, a planger, nas místicas oblatas
sangrentas do Demônio, em helicinas malditas,
acordavam do Inferno as furnas escarlatas...

Desbordes e Mallarmé oscularam-me a fronte
e passaram, por uma azul chama impelidos;
chamei-os e o rumor das lavas do Aqueronte
triste abafou-me a voz, cerceando-me os sentidos...
Quando acordei-me vi perto da negra fonte,
entre um vivo clamor de pragas e gemidos,
diante do inquieto olhar de um cérebro bifronte
com os olhos como dois santelmos acendidos...

Vi, momentos depois, em palidez exangue,
Rimbaud e Villiers de L’Isle-Adam, chorando,
e o seu pranto infernal era de lodo e sangue...
E, quando recuei de agro pavor, Lelian**
surgiu-me e, empós, se foi pelas trevas clamando:
Satã! Satã! Satã! Satã! Satã! Satã!

(Papéis Velhos ...roídos pela Traça do Simbolo,
págs. 169-176  1908)


Notas do Organizador Andrade Muricy:
  * Está: “outros”;
** Está “Lilian”. A alusão é a Verlaine.
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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 2 (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; José Olimpio Cavalcanti dos Albuquerques Maranhão Sobrinho (1879 1915), maranhense de Barra do Corda, “frequentador irregular dos primeiros estudos no colégio do Dr. Isaac Martins, educador”, matriculou-se na Escola Normal de São Luís, se indispôs com professores, abandonou o curso, “aos poucos entregou-se à vida boêmia”, foi escritor, jornalista, funcionário público e poeta simbolista; em 1900, foi um dos fundadores da Oficina dos Novos [instituição precursora da AML Academia Maranhense de Letras, agregava literatos], “boêmio notório, de vida desregrada”, “escrevia seus versos em bares, mesas de botequim ou qualquer ambiente em que predominasse álcool, papel e tinta”, andejou de São Luís MA a Belém PA e Manaus AM; em Belém, trabalhou no jornal Notícias, colaborou na também paraense Folha do Norte e em outros periódicos de São Luís e mais estados, entre os quais a maranhense Revista do Norte; suas obras: Papéis Velhos... Roídos pela Traça do Símbolo (1908), Estatuetas (1909) e Vitórias-Régias (1911), além de inúmeros poemas esparsos publicados em revistas e periódicos da época, nos três estados amazônicos; após idas e vindas, de retorno a Manaus, fixou-se e se tornou funcionário público estadual; Maranhão Sobrinho foi um dos fundadores da Academia Maranhense de Letras (1908) e Patrono da Cadeira nº 7 da Academia Amazonense de Letras ([antes Associação Literária, 1906, depois, Núcleo Amazonense de Letras], 1918); o poeta, e outros intelectuais maranhenses, “no ambiente das letras, tiveram inspirações nas obras dos escritores de destaque do continente europeu, entre estes Paul Verlaine, Rimbaud, Stéphane Mallarmé e Charles Baudelaire”; Maranhão Sobrinho, tido como poeta de transição, experienciou um Romantismo [tardio], transitou pelo Parnasianismo e abraçou o Simbolismo “ortodoxo”; faleceu jovem, aos 36 anos, “de cirrose”.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Emiliano Perneta: Vencidos

 
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Nós ficaremos, como os menestréis da rua,
Uns infames reais, mendigos por incúria,
Agoureiros da Treva, adivinhos da Lua,
Desferindo ao luar cantigas de penúria?

Nossa cantiga irá conduzir-nos à tua
Maldição, ó Roland?… E, mortos pela injúria,
Mortos, bem mortos, e mudos, a fronte nua,
Dormiremos ouvindo uma estranha lamúria?

Seja. Os grandes um dia hão de cair de bruço…
Hão de os grandes rolar dos palácios infectos!
E gloria à fome dos vermes concupiscentes!

Embora, nós também, nós, num rouco soluço,
Corda a corda, o violão dos nervos inquietos
Partamos! inquietando as estrelas dormentes!

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Os Sonetos — Antologia: diversas autorias, Coordenação Gráfica de Rogério Ramos e Capa e Ilustrações de Percy Deane, 1982, Edição especial para o Banco Lar Brasileiro S. A., L. R. Editores Ltda., São Paulo — SP; Emiliano David Perneta (1866 1921), paranaense nascido “em um sítio” na região de Pinhais, à época zona rural de Curitiba [hoje município de Pinhais PR], formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (USP, Largo São Francisco), foi poeta, professor de português, jornalista e advogado; teve seus poemas divulgados em revistas e jornais da época, estreando em 1883 com publicação no periódico curitibano O Dilúculo; em 1887, já em São Paulo, fundou A Vida Semanária, da qual foi redator, depois foi coproprietário de A Quinzena Paulista: letras e artes (hoje, periódicos considerados raros, encontrados na Biblioteca Nacional) e, na companhia de outros intelectuais fundou a Folha Literária; em 1888 publicou seu primeiro livro, Músicas; após formar-se trabalhou como jornalista nos periódicos Cidade do Rio e Novidades, ambos no Rio de Janeiro, por um breve período exerceu o ofício de promotor de justiça em Minas Gerais, depois, de retorno a Curitiba, passou a lecionar, trabalhou como auditor do Exército, fundou a revista literária Victrix; integrando-se nos círculos boêmios da capital do estado, difundiu a leitura de autores franceses, Baudelaire entre os quais, e com isso impulsionou o movimento simbolista, ele próprio sendo considerado e reconhecido como “o maior expoente do simbolismo no Paraná”; suas obras: Músicas (1888), Carta à Condessa d’Eu (1889), O Inimigo (prosa dramática, 1889), Alegoria (prosa dramática, 1903), Ilusão (poemas, 1911), Pena de Talião (poema dramático, 1914), Setembro (póstumo, poemas, 1934); produziu libretos operísticos: Papilio Innocentia (ópera, baseada no romance Inocência, de Visconde de Taunay (1911) e A Vovozinha (ópera infantil, 1914); como jornalista, o poeta também colaborou no Diário Popular, na Gazeta de São Paulo e em mais periódicos; Emiliano Perneta foi um dos fundadores do Centro de Letras do Paraná (“núcleo da atual Academia Paranaense de Letras”), do qual tornou-se presidente de 1913 a 1918.

domingo, 24 de maio de 2026

Musset: Claustros silenciosos, abóbodas monásticas, . . . [excerto de Rolla, IV]

 

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[traduzido por Gomes Júnior]

Claustros silenciosos, abóbodas monásticas,
Só vós, túmulos frios, só vós sabeis amar!
São vossas naves frias, vossas lousas fantásticas,
Que nunca lábio em fogo beijou sem desmaiar!

Oh! vinde, vinde abrir vossas entranhas frias
Á estes entes lindos, que invejam vossa sorte,
Sobre um macio leito, cercado de magias,
Que é bom unicamente para o sono ou para a morte!

Tocar, por piedade, nos vossos sacrifícios,
Seos corações mimosos, que morrem de langor,
E nas sangrentas dores de bárbaros cilícios
Mostrai-lhes o mistério do vosso puro amor.

Banhai-lhes, pois, as frontes nas águas batismais,
Dizei-lhes quantos anos, com que constância, a sós,
Devem ajoelhar-se nas pedras sepulcrais
Antes de suspeitarem que amàm como vós!

Alfred de Musset

Cloîtres silencieux, voûtes des monastères, . . .
[Rolla IV, fragment]

[ . . . ]

Cloîtres silencieux, voûtes des monastères,
C’est vous, sombres caveaux, vous qui savez aimer!
Ce sont vos froides nefs, vos pavés et vos pierres,
Que jamais lèvre en feu n’a baisés sans pâmer.
Oh! venez donc rouvrir vos profondes entrailles
À ces deux enfants-là qui cherchent le plaisir
Sur un lit qui n’est bon qu’à dormir ou mourir;
Frappez-leur donc le cœur sur vos saintes murailles,
Que la haire sanglante y fasse entrer ses clous.
Trempez-leur donc le front dans les eaux baptismales,
Dites-leur donc un peu ce qu’avec leurs genoux
Il leur faudrait user de pierres sépulcrales
Avant de soupçonner qu’on aime comme vous!

[ . . . ]

(Rolla: I, II, III, IV and V — 1833)
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Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França [111 autorias e vários tradutores], Organização, Seleção e Prefácio por R. Magalhães Jr., e Texto à Guisa de Introdução por Michel Simon, Clássicos de bolso Ediouro nº 12126, sem data, [1985?], Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Alfred Louis Charles de Musset (1810 1857), francês e parisiense, antes de completar 9 anos de idade foi matriculado no Lycée Henri IV, concluiu o ensino médio, depois aventurou-se nos estudos de medicina, direito, pintura, música, logo os abandonou, e passou a se dedicar com determinação e interesse à literatura, foi poeta, novelista, romancista, crítico e dramaturgo, e tido como "l'enfant terrible" do período romantista em Paris; “desde os 14 anos já fazia seus versos": A ma mére (1824), À Mademoiselle Zoé le Douairin (1826), Un rêve et L’anglais mangeur d’opium (1828)...; escreveu e publicou Premières poésies (1829), Une nuit vénitienne (teatro, 1830), Contes d'Espagne et d'Itale (coletânea de poemas, Contos da Espanha e da Itália, 1830), Secrètes pensées de Raphael (Pensamentos secretos de Raphael, 1830), Voeux stériles (Voos estéreis, 1830), Namouna (poema narrativo, 1831), La coupe et les lèvres (teatro, 1832), Rolla: I, II, III, IV and V (longo poema narrativo, 1833), On ne badine pas avec l'amour (Com o amor não se brinca, teatro comédia, 1834), Lorenzaccio (drama romântico, 1834), Fantasio (teatro comédia, 1834), Le Chandelier (comédia em três atos, 1835), La confession d'un enfant du siècle (A confissão de um filho do século, novela autobiográfica, 1836), Les Nuits: La Nuit de Mai [1835], La Nuit de Décembre [1835], La Nuit d'Août [1836], La Nuit d'Octobre [1837], La Nuit d’Avril [1838] (ciclo As Noites, 1835-1838), Lettres du Dupuis et Cotonet (crítica, Cartas de Dupuis e Cotonet, 1837), Souvenir (Recordação, 1841), Il faut qu'une porte soit ouverte ou fermé (É preciso que uma porta esteja aberta ou fechada, comédia, 1845), Carmosine (comédia em Um Ato, 1850), Bettine (comédia, 1851) e outros textos em verso e prosa e para teatro; teve poemas musicados por Hector Berlioz [poème Le Lever, 1839], Charles Gounod [avec piano, Venise, 1849], Édouard Lalo [trois mélodies: À une fleur, Chanson de Barberine et La Zuecca, 1870], Claude Debussy [Madrid, 1879], [Rondeau, 1881] e [Chanson espagnole, 1883] etc.; pertenceu à Académie Française; o poeta, desde 1824, foi um dos frequentadores do “Cénacle”, salão literário de Charles Nodier bibliotecário da Bibliotéque de l’Arsenal, e tendo como companhia Victor Hugo e outros; passou a viver como um “dândi devasso”, teve várias amantes, uma das quais a escritora George Sand [pseudônimo de Amantine Aurore Lucile Dupin, baronesa de Dudevant]; em 1845, Musset foi condecorado com a Legião de Honra em reconhecimento à sua influência na literatura francesa; com a “saúde frágil, mas sobretudo atormentado pelo alcoolismo, pela ociosidade e pela devassidão, morreu de tuberculose em 2 de maio de 1857”, aos 46 anos.

sábado, 23 de maio de 2026

Goethe: Amável

 
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[traduzido por Daniel Martineschen]

Onde a cor que me apega
firmamento com a altura?
Bruma matutina cega
no meu olho a vista pura.

São as tendas do vizir
que ele fez a suas queridas?
São tapetes desta festa
porque se uniu à preferida?

Rubro e branco, misturados,
nada vi tão belo assim;
pode o teu Xiraz, Hafez,
vir ao norte triste, enfim?

Sim, é o colorido ópio
que se estende à vizinhança,
e causando em Marte opróbrio,
cobre os campos com pujança.

Que o sabão ainda cultive
flores lindas de uma renda,
e como hoje, o sol se altive
e as clareie em minha senda!

(Divã Ocidento-Oriental —
Livro do Cantor)

Goethe

Liebliches

Was doch Buntes dort verbindet
Mir den Himmel mit der Höhe?
Morgennebelung verblindet
Mir des Blickes scharfe Sehe.

Sind es Zelte des Wesires,
Die er lieben Frauen baute?
Sind es Teppiche des Festes,
Weil er sich der Liebsten traute?

Rot und weiß, gemischt, gesprenkelt,
Wüßt ich Schönres nicht zu schauen;
Doch wie Hafis kommt dein Schiras
Auf des Nordens trübe Gauen?

Ja, es sind die bunten Mohne,
Die sich nachbarlich erstrecken
Und, dem Kriegesgott zum Hohne,
Felder streifweis freundlich decken.

Möge stets so der Gescheute
Nutzend Blumenzierde pflegen
Und ein Sonnenschein, wie heute,
Klären sie auf meinen Wegen!

(West-östlicher Divan
Moganni Nameh: Buch des Sängers)
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Goethe: Divã Ocidento-Oriental, bilíngue [+ Notas e Ensaios para melhor compreensão do Divã Ocidento-Oriental], Tradução e Posfácio de Daniel Martineschen e Apresentação de Marcus Mazzari, 1ª edição, 2020, Estação Liberdade, São Paulo — SP; Johann Wolfgang von Goethe (1749 1832), alemão de Frankfurt am Main (no antigo Sacro Império Romano-Germânico), teve na infância educação de múltiplas faces, formou-se em Direito, polímata, foi poeta, romancista, dramaturgo, diretor teatral, teórico de arte, filósofo, diplomata e funcionário do governo; Goethe realizou suas primeiras obras poéticas (canções e odes) ainda jovem; obras: Die Laune des Verliebten (1768), Götz von Berlinchingen (1771 e 1773), Prometheus (1774), Os Sofrimentos do Jovem Werther (Die Leiden des jungen Werther, 1774), Clavigo (drama, 1774), Urfaust (Fausto Zero, 1775), Egmont (1775), Ifigênia em Táurides (Iphigenie auf Tauris [prosa] 1779 e 1786 [versos]), Torquato Tasso (1789), Xenien (em conjunto com Friedrich Schiller, 1796), O Aprendiz de Feiticeiro (1797), Hermann e Dorothea (1798), Die natürliche Tochter (18011803), Fausto (parte I, 1806), Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (1807), Teoria das Cores (Farbenlehre, 1810), Aus meinem Leben Dichtung und Wahreit (De minha vida. Poesia e verdade, autobiografia, 18111833), Viagem à Itália (relatos autobiográficos, 18131817), West-östlicher Divan (Divã Ocidento-Oriental, 1819, e versão ampliada em 1827), Fausto (parte II, publicação póstuma, 1832) e muitas outras publicações em poesia, prosa e para dramaturgia; o poeta fez parte de dois movimentos literários importantes na Alemanha, o romantismo e o expressionismo, e influenciou a literatura em todo o mundo; Goethe teve muito de sua poesia musicada por centenas de compositores, entre os quais Beethoven, Franz Schubert, Anna Amalia, Hermann Behn, Hector Berlioz, Arrigo Boito, Johannes Brahms, Luigi Dallapicola, Robert Franz, François Gounod, Franz Liszt, Johann Carl Gottfried Lowe, Gustav Mahler, Mozart, Robert Schumann, Tchaikovsky, Giuseppe Verdi, Richard Wagner...

Goethe: Quietude no Oceano

 
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[traduzido por Ary de Mesquita]

Um silêncio desceu, profundo, sobre as águas,
E sem arfar sequer repousa o velho mar;
Entanto o pescador, a ruminar as mágoas,
Volve lasso, em redor, os olhos devagar.
Não há nenhum rumor por mais sutil e brando,
Não há no mar ou no ar vagas nem viração...
Só existe o silêncio imenso amortalhando
A impassível aquosa e límpida amplidão.

Johann Wolfgang von Goethe

Meeres Stille

Tiefe Stille herrscht im Wasser,
Ohne Regung ruht das Meer,
Und bekümmert sieht der Schiffer
Glatte Fläche ringsumher.
Keine Luft von keiner Seite!
Todesstille fürchterlich!
In der ungeheuern Weite
Reget keine Welle sich.

[Gedichte — Erster Band]
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Clássicos Jackson, Volume XXXVIII — Poesia, 1º. Volume — [vários autores e tradutores], Selecção e Notas de Ary de Mesquita, 1964, W. M. Jackson Editores, Rio de Janeiro — RJ; Johann Wolfgang von Goethe (1749 1832), alemão de Frankfurt am Main (no antigo Sacro Império Romano-Germânico), teve na infância educação de múltiplas faces, iniciou sua formação em Direito pela universidade de Leipzig e a concluiu em Strassburg, polímata, foi poeta, romancista, dramaturgo, diretor teatral, teórico de arte, filósofo, diplomata e funcionário do governo; em casa, aprendeu as primeiras letras com o pai [consta ter aprendido italiano, estudado latim, grego e história “ainda menino”]; Goethe realizou seus primeiros poemas (canções e odes) ainda jovem; suas obras: Die Laune des Verliebten (peça pastoral em versos, 1768), Götz von Berlinchingen (drama histórico em 5 atos, 1771 e 1773), Prometheus (1774), Os Sofrimentos do Jovem Werther (Die Leiden des jungen Werther, romance, 1774), Clavigo (tragédia em 5 atos, 1774), Urfaust (Fausto Zero, 1775), Egmont (1775), Ifigênia em Táurides (Iphigenie auf Tauris [prosa] 1779 e 1786 [versos]), Torquato Tasso (1789), Römische Elegien (Elegias Romanas, 24 poemas, 1788-1’790), Xenien (em conjunto com Friedrich Schiller, 1796), O Aprendiz de Feiticeiro (Der Zauberlehrling, balada, 1797), Hermann e Dorothea (poema épico, 1798), Die natürliche Tochter (drama em verso, 18011803), Fausto (parte I, 1806), Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (romance, 1807), Teoria das Cores (Farbenlehre, 1810), Aus meinem Leben Dichtung und Wahreit (De minha vida. Poesia e verdade, autobiografia, 18111833), Viagem à Itália (relatos autobiográficos, 18131817), West-östlicher Divan (Divã Ocidento-Oriental, coleção de poemas, 1819, e versão ampliada em 1827), Gedichte (Poesias: baladas, lieder, sonetos, etc.); Fausto (parte II, publicação póstuma, 1832) e muitas outras publicações em poesia, prosa e para dramaturgia; o poeta fez parte de dois movimentos literários importantes na Alemanha, o romantismo e o expressionismo, e influenciou a literatura em todo o mundo; Goethe teve muito de sua poesia musicada por centenas de compositores, entre os quais Beethoven, Franz Schubert, Anna Amalia, Hermann Behn, Hector Berlioz, Arrigo Boito, Johannes Brahms, Luigi Dallapicola, Robert Franz, François Gounod, Franz Liszt, Johann Carl Gottfried Lowe, Gustav Mahler, Mozart, Robert Schumann, Tchaikovsky, Giuseppe Verdi, Richard Wagner...

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Eudoro Augusto: Inscrição & Ana C

 
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Inscrição

Esta primavera
não é flor que se cheire.

(Dia Sim Dia Não [na parceria
de Francisco Alvim] — 1978)

— o —

Ana C *

Outra vez nos braços do amor perdido.
Sempre o declive. Sempre a vertigem.
Às vezes o abismo.
Posso inflar
as velas de outra imagem
e assim navegar teus canais azulados,
minha lúcida amiga.
No céu-da-boca desta manhã
fica apenas um risco:
relâmpago longo como o olhar.
Luz. Outra luz. Louca luz.
O mesmo anjo que beija tua orelha fina
invade o cinema como um vento fictício
e rabisca cicatrizes bem legíveis
no coração deserto do meio-dia.

(O Desejo e o Deserto — 1989)


* Nota-comentário de Manuel da Costa Pinto:Ana C” [é um poema feito em] homenagem a Ana Cristina César, poeta [carioca] que se suicidou em 1983.
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Antologia comentada da poesia brasileira do século 21 (70 poetas e 205 poemas), Organização, Apresentação e Comentários de Manuel da Costa Pinto, 2006, Edições Publifolha, São Paulo — SP; Eudoro Augusto Macieira de Souza (1943 2024), português lisboeta e naturalizado brasileiro desde 1953, diplomou-se em Letras, fez mestrado em Literatura Brasileira, ambos pela UNB Universidade de Brasília (Distrito Federal), foi poeta, cronista, jornalista, professor, radialista, pesquisador e crítico literário; na década de 70, início de suas publicações, no Rio, se aproximou do grupo da poesia marginal, assim denominado no meio literário; suas obras: Grande Sertão-Veredas (crítica, teoria ou história literária, 1968), O Misterioso Ladrão de Tenerife (poemas, em parceria com Afonso Henriques Neto, Edições Oriente, 1972, Goiânia GO), Lincoln (biografia, 1973), A Vida Alheia (Edição do Autor, 1975, Rio de Janeiro RJ), Dia Sim Dia Não (na parceria de Francisco Alvim, Edição dos Autores, 1978, Brasília  DF), Poemas (1979), Carnaval e Cabeças (ambos poemas, Edição do Autor, 1981, Rio de Janeiro RJ), O Desejo e o Deserto (Massao Ohno, 1989, São Paulo SP), Olhos de Bandido (poemas, 7Letras, 2001, Rio de Janeiro RJ), três volumes da ‘Trilogia do Sudoeste’, crônicas e poemas: Um Estrago no Paraíso (Edições do Sudoeste, 2008, Brasília DF), A natureza humana (2009) e Noite em Claro (2011); recebeu o Prêmio Nacional de Poesia, da Fundação Cultural Distrito Federal (1971); produziu programas de música para a Rádio Câmara, DF; em terras brasileiras, o poeta morou e trabalhou em São Paulo, no Rio de Janeiro e na Capital Federal.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Antonio Cicero: Merde de Poète & Huis Clos

 
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Merde de Poète

Quem gosta de poesia "visceral",
ou seja, porca, preguiçosa, lerda,
que vá ao fundo e seja literal,
pedindo ao poeta, em vez de poemas, merda.

Huis Clos

Da vida não se sai pela porta:
só pela janela. Não se sai
bem da vida como não se sai
bem de paixões jogatinas drogas.
E é porque sabemos disso e não
por temer viver depois da morte
em plagas de Dante Goya ou Bosh
(essas, doce príncipe, cá estão)
que tão raramente nos matamos
a tempo: por não considerarmos
as saídas disponíveis dignas
de nós, que em meio a fazes e urina,
sangue e dor nascemos para lendas,
mares, amores, mortes serenas.

(A Cidade e os Livros — 2002)

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Antologia comentada da poesia brasileira do século 21 (70 poetas e 205 poemas), Organização, Apresentação e Comentários de Manuel da Costa Pinto, 2006, Edições Publifolha, São Paulo — SP; Antonio Cicero Correia Lima (1945 — 2024), carioca, fez seus estudos secundários em Washington, D.C, iniciou seu curso de filosofia no Rio de Janeiro (PUC e UFRJ), vindo a conclui-lo na Inglaterra (Universidade de Londres), depois fez pós-graduação pela Georgetown University, nos EUA, onde estudou Grego e Latim, foi compositor, poeta, crítico literário, filósofo, escritor e professor universitário; suas obras: O Mundo desde o Fim (ensaio filosófico, 1995), Guardar (poemas, 1996), A cidade e os livros (poemas, 2002), Finalidades sem fim (ensaio filosófico, 2005), Livro de sombras: pintura, cinema e poesia (com o artista plástico Luciano Figueiredo, 2010), Porventura (poemas, 2012), Poesia e Filosofia (ensaio filosófico, 2012), entre outros títulos, além de participações em coletâneas e em parceria de diversas obras reflexões filosóficas, poéticas e artísticas; lecionou Filosofia e Lógica em universidades do Rio de Janeiro, fez parcerias musicais com Waly Salomão, João Bosco, Adriana Calcanhoto, Lulu Santos e Marina Lima [sua irmã, e cantora], foi colunista da Folha de São Paulo; em 2017 tornou-se membro eleito da ABL Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira nº 27; em outubro de 2024, o poeta, filósofo e escritor Antonio Cicero anunciou, em carta de despedida a seus amigos, que tinha sido diagnosticado com o mal de Alzheimer, que se encontrava na Suiça, e optara pela morte assistida [eutanásia]; ali, o procedimento de suicídio assistido é legalizado; sua morte foi anunciada em 23 de outubro.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Hilda Hilst: Porque há desejo em mim, é tudo cintilância. . . .

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I

Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas. Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado.
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada.

(Do Desejo — 1992)

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Do Desejo: Hilda Hilst [coletânea de poemas], 1992, Pontes Editores, Campinas — SP; Hilda de Almeida Prado Hilst (1930 2004), paulista de Jaú, cursou o primário e o ginásio como aluna interna no Colégio Santa Marcelina, o secundário no Instituto Presbiteriano Mackenzie, ambos em São Paulo, formou-se em Direito pela Universidade de São Paulo (Faculdade do Largo São Francisco), foi poeta, ficcionista e dramaturga; morando em São Paulo, após ter trabalhado por algum tempo em escritório de advocacia, abandonou a profissão e se dedicou por inteiro à literatura; fez viagens à Argentina (Buenos Aires), Chile, França (morou em Paris, conheceu Nice e Biarritz), Itália (Roma), Grécia (Athenas e Creta); de retorno a São Paulo, visitou Nova Iorque e, de novo, Paris; escreveu e publicou: em poesia, Presságio (obra de estréia, 1950), Balada de Alzira (1951), Balada do Festival (1955), Roteiro do Silêncio (1959), Trovas de muito amor para um amado senhor (1960), Ode Fragmentária (1961), Sete Cantos do Poeta para o Anjo (1962), Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão (1974), Da Morte. Odes Mínimas (1980), Cantares de Perda e Predileção (1983), Poemas Malditos, Gozosos e Devotos (1984), Sobre a Tua Grande Face (1986), Amavisse (1989), Alcoólicas (1990), Bufólicas e Do Desejo (ambas em 1992), Exercícios (2002) entre outros títulos; ficção: Fluxofloema (1970), Qadós (1973), Tu não te moves de ti (1980), A Obscena Senhora D (1982), Cartas de um sedutor (1991), Contos d'escárnio (1992), Rútilo Nada (ficção, 1993), Cascos e Carícias: crônicas reunidas 1992-1995 (1998) etc.; dramaturgia: Teatro Reunido, volume I (peça O Verdugo, e várias outras inéditas, 2000); Hilda Hilst teve seu trabalho reconhecido nos meios literários, tendo sido detentora de muitas premiações (dois Grande Prêmio da Crítica, da APCA Associação Paulista dos Críticos de Arte, “pelo conjunto da obra” e “por reedições”; prêmios Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro “por Cantares de Perda e Predileção, poemas” e “Rútilo Nada, ficção”; Prêmio Moinho Santista “pelo conjunto de sua obra poética”, entre os quais) e teve livros traduzidos para o francês, italiano, espanhol, inglês e alemão; em 1965, em Campinas SP, construiu a Casa do Sol, ali passou a residir, e dali passou a produzir seus textos; hoje, a Casa do Sol é a sede do Instituto Hilda Hilst, o qual objetiva preservar a sua obra e o local onde a autora trabalhou; Hilda Hilst foi cronista do jornal Correio Popular, em Campinas.

terça-feira, 19 de maio de 2026

Angélica Freitas: liz* & lota**

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imagino a bishop entre cajus
toda inchada e jururu
da janela o rio e a seu
lado a lota, com um conta-gotas.

'but you must stay.
forget that ship’, she said.
ao que bishop riu, olho esquerdo
sumiu, afundou na pálpebra.

a americana dormiu em alfa.
e no seu sono, tão geográfica
sonhou com a carioca rica
e com a vastidão da américa.


Notas do atrevido aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa:
* liz: Elizabeth Bishop (1911 — 1979), poeta e epistológrafa estadunidense;
** lota: Lota [Maria Carlota] de Macedo Soares (1910 — 1967), arquiteta-paisagista e urbanista autodidata brasileira.
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Rilke shake: Angélica Freitas [coletânea de poemas], 2ª edição, 2009, coleção às de colete, Cosac Naify & 7 Letras, São Paulo — SP; Angélica Freitas, gaúcha de Pelotas, nascida em 1973, formou-se em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Porto Alegre, é jornalista, poeta e tradutora; trabalhou como repórter no jornal O Estado de São Paulo e na revista Informática Hoje, em São Paulo; deixou a capital paulista em 2006, andejou pela Holanda, Bolívia e Argentina, atualmente vive em Berlim Alemanha; Angélica Freitas estreou literariamente no livro Cuatro Poetas recientes del Brasil (Buenos Aires: Black & Vermelho, 2006), uma antologia de poesia brasileira contemporânea publicada na Argentina; tem poemas vindos a público em revistas impressas e eletrônicas: Inimigo Rumor (Rio de Janeiro), Diário de Poesía (Buenos Aires Argentina), águas furtadas (Lisboa Portugal), Hilda (Berlim Alemanha) e Aufgabe (Nova Iorque Estados Unidos); é coeditora da revista de poesia Modo de Usar & Co.; suas obras: Rilke Shake (coletânea de poemas, 1ª edição em 2007), um útero é do tamanho de um punho (2013), Canções de atormentar (2020), Mostra monstra (2025); participação em antologias: Cuatro Poetas Recientes del Brasil (Argentina, 2006), Otra línea de fuego: quince poetas brasileñas ultracontemporaneas (Espanha, 2009), VERSSchmuggel (Contrabando de Versos, [Berlin: Das Wunderhorn / São Paulo: Editora 34], Alemanha, 2009), El libro de los gatos (Argentina, 2009), A Poesia Andando. 13 poetas do Brasil (Portugal, 2008), Skräp-poesi: antologia bilíngue en español y sueco (Suécia, 2008), Natiunea Poetilor (Romênia, 2008), Poesía-añicos y sonares híbridos. Doce poetas latino-americanos (Alemanha, 2007), Caos Portátil (México, 2007) ...; Angélica Freitas traduziu poemas de autorias alemãs, estadunidenses (Zoe Leonard) e argentinas (Susana Thénon e Lucía Bianco).