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sábado, 5 de agosto de 2017

Cláudio Manuel da Costa: Se os poucos dias, que vivi contente, . . . [soneto]

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Se os poucos dias, que vivi contente,
Foram bastantes para o meu cuidado,
Que pode vir a um pobre desgraçado,
Que a idéia de seu mal não acrescente!

Aquele mesmo bem que me consente,
Talvez propício, meu tirano fado,
Esse mesmo me diz, que o meu estado
Se há de mudar em outro diferente.

Leve pois a fortuna os seus favores;
Eu os desprezo já, porque é loucura
Comprar a tanto preço as minhas dores:

Se quer que me não queixe a sorte escura,
Ou saiba ser mais firme nos rigores,
Ou saiba ser constante na brandura.

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Roteiro da Poesia Brasileira — Arcadismo, Seleção e Prefácio de Domício Proença Filho, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2006, São Paulo — SP; Cláudio Manuel da Costa (1729 1789), mineiro de Mariana (antiga Vila do Ribeirão do Carmo), foi advogado, magistrado, e poeta; fez seus primeiros estudos em Vila Rica, hoje Ouro Preto, estudou no Colégio dos Jesuítas, no Rio de Janeiro, e formou-se em Cânones (Direito), pela Universidade de Coimbra, em Portugal; por vezes assinou seus textos com o pseudônimo de Glauceste Satúrnio; escreveu e publicou Culto Métrico (1749), Munúsculo Métrico (poesia, 1751), Epicédio (poesia, 1753), Obras Poéticas de Glauceste Satúrnio (1768), O Parnaso Obsequioso e Obras Poéticas (1768), Vila Rica (poesia, 1773), Poesias Manuscritas (1779); de família rica, fazendeiro e minerador, participou da Inconfidência Mineira, foi preso em maio de 1789 e encontrado morto na prisão em julho do mesmo ano uma versão diz que ele se suicidou e outra, que foi assassinado.

domingo, 23 de julho de 2017

Caldas Barbosa: Ter amor não é defeito

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Cantigas

          Desafoga pelas vozes
A paixão, que oprime o peito,
Não te envergonha a verdade,
Ter amor não é defeito.

          Aceita de amor cadeias,
Do modo que eu as aceito,
Os ferros de amor dão honra,
Ter amor não é defeito.

          Com amor não há fugir-lhe,
Nem por força, nem por jeito,
Que importa amar e servi-lo?
Ter amor não é defeito.

          É Glória amar um semblante,
Tão gentil e tão perfeito;
Se é sem defeito o motivo,
Ter amor não é defeito.

          Belisa, gentil Belisa,
Eu te adoro, eu te respeito,
Não me castigues por isso
Ter amor não é defeito.

          Em contemplar os teus olhos
O dia, e noite aproveito,
Contemplar é ação d’alma,
Ter amor não é defeito.

          Eu acordo em ti cuidando,
Em ti cuidando me deito,
Não é defeito o cuidado,
Ter amor não é defeito.

          Aos homens a natureza,
Impôs de amor o preceito,
O defeito está no modo,
Ter amor não é defeito.

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Roteiro da Poesia Brasileira — Arcadismo, Seleção e Prefácio de Domício Proença Filho, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2006, São Paulo — SP; Domingos Caldas Barbosa (1738  1800), nascido no Rio de Janeiro, foi poeta, violonista, compositor e cantor de modinhas, teatrólogo e presbítero; fixou residência em Lisboa  Portugal, por volta de 1772, fez curso de formação religiosa e ordenou-se; fundou a Academia de Belas Artes, a Nova Arcádia, em Portugal, juntamente  com Bocage e outros poetas; sob o pseudônimo de Lereno Selenuntino, aderiu à Arcádia Romana; o poeta árcade teve sua obra vinculada à canção popular; Viola de Lereno foi publicada em 1798.

sábado, 22 de julho de 2017

Cláudio Manuel da Costa: Continuamente estou imaginando . . . [soneto]

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Continuamente estou imaginando
Se esta vida, que logro, tão pesada
Há de ser sempre aflita, e magoada,
Se com o tempo enfim se há de ir mudando:

Em golfos de esperança flutuando
Mil vezes busco a praia desejada;
E a tormenta outra vez não esperada
Ao pélago infeliz me vai levando.

Tenho já o meu mal tão descoberto,
Que eu mesmo busco a minha desventura,
Pois não pode ser mais seu desconcerto.

Que me pode fazer a sorte dura,
Se para não sentir seu golpe incerto,
Tudo o que foi paixão, é já loucura!

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Roteiro da Poesia Brasileira — Arcadismo, Seleção e Prefácio de Domício Proença Filho, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2006, São Paulo — SP; Cláudio Manuel da Costa (1729 1789), mineiro de Mariana (antiga Vila do Ribeirão do Carmo), foi advogado, magistrado, e poeta; fez seus primeiros estudos em Vila Rica, hoje Ouro Preto, estudou no Colégio dos Jesuítas, no Rio de Janeiro, e formou-se em Cânones (Direito), pela Universidade de Coimbra, em Portugal; por vezes assinou seus textos com o pseudônimo de Glauceste Satúrnio; escreveu e publicou Culto Métrico (1749), Munúsculo Métrico (poesia, 1751), Epicédio (poesia, 1753), Obras Poéticas de Glauceste Satúrnio (1768), O Parnaso Obsequioso e Obras Poéticas (1768), Vila Rica (poesia, 1773), Poesias Manuscritas (1779); de família rica, fazendeiro e minerador, participou da Inconfidência Mineira, foi preso em maio de 1789 e encontrado morto na prisão em julho do mesmo ano — uma versão diz que ele se suicidou e outra, que foi assassinado.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Alvarenga Peixoto: De açucenas e rosas misturadas . . . [soneto]

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De açucenas e rosas misturadas
Não se adornam as vossas faces belas,
Nem as formosas tranças são daquelas
Que dos raios do sol foram forjadas.

As meninas dos olhos delicadas,
Verde, preto ou azul não brilha nelas;
Mas o autor soberano das estrelas
Nenhumas fez a elas comparadas.

Ah, Jônia, as açucenas e as rosas,
A cor dos olhos e as tranças d'oiro
Podem fazer mil Ninfas melindrosas;

Porém quanto é caduco esse tesoiro:
Vós, sobre a sorte toda das formosas,
Inda ostentais na sábia frente o loiro!

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Roteiro da Poesia Brasileira — Arcadismo, Seleção e Prefácio de Domício Proença Filho, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2006, São Paulo — SP; Ignácio José de Alvarenga Peixoto (1744  1793), nasceu no Rio de Janeiro, poeta, fez seus estudos no Colégio dos Jesuítas, também no Rio, e bacharelou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, em Portugal, onde também foi juiz; regressando ao Brasil, abandonou a advocacia para dedicar-se à indústria de mineração no vale do Sapucaí, sul de Minas Gerais; participante ativo da Conjuração Mineira, em 1789 foi preso e condenado ao degredo em terras africanas; morreu no exílio, em Angola; escreveu os poemas 'A Dona Bárbara Heliodora', 'A Maria Efigênia', 'Canto Genetlíaco' (1793), 'Estela e Nize', 'Eu Não Lastimo o Próximo Perigo', 'Eu Vi a Linda Jônia', 'Sonho Poético', entre outros; sua poesia, recolhida por Manuel Rodrigues Lapa, inscreve-se entre a dos poetas do Arcadismo e seus sonetos são considerados como alguns dos mais bem acabados daquele período; teve seus poemas publicados em Obras Poéticas de Ignácio José de Alvarenga Peixoto (Garnier, Rio de Janeiro, 1865), em edição de Joaquim Norberto de Souza e Silva.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Alvarenga Peixoto: Chegai, Ninfa, chegai, chegai, pastores, . . . [soneto]

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Chegai, Ninfa, chegai, chegai, pastores,
Qu'inda que esconde Jônia as graças belas,
Márcia corre a cortina das estrelas,
Quando espalha no monte os resplandores.

Debaixo dos seus pés brotam as flores,
Quais brancas, quais azuis, quais amarelas;
E pelas próprias mãos lh'orna capelas,
Bem que invejosa, a deusa dos Amores.

Despe a serra os horrores da aspereza,
E as aves, que choravam até agora,
Acompanhando a Jônia na tristeza,

Já todas, ao raiar da nova aurora,
Cantam hinos em honra da beleza
De Márcia, gentilíssima pastora.

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Roteiro da Poesia Brasileira — Arcadismo, Seleção e Prefácio de Domício Proença Filho, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2006, São Paulo — SP; Ignácio José de Alvarenga Peixoto (1744  1793), nasceu no Rio de Janeiro, poeta, fez seus estudos no Colégio dos Jesuítas, também no Rio, e bacharelou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, em Portugal, onde também foi juiz; regressando ao Brasil, abandonou a advocacia para dedicar-se à indústria de mineração no vale do Sapucaí, sul de Minas Gerais; participante ativo da Conjuração Mineira, em 1789 foi preso e condenado ao degredo em terras africanas; morreu no exílio, em Angola; escreveu os poemas 'A Dona Bárbara Heliodora', 'A Maria Efigênia', 'Canto Genetlíaco' (1793), 'Estela e Nize', 'Eu Não Lastimo o Próximo Perigo', 'Eu Vi a Linda Jônia', 'Sonho Poético', entre outros; sua poesia, recolhida por Manuel Rodrigues Lapa, inscreve-se entre a dos poetas do Arcadismo e seus sonetos são considerados como alguns dos mais bem acabados daquele período; teve seus poemas publicados em Obras Poéticas de Ignácio José de Alvarenga Peixoto (Garnier, Rio de Janeiro, 1865), em edição de Joaquim Norberto de Souza e Silva.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Alvarenga Peixoto: Eu vi linda Jônia e, namorado, . . . [soneto]

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Eu vi a linda Jônia e, namorado,
Fiz logo voto eterno de querê-la;
Mas vi depois a Nise, e é tão bela,
Que merece igualmente o meu cuidado.

A qual escolherei, se, neste estado,
Eu não sei distinguir esta daquela?
Se Nise agora vir, morro por ela,
Se Jônia vir aqui, vivo abrasado.

Mas ah! que esta me despreza, amante,
Pois sabe que estou preso em outros braços,
E aquela me não quer, por inconstante.

Vem, Cupido, soltar-me destes laços:
Ou faze destes dois um só semblante,
Ou divide o meu peito em dois pedaços!

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Roteiro da Poesia Brasileira — Arcadismo, Seleção e Prefácio de Domício Proença Filho, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2006, São Paulo — SP; Ignácio José de Alvarenga Peixoto (1744  1793), nasceu no Rio de Janeiro, poeta, fez seus estudos no Colégio dos Jesuítas, também no Rio, e bacharelou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, em Portugal, onde também foi juiz; regressando ao Brasil, abandonou a advocacia para dedicar-se à indústria de mineração no vale do Sapucaí, sul de Minas Gerais; participante ativo da Conjuração Mineira, em 1789 foi preso e condenado ao degredo em terras africanas; morreu no exílio, em Angola; escreveu os poemas 'A Dona Bárbara Heliodora', 'A Maria Efigênia', 'Canto Genetlíaco' (1793), 'Estela e Nize', 'Eu Não Lastimo o Próximo Perigo', 'Eu Vi a Linda Jônia', 'Sonho Poético', entre outros; sua poesia, recolhida por Manuel Rodrigues Lapa, inscreve-se entre a dos poetas do Arcadismo e seus sonetos são considerados como alguns dos mais bem acabados daquele período; teve seus poemas publicados em Obras Poéticas de Ignácio José de Alvarenga Peixoto (Garnier, Rio de Janeiro, 1865), em edição de Joaquim Norberto de Souza e Silva.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Machado de Assis: O Dicionário

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Era uma vez um tanoeiro, demagogo, chamado Bernardino, o qual em cosmografia professava a opinião de que este mundo é um imenso tonel de marmelada, e em política pedia o trono para a multidão. Com o fim de a pôr ali, pegou de um pau, concitou os ânimos e deitou abaixo o rei; mas, entrando no paço, vencedor e aclamado, viu que o trono só dava para uma pessoa, e cortou a dificuldade sentando-se em cima.

— Em mim, bradou ele, podeis ver a multidão coroada. Eu sou vós, vós sois eu.

O primeiro ato do novo rei foi abolir a tanoaria, indenizando os tanoeiros, prestes a derrubá-lo, com o título de Magníficos. O segundo foi declarar que, para maior lustre da pessoa e do cargo, passava a chamar-se, em vez de Bernardino, Bernardão. Particularmente encomendou uma genealogia a um grande doutor dessas matérias, que em pouco mais de uma hora o entroncou a um tal ou qual general romano do século IV, Bernardus Tanoarius; — nome que deu lugar à controvérsia, que ainda dura, querendo uns que o rei Bernardão tivesse sido tanoeiro, e outros que isto não passe de uma confusão deplorável com o nome do fundador da família. Já vimos que esta segunda opinião é a única verdadeira.

Como era calvo desde verdes anos, decretou Bernardão que todos os seus súditos fossem igualmente calvos, ou por natureza ou por navalha, e fundou esse ato em uma razão de ordem política, a saber, que a unidade moral do Estado pedia a conformidade exterior das cabeças. Outro ato em que revelou igual sabedoria, foi o que ordenou que todos os sapatos do pé esquerdo tivessem um pequeno talho no lugar correspondente ao dedo mínimo, dando assim aos seus súditos o ensejo de se parecerem com ele, que padecia de um calo. O uso dos óculos em todo o reino não se explica de outro modo, senão por uma oftalmia que afligiu a Bernardão, logo no segundo ano do reinado. A doença levou-lhe um olho, e foi aqui que se revelou a vocação poética de Bernardão, porque, tendo-lhe dito um dos seus dois ministros, chamado Alfa, que a perda de um olho o fazia igual a Aníbal, — comparação que o lisonjeou muito, — o segundo ministro, Ômega, deu um passo adiante, e achou-o superior a Homero, que perdera ambos os olhos. Esta cortesia foi uma revelação; e como isto prende com o casamento, vamos ao casamento.

Tratava-se, em verdade, de assegurar a dinastia dos Tanoarius. Não faltavam noivas ao novo rei, mas nenhuma lhe agradou tanto como a moça Estrelada, bela, rica e ilustre. Esta senhora, que cultivava a música e a poesia, era requestada por alguns cavalheiros, e mostrava-se fiel à dinastia decaída. Bernardão ofereceu-lhe as coisas mais suntuosas e raras, e, por outro lado, a família bradava-lhe que uma coroa na cabeça valia mais que uma saudade no coração; que não fizesse a desgraça dos seus, quando o ilustre Bernardão lhe acenasse com o principado; que os tronos não andavam a rodo, e mais isto, e mais aquilo. Estrelada, porém, resistia à sedução.

Não resistiu muito tempo, mas também não cedeu tudo. Como entre os seus candidatos preferia secretamente um poeta, declarou que estava pronta a casar, mas seria com quem lhe fizesse o melhor madrigal, em concurso. Bernardão aceitou a cláusula, louco de amor e confiado em si: tinha mais um olho que Homero, e fizera a unidade dos pés e das cabeças.

Concorreram ao certame, que foi anônimo e secreto, vinte pessoas. Um dos madrigais foi julgado superior aos outros todos; era justamente o do poeta amado. Bernardão anulou por um decreto o concurso, e mandou abrir outro; mas então, por uma inspiração de insigne maquiavelismo, ordenou que não se empregassem palavras que tivessem menos de trezentos anos de idade. Nenhum dos concorrentes estudara os clássicos: era o meio provável de os vencer.

Não venceu ainda assim porque o poeta amado leu à pressa o que pôde, e o seu madrigal foi outra vez o melhor. Bernardão anulou esse segundo concurso; e, vendo que no madrigal vencedor as locuções antigas davam singular graça aos versos, decretou que só se empregassem as modernas e particularmente as da moda. Terceiro concurso, e terceira vitória do poeta amado.

Bernardão, furioso, abriu-se com os dois ministros, pedindo-lhes um remédio pronto e enérgico, porque, se não ganhasse a mão de Estrelada, mandaria cortar trezentas mil cabeças. Os dois, tendo consultado algum tempo, voltaram com este alvitre:

— Nós, Alfa e Ômega, estamos designados pelos nossos nomes para as coisas que respeitam à linguagem. A nossa idéia é que Vossa Sublimidade mande recolher todos os dicionários e nos encarregue de compor um vocabulário novo que lhe dará a vitória.

Bernardão assim fez, e os dois meteram-se em casa durante três meses, findos os quais depositaram nas augustas mãos a obra acabada, um livro a que chamaram Dicionário de Babel, porque era realmente a confusão das letras. Nenhuma locução se parecia com a do idioma falado; as consoantes trepavam nas consoantes, as vogais diluíam-se nas vogais, palavras de duas sílabas tinham agora sete e oito, e vice-versa, tudo trocado, misturado, nenhuma energia, nenhuma graça, uma língua de cacos e trapos.

— Obrigue Vossa Sublimidade esta língua por um decreto, e está tudo feito.

Bernardão concedeu um abraço e uma pensão a ambos, decretou o vocabulário, e declarou que ia fazer-se o concurso definitivo para obter a mão da bela Estrelada. A confusão passou do dicionário aos espíritos; toda a gente andava atônita. Os farsolas cumprimentavam-se na rua pelas novas locuções: diziam, por exemplo, em vez de: Bom dia, como passou? — Pflerrgpxx, rouph, aa? A própria dama, temendo que o poeta amado perdesse afinal a campanha, propôs-lhe que fugissem; ele, porém, respondeu que ia ver primeiro se podia fazer alguma coisa. Deram noventa dias para o novo concurso e recolheram-se vinte madrigais. O melhor deles, apesar da língua bárbara, foi o do poeta amado. Bernardão, alucinado, mandou cortar as mãos aos dois ministros, e foi a única vingança. Estrelada era tão admiravelmente bela, que ele não se atreveu a magoá-la, e cedeu.

Desgostoso, encerrou-se oito dias na biblioteca, lendo, passeando ou meditando. Parece que a última coisa que leu foi uma sátira do poeta Garção, e especialmente estes versos, que pareciam feitos de encomenda:

O raro Apeles,
Rubens e Rafael, inimitáveis
Não se fizeram pela cor das tintas;
A mistura elegante os fez eternos.

Páginas Recolhidas  1899

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Machado de Assis, Os Melhores Contos, Seleção de Domício Proença Filho, décima-segunda edição, 1997, Global Editora, São Paulo SP; Joaquim Maria Machado de Assis (1839 1908), nascido no Rio de Janeiro, autodidata, é tido como o maior ficcionista brasileiro, além de ter sido poeta; sabe-se que, já aos quinze anos, dominava a língua portuguesa e conhecia o francês e teve seu primeiro texto  escrito em versos  publicado na Marmota Fluminese, jornal de Francisco de Paula Brito, ali passando a colaborar até 1861; em seu percurso literário publicou seus textos em inúmeros jornais e revistas: O Paraíba e Correio Mercantil (1858), revista O Espelho (crítica teatral, de 1859 a 1860), A Semana Ilustrada, revista Ilustração Brasileira (1876) entre outros veículos literários; escreveu e publicou: Crisálidas (poesias, 1864), Falenas (poesias, 1870), Contos Fluminenses (1870), Ressureição (romance, 1872), Histórias da Meia-Noite (contos, 1873), A Mão e a Luva (romance, 1874), Americanas (poesias, 1875), Helena (romance, 1876), Iaiá Garcia (romance, 1878), Ocidentais (poesias de feição parnasiana, 1880), Memórias Póstumas de Brás Cubas (romance, 1881), Papéis Avulsos (contos, 1882), Quincas Borba (romance, 1891), Várias Histórias (contos, 1896), Dom Casmurro (romance, 1899), Páginas Recolhidas (contos, ensaios e teatro, 1899) etc, além de peças de teatro; foi fundador e primeiro Presidente da Academia Brasileira de Letras.

sábado, 18 de agosto de 2012

Alvarenga Peixoto: Não me aflige do potro a viva quina


(Nas masmorras da Ilha das Cobras lembrando-se da família)

Não me aflige do potro a viva quina;
Da férrea maça o golpe não me ofende;
Sobre as chamas a mão se não estende;
Não sofro do agulhete a ponta fina.

Grilhão pesado os passos não domina;
Cruel arrocho a testa me não fende;
À força perna ou braço se não rende;
Longa cadeia o colo não me inclina.

Água e pomo faminto não procuro;
Grossa pedra não cansa a humanidade;
A pássaro voraz eu não aturo.

Estes males não sinto, é bem verdade;
Porém sinto outro mal inda mais duro:
Da consorte e dos filhos a saudade!
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Roteiro da Poesia Brasileira Arcadismo, Seleção e Prefácio de Domício Proença Filho, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2006, São Paulo SP; Ignácio José de Alvarenga Peixoto (1744 1793), nasceu no Rio de Janeiro, fez seus estudos no Colégio dos Jesuítas, também no Rio, e bacharelou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, em Portugal, onde também foi juiz; regressando ao Brasil, abandonou a advocacia para dedicar-se à indústria de mineração no vale do Sapucaí, sul de Minas Gerais; participante ativo da Conjuração Mineira, em 1789 foi preso e condenado ao degredo em terras africanas; morreu no exílio, em Angola; escreveu os poemas 'A Dona Bárbara Heliodora', 'A Maria Efigênia', 'Canto Genetlíaco' (1793), 'Estela e Nize', 'Eu Não Lastimo o Próximo Perigo', 'Eu Vi a Linda Jônia', 'Sonho Poético', entre outros; sua poesia, recolhida por Manuel Rodrigues Lapa, inscreve-se entre a dos poetas do Arcadismo e seus sonetos são considerados como alguns dos mais bem acabados daquele período; teve seus poemas publicados em Obras Poéticas de Ignácio José de Alvarenga Peixoto (Garnier, Rio de Janeiro, 1865), em edição de Joaquim Norberto de Souza e Silva.