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terça-feira, 14 de abril de 2026

Da Costa e Silva: Cântico do Sangue

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Sangue! essência vital do sentimento,
Que, rubra, móvel, plástica, incendida,
Sobe do coração ao pensamento,
Circulando nos vórtices da Vida.

Vida das vidas, alma da matéria,
Que da emoção as ondas encadeia,
Fluindo dos ventrículos à artéria,
Refluindo da artéria para a veia.

Essência misteriosa e procriadora,
Vida difusa a errar em frágeis veios,
Que as idéias inflama e os olhos doura:
Orvalho níveo dos maternos seios.

Mar Vermelho sutil de ondas estuosas,
Ao meu cajado de Moisés tristonho,
Florindo em cravos, amarantos, rosas
Lodões, corais dos litorais do Sonho.

Rubro Estige espumoso da Luxúria,
Golfão dos meus desejos rebelados,
Onde a minh’alma de Hércules, em fúria,
Pasce a Hidra de Lerna dos Pecados.

Força despertadora dos sentidos,
Que acorda, inflando, em frêmitos velozes,
Pela teia vibrátil dos tecidos,
Ânsias, desejos, sensações, nevroses…

Térmica poeira, liquefeita, insana,
Do turbilhão dos glóbulos vermelhos:
Os grãos de areia da vaidade humana
Refletida em recíprocos espelhos…

Tépido arroio vivo e purpurino,
Que aos vasos corporais a sede estanca,
Em arabesco túrgido e turquino,
De transparência azul, na pele branca.

Fonte de inspiração, Castália ardente
Dos ideais simbólicos em bando,
Em dilúvios de cor fosforescente,
Numa preamar lunática flutuando…

Sangue! fluido genésico e fecundo
Do sentimento que anda em mim disperso
Rocio com que alento e com que inundo
As sementeiras rubras do meu verso.

(Sangue — 1908)


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Da Costa e Silva: Poesias completas — 1885/1985, Edição do Centenário, 3ª edição revista e anotada por Alberto da Costa e Silva, 1985, Editora Nova Fronteira e Instituto Nacional do Livro — Fundação Nacional Pró-Memória, Rio de Janeiro — RJ; Antônio Francisco Da Costa e Silva (1885 1950), piauiense de Amarante, licenciado em Direito pela Faculdade de Recife PE, funcionário concursado do Ministério da Fazenda, exerceu funções públicas no governo federal e foi poeta assentado em dois períodos literários o Simbolismo e o Parnasianismo; de sua biografia, consta que o próprio “dizia ter tido educação severa e ter começado a se interessar pela poesia ainda criança”, já aos 14 anos ensinou “as primeiras letras a alguns meninos da vizinhança”; infantolescente, também aprendeu e dedicou-se à escultura em madeira e à pintura; aos 16 anos [1901] teve seus primeiros poemas publicados na Revista do Grêmio Literário Amarantino; em Teresina, concluiu os “preparatórios” no Liceu Piauiense, em 1906 seguiu para Recife PE, fez matrícula na Faculdade de Direito, cursou três anos, interrompeu os estudos por força de sua aprovação em concurso e, a convite do governo federal, iniciou no serviço público em Belo Horizonte, depois São Paulo, Rio de Janeiro, São Luis do Maranhão, Manaus e Porto Alegre; de volta a Recife, concluiu os estudos em Direito e se formou em 1913; teve seus textos crônicas e crítica literária publicados em jornais e revistas dos locais por onde andou (entre os quais o Correio da Manhã, O Malho, Ilustração Brasileira [do RJ], O Diário de Minas [MG], o Estado do Amazonas [AM], o suplemento do Diário de Notícias [foi co-diretor, RS] e outros; obras poéticas: Sangue ([coletânea de poemas escritos entre 1902-1908], 1908), Zodíaco (1917, premiado pela Academia Brasileira de Letras), Verhaeren ([poema/ensaio], 1917, publicado na revista Apollo), Pandora (1919), Verônica (1927), Antologia (seleção dos livros anteriores, 1934), Poesias Completas (coletânea póstuma e inéditos inacabados, 1950); o poeta, reconhecido como “Príncipe dos Poetas Piauienses [1928]”, também escreveu a letra do Hino do Piauí [1923] e foi o primeiro ocupante da Cadeira nº 21 da Academia Piauiense de Letras (1917); Da Costa e Silva, que “sempre fora franzino, frágil, nervoso”, desde o “início de 1932”, por causas emocionais e contingências havidas em seu cargo e no ambiente de trabalho, viu sua saúde se deteriorar, esteve “internado, em 1933, no Sanatório Botafogo [Rio de Janeiro]” e, sem esperanças médicas, passou seus últimos e longos 17 anos de vida com a “mente perturbada”.

terça-feira, 31 de março de 2026

Da Costa e Silva: A Escalada

 
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Como custa subir esta montanha,
Que ascende para a luz e para a glória
E mais se eleva quanto mais se ganha
Na escalada fantástica, ilusória!...

O espírito a pairar além dos astros,
E em meio da ascensão indefinida,
Vê os aspectos múltiplos da vida
Baixos, distantes, quase que de rastros.

O aflito olhar volvendo de repente
Da eminência da escarpa inacessível,
Contempla tudo que lhe fica em frente
E o que se move abaixo do seu nível:

Céus azuis, vastos, largos e profundos,
Cheios de luz e cheios de mistério,
Na transparência ideal do azul sidéreo
Sustendo a força cósmica dos mundos;

Verdes mares revoltos e bravios,
Com os continentes porfiando em guerra,
Bebendo as veias colossais dos rios,
Na ânsia imortal de avassalar a terra;

Amplos, vagos e claros horizontes,
Onde se perde o sonho de granito
Das colinas, dos cerros e dos montes,
Num anseio infinito de infinito;

Rios caudais de cristalinas águas,
Nascidos nas adustas cordilheiras,
Rolando em catadupa as suas mágoas
No pétreo coração das cachoeiras;

Campos extensos a perder de vista,
Na doce maravilha da paisagem,
Dando a feliz e sugestiva imagem
Dos encantos da vida panteísta;

Brenhas, sertões, florestas seculares,
Selvas escuras, densas, misteriosas,
Coutos de leões, de tigres e jaguares,
Protegidos das árvores umbrosas;

Verdes ilhas em flor que o mar afaga,
Contando os seus marítimos segredos
Na alva espuma que aflora nos rochedos
À cantiga nostálgica da vaga;

Terras selvagens e cidades cultas,
Criações de Deus e maravilhas do homem,
Prodígios que nem mesmo as catapultas
Ciclópicas dos séculos consomem;

Tudo contemplo, enfim, desta eminência
Que a luz do meu espírito domina,
Que eu já nem sei se é humana ou sé divina
Esta febre perpétua de ascendência.

E ainda quero galgar a eterna penha,
Nesta altura onde um Deus eu me suponho,
Que dos mundos que viu do alto desdenha
Porque o mundo é menor do que o seu sonho...

Embora o pasmo do deslumbramento,
Sempre a buscar o termo da subida,
Cismo de olhos absortos para a vida,
Vivendo apenas para o pensamento.

Cismo, admirando tudo que contemplo:
 A terra, o mar, o céu, a imensidade...
Tudo que existe neste grande templo,
Portas abertas para a eternidade...

E fico, então, num êxtase profundo
E a alma bendiz, atônita, surpresa,
O ventre maternal da Natureza,
Tanto mais virgem quando mais fecundo!

(Zodíaco — 1917)

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Da Costa e Silva: Poesias completas — 1885/1985, Edição do Centenário, 3ª edição revista e anotada por Alberto da Costa e Silva, 1985, Editora Nova Fronteira e Instituto Nacional do Livro — Fundação Nacional Pró-Memória, Rio de Janeiro — RJ; Antônio Francisco Da Costa e Silva (1885 1950), piauiense de Amarante, licenciado em Direito pela Faculdade de Recife PE, funcionário concursado do Ministério da Fazenda, exerceu funções públicas no governo federal e foi poeta assentado em dois períodos literários o Simbolismo e o Parnasianismo; de sua biografia, consta que o próprio “dizia ter tido educação severa e ter começado a se interessar pela poesia ainda criança”, já aos 14 anos ensinou “as primeiras letras a alguns meninos da vizinhança”; infantolescente, também aprendeu e dedicou-se à escultura em madeira e à pintura; aos 16 anos [1901] teve seus primeiros poemas publicados na Revista do Grêmio Literário Amarantino; em Teresina, concluiu os “preparatórios” no Liceu Piauiense, em 1906 seguiu para Recife PE, fez matrícula na Faculdade de Direito, cursou três anos, interrompeu os estudos por força de sua aprovação em concurso e, a convite do governo federal, iniciou no serviço público em Belo Horizonte, depois São Paulo, Rio de Janeiro, São Luis do Maranhão, Manaus e Porto Alegre; de volta a Recife, concluiu os estudos em Direito e se formou em 1913; teve seus textos crônicas e crítica literária publicados em jornais e revistas dos locais por onde andou (entre os quais o Correio da Manhã, O Malho, Ilustração Brasileira [do RJ], O Diário de Minas [MG], o Estado do Amazonas [AM], o suplemento do Diário de Notícias [foi co-diretor, RS] e outros; obras poéticas: Sangue ([coletânea de poemas escritos entre 1902-1908], 1908), Zodíaco (1917, premiado pela Academia Brasileira de Letras), Verhaeren ([poema/ensaio], 1917, publicado na revista Apollo), Pandora (1919), Verônica (1927), Antologia (seleção dos livros anteriores, 1934), Poesias Completas (coletânea póstuma e inéditos inacabados, 1950); o poeta, reconhecido como “Príncipe dos Poetas Piauienses [1928]”, também escreveu a letra do Hino do Piauí [1923] e foi o primeiro ocupante da Cadeira nº 21 da Academia Piauiense de Letras (1917); Da Costa e Silva, que “sempre fora franzino, frágil, nervoso”, desde o “início de 1932”, por causas emocionais e contingências havidas em seu cargo e no ambiente de trabalho, viu sua saúde se deteriorar, esteve “internado, em 1933, no Sanatório Botafogo [Rio de Janeiro]” e, sem esperanças médicas, passou seus últimos e longos 17 anos de vida com a “mente perturbada”.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Da Costa e Silva: Diálogo Interior

 
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Ante o infinito,
Cismo e medito.

Mas vou pensando
E interrogando.

Dialogo a esmo
Comigo mesmo.

Tudo convida
A amar a vida.

E amar se deve
A um bem tão breve?

A vida é bela
No que revela...

Mas como existe
O homem tão triste?

A vida é a luta
Divina e bruta.

Onde o heroísmo:
Páramo ou abismo?

A vida encerra
Os bens da terra.

Se esses dons temos,
Por que sofremos?

A vida inquieta
É a mais completa.

Mas por que a alma
Aspira à calma?

A vida é intensa
Para quem pensa.

E onde a esperança,
Que não descansa?

A vida é pura
Quando há ventura.

E por que sinto
A ânsia do instinto?

A vida é chama,
Que apura e inflama.

Por que a resumo
Em névoa e fumo?

A vida é a glória
Sempre ilusória.

Mas como é insano
O sonho humano?

A eterna esfinge
Ninguém atinge...

Que reticências
Nas existências!

(Verônica — 1927)

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Da Costa e Silva — Poesias Completas — 1885/1985 Edição do Centenário, 3ª edição revista e anotada por Alberto da Costa e Silva, 1985, Instituto Nacional do Livro — INL e Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Antônio Francisco Da Costa e Silva (1885 1950), piauiense de Amarante, licenciado em Direito pela Faculdade de Recife PE, funcionário concursado do Ministério da Fazenda, exerceu funções públicas no governo federal e foi poeta assentado em dois períodos literários o Simbolismo e o Parnasianismo; de sua biografia, consta que o próprio “dizia ter tido educação severa e ter começado a se interessar pela poesia ainda criança”, já aos 14 anos ensinou “as primeiras letras a alguns meninos da vizinhança”; infantolescente, também aprendeu e dedicou-se à escultura em madeira e à pintura; aos 16 anos [1901] teve seus primeiros poemas publicados na Revista do Grêmio Literário Amarantino; em Teresina, concluiu os “preparatórios” no Liceu Piauiense, em 1906 seguiu para Recife PE, fez matrícula na Faculdade de Direito, cursou três anos, interrompeu os estudos por força de sua aprovação em concurso e, a convite do governo federal, iniciou no serviço público em Belo Horizonte, depois São Paulo, Rio de Janeiro, São Luis do Maranhão, Manaus e Porto Alegre; de volta a Recife, concluiu os estudos em Direito e se formou em 1913; teve seus textos crônicas e crítica literária publicados em jornais e revistas dos locais por onde andou (entre os quais o Correio da Manhã, O Malho, Ilustração Brasileira [do RJ], O Diário de Minas [MG], o Estado do Amazonas [AM], o suplemento do Diário de Notícias [foi co-diretor, RS] e outros; obras poéticas: Sangue ([coletânea de poemas escritos entre 1902-1908], 1908), Zodíaco (1917, premiado pela Academia Brasileira de Letras), Verhaeren ([poema/ensaio], 1917, publicado na revista Apollo), Pandora (1919), Verônica (1927), Antologia (seleção dos livros anteriores, 1934), Poesias Completas (coletânea póstuma e inéditos inacabados, 1950); o poeta, reconhecido como “Príncipe dos Poetas Piauienses [1928]”, também escreveu a letra do Hino do Piauí [1923] e foi o primeiro ocupante da Cadeira nº 21 da Academia Piauiense de Letras (1917); Da Costa e Silva, que “sempre fora franzino, frágil, nervoso”, desde o “início de 1932”, por causas emocionais e contingências havidas em seu cargo e no ambiente de trabalho, viu sua saúde se deteriorar, esteve “internado, em 1933, no Sanatório Botafogo [Rio de Janeiro]" e, sem esperanças médicas, passou seus últimos e longos 17 anos de vida com a “mente perturbada”.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Da Costa e Silva: A Cigarra

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De alma boêmia, a vida efêmera e bizarra
Leva alegre a cantar o áureo inseto estival
Que, sedento de seiva, a uma árvore se agarra
Até secar, cantando unido ao vegetal.

A harpa, a lira, o arrabil, a cítara, a guitarra
Não na igualam nos sons do canto original,
Quando estridente, ao sol, zine e chia a cigarra
Pelo atrito sutil das asas de cristal.

A alma de ouro em canções o áureo inseto descerra,
Quando o éter filtra a luz no intangível crisol
Do amplo céu tropical, que ardente cinge a terra...

Canta, ingênua e feliz, de um ao outro arrebol;
E estalando ao morrer, no último canto encerra,
Em louvor do verão, o epinício do sol.

Zodíaco — 1917

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Poesias Completas — Da Costa e Silva, 2ª edição revista e anotada por Alberto da Costa e Silva, 1976, Livraria Editora Cátedra e MEC, Rio de Janeiro — RJ; Antônio Francisco Da Costa e Silva (1885 1950), piauiense de Amarante, licenciado em Direito pela Faculdade de Recife PE, funcionário concursado do Ministério da Fazenda, foi poeta assentado em dois períodos literários o Simbolismo e o Parnasianismo, e teve seus primeiros poemas divulgados desde 1901; obra poética: Sangue (1908), Zodíaco (1917), Verhaeren (1917), Pandora (1919), Verônica (1927), Antologia (seleção dos livros anteriores, 1934), Poesias Completas (coletânea póstuma e inéditos inacabados, 1950); consta que nos seus últimos 17 anos de vida teve a mente perturbada. 

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Da Costa e Silva: Ignota Dea

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Anjo, esfinge ou mulher, visão que almejo,
Por quem vivo de amor e a quem receio,
Vida da minha vida, que eu não vejo,
És a deusa a quem amo e a quem odeio...

Alheio ao gozo e à desventura alheio,
Não te vejo e te evito a todo ensejo,
E tanto mais de ti me sinto cheio,
Mais te busco olvidar e te desejo...

Sonho de louco e signo de delírio,
É-me o teu ser, satânico e celeste,
Origem de alegria e de martírio...

Debalde ausculto o coração e exclamo:
 Quem és tu? Quem és tu? De onde vieste?
E não conheço enfim essa a quem amo...

Sangue  1908

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Poesias Completas  Da Costa e Silva, 2ª edição revista e anotada por Alberto da Costa e Silva, 1976, Livraria Editora Cátedra e MEC, Rio de Janeiro RJ; Antônio Francisco Da Costa e Silva (1885 — 1950), piauiense de Amarante, licenciado em Direito pela Faculdade de Recife PE, funcionário concursado do Ministério da Fazenda, foi poeta assentado em dois períodos literários  o Simbolismo e o Parnasianismo, e teve seus primeiros poemas divulgados desde 1901; obra poética: Sangue (1908), Zodíaco (1917), Verhaeren (1917), Pandora (1919), Verônica (1927), Antologia (seleção dos livros anteriores, 1934), Poesias Completas (coletânea póstuma e inéditos inacabados, 1950); consta que nos seus últimos 17 anos de vida teve a mente perturbada.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Da Costa e Silva: Musa imperecível

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Quando ao berço final dos Sete Palmos
Foram levar teu corpo adormecido,
Disseram que o teu ser subira aos almos
Países claros do luar dorido

Calmo, o espírito calmo, os olhos calmos,
Não cri, ao ver-te o corpo esmaecido,
Entre círios e antífonas e salmos,
Que houvesses para mim também morrido.

Benção de dor, de luto e desconforto,
Hinos suaves de angústia e de agonia
Ungiram com fervor teu corpo morto...

E, ai! descri de tudo isto, porque unida
Tua alma na minh’alma eu já sentia,
Nos idílios de luz de uma outra vida.

Sangue  1908

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Poesias Completas  Da Costa e Silva, edição revista e anotada por Alberto da Costa e Silva, 1976, Livraria Editora Cátedra e MEC, Rio de Janeiro — RJ; Antônio Francisco Da Costa e Silva (1885 — 1950), piauiense de Amarante, licenciado em Direito pela Faculdade de Recife PE, funcionário concursado do Ministério da Fazenda, foi poeta assentado em dois períodos literários  o Simbolismo e o Parnasianismo, e teve seus primeiros poemas divulgados desde 1901; obra poética: Sangue (1908), Zodíaco (1917), Verhaeren (1917), Pandora (1919), Verônica (1927), Antologia (seleção dos livros anteriores, 1934), Poesias Completas (coletânea póstuma e inéditos inacabados, 1950); consta que nos seus últimos 17 anos de vida teve a mente perturbada.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Da Costa e Silva: Pureza obscura

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Planta, que irrompe, altiva, dentre o lodo,
Vive, sorri, cresce, se alteia e ascende
À carícia de luz do sol, que esplende,
Assim também te ergueste com denodo...

Entre a noite do Vício que se estende
Palmo a palmo, ameaçando o mundo todo,
Não te pôde obumbrar o olhar do apodo
Que tudo vê, tudo persegue e ofende.

Salvou-te o pejo entre as mulheres, entre
Aquelas que, na púrpura do Escândalo,
Mostram a nu a espádua, a perna, o ventre...

Planta, florindo em rosas de saúde,
Ao sol do amor, tu preferiste ao sândalo
A virginal essência da Virtude!

Sangue  1908

DA COSTA E SILVA
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Poesias Completas  Da Costa e Silva, edição revista e anotada por Alberto da Costa e Silva, 1976, Livraria Editora Cátedra e MEC, Rio de Janeiro RJ; Antônio Francisco Da Costa e Silva (1885 — 1950), piauiense de Amarante, licenciado em Direito pela Faculdade de Recife PE, funcionário concursado do Ministério da Fazenda, foi poeta assentado em dois períodos literários  o Simbolismo e o Parnasianismo, e teve seus primeiros poemas divulgados desde 1901; obra poética: Sangue (1908), Zodíaco (1917), Verhaeren (1917), Pandora (1919), Verônica (1927), Antologia (seleção dos livros anteriores, 1934), Poesias Completas (coletânea póstuma e inéditos inacabados, 1950); consta que nos seus últimos 17 anos de vida teve a mente perturbada.