terça-feira, 31 de agosto de 2021

Elizabeth Bishop: Certa Arte

 
____________________
[traduzido por Paulo Nogueira Batista Jr.]*

A arte de perder não é difícil de aprender;
tantas coisas parecem repletas da intenção
de serem perdidas que sua perda não é nenhum desastre.

Perca algo todo dia. Aceite a afobação
de chaves perdidas, a hora mal empregada.
A arte de perder não é difícil de aprender.

Pratique então perder mais fundo, perder mais rápido:
lugares, e nomes, e para onde você queria viajar.
A arte de perder não é difícil de aprender.

Perdi o relógio de pulso de minha mãe.
E olhe só! a minha última,
ou penúltima, de três casas queridas, se foi.
A arte de perder não é difícil de aprender.

Perdi duas cidades, lindas. E, mais ainda,
reinados que tinha, dois rios, um continente.
Sinto falta deles, mas não foi um desastre.

Mesmo perder você (a voz alegre, um gesto
que amo) não terei mentido. É evidente
a arte de perder não é tão difícil de aprender,
embora pareça (Escreva!) um desastre.

Elizabeth Bishop

One Art

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent 
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident 
he art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.

* Nota deste Verso e Conversa: Sobre a tradução, o atrevido aprendiz de blogueiro desta página faz constar que, na crônica Certa Arte, Paulo Nogueira Batista Jr. deixa registrado que “Poesia é, por definição, aquilo que resiste, heroica e obstinadamente, à tradução. Perder a rima, a musicalidade da rima, é uma perda irreparável, eu sei. Há quem questione se vale a pena traduzir assim. Encontrei na internet algumas traduções do poema que procuram recriar as rimas em português, mas são desastrosas. Melhor nem ter tentado. Creio que consegui preservar, pelo menos, o ritmo e o sentido.”
____________________
CartaCapital nº 1171 — 25 de agosto de 2021: poema traduzido por Paulo Nogueira Batista Jr, colunista/cronista da revista; Elizabeth Bishop (1911 1979), estadunidense de Worcester, Massachusets, foi poeta e escritora; viveu no Brasil entre 1951 e 1969, residindo no Rio de Janeiro e em Petrópolis e, depois, em Ouro Preto, onde adquiriu uma casa; escreveu reportagens para a revista Time-Life, reunidas na obra Brasil; suas obras: North & South (1946), A Cold Spring Poems: North & South — A Cold Spring (1955), Questions of Travel (com numerosos poemas feitos no Brasil, 1965), The Complete Poems (1969), Geography III (1976), Edgar Allan Poe & The Juke-Box: Uncollected Poems, Drafts, and Fragments (editado e anotado por Alice Quinn, 2006) e outros textos; verteu para o inglês poemas de Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Morais, Manuel Bandeira, João Cabral do Melo Neto, Joaquim Cardozo, os quais constaram de uma edição por ela organizada, An Anthology of Twentieth-Century Brazilian Poetry (1972), em parceria com Emanuel Brasil; recebeu prêmios por sua obra, entre os quais o Pulitzer e o National Book Award; em sua estada em terras brasileiras, Elizabeth Bishop envolveu-se amorosamente com a arquiteta autodidata e paisagista Lota de Macedo Soares (Maria Carlota), com quem passou a conviver, e cuja história é mostrada no filme Flores Raras (2013), dirigido por Bruno Barreto, e tendo no elenco a atriz Gloria Pires como Lota, e a atriz australiana Miranda Otto representando a poeta.

Glauco Mattoso: Soneto temporal

____________________
882

Telégrafo, esperanto e sinfonia
têm campo universal, mas com os anos
reduzem seu alcance entre os humanos
e tendem à mudez, que só se adia.

Enquanto a língua morta inda se ouvia,
reinava um idioma, o dos romanos,
de cuja “pax” se queixam os tiranos
da Ibérica Península à Turquia.

Se “Graecum est, non legitur” faz
tão pouco caso da cultura helena,
o inglês hoje não fica muito atrás.

Não tarda, “English is dead!” e sai de cena,
deixando de nutrir o rock e o jazz,
tão logo cai o dólar... Não é pena?

____________________
As Mil e Uma Línguas — Série Mattosiana, Volume 3, Glauco Mattoso, 2008, Dix Editorial — Annablume, São Paulo — SP; Glauco Mattoso, ou Pedro José Ferreira da Silva, nascido em 1951, paulista e paulistano, é poeta, ensaísta, ficcionista e articulista em diversas mídias; seu pseudônimo e nome artístico trocadilha com "glaucomatoso" (portador de glaucoma, doença congênita que lhe acarretou perda progressiva da visão, até a cegueira total em 1995); cursou Biblioteconomia (Escola de Sociologia e Política, São Paulo) e Letras Vernáculas, na USP São Paulo; tem publicado uma extensa obra poética e outros textos: Jornal Dobrábil — de 1977 a 1981 (compilado em um único volume pela Iluminuras, São Paulo SP, em 2001), Revista Dedo Mingo (duas parcelas, 1982, completa o Jornal Dobrábil), Memórias de um Pueteiro: As Melhores Gozações de Glauco Mattoso (poemas, 1982, Edições Trote, Rio de Janeiro RJ), Línguas na Papa (poemas, 1982, Edições Pindaíba, São Paulo SP), Paulisséia Ilhada: Sonetos Tópicos (1999, Ciência do Acidente, São Paulo SP), Geléia de Rococó: Sonetos Barrocos (1999, Ciência do Acidente, São Paulo SP), Panacéia — Sonetos Colaterais (2000, Nankin Editorial, São Paulo SP), Melopéia: Sonetos Musicados (2001, compact-disc, com diversos compositores e intérpretes, Rotten Records, São Paulo SP), O que é Poesia Marginal (ensaio, 1981, Editora Brasiliense, São Paulo SP), O que é Tortura (ensaio, 1984, Editora Brasiliense, São Paulo SP), O Calvário dos Carecas: História do Trote Estudantil (ensaio, 1985, EMW Editores, São Paulo SP) etc etc etc, e bota etecetera nisso; colaborou em vários jornais e revistas da imprensa alternativa e em diversos periódicos literários, e ainda colabora; Pedro José Ferreira da Silva, hoje bancário aposentado, foi funcionário do Banco do Brasil; é sonetista inveterado.

domingo, 29 de agosto de 2021

Nicolau Tolentino de Almeida: Em escura botica encantoados, . . . [soneto]

 
____________________
Em escura botica encantoados,
Ao som de grossa chuva que caía,
Passavam de janeiro um triste dia
Dois ginjas no gamão encarniçados;

"Corra, vizinho, corra-me esses dados,"
Gritava um deles que nem bóia via;
De sangue frio o outro lhe dizia
Mil anexins naquele jogo usados;

Dez vezes falha o mísero antiquário;
E ardendo em fúria o trêmulo velhinho,
Atira cuma tábula ao contrário;

O mal seguro golpe erra o caminho;
Quebra a melhor garrafa ao boticário,
Que foi só quem perdeu no tal joguinho.

____________________
30 Séculos de Poesia — de IX a.C. até o Século XVIII, Organização, Prefácio e Notas de Ary de Mesquita, 1966, Edições de Ouro, Rio de Janeiro — RJ; Nicolau Tolentino de Almeida (1740 — 1811), português e lisboeta, estudou Leis na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, foi professor de Retórica, funcionário da Secretaria de Estado dos Negócios do Reino, escritor e poeta humorístico e satírico da Nova Arcádia lusitana; Tolentino, embora tivesse frequentado por muitos anos os bancos da faculdade de Direito, não chegou a se formar; suas primeiras composições vindas a público foram sátiras descritivas, sonetos e odes constantes em publicação anual da Tipografia Rollandiana, entre 1779 e 1783; obras: Miscelânea Curiosa e Proveitosa, Bilhar, Passeio, Função, Guerra, Amantes, Obras Poéticas (dois tomos, 1801); consta de sua biografia ter-lhe valido o apelido de Poeta Pedinchão, uma vez que era um seu costume queixar-se amarga e frequentemente da sua penúria financeira, penúria essa agravada com a vinda da família real portuguesa e sua corte para o Brasil, em 1807; morreu solteiro e sozinho em Lisboa.

sábado, 28 de agosto de 2021

Púchkin: O eco

 
____________________
[traduzido por José Casado]

Se na floresta fera urrar,
Se guampa ouvir-se ou trovão soar,
Se moça além morro cantar,
A cada som
Tens ricochete no ermo ar,
Súbito e bom.

Atenção prestas ao fragor,
De onda e procela ao estridor,
Aos gritos de um e outro pastor,
O eco a atender;
Não há fugir… Poeta, cantor,
Tal é teu ser.

(1831)

Aleksandr Púchkin

ЭХО

Ревет ли зверь в лесу глухом,
Трубит ли рог, гремит ли гром,
Поет ли дева за холмом
На всякой звук
Свой отклик в воздухе пустом
Родишь ты вдруг.

Ты внемлешь грохоту громов
И гласу бури и валов,
И крику сельских пастухов
И шлешь ответ;
Тебе ж нет отзыва… Таков
И ты, поэт!

(1831)
____________________
Poesia de Todos os Tempos: Púchkin — Poesias escolhidas, edição bilíngue, Seleção, Tradução do russo, Prefácio, Traços biobliográficos, Notas e Apêndice (Olavo Bilac, tradutor de Púchkin) de José Casado, 1992, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Aleksandr Serguéievitch Púchkin (1799 1837), russo de Moscou, foi poeta, romancista e dramaturgo; de família nobre, educado desde o berço por preceptores vindos de Paris França e devido ter tido acesso à biblioteca paterna, quase toda de literatura francesa, aprendeu o francês antes mesmo de conhecer a língua dos pais; à época, os integrantes da nobreza russa conversavam com seus pares quase sempre em francês: o idioma russo era reservado para a comunicação com os servos; o poeta e escritor veio a aprender o russo com uma avó e com uma serva da família; em 1811, ingressou no Tsarskoye Selo Lyceum, recém-inaugurado e, a partir daí, começou a escrever e divulgar seus poemas; suas obras: em poesia, Ruslan e Lyudmila (18171820), Prisioneiro do Cáucaso (18201821), Ladrões de irmãos (18211822), Ciganos (1824), Conde Nulin (primeira edição, 1825), Poltava (18281829), Uegene Oneguin (novela em verso, 18231832) etc, em dramaturgia, Boris Godunov (1825), O Cavaleiro Malvado, Mozart e Salieri, Convidado de pedra (todos de 1830) ..., em prosa, O conto do falecido Ivan Petrovich Belkin (1830), Dubrovsky (1833), A Rainha de Espadas, História de Pugachev (ambos em 1834), Noites egípcias (1835), Filha do Capitão (1836) etc. além de contos de fadas e outros textos em verso e prosa e para dramaturgia; o poeta, desafiado por um contendor e desafeto a duelar, aceitou o desafio e, no dia 8 de fevereiro de 1837, foi ferido, vindo a morrer dois dias após; Púchkin nos deixou muitas obras inacabadas; é considerado por seus contemporâneos como o maior dos poetas russos.

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

Samuel Taylor Coleridge: Kubla Cão, ou uma visão num sonho

 
____________________
[traduzido por Oswaldino Marques]

            Em Xanadu, o Kubla Cão
            Mandou construir soberbo palácio;
            Lá onde corria o rio sagrado Alph
            Através de cavernas ao homem insondáveis
                  Até desaguar em tenebroso mar.

            Assim, dez milhas de férteis terras
      De muros e torres foram circundadas;
Em jardins onde coruscavam sinuosos regatos
Muitas árvores floriam, transbordantes de aroma;
E florestas antigas como colinas
Cingiam áreas de verdura cheias de sol.

Mas, oh! o despenhadeiro romântico e torvo que, em declive,
Cortava o outeiro verde sob a fronde dos cedros!
Agreste lugar! tão divino e encantado
Como o que jamais visitou, sob a lua minguante,
Mulher em lágrimas a clamar por seu amante, o demônio!
E deste precipício, a ferver, num tumulto incessante,
Como se em bruscos arquejos a terra palpitasse,
De quando em quando irrompia impetuoso repuxo;
De roldão com os céleres, intermitentes jatos,
Enormes blocos saltavam como saraiva açoitada,
Ou palha de cereal espancado na eira;
E, com as rochas em torvelinho, súbito o sorvedouro
Vomitava por momentos o rio sagrado.
Cinco milhas coleando num dédalo de curvas
Por entre bosques e gargantas a torrente fluía
Até chegar às furnas ao homem inescrutáveis
Para submergir revolto num oceano sem vida;
E em meio ao tumulto Kubla ao longe ouvia
Vozes ancestrais profetizando a guerra!

      O reflexo deste palácio de delícias
      Flutuava a meio caminho sobre as ondas;
      Lá onde se ouvia a cadência entremeada
      Que procedia das cavernas e da fonte
Era um milagre de engenho sem par:
Um palácio ao sol com grutas de gelo!

      Uma donzela com uma cítara
      Vi certa vez num sonho;
      Era uma virgem da Abissínia
      A tanger seu instrumento
      Exaltando o monte Abora.
      Pudesse eu acordar em mim
      Sua música, sua canção,
Tal deleite me arrebataria
Que, com longas, veementes harmonias,
Ergueria esse palácio no ar,
Oh, esse palácio ao sol! Essas grutas de gelo!
E todos clamariam: “Tomai, tomai cuidado!
Com seu olhar dardejante, sua cabeleira ao vento!
Traçai três vezes um círculo em torno dele,
E cerrai os olhos com reverendo temor,
Pois ele nutriu-se de orvalho de mel
E bebeu o leite do Paraíso.”

Samuel T. Coleridge

Kubla Khan: or, a vision in a dream

[A Fragment]

      In Xanadu did Kubla Khan
      A stately pleasure-dome decree:
      Where Alph, the sacred river, ran
      Through caverns measureless to man
            Down to a sunless sea.
So twice five miles of fertile ground
With walls and towers were girdled round:
And there were gardens bright with sinuous rills,
Where blossomed many an incense-bearing tree;
And here were forests ancient as the hills,
Enfolding sunny spots of greenery.
But oh! that deep romantic chasm which slanted
Down the green hill athwart a cedarn cover!
A savage place! as holy and enchanted
As e’er beneath a waning moon was haunted
By woman wailing for her demon-lover!
And from this chasm, with ceaseless turmoil seething,
As if this earth in fast thick pants were breathing,
A mighty fountain momently was forced;
Amid whose swift half-intermitted burst
Huge fragments vaulted like rebounding hail,
Or chaffy grain beneath the thresher’s flail:
And ‘mid these dancing rocks at once and ever
It flung up momently the sacred river.
Five miles meandering with a mazy motion
Through wood and dale the sacred river ran,
Then reached the caverns measureless to man,
And sank in tumult to a lifeless ocean:
And ‘mid this tumult Kubla heard from far
Ancestral voices prophesying war!

The shadow of the dome of pleasure
            Floated midway on the waves;
Where was heard the mingled measure
            From the fountain and the caves.
It was a miracle of rare device,
A sunny pleasure-dome with caves of ice!

      A damsel with a dulcimer
      In a vision once I saw:
      It was an Abyssinian maid,
      And on her dulcimer she play’d,
      Singing of Mount Abora.
      Could I revive within me
      Her symphony and song,
To such a deep delight ‘twould win me,
That with music loud and long,
I would build that dome in air,
That sunny dome! those caves of ice!
And all who heard should see them there,
And all should cry, Beware! Beware!
His flashing eyes, his floating hair!
Weave a circle round him thrice,
And close your eyes with holy dread,
For he on honey-dew hath fed,
And drunk the milk of Paradise.
____________________
Poemas Famosos da Língua Inglesa [diversos autores], Compilação, Tradução, Prefácios das 1ª e 2ª edições e Notas de Oswaldino Marques, edição bilíngue, volume 599 da Coleção Antologia de Poetas Universais, 1968, Edições de Ouro, Rio de Janeiro — RJ; Samuel Taylor Coleridge (1772 1834), inglês de Ottery St. Mary, Devonshire, frequentou a Christ’s Hospital Scholl, em Londres, e o Jesus College da University of Cambridge, foi poeta do Romantismo e crítico literário; publicou seus primeiros poemas em 1796; obras: Poems on various subjects [or Sonnets from Various Authors] (1796), Lyrical Ballads (em conjunto com o poeta William Wordsworth, 1798), Biographia Literaria (crítica literária, 1817), Sibylline Leaves (1817), Aids to Reflection (1825), Church and State (1830) e outros textos; a obra Lyrical Ballads (1798), vinda a público com três poemas de Coleridge e outros dezessete do poeta e amigo Wordsworth, e em cuja 2ª edição fora acrescida de um Prefácio de autoria de Wordsworth, é considerada um marco inicial do movimento Romantismo na Inglaterra.

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

Góngora: Não destroçada nave em rocha dura* . . . [soneto]

____________________
[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]

24 1584

Não destroçada nave em rocha dura
tocou a praia mais arrependida,
nem passarinho da rede estendida
mais temeroso voou para a espessura;

bela ninfa, uma planta mal segura,
nem tão alvoroçada nem doída,
furtou do verde prado, que escondida
víbora regalava em sua verdura,

como eu, Amor, da condição irada,
das ruivas tranças e da vista bela
fugindo vou, com pé já desatado,

dessa inimiga minha em vão louvada.
Adeus, ninfa cruel; ficai com ela,
rocha dura, áurea rede, alegre prado.


24 1584

       No destrozada nave en roca dura
tocó la playa más arrepentida,
ni pajarillo de la red tendida
voló más temeroso a la espesura;

       bella ninfa la planta mal segura,
no tan alborotada ni afligida,
hurtó de verde prado, que escondida
víbora regalaba en su verdura,

       como yo, Amor, la condición airada,
las rubias trenzas y la vista bella
huyendo voy, con pie ya desatado,

       de mi enemiga en vano celebrada.
adiós, Ninfa cruel; quedáos con ella,
dura roca, red de oro, alegre prado.

* Nota do tradutor Péricles Eugênio da Silva Ramos: O soneto observa a técnica da semeadura e colheita: a primeira e a segunda estrofes são arrecadadas no verso final. Salcedo Coronel aponta reminiscências de Petrarca e de Monsenhor de la Casa.
____________________
Poemas de Góngora — Tradução, Introdução e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, edição bilíngue, 1988, Art Editora, São Paulo — SP; Luis de Góngora y Argote (1561 1627), espanhol de Córdoba, foi poeta do período barroco, considerado líder da corrente literária autodenominada cultismo e desenvolvedor de um estilo, o gongorismo, reconhecido pelo uso sistemático continuado de ‘hipérboles, metáforas obscuras e dubiedades’ em seus textos; fez estudos religiosos em Salamanca e ordenou-se sacerdote; sabia latim, italiano e português; obras: Fábula de Polifemo y Galatea (1612 1613), Soledades (1612 1613), Panegírico Al Duque de Lerma (1617), Fábula de Píramo y Tisbe (1618); Góngora, além dos sonetos e dos romances poéticos, também compôs duas peças teatrais.

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Giacomo Leopardi: Eu que vagando em torno da portada . . .

 
____________________
[traduzido por Alexei Bueno]

Fragmento XXXVIII

Eu que vagando em torno da portada
Em vão a chuva invoco e a tempestade
Para retê-la dentro da morada.

Mas no bosque ia o vento sem piedade
E entre as nuvens mugia o troar errante
Sem que no céu raiasse a claridade.

Ó céu, terra, verdor, nuvem vagante,
Minha amada se vai: piedade, cruenta
Terra em que raro a encontra um triste amante.

Ergue-te, turbilhão, agora, e intenta
Submergir-me, negror, agora, enquanto
A outras terras o sol não se apresenta.

Raia o céu, finda o sopro, em cada canto
Repousam a erva e a fronde, e me deslumbra
Com suas luzes o Sol cheias de pranto.

Giacomo Leopardi

Frammento XXXVIII

[Io qui vagando]

Io qui vagando al limitare intorno,
Invan la pioggia invoco e la tempesta,
Acciò che la ritenga al mio soggiorno.

Pure il vento muggia nella foresta,
E muggia tra le nubi il tuono errante,
Pria che l’aurora in ciel fosse ridesta.

O care nubi, o cielo, o terra, o piante,
Parte la donna mia: pietà, se trova
Pietà nel mondo un infelice amante.

O turbine, or ti sveglia, or fate prova
Di sommergermi, o nembi, insino a tanto
Che il sole ad altre terre il dì rinnova.

S’apre il ciel, cade il soffio, in ogni canto
Posan l’erbe e le frondi, e m’abbarbaglia
Le luci il crudo Sol pregne di pianto.

Canti — 1831
____________________
Cinco séculos de poesia (diversos autores) — poemas traduzidos, Tradução e Prefácio de Alexei Bueno, edição bilíngue, 2013, Editora Record, São Paulo — SP; Giacomo Leopardi (1798 1837), italiano de Recanati, incentivado pelo pai e com uma vasta biblioteca à sua disposição, desde os seis anos de idade estudou com preceptores, aprendeu latim, grego, hebraico, francês e outras línguas modernas, cultivou interesses filológicos, traduziu e comentou os clássicos que lia (Homero, entre outros), foi ensaísta, filólogo e poeta; obras: Storia dell’astronomia (1813), Saggio sopra gli errori popolari degli antichi (1815), Canti (coleção de poemas, 1ª edição em 1831) e outras obras em prosa, estudos e pensamentos.

terça-feira, 24 de agosto de 2021

Victor Hugo: O Pesadelo

 
____________________
[traduzido por Jamil Almansur Haddad]

Sobre o meu seio arfante e a cabeça inclinada,
Ele veio esta noite devagar;
Pousando a mão de chumbo em minha alma encadeada,
E na sombra a mostrava, feito flor fanada,
                Aos duendes da hora vesperal.

E vai tomando o monstro vinte formas novas;
Logo ele dá a impressão de uma água em desafogo;
Ora o seu riso rompe em vermelho de brasas;
Dois clarões traz no olhar, duas chamas nas asas;
                E voa num lago de fogo.

Como um impuro espelho de tênebras moventes
Repetem sua imagem bem num círculo em torno;
Sua fronte se perde entre vapores vivos;
E o sono vai enchendo de vagos temores
                E deixa à alma o tédio mais morno.

Virgem, o teu repouso é uma verdade pura.
A noite bem ligeira corre ao teu abandono.
Nunca o teu coração terá um sonho hediondo;
Quando tua alma ao céu voa num longo sonho,
                Um anjo é que guarda o teu sono.

Victor Hugo

Le cauchemar

[Ode septième]

Sur mon sein haletant, sur ma tête inclinée,
Écoute, cette nuit il est venu s'asseoir;
Posant sa main de plomb sur mon âme enchaînée,
Dans l'ombre il la montrait, comme une fleur fanée,
                Aux spectres qui naissent le soir.

Ce monstre aux éléments prend vingt formes nouvelles,
Tantôt d'une eau dormante il lève son front bleu;
Tantôt son rire éclate en rouges étincelles;
Deux éclairs sont ses yeux, deux flammes sont ses ailes;
                Il vole sur un lac de feu!

Comme d'impurs miroirs, des ténèbres mouvantes
Répètent son image en cercle autour de lui;
Son front confus se perd dans des vapeurs vivantes;
Il remplit le sommeil de vagues épouvantes,
                Et laisse à l'âme un long ennui.

Vierge! ton doux repos n'a point de noir mensonge.
La nuit d'un pas léger court sur ton front vermeil.
Jamais jusqu'à ton coeur un rêve affreux ne plonge;
Et quand ton âme au ciel s'envole comme un songe,
                Un ange garde ton sommeil!

[Avril 1822]
____________________
Victor Hugo: Cartas, Teatro, Poesia — Volume IV [peça Os Burgraves], Tradução de Hilário Correia e [Odes e Baladas], Introdução, Seleção de Traduções e Traduções de Jamil Almansur Haddad, 1960, Editora das Américas, São Paulo — SP; Victor-Marie Hugo (1802 1885), francês de Besançon, fez seus primeiros estudos no Seminário de Los Nobles de Madri e no Liceu Luis le Grand de Paris, foi poeta, escritor e dramaturgo do Romantismo francês; compôs poemas desde muito jovem e aos quinze anos foi premiado em concurso de poesia da Academia Francesa; em 1822 integrou-se ao Romantismo e logo tornou-se porta voz deste movimento; em 1825, liderando um grupo de jovens escritores, criou o Cenáculo; o poeta lutou contra Napoleão III e, quando este se tornou imperador, recusou a anistia e foi para o exílio em Bruxelas, Guernsey e Jersey; obras: Bug Jargal (novela, 1820), Odes et Poésies Diverses (1822), Odes et Ballades (1826), Cromwell (drama, cujo prefácio foi considerado o Manifesto do Romantismo contra o Classicismo, 1826), Marion de Lorme (peça teatral  censurada, 1829), Les Orientales (poesias, 1829), Hernani (peça teatral, representando o fim do Classicismo, 1830), Notre Dame de Paris (romance histórico, 1831), Lucrèce e Marie Tudor (dramas, 1833), Littérature et Philosophie Mêlées e a novela Claude Gueux (ambas em 1834), Chants du Crépuscule (1835), Les Voix Intérieures (poesias, 1837), Les Rayons et les Ombres (poesias, 1840), Les Burgraves (teatro, 1843), Les Misérables (1845-1861) Os Castigos (1853), As Contemplações (1856), O Homem que Ri (1869) e outros títulos; Victor Hugo também foi estadista, elegendo-se deputado da Assembléia Nacional e, depois, elegendo-se senador.

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

Olegário Mariano: Ao calor da lareira

 
____________________
Mesmo só, quando ao pé do fogo da lareira
Ponho-me a recordar o que fui e o que sou,
A minha sombra  a eterna companheira
Que em dias bons e maus sempre me acompanhou,
Fica perto de mim de tal maneira
Que não parece sombra, é alguém que ali ficou.

Somos dois, cada qual mais tristes e mais calado.
Anda lá fora o luar garoando no jardim…
Tenho pena da sombra imóvel a meu lado
Possuída da expressão de um silêncio sem fim.
E recordo em voz alta o meu tempo passado,
E a sombra chega mais para perto de mim

Ah! Quem me dera ter um bem que se pareça,
Que lembre vagamente outro que longe vai:
As mãos da minha mãe sobre a minha cabeça,
O consolo de amigo e a fala do meu pai.
E antes que a noite passe e a alma se enterneça,
Abro a janela e espio a lua que se esvai…
Qual! é inútil, por mais que esta lembrança esqueça,
Uma lágrima cresce em meus olhos e cai…

Deus há de permitir que eu adormeça
Com as mãos da minha mãe sobre a minha cabeça,
Ouvindo a fala comovida do meu pai.

____________________
Antologia de Poemas para a Juventude (vários autores) — Organização e Apresentação de Henriqueta Lisboa, 2003, 2ª edição, Ediouro Publicações S/A, Rio de Janeiro — RJ; Olegário Mariano Carneiro da Cunha (1889 1958), pernambucano de Recife, político e diplomata, foi poeta, jornalista e letrista musical; fez o primário e o secundário em Recife e cedo mudou-se para o Rio de Janeiro, tendo estreado na vida literária aos 22 anos com o volume Angelus, e vivido o período parnasiano-simbolista e de transição para o modernismo; escreveu para as revistas Careta e Para Todos com o pseudônimo de João da Avenida; ficou conhecido como ‘o poeta das cigarras’ por causa de um de seus temas prediletos; obra literária: Angelus (1911), Sonetos (1912), Evangelho da Sombra e do Silêncio (1913), Água corrente (prefácio de Olavo Bilac, 1918), Últimas Cigarras (1920), Bataclan (crônicas em versos, 1923), Canto da minha terra (1930), Destino (1931), Vida, caixa de brinquedos (crônicas em versos, 1933), A Vida que já vivi, memórias (1945), Tangará Conta Histórias (poemas infantis, 1953), Mundo Encantado (1955), e tantos outros títulos; como letrista, teve poemas musicados por Joubert de Carvalho (‘Cai, cai balão’, ’Tutu-marambá’ e outros); também fez parceria musical com diversos outros autores.

domingo, 22 de agosto de 2021

Rainer Maria Rilke: A Licorne

____________________
[traduzido por Ivo Barroso]

O Santo alçou o cenho, e uma oração
como um elmo tombou da fronte erguida:
pois muda viu chegar-se a Inconcebida,
a Branca Fera, de olhos qual perdida
corça indefesa a suplicar perdão.

A base ebúrnea de seus membros mal
se equilibrava no avançar, molesta;
na pele errava um brilho sem igual;
e na alva, clara e cristalina testa
 torre na Lua  o chifre era um fanal
que mais se erguia ao caminhar da besta.

De pelos rosa-gris a fauce, sendo
um pouco entrada, um laivo de brancura
(a mais branca) dos dentes refletia;
aflavam-se-lhe as ventas com brandura.
Porém o olhar, que nada restringia,
lançava imagens perfazendo
um ciclo azul de lendas para a altura.

Rainer M. Rilke

Das Einhorn

Der Heilige hob das Haupt, und das Gebet
fiel wie ein Helm zurück von seinem Haupte:
denn lautlos nahte sich das niegeglaubte,
das weisse Tier, das wie eine geraubte
hilflose Hindin mit den Augen fleht.

Der Beine elfenbeinernes Gestell
bewegte sich in leichten Gleichgewichten,
ein weisser Glanz glitt selig durch das Fell,
und auf der Tierstirn, auf der stillen, lichten
stand, wie ein Turm im Mond, das Horn so hell,
und jeder Schrìtt geschah, es aufzurichten.

Das Maul mit seinem rosagrauen Flaum
war leicht gerafft, so dass ein wenig Weise
(weisser als alles) von der Zähnen glänzte;
die Nüstern nahmen auf und lechzten leis.
Doch seine Blicke, die kein Ding begrenzte,
warfen sich Bilder in den Raum
und schlossen einen blauen Sagenkreis.
____________________
O Torso e o Gato — O Melhor da Poesia Universal, Tradução e Organização de Ivo Barroso, Prefácio de Antônio Houaiss, 1991, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Rainer Maria Rilke (1875 1926), ou René Karl Wilhelm Johann Josef Maria Rilke, austríaco de Praga (antigo Império Austro-Húngaro, atual República Tcheca), fez seus estudos nas universidades de Praga, Munique e Berlim, foi poeta e novelista; o poeta, um quase nômade, andejou por muitos países na Europa; no início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, Rilke residia em Munique e ali permaneceu até o término do conflito; escreveu e publicou Leben und Lieder (Vida e Canções, 1894), Das Buch der Bilder (O Livro das Imagens, 1902), Die Weise von Liebe und Todd es Cornets Christoph Rilke (A Canção do amor e de Morte do Porta-Estandarte Cristóvão Rilke, 1904), Stundenbuch (O Livro das Horas, 1905), Neue Gedichte (Novos Poemas, 19071908), Die Aufzeichnungen des Malte Laurids Brigge (Os Cadernos de Malte Laurids Brigge, 1910), Das Marien Leben (A Vida de Maria, 1913), Duineser Elegien (Elegias de Duíno, 1923), Sonette an Orpheus (Sonetos a Orfeu, 1923), Briefe an einen jungen Dichter (publicação póstuma, Cartas a um Jovem Poeta, 1929); também escreveu poemas em francês.