sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

José Paulo Paes: A um recém-nascido

 
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Que bichinho é este
tão tenro
tão frágil
que mal agüenta o peso
do seu próprio nome?

É o filho do homem.

Que bichinho é este
expulso de um mar
tranqüilo, todo seu
que veio ter à praia
do que der e vier?

É o filho da mulher.

Que bichinho é este
de boca tão pequena
que num instante passa
do sorriso ao bocejo
e dele ao berro enorme?

É o filho da fome.

Que bichinho é este
que por milagre cessa
o choro assim que pode
mamar uma teta
túrgida, madura?

É o filho da fartura.

Que bichinho é este
cujos pés, na pressa
de seguir caminho
não param de agitar-se
sequer por um segundo?

É o filho do mundo.

Que bichinho é este
que estende os braços curtos
como se tivesse
já ao alcance da mão
algum dos sonhos seus?

É um filho de Deus.

(Prosas Seguidas de Odes Mínimas — 1992)

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A lua no cinema e outros poemas [várias autorias], Organização e Apresentação de Eucanaã Ferraz, Ilustrações de Fabio Zimbres, 2011, Companhia das Letras, São Paulo — SP; José Paulo Paes (1926 — 1998), paulista de Taquaritinga, foi poeta, tradutor, ensaísta, crítico literário, jornalista e editor; formado em Química Industrial, durante anos trabalhou em laboratório farmacêutico (Curitiba PR), sem jamais ter deixado de lado a literatura, gosto adquirido devido a convivência com seu avô que era livreiro; na cidade paranaense colaborou com a revista Joaquim (1946 1948), dirigida por Dalton Trevisan; transferindo-se para São Paulo, passou a colaborar com os jornais Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, O Tempo, Jornal de Notícias e Revista Brasiliense; suas obras: O Aluno (1947), Cúmplices (1951), Novas Cartas Chilenas (1954), Mistério em Casa (1961), Anatomias (1967), Resíduo (1973), Calendário Perplexo (1983), É isso Ali (1984), Gregos & Baianos (ensaio, 1985), Um por Todos (poesia reunida, 1988), A Poesia Está Morta Mas Juro Que Não Fui Eu (1988), Poemas para brincar (infantil, 1989), Prosas Seguidas de Odes Mínimas (1992), Lé com Cré (1993), A Meu Esmo (1995), De Ontem Para Hoje (1996), Um passarinho me contou (1997), Melhores poemas (1998), Uma Letra Puxa a Outra (1998), Ri Melhor Quem Ri Primeiro (1999), O Lugar do Outro (1999), Socráticas (livro inédito, edição póstuma, 2001) e tantos outros títulos em parceria com poetas e escritores, no gênero poesia infantil e infanto-juvenil; como editor e tradutor, verteu para o português autores gregos, dinamarqueses, italianos, norte-americanos, ingleses ..., tais como Charles Dickens, Joseph Conrad, Pietro Aretino, Konstantínos Kaváfis, Laurence Sterne, W. H. Auden, William Carlos Williams, J. K. Huysmans, Paul Éluard, Hölderlin, Paladas de Alexandria, Edward Lear, Rilke, Seféris, Lewis Carroll, Níkos Kazantzákis, Ovídio etc.; foi laureado com diversos prêmios literários nas categorias poesia, literatura infanto-juvenil e tradução.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

Vasko Popa: A torre de caveiras

 
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[traduzido por Aleksandar Jovanović]

Torre da morte

Nos ossos frontais tremeluz
Uma terrível lembrança

Das órbitas ocas
Fita até o fim do mundo
Um presságio negro

Entre maxilares roídos
Cravou-se extrema
E enorme maldição

Em torno da morte
Emparedados na torre
Crânios dançam
A última dança estrelada

Torre da morte
A castelã assusta-se
De si mesma

Vasko Popa

ЋЕЛЕ-КУЛА

Кула смрти

На чеоним костима се пресијава
Страховито памћење

Из очних дупљи
Гледа до на крај света
Црна видовитост

Између крезубих вилица
Заглавила се
Голема последња псовка

Око смрти зазидане у кули
Лобање у месту играју
Завршно звездано коло

Кула смрти
У њој господарица уплашена
Од себе саме

(Усправна земља [Uspravna Zemlja], 1972)
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Vasko Popa: Osso a Osso, Tradução, Organização e Notas de Aleksandar Jovanović [+ 2 poemas com traduções de Nelson Ascher e Haroldo de Campos], Imprólogo de Octavio Paz, Texto da contra-capa, por Haroldo de Campos, 1989, Editora Perspectiva — Coleção Signos, São Paulo — SP; Vasko Popa (1922 1991), nascido na vila de Grebenac, região de Vojvodina, Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos (depois, Reino da Iugoslávia, hoje Sérvia), após concluir o ensino médio, matriculou-se em Filosofia na Universidade de Belgrado, continuou seus estudos na Universidade de Bucareste Romênia e na de Viena Áustria, foi poeta, escritor, tradutor e editor; na 2ª Guerra mundial, unido a um grupo de partisans (guerrilheiros), lutou contra a invasão nazista, foi capturado e enviado a um campo de concentração em Zrenjanin; finda a guerra, Vasko Popa formou-se no grupo românico da mesma Faculdade de Filosofia da Universidade de Belgrado e tornou-se editor da revista literária Nolit, também em Belgrado; teve seus primeiros poemas publicados na Književne novine (Revista Literária) e no diário Borba (Luta); traduziu Ficciones, de Jorge Luis Borges, uma das primeiras traduções do ficcionista e poeta argentino na Europa; suas obras: Casca (Kora, 1953), O Campo do Desassossego (Nepočin polje, 1956), Paracéu (Sporedno Nebo, 1968), A Terra Ereta ([Усправна земља], Uspravna Zemlja, 1972), Sal Lupino (Vučja so, 1975), Carne Viva (Živo meso, 1975), A Casa no Meio do Caminho (Kuća nasred druma, 1975), Corte (Rez, 1981) ...; em 1985, publicou-se em castelhano a primeira edição de poemas de Vasko Popa; foi eleito membro da Academia Sérvia de Ciências e Artes e também foi um dos fundadores da Academia de Ciências e Artes de Vojvodina; recebeu premiações por sua obra.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

Paul Celan: O hóspede


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[traduzido por Claudia Cavalcanti]

Muito antes de anoitecer
chega à tua casa aquele que trocou acenos com a escuridão.
Muito antes de amanhecer
ele desperta
e, antes de ir-se, atiça um sonho,
um sonho ressonante de passos:
o escutas medir as distâncias
e jogas para lá a tua alma.

(De limiar a limiar, 1955)

Paul Celan

Der Gast

Lange vor Abend
kehrt bei dir ein, der den Gruß getauscht mit dem Dunkel.
Lange vor Tag
wacht er auf
und facht, eh er geht, einen Schlaf an,
einen Schlaf, durchklungen von Schritten:
du hörst ihn die Fernen durchmessen
und wirfst deine Seele dorthin.

(Von Schwelle zu Schwelle, 1955)
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Cristal: Paul Celan, Seleção, Tradução e Nota Biobibliográfica de Claudia Cavalcanti, edição bilíngue, Apresentação de Márcio Seligmann Silva, 1999 (3ª reimpressão, 2014), Iluminuras, São Paulo — SP; Paul Pessakh Antschel ou Paul Celan (1920 1970), nascido em Czernowitz (Bukowina Romênia, hoje Ucrânia), fez seus estudos pré-universitários em sua cidade natal, foi poeta, tradutor e ensaísta; em 1938 iniciou a faculdade de Medicina em Tours França, um ano depois deu início à faculdade de Romanística, em Czernowitz, em 1941, 2ª Guerra em andamento, a região é ocupada por tropas alemãs nazistas e romenas; Celan é encaminhado a um campo de trabalhos forçados, seus pais morreram num campo de concentração; com o fim da guerra, Celan trabalhou em Bucareste como assistente editorial e tradutor traduziu obras de Tchecov e Lemontov; em Paris, estudou Germanística e Linguística; obra poética: Der Sand aus den Urnen (1948), Mohn und Gedächtnis (Ópio e Memória, 1952), Von Schwelle zu Schwelle (De limiar a limiar, 1955), Sprachgitter (Prisão da palavra, 1959), Die Niemandsrose (A Rosa-de-Ninguém, 1963), Atemwende (1967), Fadensonnen (1968), Lichtzwang (1970), Schneepart (póstumo, 1971), Zeitgehöft (póstumo, 1976); recebeu o Prêmio Literário da Cidade de Bremen, 1958, e o Prêmio Georg Büchner de Darmstadt, 1960; Paul Celan, embora fosse de origem judaica, ter nascido na Romênia e vivido décadas em Paris, sempre ‘se fez entender como “escritor alemão”’; Celan, seu pseudônimo literário, se origina da transformação anagramática do seu nome romeno: Ancel; o poeta, que nos anos que antecederam sua morte viu-se com "tendências autodestrutivas, mania de perseguição e surtos de amnésia", cometeu suicídio se atirando no rio Sena, em abril de 1970.

terça-feira, 28 de janeiro de 2025

Antônio Botto: À Memória de Fernando Pessoa

 
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[“Poema de Cinza”]

Se eu pudesse fazer com que viesses
Todos os dias, como antigamente,
Falar-me nessa lúcida visão —
Estranha, sensualíssima, mordente;
Se eu pudesse contar-te e tu me ouvisses,
Meu pobre e grande e genial artista,
O que tem sido a vida — esta boemia
Coberta de farrapos e de estrelas
Tristíssima, pedante, e contrafeita,
Desde que estes meus olhos numa névoa
De lágrimas te viram num caixão;
Se eu pudesse, Fernando, e tu me ouvisses,
Voltávamos à mesma: Tu, lá onde
Os astros e as divinas madrugadas
Noivam na luz eterna de um sorriso;
E eu, por aqui, vadio da descrença
Tirando o meu chapéu aos homens de juízo...
Isto por cá vai indo como dantes;
O mesmo arremelgado idiotismo
Nuns senhores que tu já conhecias
Autênticos patifes bem falantes...
E a mesma intriga; as horas, os minutos,
As noites sempre iguais, os mesmos dias,
Tudo igual! Acordando e adormecendo
Na mesma cor, do mesmo lado, sempre
O mesmo ar e em tudo a mesma posição
De condenados, hirtos, a viver
Sem estímulo, sem fé, sem convicção...

Poetas, escutai-me: transformemos
A nossa natural angústia de pensar
Num cântico de sonho!, e junto dele,
Do camarada raro que lembramos,
Fiquemos uns momentos a cantar!


(As canções de Antônio Botto)
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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; António Thomaz Botto (1897 1959), português de Concavada, concelho de Abrantes, distrito de Santarém, “não se lhe conhecendo instrução formal aprofundada”, consta ter sido autodidata, trabalhou de ajudante em uma livraria, foi funcionário público, poeta, contista e dramaturgo; escreveu para adultos e crianças, como funcionário público, trabalhou em Lisboa e, por um período, em Angola e Luanda; suas obras: em poesia: Trovas (1917), Cantigas da Saudade (1918), Canções (1921), Motivos de Beleza (1923), Curiosidades Estéticas (1924), Pequenas Esculturas (1925), Olimpíadas (1927), Dandismo (1928), Baionetas da Morte (1936), A vida que te dei (1938), Sonetos (1938), As Canções de Antônio Botto (reunião dos volumes anteriores, 1941), em prosa: Os Contos de Antônio Botto para crianças e adultos (1924) e Ódio e Amor (contos, 1947) e para teatro: Flor do Mal (1919), Alfama (1933), Antônio (1933), 9 de Abril (1938), Aqui ninguém nos ouve (1942), O Livro das Crianças (literatura infantil, 1944); de seus traços biográficos, consta, em relação à sua homossexualidade, ter sido ele “o primeiro a escala global [com sua arte] a assumir-se abertamente e sem rodeios. A sua obra, largamente elogiada pelo genial Fernando Pessoa, não mais seria olhada da mesma forma. Há quase cem anos, António Botto chocou a pudica sociedade portuguesa.”; em 1921, com a publicação de Canções, sua arte se expôs “de forma despudorada, descomplexada e clara numa preferência pela estética do amor homossexual”, e, em 1922, com a obra reeditada por Fernando Pessoa, causou escândalo, teve os exemplares aprendidos nas livrarias e queimados, de nada valendo os apoios recebidos favoravelmente de Fernando Pessoa, poeta e editor, e dos intelectuais do Grupo Presença, entre estes o de José Régio; Canções também recebeu uma tradução inglesa feita pelo próprio Fernando; em 1942, António Botto foi demitido de seu humilde emprego público, “por alegadamente não saber manter o decoro no local de trabalho”; em 1947, o poeta exilou-se voluntariamente no Brasil e passou a viver no Rio de Janeiro; em 16 de março de 1959, António Botto veio a falecer vítima de atropelamento em uma avenida da cidade, teve morte abrupta.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

Hans Magnus Enzensberger: Nênia à maçã

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[traduzido por Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger]

Aqui estava a maçã
Aqui ficava a mesa
Isto era a casa
Isto era a cidade
Aqui jaz o país

Essa maçã ali
É a Terra
Um belo astro
Onde havia maçãs
E comedores de maçãs.

Hans Magnus Enzensberger

Nänie auf den Apfel

Hier lag der Apfel
Hier stand der Tisch
Das war das Haus
Das war die Stadt
Her ruht das Land.

Dieser Apfel dort
ist die Erde
ein schönes Gestirn
auf dem es Äpfel gab
und Esser von Äpfeln.
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Seis décadas de poesia alemã: do pós-guerra ao início do século XXI [diversos poetas e poemas], antologia bilíngue, Organização e Tradução de Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger, Prefácio de Berthold Zilly, Posfácio de Marcus J. Weininger, Colaboração de Stephan Arnulf Baumgärtel, 2012, Editora da UFSC, Florianópolis — SC; Hans Magnus Enzensberger (1929 2022), alemão de Kaufbeuren, Baviera, estudou literatura (com doutorado) e filosofia nas universidades de Erlangen, Freiburg, Hamburgo, além da Sorbonne, em Paris, foi poeta, ensaísta, tradutor, escritor e editor; foi ainda redator na rádio Süddeutscher Rundfunk, em Stuttgart, e docente para Arte Poética na Universidade de Frankfurt; criou a revista Kursbuch e editou a série literária Die andere Bibliothek; suas obras: Verteidingung der Wölfe (Defendendo os Lobos, poemas, 1957), Landessprache (Fala Nacional, poesia, 1960), Allerleirauh (poemas, 1961), Gedichte, wie entsteht ein Gedicht (1962), Blindenschrift (Braille — escrita para cegos, poesia, 1964), Deutschland, Deutschland unter anderm (Alemanha, Alemanha, entre outros, ensaio, 1967), Der kurze Sommer der Anarchie: Buenaventura Durrutis Leben und Tod (O curto verão da anarquia: Buenaventura Durrutis vida e morte, prosa, 1972), Palaver (Bajulação, ensaio, 1974), Mausoleum (Mausoléu, poemas, 1975), Der Untergang der Titanic (O naufrágio do Titanic, poema épico, 1978), Die Furie des Verschwindens (A fúria do sumiço, poesias, 1980), Zukunftsmusik (Futuro Música, poesia, 1991), Die Tochter der Luft (A filha do ar, ficção, 1992) e outros títulos; em seus escritos também fez uso dos pseudônimos Linda Quitt, Andreas Yhalmayr, Elisabeth Ambras e Serenus M. Brezengang; recebeu premiações por sua obra.

domingo, 26 de janeiro de 2025

Lima Barreto: O cemitério

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          Pelas ruas de túmulos, fomos calados. Eu olhava vagamente aquela multidão de sepulturas, que trepavam, tocavam-se, lutavam por espaço, na estreiteza da vaga e nas encostas das colinas aos lados. Algumas pareciam se olhar com afeto, roçando-se amigavelmente; em outras, transparecia a repugnância de estarem juntas. Havia solicitações incompreensíveis e também repulsões e antipatias; havia túmulos arrogantes, imponentes, vaidosos e pobres e humildes; e, em todos, ressumava o esforço extraordinário para escapar ao nivelamento da morte, ao apagamento que ela traz às condições e às fortunas.
          Amontoavam-se esculturas de mármore, vasos, cruzes e inscrições; iam além; erguiam pirâmides de pedra tosca, faziam caramanchéis extravagantes, imaginavam complicações de matos e plantas coisas brancas e delirantes, de um mau gosto que irritava. As inscrições exuberavam; longas, cheias de nomes, sobrenomes e datas, não nos traziam à lembrança nem um nome ilustre sequer; em vão procurei ler nelas celebridades, notabilidades mortas; não as encontrei. E de tal modo a nossa sociedade nos marca um tão profundo ponto, que até ali, naquele campo de mortos, mudo laboratório de decomposição, tive uma imagem dela, feita inconscientemente de um propósito, firmemente desenhada por aquele acesso de túmulos pobres e ricos, grotescos e nobres, de mármore e pedra, cobrindo vulgaridades iguais umas às outras por força estranha às suas vontades, a lutar...
          Fomos indo. A carreta, empunhada pelas mãos profissionais dos empregados, ia dobrando as alamedas, tomando ruas, até que chegou à boca do soturno buraco, por onde se via fugir, para sempre do nosso olhar, a humildade e a tristeza do contínuo da Secretaria dos Cultos.
          Antes que lá chegássemos, porém, detive-me um pouco num túmulo de límpidos mármores, ajeitados em capela gótica, com anjos e cruzes que a rematavam pretensiosamente.
          Nos cantos da lápide, vasos com flores de biscuit e, debaixo de um vidro, à nívea altura da base da capelinha, em meio corpo, o retrato da morta que o túmulo engolira. Como se estivesse na rua do Ouvidor, não pude suster um pensamento mau e quase exclamei:
           Bela mulher!
          Estive a ver a fotografia e logo em seguida me veio à mente que aqueles olhos, que aquela boca provocadora de beijos, que aqueles seios túmidos, tentadores de longos contatos carnais, estariam àquela hora reduzidos a uma pasta fedorenta, debaixo de uma porção de terra embebida de gordura.
          Que resultados teve a sua beleza na terra? Que coisas eternas criaram os homens que ela inspirou? Nada, ou talvez outros homens, para morrer e sofrer. Não passou disso, tudo mais se perdeu; tudo mais não teve existência, nem mesmo para ela e para os seus amados; foi breve, instantâneo e fugaz.
          Abalei-me! Eu que dizia a todo o mundo que amava a vida, eu que afirmava a minha admiração pelas coisas da sociedade eu meditar como um cientista profeta hebraico! Era estranho! Remanescente de noções que se me infiltraram e cuja entrada em mim mesmo eu não percebera! Quem pode fugir a elas?
          Continuando a andar, adivinhei as mãos da mulher, diáfanas e de dedos longos; compus o seu busto ereto e cheio, a cintura, os quadris, o pescoço, esguio e modelado, as espáduas brancas, o rosto sereno e iluminado por um par de olhos indefinidos de tristeza e desejos...
          Já não era mais o retrato da mulher do túmulo; era de uma, viva, que me falava.
          Com que surpresa, verifiquei isso.
          Pois eu, eu que vivia desde os dezesseis anos, despreocupadamente, passando pelos meus olhos, na rua do Ouvidor, todos os figurinos dos jornais de modas, eu me impressionar por aquela menina do cemitério! Era curioso.
          E, por mais que procurasse explicar, não pude.

(Histórias e sonhos — 1920)

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Lima Barreto: obra reunida — volume 2 — 2ª edição revista, texto/apresentação Lima Barreto: A autoridade do malogro, de Lêdo Ivo, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A. B. C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Histórias e sonhos (contos, 1920), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros ...

sábado, 25 de janeiro de 2025

Carlos Pena Filho: Soneto da Sexta-Feira da Paixão *

 
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Morto. Como também já morre o dia.
Mas continua a ser noutros lugares?
Ou morto diariamente nos altares,
por ser diversa a morte que morria?

O corpo morto: azul melancolia
do mesmo azul perdido pelos ares,
vivo azul sobre os campos, sobre os mares,
sobre a clara manhã e a hora tardia.

Um corpo morto. Um corpo morto de homem,
igual a esses cadáveres da guerra
que as batalhas atraem e consomem?

Ou um que junta o mundo à sua sorte,
contempla a sombra em torno e desce à terra
e morre em solidão e vence a morte?


* Nota de Vasco de Castro Lima, organizador deste O Mundo Maravilhoso do Soneto: O original deste soneto foi encontrado “no bolso da calça” do poeta, quando este, no Recife, em 27 de junho de 1960, sofreu o acidente de automóvel de que resultaria sua morte, em 1º de julho seguinte (pág. 52 de “O Livro de Carlos”, de Edilberto Coutinho).
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Souto Pena Filho (1929 1960), pernambucano de Recife, formou-se pela Faculdade de Direito de Recife, foi advogado, poeta, jornalista e autor de letras de música; ainda criança, dos 8 aos 12 anos, residiu em Portugal com a mãe e irmãos, ali cursou o primário e de retorno a Recife cursou o secundário no Colégio Nóbrega; como jornalista, atuou no Diário de Pernambuco, no Diário da Noite e no Jornal do Commércio, de Recife, neste último era responsável por duas colunas: ‘Literatura’ e ‘Rosa dos Ventos’, fez reportagens, crônicas e veiculou alguns de seus poemas; suas obras: O Tempo de Busca (1952), Memórias do Boi Serapião (1956), A Vertigem Lúcida (1958), Livro Geral (1959); no círculo literário conviveu estreitamente com Manuel Bandeira, Joaquim Cardoso, João Cabral do Melo Neto, Gilberto Freire, Jorge Amado e outros; como compositor, fez parceria com Capiba, músico pernambucano, e letras de sua autoria também foram gravadas por Vanja Orico, Tito Madi, Nelson Gonçalves etc.; o poeta-compositor veio a morrer precocemente, vitimado por acidente automobilístico quando o carro em que estava foi atingido por um ônibus desgovernado.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

Alexandre O'Neill: Guichê 1

 
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Quando o burocrata trabalha é pior do que quando destrabalha.
Antes quero esperar, aquém guichê, que ele discuta toda a bola ou
pedal que tem para discutir
com os destrabalhadores dos seus colegas;
antes quero esperar pelo meu burocrata
do que ter a desilusão de o ver trabalhar para mim mal eu chegue.
Isso custa-me pés e cotovelos, cãibras e suspiros, repentinos ódios
vesgos,
projetos de cartas a diretores de vespertinos,
mas se o meu burocrata assomasse à copa do papel selado
e me convidasse, ato contínuo, a dizer ao que vinha pelo higiefone,
da boca não me sairia um pedido, mas um regougo,
e eu teria de ceder a vez
ao cigarro que me queimasse a nuca.
É preciso exercer a paciência e cultivar a doçura do canteiro do rosto,
enquanto o burocrata destrabalha.
Geralmente não serve de nada pigarrear ou dizer com voz-passadeira
“Fazmobséquio”.
Levantar-se-iam, além guichê, as sobrancelhas de, pelo menos, três
sujeitos.
Melhor será começar pelo globo que pende do teto
e que é um olho vazado sobrepujando a cena.
Melhor será observar como a mosca dos tinteiros
nele pousa as patinhas escriturárias.
Depois (lição de coisas!) baixar os olhos para o calendário mural
e ver quantas cruzes a azul ainda faltam para liquidar o mês.
A seguir, circunvagar o olhar para ir enquadrar noutra parede
um calendário perpétuo parado um mês atrás.
Também aqui há zelo e desmazelo.
Também aqui falta o tempo e sobra o tempo.
Por certo é o mantenedor do calendário em dia
o que está a vir para estes lados.
Já olhou para mim. Sorrio-lhe. Passou.
Volto ao globo e, geografia cega,
pergunto aos meus botões: “Onde será Paris?”.
Mas não é o terráqueo. É um abafador
que trago desde a infância e não abafou népia.
Rompeu-me a algibeira e não abafou népia.
Curvo-me, enfio a cabeça pelo guichê e, num assomo,
comando em voz clara e alta: TODOS AOS SEUS LUGARES!
Quebrei o encanto!
Os burocratas que destrabalhavam correm para mim à uma.
Trêmulo de prazer, pergunto a um deles: “É o senhor o meu?

(Entre a Cortina e a Vidraça — 1972)

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; Alexandre O’Neill (1924 1986), português e lisboeta, autodidata, fez os estudos liceais, frequentou a Escola Náutica (Curso de Pilotagem), trabalhou na Previdência ramo de seguros, em bibliotecas itinerantes da Fundação Gulbenkian, exerceu o ofício de técnico publicitário em várias empresas do ramo, foi poeta e ativista do Movimento Surrealista português; semanalmente e por algum tempo, escreveu crônicas para o Diário de Lisboa e, em períodos distintos, colaborou também no JL — Jornal de Letras, Artes e Idéias, revista Litoral, Mundo Literário, Seara Nova, Cadernos de Poesia, Vértice, Journal des Poètes, revista Unicórnio ...; em 1948, fundou o Grupo Surrealista de Lisboa, que acabou por se cindir, “por motivações estético-ideológicas”, dando origem ao Grupo Surrealista Dissidente; em ambos os grupos, os participantes atinham-se ao exercício, à criação e apresentação de colagens, poemas, esculturas e pinturas; em 1949, participou de manifestações surrealistas, publicou A Ampola Miraculosa (15 imagens com legendas, nas quais imagem e legenda nada tinham a ver uma com a outra, “sem que se estabelecesse um nexo lógico” entre ambas), obra que pode ser considerada paradigmática do movimento e foram lançados os primeiros números dos Cadernos Surrealistas; suas obras: Tempo de fantasmas (1951), No reino da Dinamarca (1958), Abandono vigiado (1960), Poemas com endereço (1962), Feira cabisbaixa (1965), De ombro na ombreira (1969), Entre a cortina e a vidraça (1972), A saca de orelhas (1979), Dezanove Poemas (1983), O Princípio da Utopia (1986), todos de poesia, As Andorinhas não Têm Restaurante (narrativa, 1970), Uma Coisa em Forma de Assim (crônicas, 1980), ambos em prosa, ...; Alexandre O’Neill também foi organizador de antologias poéticas de Gomes Leal, Teixeira de Pascoaes, João Cabral de Melo Neto, Vinicius de Moraes e Carl Sandburg, deste último foi também tradutor; recebeu premiações por sua arte literária, teve obras traduzidas para o idioma italiano; por sua participação e posicionamento político-ideológico, contra o Estado Novo português, e de resto contra o fascismo e o nazismo que campeava a Europa, o poeta foi preso várias vezes pela PIDE, a polícia política da ditadura salazarista, chegando a ter o passaporte cassado, devolvido longo tempo depois, o que o proibia de deixar o país naquele período.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Fabián Restivo: Palavras para depois: Conversas com Pepe Mujica — Eu o tive na mira, me olhou e não consegui atirar

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[traduzido por Rogério Tomaz Jr.]

Que Pepe ensaie uma resposta ou raciocínio com calma, balbuciando, e vá alimentando o próprio fogo até falar, agitando os braços, é uma coisa cotidiana. Em tempos de palavras complicadas, ele insiste na facilidade. E isso também funciona ao contrário, procurando palavras simples como se as que usamos não fossem rudimentares o suficiente. Ele vai até o mais impossivelmente simples, primário, certificando-se de [que] seja entendido e aí, sem pensar, deixa escapar a opinião: “São uns pelotudos” e pronto. Então a conversa vai para onde os cavalos querem. Um pouco de história, previsões meteorológicas, alguma história dos seus dias de prisão, apesar de termos nos proposto a não falar nisso “porque já é chato” e silêncios que não há por que preencher além de ”enfim... as coisas são assim”, enquanto uma rajada de vento sopra com folhas e pardais e o cachorro preto que sempre passa latindo para mim.
          Pepe, faz uns vinte dias chamei o Daniel por telefone e perguntei de você, sempre pergunto de você. Digo: “Como está o velho?”, “Olha”, me disse, “está preocupado e está reclamando”. E imaginei alguma coisa grave, sei lá, aí pergunto pra ele: “O que aconteceu?”... E me diz: “Parece que tem uma raposa que come as galinhas, sei lá, um animal que entra e come as galinhas. Então caminhamos a manhã inteira procurando por ele”. Como você combina sua preocupação com a humanidade, seu desejo de resolver a questão da universidade e as questões de Estado que você ainda tem com esse hábito de sair para o galinheiro às três da tarde para correr atrás da raposa que come suas galinhas ou pegar o trator? Convenhamos quem não é comum.
           Não, não é comum. Primeiro, sou um camponês de alma. Se eu tivesse que me definir, sou algo como um terrão com pernas. Um problema ocasional. Em segundo lugar, tenho um respeito bárbaro pela vida e não gosto que os animais sofram e menos ainda os animais que estamos explorando. Porque os animais sentem. Como nós, eles têm sentimentos, dor, angústia, eles têm tudo mais. O fato dos animais não terem consciência e não terem desenvolvimento não significa que não tenham sensibilidade. E eu sou um filho da puta se não me preocupo, se os exploro e também os faço sofrer por nada, entende? Porque eles estão presos aí. Dependem da comida que levo. É um momento de satisfação e alegria, além de serem essenciais. Porque a vida não é só para mim. É para toda a natureza. É um problema filosófico, não um problema econômico. Mas as pessoas que não cuidam dos animais me irritam, porque o sangue italiano esquenta. Comeram todos os meus rabanetes, me causaram um dano bárbaro. Mas não é culpa dos animais, é culpa da estupidez humana. Mas estou cercado por pessoas que não têm isso. Então eles têm uma galinha que não sei para quê... alguns patos que não sei para quê... alguns coelhos que também não sei para quê. Eles os criam porque são lindos, mas depois não podem matá-los para comer porque dizem: “como vou matá-lo?”, “coitadinho”, e isso e aquilo. Não é maldade ou bondade, mas uma maneira de ver as coisas. Eles não dão bola para eles. Mas também tive muitos presos. Estes estão presos. Os animais domésticos são muito dependentes do que fazemos ou deixamos de fazer. E quando não fazemos o que eles precisam, estamos fazendo com que sofram por nada. Se os trata bem, eles vão compensá-lo. Se os trata mal, também não o compensarão.
           Afinal, não era uma raposa?
           Não, era um coelho! Vários coelhos escaparam de um vizinho e entraram na minha estufa. Passei dias procurando e procurando, e eles destruíram tudo! Até que me esquentei e fui procurá-los com a espingarda. E encontrei um, comendo. Fiquei quieto e mirei nele, e assim que o tive na mira, ele se virou e olhou para mim. E não consegui atirar. Agora tenho muitos coelhos que dou de presente, mas é isso... aí estão eles.

(Conversas com Pepe Mujica... pág. 22)

Fabián Restivo
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Palavras para depois: Conversas com Pepe Mujica — Fabián Restivo, Tradução de Rogério Tomaz Jr., texto da quarta-capa por Olívio Dutra, 1ª edição, outono de 2024, Editora Coragem, Porto Alegre — RS; Fabíán Restivo, nascido em 1961, argentino, ‘autointitulado “um fotógrafo que escreve”’, é jornalista, escritor, fotógrafo, documentarista e cineasta; frequentou a Universidad Mayor de San Andrés La Paz, Bolívia, escreve para o jornal argentino Página 12; o autor deste Palavras para depois: Conversas com Pepe Mujica tem “mais de 40 anos de carreira e obras publicadas internacionalmente”, foi fotógrafo do documentário Adiós, comandante Che (dirigido e roteirizado por Edgardo Cabeza, 1997) e também dirigiu o documentário Conversas com Pepe Mujica (2024); Fabián Restivo ainda realizou outros trabalhos "nos mais variados formatos, inclusive direção de teatro ou programas de canais de televisão".

José Alberto “Pepe” Mujica Cordano, nascido em 1935, uruguaio de Paso de La Artena Montevidéo, é político e agricultor, foi presidente do Uruguai (2010 2015), senador (2015 2018), combatente contra a ditadura militar uruguaia, guerrilheiro e membro do então Movimiento de Libertación Nacional Tupamaros, na década de 1960 1970, época em que foi preso algumas vezes, na última permanecendo recluso por 13 anos, tendo sido libertado em 1985, ao ser anistiado no final do período ditatorial; foi presidente pro tempore do Mercosul em 2013, reside em Rincón del Cerro, Montevidéo Uruguai; Pepe Mujica já havia sido deputado por Montevidéo (1994), senador (1999), ministro da Agricultura, Pecuária e Pesca (2005).

quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

Giosuè Carducci: A Giuseppe Garibaldi

 
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[traduzido por Jamil Almansur Haddad]

O ditador diante do lúgubre
esquadrão é revolto e tácito,
cavalga; firmamento e terra
pálidos, plúmbeos, frios em torno.

Dos seus cavalos cascos ouviam-se
calcar a lama enquanto eram trêmulos
passos cadentes e suspiros
de heróicos peitos dentro da noite.

Porém das leivas da noite lívida,
porém dos brotos de sangue róridos,
por onde havia mesquinha fibra,
ó mães itálicas, do peito vosso,

tal como estrelas surgiam flâmulas,
surgiam vozes tal como cânticos.
Roma esplendia olímpica ao fundo,
corria pelo céu um peã.

Surge em Mentana o horror dos séculos,
de Pedro e César amplexo fúnebre.
Tu, Garibaldi, ora em Mentana
César e Pedro calcaste aos pés.

Ó de Aspromonte rebelde esplêndido,
ó de Mentana soberbo víndice,
vem e narra Palermo e Roma
no Capitólio para Camilo.

Como as arcanas vozes de espíritos,
ia a correr pelo céu de Itália,
o dia em que uivaram os vis
cães temerosos da ação da vara.

Hoje te adora a Itália, invocando-te
a nova Roma que és novo Rômulo;
sobes, divino: e paire longe
de tua fronte a mudez da morte.

Das almas vai assoprando o vértice,
ó refulgente, chamam-te os séculos
às alturas do almo concílio,
o dos indígetes numes da pátria.

Sobes. E Dante diz a Virgílio:
“Nunca pensamos formas mais fúlgidas
de herói.” Di-lo Lívio e sorri:
“Ele é da história, ó poetas.

“Da história cívica de nossa Itália,
é esta audácia tenace lígure;
que só defende o justo e o alto,
mira irradiante por sobre o ideal.”

Glória a ti, pai. No torvo frêmito
já sopra do Etna e sopra dos vórtices,
dos Alpes teu peito de leão,
oposto aos bárbaros como os tiranos.

Brilha o teu peito suave no cérulo
riso do mar do céu dos flóridos
maios difuso sobre os sepulcros
que nunca olvidam os seus heróis.

(Odes Bárbaras)

Giosuè Carducci

A Giuseppe Garibaldi
III novembre MDCCCLXXX

Il dittatore, solo, a la lúgubre
schiera d’avanti, ravvolto e tacito
cavalca: la terra ed il cielo
squallidi, plumbei, freddi intorno.

Del suo cavallo la pésta udivasi
guazzar nel fango: dietro s’udivano
passi in cadenza, ed i sospiri
de’ petti eroici ne la notte.

Ma da le zolle di strage livide,
ma da i cespugli di sangue roridi,
dovunque era un povero brano,
o madri italiche, de i cuor vostri

salíano fiamme ch’astri parevano,
sorgeano voci ch’inni suonavano:
splendea Roma olimpica in fondo,
correa per l’aëre un peana.

― Surse in Mentana l’onta de i secoli
dal triste amplesso di Pietro e Cesare:
tu hai, Garibaldi, in Mentana
su Pietro e Cesare posto il piede.

O d’Aspromonte ribelle splendido,
o di Mentana superbo vindice,
vieni e narra Palermo e Roma
in Capitolïo a Camillo.

Tale un’arcana voce di spiriti
correa solenne pe ’l ciel d’Italia
quel dí che guairono i vili,
botoli timidi de la verga.

Oggi l’Italia t’adora. Invòcati
la nuova Roma novello Romolo:
tu ascendi, o divino: di morte
lunge i silenzii dal tuo capo.

Sopra il comune gorgo de l’anime
te rifulgente chiamano i secoli
a le altezze, al puro concilio
de i numi indigeti su la patria.

Tu ascendi. E Dante dice a Virgilio:
“Mai non pensammo a forma piú nobile
d’eroe„. Dice Livio, e sorride,
“È de la storïa, o poeti.

De la civile storia d’Italia
è quest’audacia tenace ligure,
che posa nel giusto, ed a l’alto
mira, e s’irradia ne l’ideale”.

Gloria a te, padre. Nel torvo frêmito
spira de l’Etna, spira ne’ turbini
de l’alpe il tuo cor di leone
incontro a’ barbari ed a’ tiranni.

Splende il soave tuo cor nel cerulo
riso del mare del ciel de i floridi
maggi diffuso su le tombe
su’ marmi memori de gli eroi.

(1877)

(Ode Barbare — Libro primo, 1880)
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Poesias Escolhidas: Giosuè Carducci, Tradução e Notas de Jamil Almansur Haddad, Estudo Introdutivo e Vida e Obra de Giosuè Carducci, por Paul Renucci, Ilustrações de Michel Cauvet e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Giosuè Carducci, por Gunnar Ahlström — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1971, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Giosuè Alessandro Giuseppe Carducci ou Joshua Carducci (1835 1907), italiano de Val di Castello, comuna de Pietrasanta, hoje Pietrasanta-Carducci, estudou na Scuola Normale de Pisa, formou-se em Filosofia e Filologia, além de ter sido professor por quase meio século, foi poeta e crítico; até os quatorze anos, Carducci não teve outro mestre além de seus pais o pai, médico “sem fortuna”, era “sustentado por uma clientela camponesa miserável” e também não era favorecido na busca de uma “clínica mais afortunada”, por suas opiniões políticas junto às comunidades por onde passava, assim vivia mudando de localidade e de sede de clínica; foi em Florença, já aos quatorze anos, que o poeta passou a frequentar o colégio Scuole Pio, fez dois anos de retórica, escreveu seus primeiros sonetos, depois frequentou um curso de ciências e continuou com seus estudos“, o gosto já adquirido pela leitura cresceu, leu Os Noivos, de Manzoni, os épicos Ilíada, Eneida, Jerusalém Libertada, os “poemas cavaleirescos” Orlando Amoroso, de Boiardo, e Orlando Furioso, de Ariosto; deu aulas em estabelecimentos secundários de San Miniato al Tedesco e Pistóia e, desde os vinte e cinco anos, lecionou Literatura italiana na Faculdade de Letras da Universidade de Bolonha; também escreveu poemas por quase meio século o primeiro que se tem conservado, A Dio, um soneto a Deus, foi escrito em maio de 1848, e o último, uma quadra, O Castelo de São Martinho, traz a data de 10 de novembro de 1902; suas obras: em poesia: Rime (1857), Levia Gravia [1857-1870] (1868), Poesie (edição, num só volume, de Deccenalli [1860-1870], Levia Gravia [1857-1870] e Juvenilia [1850-1857], 1871), Primavere elleniche (1872), Nuove poesie (1873, e 2ª edição melhorada e aumentada, 1875), Odi Barbare (primeira série, 1877), Juvenilia [1850-1857] (edição definitiva, 1880), Nuove Odi Barbare (1882, 2ª edição melhorada e aumentada, 1886), Ça Ira (1883), Rime Nuove (1887), Terze Odi Barbare (1889), Rime e Ritme (1899), em prosa: Ricordi Autobiografici, Saggi e Frammenti [1850-1907], Prose Giovanili [1851-1859], Primi Sagi [1857-1865], Poeti e Figure del Risorgimento [1858-1901], Petrarca e Boccacio [1861-1882], Scritti di Storia e di Erudizione [1862-1895], Dante [1864-1904], Discorsi Letterari e Storicci [1868-1897], Leopardi e Manzoni [1873-1898], todas publicadas entre 1940 e 1942, além de outras publicações e reedições em verso e prosa; Giosuè Carducci foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1906.