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[traduzido
por Jamil Almansur Haddad]
O ditador
diante do lúgubre
esquadrão
é revolto e tácito,
cavalga;
firmamento e terra
pálidos,
plúmbeos, frios em torno.
Dos seus
cavalos cascos ouviam-se
calcar a
lama enquanto eram trêmulos
passos
cadentes e suspiros
de heróicos
peitos dentro da noite.
Porém das
leivas da noite lívida,
porém dos
brotos de sangue róridos,
por onde
havia mesquinha fibra,
ó mães
itálicas, do peito vosso,
tal como
estrelas surgiam flâmulas,
surgiam
vozes tal como cânticos.
Roma esplendia
olímpica ao fundo,
corria
pelo céu um peã.
― Surge
em Mentana o horror dos séculos,
de Pedro
e César amplexo fúnebre.
Tu,
Garibaldi, ora em Mentana
César e
Pedro calcaste aos pés.
Ó de
Aspromonte rebelde esplêndido,
ó de
Mentana soberbo víndice,
vem e
narra Palermo e Roma
no
Capitólio para Camilo.
Como as
arcanas vozes de espíritos,
ia a
correr pelo céu de Itália,
o dia em
que uivaram os vis
cães
temerosos da ação da vara.
Hoje te
adora a Itália, invocando-te
a nova
Roma que és novo Rômulo;
sobes,
divino: e paire longe
de tua
fronte a mudez da morte.
Das almas
vai assoprando o vértice,
ó
refulgente, chamam-te os séculos
às
alturas do almo concílio,
o dos
indígetes numes da pátria.
Sobes. E
Dante diz a Virgílio:
― “Nunca
pensamos formas mais fúlgidas
de
herói.” Di-lo Lívio e sorri:
― “Ele é
da história, ó poetas.
“Da
história cívica de nossa Itália,
é esta
audácia tenace lígure;
que só
defende o justo e o alto,
mira
irradiante por sobre o ideal.”
Glória a
ti, pai. No torvo frêmito
já sopra
do Etna e sopra dos vórtices,
dos Alpes
teu peito de leão,
oposto
aos bárbaros como os tiranos.
Brilha o
teu peito suave no cérulo
riso do mar
do céu dos flóridos
maios
difuso sobre os sepulcros
que nunca
olvidam os seus heróis.
(Odes Bárbaras)
 |
| Giosuè Carducci |
A Giuseppe Garibaldi
III novembre MDCCCLXXX
Il dittatore, solo, a la lúgubre
schiera d’avanti, ravvolto e tacito
cavalca: la terra ed il cielo
squallidi, plumbei, freddi intorno.
Del suo cavallo la pésta udivasi
guazzar nel fango: dietro s’udivano
passi in cadenza, ed i sospiri
de’ petti eroici ne la notte.
Ma da le zolle di strage livide,
ma da i cespugli di sangue roridi,
dovunque era un povero brano,
o madri italiche, de i cuor vostri
salíano fiamme ch’astri parevano,
sorgeano voci ch’inni suonavano:
splendea Roma olimpica in fondo,
correa per l’aëre un peana.
― Surse in Mentana l’onta de i secoli
dal triste amplesso di Pietro e Cesare:
tu hai, Garibaldi, in Mentana
su Pietro e Cesare posto il piede.
O d’Aspromonte ribelle splendido,
o di Mentana superbo vindice,
vieni e narra Palermo e Roma
in Capitolïo a Camillo. ―
Tale un’arcana voce di spiriti
correa solenne pe ’l ciel d’Italia
quel dí che guairono i vili,
botoli timidi de la verga.
Oggi l’Italia t’adora. Invòcati
la nuova Roma novello Romolo:
tu ascendi, o divino: di morte
lunge i silenzii dal tuo capo.
Sopra il comune gorgo de l’anime
te rifulgente chiamano i secoli
a le altezze, al puro concilio
de i numi indigeti su la patria.
“Mai non pensammo a forma piú nobile
d’eroe„. Dice Livio,
e sorride, “È de la storïa, o poeti.
De la civile storia d’Italia
è quest’audacia tenace ligure,
che posa nel giusto, ed a l’alto
mira, e s’irradia ne l’ideale”.
Gloria a te, padre. Nel torvo frêmito
spira de l’Etna, spira ne’ turbini
de l’alpe il tuo cor di leone
incontro a’ barbari ed a’ tiranni.
Splende il soave tuo cor nel cerulo
riso del mare del ciel de i floridi
maggi diffuso su le tombe
su’ marmi memori de gli eroi.
(1877)
(Ode Barbare — Libro primo, 1880)
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Poesias Escolhidas: Giosuè
Carducci, Tradução e Notas de Jamil Almansur Haddad, Estudo Introdutivo e Vida
e Obra de Giosuè Carducci, por Paul Renucci, Ilustrações de Michel Cauvet e
Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Giosuè Carducci, por Gunnar
Ahlström — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1971, Editora Opera
Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Giosuè Alessandro Giuseppe Carducci ou Joshua Carducci
(1835 — 1907), italiano de Val di Castello,
comuna de Pietrasanta, hoje Pietrasanta-Carducci, estudou na Scuola Normale de
Pisa, formou-se em Filosofia e Filologia, além de ter sido professor por quase
meio século, foi poeta e crítico; até os quatorze anos, Carducci não teve outro
mestre além de seus pais — o pai, médico “sem
fortuna”, era “sustentado por uma clientela camponesa miserável” e também não
era favorecido na busca de uma “clínica mais afortunada”, por suas opiniões
políticas junto às comunidades por onde passava, assim vivia mudando de
localidade e de sede de clínica; foi em Florença, já aos quatorze anos, que o poeta
passou a frequentar o colégio Scuole Pio, fez dois anos de retórica, escreveu
seus primeiros sonetos, depois frequentou um curso de ciências e continuou com
seus estudos“, o gosto já adquirido pela leitura
cresceu, leu Os Noivos, de Manzoni, os épicos Ilíada, Eneida, Jerusalém
Libertada, os “poemas cavaleirescos” Orlando Amoroso, de Boiardo, e Orlando
Furioso, de Ariosto; deu aulas em estabelecimentos secundários de San Miniato
al Tedesco e Pistóia e, desde os vinte e cinco anos, lecionou Literatura italiana
na Faculdade de Letras da Universidade de Bolonha; também escreveu poemas por
quase meio século — o primeiro que se tem
conservado, A Dio, um soneto a Deus, foi escrito em maio de 1848, e o último,
uma quadra, O Castelo de São Martinho, traz a data de 10 de novembro de 1902;
suas obras: em poesia: Rime (1857), Levia Gravia [1857-1870] (1868), Poesie (edição,
num só volume, de Deccenalli [1860-1870], Levia Gravia [1857-1870] e Juvenilia
[1850-1857], 1871), Primavere elleniche (1872), Nuove poesie (1873, e 2ª edição melhorada
e aumentada, 1875), Odi Barbare (primeira série, 1877), Juvenilia [1850-1857] (edição
definitiva, 1880), Nuove Odi Barbare (1882, 2ª edição melhorada e aumentada,
1886), Ça Ira (1883), Rime Nuove (1887), Terze Odi Barbare (1889), Rime e Ritme
(1899), em prosa: Ricordi Autobiografici, Saggi e Frammenti [1850-1907], Prose
Giovanili [1851-1859], Primi Sagi [1857-1865], Poeti e Figure del Risorgimento
[1858-1901], Petrarca e Boccacio [1861-1882], Scritti di Storia e di Erudizione
[1862-1895], Dante [1864-1904], Discorsi Letterari e Storicci [1868-1897],
Leopardi e Manzoni [1873-1898], todas publicadas entre 1940 e 1942, além de
outras publicações e reedições em verso e prosa; Giosuè Carducci foi laureado com
o Prêmio Nobel de Literatura em 1906.