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Sangue! essência vital do
sentimento,
Que, rubra, móvel, plástica,
incendida,
Sobe do coração ao pensamento,
Circulando nos vórtices da Vida.
Vida das vidas, alma da matéria,
Que da emoção as ondas encadeia,
Fluindo dos ventrículos à artéria,
Refluindo da artéria para a veia.
Essência misteriosa e procriadora,
Vida difusa a errar em frágeis
veios,
Que as idéias inflama e os olhos
doura:
— Orvalho níveo dos maternos seios.
Mar Vermelho sutil de ondas
estuosas,
Ao meu cajado de Moisés tristonho,
Florindo em cravos, amarantos,
rosas
— Lodões, corais dos litorais
do Sonho.
Rubro Estige espumoso da Luxúria,
Golfão dos meus desejos rebelados,
Onde a minh’alma de Hércules, em
fúria,
Pasce a Hidra de Lerna dos Pecados.
Força despertadora dos sentidos,
Que acorda, inflando, em frêmitos
velozes,
Pela teia vibrátil dos tecidos,
Ânsias, desejos, sensações,
nevroses…
Térmica poeira, liquefeita, insana,
Do turbilhão dos glóbulos
vermelhos:
— Os grãos de areia da vaidade humana
Refletida em recíprocos espelhos…
Tépido arroio vivo e purpurino,
Que aos vasos corporais a sede
estanca,
Em arabesco túrgido e turquino,
De transparência azul, na pele
branca.
Fonte de inspiração, Castália
ardente
Dos ideais simbólicos em bando,
Em dilúvios de cor fosforescente,
Numa preamar lunática flutuando…
Sangue! fluido genésico e fecundo
Do sentimento que anda em mim disperso
— Rocio com que alento e com que inundo
As sementeiras rubras do meu verso.
(Sangue — 1908)
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Da Costa e
Silva: Poesias completas — 1885/1985, Edição do Centenário, 3ª edição revista e
anotada por Alberto da Costa e Silva, 1985, Editora Nova Fronteira e Instituto Nacional
do Livro — Fundação Nacional Pró-Memória, Rio de Janeiro — RJ; Antônio Francisco
Da Costa e Silva (1885 — 1950), piauiense de Amarante, licenciado em Direito pela
Faculdade de Recife — PE, funcionário concursado do Ministério da Fazenda,
exerceu funções públicas no governo federal e foi poeta assentado em dois períodos
literários — o Simbolismo e o Parnasianismo; de sua biografia, consta que o
próprio “dizia ter tido educação severa e ter começado a se interessar pela
poesia ainda criança”, já aos 14 anos ensinou “as primeiras letras a alguns
meninos da vizinhança”; infantolescente, também aprendeu e dedicou-se à
escultura em madeira e à pintura; aos 16 anos [1901] teve seus primeiros poemas
publicados na Revista do Grêmio Literário Amarantino; em Teresina, concluiu os
“preparatórios” no Liceu Piauiense, em 1906 seguiu para Recife — PE, fez
matrícula na Faculdade de Direito, cursou três anos, interrompeu os estudos por
força de sua aprovação em concurso e, a convite do governo federal, iniciou no
serviço público em Belo Horizonte, depois São Paulo, Rio de Janeiro, São Luis
do Maranhão, Manaus e Porto Alegre; de volta a Recife, concluiu os estudos em
Direito e se formou em 1913; teve seus textos — crônicas e crítica literária —
publicados em jornais e revistas dos locais por onde andou (entre os quais o
Correio da Manhã, O Malho, Ilustração Brasileira [do RJ], O Diário de Minas
[MG], o Estado do Amazonas [AM], o suplemento do Diário de Notícias [foi
co-diretor, RS] e outros; obras poéticas: Sangue ([coletânea de poemas escritos
entre 1902-1908], 1908), Zodíaco (1917, premiado pela Academia Brasileira de
Letras), Verhaeren ([poema/ensaio], 1917, publicado na revista Apollo), Pandora
(1919), Verônica (1927), Antologia (seleção dos livros anteriores, 1934), Poesias
Completas (coletânea póstuma e inéditos inacabados, 1950); o poeta, reconhecido
como “Príncipe dos Poetas Piauienses [1928]”, também escreveu a letra do Hino
do Piauí [1923] e foi o primeiro ocupante da Cadeira nº 21 da Academia
Piauiense de Letras (1917); Da Costa e Silva, que “sempre fora franzino,
frágil, nervoso”, desde o “início de 1932”, por causas emocionais e
contingências havidas em seu cargo e no ambiente de trabalho, viu sua saúde se
deteriorar, esteve “internado, em 1933, no Sanatório Botafogo [Rio de Janeiro]”
e, sem esperanças médicas, passou seus últimos e longos 17 anos de vida com a “mente
perturbada”.

