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domingo, 7 de janeiro de 2018

Patativa do Assaré: Emigração e as conseqüências

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Neste estilo popular
Nos meus singelos versinhos,
O leitor vai encontrar
Em vez de rosas espinhos
Na minha penosa lida
Conheço do mar da vida
As temerosas tormentas
Eu sou o poeta da roça
Tenho mão calosa e grossa
Do cabo das ferramentas
          Por força da natureza
          Sou poeta nordestino
          Porém só conto a pobreza
          Do meu mundo pequenino
          Eu não sei contar as glórias
          Nem também conto as vitórias
          Do herói com seu brasão
          Nem o mar com suas águas
          Só sei contar as minhas mágoas
          E as mágoas do meu irmão
De contar a desventura
Tenho sobrada razão
Pois vivo de agricultura
Sou camponês do sertão
Sou um caboclo roceiro
Eu trabalho o dia inteiro
Exposto ao frio e ao calor
Sofrendo a lida pesada
Puxando o cabo da enxada
Sem arado e sem trator
          Nesta batalha danada,
          Correndo pra lá e pra cá
          Tenho a pele bronzeada
          Do sol do meu Ceará
          Mas o grande sofrimento
          Que abala o meu sentimento
          Que a providência me deu
          É saber que há desgraçados
          Por esse mundo jogados
          Sofrendo mais do que eu
É saber que há muita gente
Padecendo privação
Vagando constantemente
Sem roupa, sem lar, sem pão
É saber que há inocentes
Infelizes indigentes
Que por esse mundo vão
Seguindo errados caminhos
Sem ter da mãe os carinhos
Nem do pai a proteção
          Leitor, a verdade assino
          É sacrifício de morte
          O do pobre nordestino
          Desprotegido da sorte
          Como bardo popular
          No meu modo de falar
          Nesta referência séria
          Muito desgostoso fico
          Por ver num país tão rico
          Campear tanta miséria
Quando há inverno abundante
No meu Nordeste querido
Fica o pobre em um instante
Do sofrimento esquecido
Tudo é graça, paz e riso
Reina um verde paraíso
Por vale, serra e sertão
Porém não havendo inverno
Reina um verdadeiro inferno
De dor e de confusão
          Fica tudo transformado
          Sofre o velho e sofre o novo
          Falta pasto para o gado
          E alimento para o povo
          É um drama de tristeza
          Parece que a natureza
          Trata a tudo com rigor
          Com esta situação
          O desumano patrão
          Despede o seu morador
Vendo o flagelo horroroso
Vendo o grande desacato
Infiel e impiedoso
Aquele patrão ingrato
Como quem declara guerra
Expulsa da sua terra
Seu morador camponês
O coitado flagelado
Seu inditoso agregado
Que tanto favor lhe fez
          Sem a virtude da chuva
          O povo fica a vagar
          Como a formiga saúva
          Sem folha para cortar
          E com a dor que o consome
          Obrigado pela fome
          E a situação mesquinha
          Vai um grupo flagelado
          Para atacar o mercado
          Da cidade mais vizinha
Com grande necessidade
Sem rancor e sem malícia
Entra a turma na cidade
E sem temer a polícia
Vai falar com o prefeito
E se este não der um jeito
Agora o jeito que tem
É os coitados famintos
Invadirem os recintos
Da feira e do armazém
          A fome é o maior martírio
          Que pode haver neste mundo,
          Ela provoca delírio
          E sofrimento profundo
          Tira o prazer e a razão
          Quem quiser ver a feição
          Da cara da mãe da peste,
          Na pobreza permaneça,
          Seja agregado e padeça
          Uma seca no Nordeste
Por causa desta inclemência
Viajam pelas estradas
Na mais cruel indigência
Famílias abandonadas
Deixando o céu lindo e azul
Algumas vão para o Sul
E outras para o Maranhão
Cada qual com sua cruz
Se valendo de Jesus
E do padre Cícero Romão
          Nestes medonhos consternos
          Sem meios para a viagem
          Muitas vezes os governos
          Para o Sul dão a passagem
          E a faminta legião
          Deixando o caro torrão,
          Entre suspiros e ais,
          O martírio inda mais cresce
          Porque quem fica padece
          E quem parte sofre mais
O carro corre apressado
E lá no Sul faz “despejo”
Deixando desabrigado
O flagelado cortejo,
Que procurando socorro
Uns vão viver pelo morro
Um padecer sem desconte
Outros pobres infelizes
Se abrigam pelas marquises
Outros debaixo da ponte
          Rompendo mil empecilhos
          Nisto tudo que é pior
          É que o pai tem oito filhos
          E cada qual o menor
          Aquele homem sem sossego
          Mesmo arranjando um emprego
          Nada pode resolver
          Sempre na penúria está
          Pois o seu ganho não dá
          Para a família viver
Assim mesmo, neste estado
O bom nordestino quer
Estar sempre rodeado
Por seus filhos e a mulher
Quando mais aumenta a dor
Também cresce o seu amor
Por sua prole adorada
Da qual é grande cativo
Pois é ela o lenitivo
De sua vida cansada
          A pobre esposa chorosa
          Naquele estranho ambiente
          Recorda muito saudosa
          Sua terra e sua gente
          Relembra o tempo de outrora,
          Lamenta, suspira e chora
          Com a alma dolorida
          Além da necessidade
          Padece a roxa saudade
          De sua terra querida
Para um pequeno barraco
Já saíram da marquise
Mas cada qual o mais fraco
Padecendo a mesma crise,
Porque o pequeno salário
Não dá para o necessário
Da sua manutenção
E além disso falta roupa
E sobre sacos de estopa
Todos dormindo no chão
          Naquele ambiente estranho
          Continua a indigência
          Rigor de todo o tamanho
          Sem ninguém dar assistência
          Aquela família triste
          Ninguém vê, ninguém assiste
          Com alimento e com veste,
          Que além da situação
          Padece a recordação
          Das coisas do seu Nordeste
Meu leitor, não tenha enfado
Vamos ver mais adiante
Quando é triste o resultado
Do nordestino emigrante
Quero provar-lhe a carência
O desgosto e a inclemência
Que sofre o pobre infeliz
Que deixa a terra onde mora
E vai procurar melhora
Lá pelo Sul do país
          O pobre no seu emprego
          Seguindo penosos trilhos
          Seu prazer é o aconchego
          De sua esposa e seus filhos
          Naquele triste penar
          Vai outro emprego arranjar
          Na fábrica ou no armazém
          À procura da melhora
          Até que a sua senhora
          Tem um emprego também
Se por um lado melhora
Aumentando mais o pão
Por outro lado piora
A triste situação
Pois os garotos ficando
E a vida continuando
Sem os cuidados do pais
Sozinhos naquele abrigo
Se expõem ao grande perigo
Da vida dos marginais
          Eles ficam sozinhos
          Logo fazem amizade
          Em outros bairros vizinhos
          Com garotos da cidade
          Infelizes criaturas
          Que procuram aventuras
          No mais triste padecer
          Crianças abandonadas
          Que vagam desesperadas
          Atrás de sobreviver
Esses pobres delinqüentes
Os infelizes meninos,
Atraem os inocentes
Flagelados nordestinos
E estes com as relações,
Vão recebendo instruções,
Com aqueles aprendendo
E assim, mal acompanhados,
Em breve aqueles coitados
Vão algum furto fazendo
          São crianças desvalidas
          Que os pais não lhe dão sustento,
          As mães desaparecidas
          Talvez no mesmo tormento
          Não há quem conheça o dono
          Desses filhos do abandono
          Que sem temerem perigos
          Vão esmolando, furtando
          E às vezes até tomando
          O dinheiro dos mendigos
Os pais voltam dos trabalhos
Cansados mas destemidos
E encontram os seus pirralhos
No barraco recolhidos,
O pai dizendo gracejo
Dá em cada qual um beijo
Com amorosos acenos;
Cedo do barraco sai
Não sabe como é que vai
A vida de seus pequenos
          No dia seguinte os filhos
          Fazem a mesma viagem
          Nos seus costumeiros trilhos
          Na mesma camaradagem
          Com os mesmos companheiros
          Aqueles aventureiros
          Que na maior anarquia
          Sem terem o que comer
          Vão rapinagem fazer
          Para o pão de cada dia
Sem já ter feito o seu teste
Em um inditoso dia
Um garoto do Nordeste
Entra em uma padaria
E já com água na boca
E necessidade louca
Se encostando no balcão
Faz mesmo sem ter coragem
A primeira traquinagem
Dali carregando um pão
          Volta bastante apressado
          O pobre inexperiente
          Olhando desconfiado
          Para trás e para frente
          Mas naquele mesmo instante
          Vai apanhado em flagrante
          Na porta da padaria
          Indo o pequeno indigente
          Logo rigorosamente
          Levado à delegacia
É aquela a vez primeira
Que o garoto preso vai
Faz a maior berradeira
Grita por mãe e por pai
Mas outros garotos presos
Que já não ficam surpresos
Com história de prisão
Consolam o pequenino
Dando instrução ao menino
Da marginalização
          Depois que aquela criança
          Da prisão tem liberdade,
          Na mesma vida se lança
          Pelas ruas da cidade
          E assim vai continuando
          Aliada ao mesmo bando
          Forçados pela indigência
          Pra criança abandonada
          Prisão não resolve nada
          O remédio é assistência
Quem examina descobre
Que é sorte muito infeliz
A do nordestino pobre
Lá pelo Sul do país
A sua filha querida
Às vezes vai iludida
Pelo monstro sedutor
E devido a ingenuidade
Finda fazendo a vontade
Do monstro devorador
          Foge do rancho dos pais
          E vai vagar pelo mundo
          Padecendo muito mais
          Nas garras do vagabundo
          O pobre pai revoltado
          Fica desmoralizado
          Com a alma dolorida
          Para o homem nordestino
          O brio é um dom divino
          A honra é a própria vida
Aquele pai fica cheio
De revolta e de rancor
Mas não pode achar um meio
De encontrar o malfeitor
Porém se casualmente
Encontrar o insolente
Lhe dará fatal destino
Pois foi sempre esse papel
E a justiça mais fiel
Do caboclo nordestino
          Leitor, veja o grande azar
          Do nordestino emigrante
          Que anda atrás de melhorar
          Da sua terra distante
          Nos centros desconhecidos
          Depressa vê corrompidos
          Os seus filhos inocentes
          Na populosa cidade
          De tanta imoralidade
          E costumes diferentes
A sua filha querida
Vai pra uma iludição
Padecer prostituída
Na vala da perdição
E além da grande desgraça
Das privações que ela passa
Que lhe atrasa e lhe inflama
Saber que é preso em flagrante
Por coisa insignificante
Seu filho a quem tanto ama
          Para que maior prisão
          Do que um pobre sofrer
          Privação e humilhação
          Sem ter com que se manter?
          Para que prisão maior
          Do que derramar suor
          Em um estado precário
          Na mais penosa atitude
          Minando a própria saúde
          Por um pequeno salário?
Será que o açoite, as algemas
E um quarto da detenção
Vão resolver o problema
Da triste situação?
Não há prisão mais incrível
Mais feia, triste e horrível
Mais dura e mais humilhante
Do que a de um desgraçado
Pelo mundo desprezado
E do seu berço distante
          O garoto tem barriga,
          Também precisa comer
          E a cruel fome lhe obriga
          A rapinagem fazer
          Se ninguém a ele ajuda
          O itinerário não muda
          Os miseráveis infantes
          Que vivem abandonados
          Terão tristes resultados
          Serão homens assaltantes
Meu divino redentor
Que pregou na Palestina
Harmonia, paz e amor
Na vossa santa doutrina
Pela vossa mãe querida
Que é sempre compadecida
Carinhosa, terna e boa
Olhai para os pequeninos
Para os pobres nordestinos
Que vivem no mundo à toa
          Meu bom Jesus Nazareno
          Pela vossa majestade
          Fazei que cada pequeno
          Que vaga pela cidade
          Tenha boa proteção,
          Tenha em vez de uma prisão,
          Aquele medonho inferno
          Que revolta e desconsola,
          Bom consolo e boa escola
          Um lápis e um caderno.

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Cordel – Patativa do Assaré, Introdução e Seleção de Sylvie Debs, 2001, 2ª edição, 2ª reimpressão, Editora Hedra, São Paulo  SP; Patativa do Assaré (1909  2002), ou Antonio Gonçalves da Silva, cearense de Assaré, foi poeta popular, compositor, cantor e repentista, teve sua obra registrada em folhetos de cordel, discos e livros; frequentou por apenas alguns meses o banco escolar e, desde criança, mesmo trabalhando na roça para ajudar no sustento da família, aprendeu a ler e a escrever e se tornou um apaixonado pela poesia; projetou-se nacionalmente com a música "Triste Partida" gravada em 1964 por Luiz Gonzaga, o rei do baião; teve seus poemas traduzidos em vários idiomas e foi tema de estudos na Sorbonne, na Cadeira de Literatura Popular Universal; obra poética: Inspiração Nordestina (1956), Inspiração Nordestina  Cantos Patativa do Assaré (1967), Cante Lá que Eu Canto Cá (1978), Ispinho e Fulô (1988), Cordéis (caixa com 13 folhetos, 1993), Aqui Tem Coisa  (1994), Ao Pé da Mesa (co-autoria de Geraldo Gonçalves de Alencar, 2001), Antologia Poética (organizada por Gilmar de Carvalho, 2002) entre outros; como poeta da oralidade, o que sempre foi, também teve seus poemas registrados em discografia: Poemas e Canções  (1979), A Terra é Naturá (1981), Patativa do Assaré (Projeto Cultural do BEC, 1985), Canto Nordestino  80 Anos de Luz (1989), Patativa do Assaré  88 Anos de Poesia (1995), Patativa do Assaré (CD incluído no livro O Poeta do Povo, Vida e Obra de Patativa de Assaré, de Assis Ângelo, 1999) entre outros; pelo conteúdo de sua obra cultural, de cunho social e popular, o poeta recebeu inúmeros prémios e homenagens concedidos pelos poderes municipal e estadual, particularmente nos estados nordestinos, tendo sido agraciado ainda com o título de Doutor Honoris Causa em universidades daqueles estados.