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[traduzido por Paulo Nogueira Batista Jr.]*
A arte de perder não é difícil de aprender;
tantas coisas parecem repletas da intenção
de serem perdidas que sua perda não é nenhum desastre.
Perca algo todo dia. Aceite a afobação
de chaves perdidas, a hora mal empregada.
A arte de perder não é difícil de aprender.
Pratique então perder mais fundo, perder mais rápido:
lugares, e nomes, e para onde você queria viajar.
A arte de perder não é difícil de aprender.
Perdi o relógio de pulso de minha mãe.
E olhe só! a minha última,
ou penúltima, de três casas queridas, se foi.
A arte de perder não é difícil de aprender.
Perdi duas cidades, lindas. E, mais ainda,
reinados que tinha, dois rios, um continente.
Sinto falta deles, mas não foi um desastre.
— Mesmo perder você (a voz alegre, um gesto
que amo) não terei mentido. É evidente
a arte de perder não é tão difícil de aprender,
embora pareça (Escreva!) um desastre.
One Art
The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.
Lose something every day. Accept the
fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.
Then practice losing farther, losing
faster:
places, and names, and where it was you
meant
to travel. None of these will bring disaster.
I lost my mother's watch. And look! my last,
or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.
I lost two cities, lovely ones. And,
vaster,
some realms I owned, two rivers, a
continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.
— Even losing you (the joking voice, a
gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
he art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.
* Nota deste Verso e Conversa: Sobre
a tradução, o atrevido aprendiz de blogueiro desta página faz constar que, na
crônica Certa Arte, Paulo Nogueira Batista Jr. deixa registrado que “Poesia é, por definição, aquilo que resiste,
heroica e obstinadamente, à tradução. Perder a rima, a musicalidade da rima, é
uma perda irreparável, eu sei. Há quem questione se vale a pena traduzir assim.
Encontrei na internet algumas traduções do poema que procuram recriar as rimas
em português, mas são desastrosas. Melhor nem ter tentado. Creio que consegui preservar,
pelo menos, o ritmo e o sentido.”
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CartaCapital nº 1171 — 25 de agosto de 2021: poema traduzido por Paulo Nogueira
Batista Jr, colunista/cronista da revista; Elizabeth Bishop (1911 — 1979), estadunidense
de Worcester, Massachusets, foi poeta e escritora; viveu no Brasil entre 1951 e
1969, residindo no Rio de Janeiro e em Petrópolis e, depois, em Ouro Preto, onde
adquiriu uma casa; escreveu reportagens para a revista Time-Life, reunidas na obra
Brasil; suas obras: North & South (1946), A Cold Spring Poems: North & South — A Cold Spring (1955), Questions of Travel (com numerosos poemas feitos no
Brasil, 1965), The Complete Poems (1969), Geography III (1976), Edgar Allan Poe
& The Juke-Box: Uncollected Poems, Drafts, and Fragments (editado e anotado
por Alice Quinn, 2006) e outros textos; verteu para o inglês poemas de Carlos Drummond
de Andrade, Vinícius de Morais, Manuel Bandeira, João Cabral do Melo Neto, Joaquim
Cardozo, os quais constaram de uma edição por ela organizada, An Anthology of Twentieth-Century
Brazilian Poetry (1972), em parceria com Emanuel Brasil; recebeu prêmios por sua
obra, entre os quais o Pulitzer e o National Book Award; em sua estada em terras
brasileiras, Elizabeth Bishop envolveu-se amorosamente com a arquiteta autodidata
e paisagista Lota de Macedo Soares (Maria Carlota), com quem passou a conviver,
e cuja história é mostrada no filme Flores Raras (2013), dirigido por Bruno Barreto,
e tendo no elenco a atriz Gloria Pires como Lota, e a atriz australiana Miranda
Otto representando a poeta.

















