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sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Gilberto Mendonça Teles: Aspiração

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Não quero ser o poeta do nosso tempo
nem o poeta do tempo estrito da crítica
ou do tempo complacente de algum leitor
vago e simpático como as conveniências
de mandar e poder até não poder mais.

Quero ser o poeta obscuro do meu tempo,
mas poeta do meu tempo ou do mau tempo
nesta meia água-furtada e sem escritura,
mas morada do meu ser e dos incríveis
fantasmas que desempenham apenas
as pontas dos papéis picados
caindo na avenida.

Não quero ser o poeta do tempo dos outros.
Quero é apanhar mesmo os meus óculos
e tomar posse das minhas sombras.
Ser ausente e devoluto
                                      uma terra sem dono
para ser repartida num domingo
de muito vento e chuva no planalto.


Blog do Castorp: Gilberto Mendonça Teles - A Casa de Vidro
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Saciologia Goiana — Poesia: Gilberto Mendonça Teles, Coleção Poesia Hoje — Volume 53, Texto/Apresentação: O Poeta Crítico, artigo de Tristão de Athayde, 1982, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Gilberto Mendonça Teles, nascido em 1931, goiano de Bela Vista de Goiás, formado em Direito e Letras Neolatinas pelas UFG e UCG (Universidades Federal e Católica de Goiás) e com doutorado em Língua Portuguesa pela Universidade de Coimbra Portugal, professor, poeta e crítico literário, é detentor de uma vasta bibliografia em poesias, Alvorada (1955), Estrela d'Alva (1956), Fábula de Fogo (1958), Pássaro de Pedra (1962), Sintaxe Invisível (1967), A Raiz da Fala (1972), Arte de Armar (1977), Plural de Nuvens (1984), e outros títulos editados e reeditados, além de ensaios, Goiás e Literatura — A Poesia de Leo Lynce e o sentido simbolista da obra poética de Erico Curado (1964), A Poesia em Goiás (1964), O Conto Brasileiro em Goiás (1969), Drummond — A Estilística da Repetição (1970), Vanguarda Européia e Modernismo Brasileiro (1972 e 1976 edição revista e aumentada), Camões e a Poesia Brasileira (1973), A Retórica do Silêncio (1979), Estudos de Poesia Brasileira (1985), A Escrituração da Escrita (1996) etc.; o poeta e ensaísta, diversas vezes premiado por sua atividade literária, também é reconhecido fora do país, com livros vertidos para outras línguas e publicados no exterior.

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Gilberto Mendonça Teles: Latim

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Maria Augusta, menina,
gostava tanto de mim,
me abraçava, me beijava,
andava em mim de patim.

Seu riso aberto e vermelho
me tocava bandolim,
cantava amor impossível
de romance-folhetim.

Seu corpo de pele clara
brincava de manequim,
vestido de rendas brancas,
blusa de seda e cetim.

Cabelos lisos cheirando
alegria e alecrim,
Maria Augusta, menina,
sabia meu boletim,

sabia tudo da minha
vida, tintim por tintim,
conhecia meu silêncio,
gostava do meu latim.

Mas ficou moça, coitada,
pôs anágua de morim,
foi conhecendo rapazes,
foi-se esquecendo de mim.

Maria Augusta, passeamos
no cinema ou no jardim?
 Cinema só com meu noivo,
meu nome já tem Jardim.

Tentei dizer-lhe que não
crescesse mais: era ruim.
Ameacei com discursos,
tomar porre de cauim,

jogar mais na loteria,
mandar cartas de nanquim,
calçar o melhor sapato,
terno cinzento, de brim,

fazer versos e trapaças,
piruetas de arlequim.
Tudo em vão, Maria Augusta
não gostava mais de mim.

por isso, neste poema
que já vai chegando ao fim,
declino amor e poesia,
recito em grego e latim.

Sei que escrevo e sou escravo,
a musa me pôs assim.
Ando louquinho-da-silva,
Comendo grama e capim.

Estou até meio tonto,
estou confuso, estou ... pin...
e estou morto de vergonha
deste poema ruim.

Gilberto Mendonça Teles: Um poeta irrefreável
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Saciologia Goiana — Poesia: Gilberto Mendonça Teles, Coleção Poesia Hoje — Volume 53, Texto/Apresentação: O Poeta Crítico, artigo de Tristão de Athayde, 1982, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Gilberto Mendonça Teles, nascido em 1931, goiano de Bela Vista de Goiás, formado em Direito e Letras Neolatinas pelas UFG e UCG (Universidades Federal e Católica de Goiás) e com doutorado em Língua Portuguesa pela Universidade de Coimbra Portugal, professor, poeta e crítico literário, é detentor de uma vasta bibliografia em poesias, Alvorada (1955), Estrela d'Alva (1956), Fábula de Fogo (1958), Pássaro de Pedra (1962), Sintaxe Invisível (1967), A Raiz da Fala (1972), Arte de Armar (1977), Plural de Nuvens (1984), e outros títulos editados e reeditados, além de ensaios, Goiás e Literatura — A Poesia de Leo Lynce e o sentido simbolista da obra poética de Erico Curado (1964), A Poesia em Goiás (1964), O Conto Brasileiro em Goiás (1969), Drummond — A Estilística da Repetição (1970), Vanguarda Européia e Modernismo Brasileiro (1972 e 1976 edição revista e aumentada), Camões e a Poesia Brasileira (1973), A Retórica do Silêncio (1979), Estudos de Poesia Brasileira (1985), A Escrituração da Escrita (1996) etc.; o poeta e ensaísta, diversas vezes premiado por sua atividade literária, também é reconhecido fora do país, com livros vertidos para outras línguas e publicados no exterior.

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Gilberto Mendonça Teles: Linguagem

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A Claro Augusto de Godoy

I

Faço boca-de-pito para a fala
descansada da gente que proseia,
que faz questão de prosear na sala
sob o silêncio oleoso da candeia.

E ponho assunto no homem que se cala
quando a viola do sertão ponteia
na fiúza do amor, como uma bala
zunindo no clarão da lua-cheia.

Algumas vezes eu me alembro duma
tarde na roça: a poeira da boiada
e o berrante cortando e dando nó...

É aí que a palavra se avoluma
mas não chega a sair, atravessada
como espinha de peixe no gogó.

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Saciologia Goiana — Poesia: Gilberto Mendonça Teles, Coleção Poesia Hoje — Volume 53, Texto/Apresentação: O Poeta Crítico, artigo de Tristão de Athayde, 1982, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Gilberto Mendonça Teles, nascido em 1931, goiano de Bela Vista de Goiás, formado em Direito e Letras Neolatinas pelas UFG e UCG (Universidades Federal e Católica de Goiás) e com doutorado em Língua Portuguesa pela Universidade de Coimbra Portugal, professor, poeta e crítico literário, é detentor de uma vasta bibliografia em poesias, Alvorada (1955), Estrela d'Alva (1956), Fábula de Fogo (1958), Pássaro de Pedra (1962), Sintaxe Invisível (1967), A Raiz da Fala (1972), Arte de Armar (1977), Plural de Nuvens (1984), e outros títulos editados e reeditados, além de ensaios, Goiás e Literatura — A Poesia de Leo Lynce e o sentido simbolista da obra poética de Erico Curado (1964), A Poesia em Goiás (1964), O Conto Brasileiro em Goiás (1969), Drummond — A Estilística da Repetição (1970), Vanguarda Européia e Modernismo Brasileiro (1972 e 1976 edição revista e aumentada), Camões e a Poesia Brasileira (1973), A Retórica do Silêncio (1979), Estudos de Poesia Brasileira (1985), A Escrituração da Escrita (1996) etc.; o poeta e ensaísta, diversas vezes premiado por sua atividade literária, também é reconhecido fora do país, com livros vertidos para outras línguas e publicados no exterior.

sábado, 12 de outubro de 2019

Gilberto Mendonça Teles: Sinais

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Fui marcando caminho e fui marcado
pelas coisas que havia em cada viagem.
Fui debulhando grão, tive o cuidado
de pôr sinais nas pedras, na paisagem...

Para não me perder, em cada margem
pus tudo o que era meu e que era amado,
mesmo que fosse apenas uma imagem,
uma figura obscura do passado.

E, para me encontrar, tive a coragem
de atravessar os riscos do bordado
e desenhar na cor do feriado
a esperança que eu lia na mensagem.

Sei que as sombras se agitam no cerrado
e pássaros se ajuntam na pilhagem
das marcas que deixei, sem ter deixado
meu espantalho como personagem.

Há medo de ida e volta na passagem
e gritos de revoltas ao meu lado.
Melhor é refugiar-me na linguagem,
ser apenas sentido, mas truncado.

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Saciologia Goiana — Poesia: Gilberto Mendonça Teles, Coleção Poesia Hoje — Volume 53, Texto/Apresentação: O Poeta Crítico, artigo de Tristão de Athayde, 1982, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Gilberto Mendonça Teles, nascido em 1931, goiano de Bela Vista de Goiás, formado em Direito e Letras Neolatinas pelas UFG e UCG (Universidades Federal e Católica de Goiás) e com doutorado em Língua Portuguesa pela Universidade de Coimbra Portugal, professor, poeta e crítico literário, é detentor de uma vasta bibliografia em poesias, Alvorada (1955), Estrela d'Alva (1956), Fábula de Fogo (1958), Pássaro de Pedra (1962), Sintaxe Invisível (1967), A Raiz da Fala (1972), Arte de Armar (1977), Plural de Nuvens (1984), e outros títulos editados e reeditados, além de ensaios, Goiás e Literatura — A Poesia de Leo Lynce e o sentido simbolista da obra poética de Erico Curado (1964), A Poesia em Goiás (1964), O Conto Brasileiro em Goiás (1969), Drummond — A Estilística da Repetição (1970), Vanguarda Européia e Modernismo Brasileiro (1972 e 1976 edição revista e aumentada), Camões e a Poesia Brasileira (1973), A Retórica do Silêncio (1979), Estudos de Poesia Brasileira (1985), A Escrituração da Escrita (1996) etc.; o poeta e ensaísta, diversas vezes premiado por sua atividade literária, também é reconhecido fora do país, com livros vertidos para outras línguas e publicados no exterior.

domingo, 29 de setembro de 2019

Gilberto Mendonça Teles: Caiporismo

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Um dia um caipora, baixinho, gordo e nu,
montou num caititu e foi pro mato afora
fazendo um sururu dos diabos.

E logo todos os bichos se amoitaram e só
saíram aos cochichos, aproveitando o pó
da noite que tecia seu manto de jaó.

Mas um velho goiano (seis mortes, por aí)
arrumou seu jirau sobre um pé de pequi
e ficou escuitano jaó e juriti.

Esperava veado e só então deu fé
naquilo que a seu lado parecia de pé
e tinha o corpo todo seco que nem sapé.

Quem não teme o diabo e arreliado está
sabe bem que no cabo de sua faca só há
sangue de coisa ruim, cheiro de coisa má.

Com três golpes no umbigo matou o caipora.
Mas quando ia embora viu-se baixinho e nu
montando um caititu e indo pro mato afora
fazendo um sururu dos diabos.

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Saciologia Goiana — Poesia: Gilberto Mendonça Teles, Coleção Poesia Hoje — Volume 53, Texto/Apresentação: O Poeta Crítico, artigo de Tristão de Athayde, 1982, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Gilberto Mendonça Teles, nascido em 1931, goiano de Bela Vista de Goiás, formado em Direito e Letras Neolatinas pelas UFG e UCG (Universidades Federal e Católica de Goiás) e com doutorado em Língua Portuguesa pela Universidade de Coimbra Portugal, professor, poeta e crítico literário, é detentor de uma vasta bibliografia em poesias, Alvorada (1955), Estrela d'Alva (1956), Fábula de Fogo (1958), Pássaro de Pedra (1962), Sintaxe Invisível (1967), A Raiz da Fala (1972), Arte de Armar (1977), Plural de Nuvens (1984), e outros títulos editados e reeditados, além de ensaios, Goiás e Literatura — A Poesia de Leo Lynce e o sentido simbolista da obra poética de Erico Curado (1964), A Poesia em Goiás (1964), O Conto Brasileiro em Goiás (1969), Drummond — A Estilística da Repetição (1970), Vanguarda Européia e Modernismo Brasileiro (1972 e 1976 edição revista e aumentada), Camões e a Poesia Brasileira (1973), A Retórica do Silêncio (1979), Estudos de Poesia Brasileira (1985), A Escrituração da Escrita (1996) etc.; o poeta e ensaísta, diversas vezes premiado por sua atividade literária, também é reconhecido fora do país, com livros vertidos para outras línguas e publicados no exterior.