quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Bertolt Brecht: Visita aos poetas banidos

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[traduzido por Paulo César de Souza]

Quando penetrou em sonho
Na cabana dos poetas banidos, vizinha
À cabana dos mestres banidos (de onde
Ouviu briga e gargalhada), veio-lhe ao encontro
Ovídio, e disse-lhe a meia voz:
“Melhor não sentares. Ainda não morreste. Quem sabe
Ainda não retornas? E sem que nada mude
Senão tu mesmo.” Porém, consolo nos olhos
Aproximou-se Po Chu-yi e disse sorridente: “O rigor
Fez por merecer todo aquele que uma só vez deu nome à injustiça.”
E seu amigo Tu-fu disse suave: “Compreendes, o desterro
Não é o lugar onde se desaprende o orgulho.” Mas, mais terreno
Interpôs-se o maltrapilho Villon, e perguntou: “Quantas
Portas tem a casa onde moras?” E tomou-o Dante pelo braço
E levando-o para o lado murmurou: “Teus versos
Estão cheios de erros, amigo, considera
Quem está contra ti!” E Voltaire berrou de lá:
“Cuida dos tostões, senão te matam de fome!”
“E usa gracejos!”, gritou Heine. “Não ajuda”,
Esbravejou Shakespeare, “quando veio Jacó
Também eu não pude mais escrever.”  “Se houver processo
Toma um patife como advogado!” Aconselhou Eurípedes
“Pois ele conhece os furos nas malhas da lei.” A gargalhada
Ainda soava, quando do canto mais escuro
Veio um grito: “Escuta, sabem eles também
Os teus versos de cor? E eles que sabem
Escaparão à perseguição?”  “Estes são
Os esquecidos”, disse Dante em voz baixa
“Foram-lhes destruídos não só os corpos, mas também as obras.”
A gargalhada cessou. Ninguém ousou olhar na direção. O recém-
chegado
Empalideceu.

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Bertolt Brecht

Besuch bei den verbannten Dichtern

Als er im Traum die Hütte betrat der verbannten
Dichter, die neben der Hütte gelegen ist
Wo die verbannten Lehrer wohnen (er hörte von dort
Streit und Gelächter), kam ihm zum Eingang
Ovid entgegen und sagte ihm halblaut:
"Besser, du setzt dich noch nicht. Du bist noch nicht gestorben. Wer
weiß da
Ob du nicht doch zurückkehrst, ohne daß andres sich ändert Als du
selber." Doch, Trost in den Augen
Näherte Po Chü-yi sich und sagte lächelnd: "Die Strenge
Hat sich jeder verdient, der nur einmal das Unrecht benannte."
Und sein Freund Tu-fu sagte still: "Du verstehst, die Verbannung
Ist nicht der Ort, wo der Hochmut verlernt wird." Aber irdischer
Stellte sich der zerlumpte Villon zu ihnen und fragte: "Wie viele
Türen hat das Haus, wo du wohnst?" Und es nahm ihn der Dante bei
Seite
Und ihn am Ärmel fassend, murmelte er: "Deine Verse
Wimmeln von Fehlern, Freund bedenk doch
Wer alles gegen dich ist!" Und Voltaire rief hinüber:
"Gib auf den Sou acht, sie hungern dich aus sonst!"
"Und misch Späße hinein!" schrie Heine. "Das hilft nicht"
Schimpfte der Shakespeare, "als Jakob kam
Durfte ich auch nicht mehr schreiben."  "Wenn's zum Prozeß kommt
Nimm einen Schurken zum Anwalt!" riet der Euripides
"Denn der kennt die Löcher im Netz des Gesetzes." Das Gelächter
Dauerte noch, da, aus der dunkelsten Ecke
Kam ein Ruf: "Du, wissen sie auch
Deine Verse auswendig? Und die sie wissen
Werden sie der Verfolgung entrinnen?"  "Das
Sind die Vergessenen", sagte der Dante leise
"Ihnen wurden nicht nur die Körper, auch die Werke vernichtet."
Das Gelächter brach ab. Keiner wagte hinüberzublicken. Der
Ankömmling
War erblaßt.
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Bertolt Brecht, poemas 1913 — 1956, Seleção e Tradução de Paulo César de Souza, 2016 (7ª edição, 1ª reimpressão), Editora 34, São Paulo — SP; Eugen Bertholt Friedrich Brecht (1898 1956), alemão de Augsburg Baviera, foi dramaturgo, encenador e poeta; em 1917 iniciou o curso de Medicina, em Munique, mas, tendo sido convocado pelo exército, na Primeira Guerra, trabalhou como enfermeiro em hospital militar; em 1933, com a ascensão de Hitler, deixa a Alemanha, exilando-se primeiro na Dinamarca, depois nos Estados Unidos e na Suiça; em 1948, de volta à Alemanha, funda a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção artística, Baal (texto de 1918/produção em 1926), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1918/1920), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938) e tantos outros textos escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Aretino: Mais que sonetos este livro aninha . . . [soneto]

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[traduzido por José Paulo Paes]

1

Mais que sonetos este livro aninha,
Mais que éclogas, capítulos, canções.
Tu, Bembo ou Sannazaro, aqui não pões
Nem líquidos cristais e nem florinhas.

Marignan madrigais não escrevinha
Aqui, onde há caralhos sem bridões,
Que em cu ou cona lépidos dispõem-se
Como confeitos dentro da caixinha.

Gente aqui há que fode e que é fodida,
De conas e caralhos há caudal
E pelo cu muita alma já perdida.

Fode-se aqui com graça sem igual,
Alhures nunca assaz reproduzida
Por toda a jerarquia putanal.

                      Enfim loucura tal
Que até dá nojo essa iguaria toda
E Deus perdoe a quem no cu não foda.

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Pietro Aretino

1

    Questo è un libro d’altro che sonetti,
Di capitoli, d’egloghe o canzone,
Qui il Sannazaro o il Bembo non compone
Nè liquidi cristalli, nè fioretti.

    Qui il Marignan non v’ha madrigaletti,
Ma vi son cazzi senza discrizione
E v’è la potta e ‘l cul, che li ripone
Appunto come in scatole confetti.

    Vi son genti fottenti e fottute
E di potte e di cazzi notomie
E ne’ culi molt’anime perdute.

    Qui vi si fotte in più leggiadre vie,
Ch’in alcun loco si sien mai vedute
Infra le puttanesche gerarchie;

                          In fin sono pazzie
A farsi schifo di si buon bocconi
E chi non fotte in cul, Dio gliel perdoni.
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Aretino Sonetos Luxuriosos Tradução, Ensaio Crítico, Notícia Biográfica e Notas de José Paulo Paes, edição bilíngue, 1981, Editora Record, São Paulo SP; Pietro Aretino (1492  1556), italiano de Arezzo, foi poeta, escritor, dramaturgo e jornalista; de sua biografia, consta ter aprendido e se interessado pelo ofício de escrever, ainda aos 15 anos de idade, após ter arranjado trabalho como tipógrafo-encadernador, na cidade de Perusa, quando também, de forma autodidata, adquiriu educação rudimentar com as leituras dos cadernos impressos que a ele cabia juntar e costurar; em Veneza e em Roma, tornou-se conhecido por seus versos satíricos e viperinos, passou a ser protegido e temido na corte, tudo ao mesmo tempo, o que fez do poeta alvo de admiradores protetores e de desafetos inimigos; consta ter sido conhecido como “secretário do mundo” e “flagelo dos príncipes”; acercando-se de poderosos, fez chantagens com sua verve literária, acumulou fortuna, fazendo porém questão de permanecer plebeu; bibliografia: Sonetti Lussuriosi (1525), I Raggionamenti (1534  1536), Lettere, Marfisa (poema épico), Orlandino e Astolfeida (poemas paródicos), L’Orazia (tragédia, 1546), La Cortigiana, Il Maresciallo, La Talanta, Lo Ipocrita e Il Filosofo (todas, comédias); em Notícia Biográfica deste Sonetos Luxuriosos, José Paulo Paes registra que “Lo Ipocrita antecipa o Tartufo de Moliére (que não desconhecia o teatro de Aretino) e que é mais do que provável ter Il Maresciallo influenciado Rabelais.”

Pablo Neruda: Triste canção para chatear qualquer um

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[traduzido por Geraldo Galvão Ferraz]

Toda noite passei a vida
fazendo contas,
mas não de vacas,
mas não de libras,
mas não de francos,
mas não de dólares,
não, nada disso.

Toda vida passei a noite
fazendo contas,
mas não de carros,
mas não de gatos,
mas não de amores,
não.

Toda vida passei a luz
fazendo contas,
mas não de livros,
mas não de cachorros,
mas não de cifras,
não.

Toda lua passei a noite
fazendo contas,
mas não de beijos,
mas não de noivas,
mas não de camas,
não.

Toda noite passei as ondas
fazendo contas,
mas não de garrafas,
mas não de dentes,
mas não de copos,
não.

Toda guerra passei a paz
fazendo contas,
mas não de mortos,
mas não de flores,
não.

Toda chuva passei a terra
fazendo contas,
mas não de caminhos,
mas não de canções,
não.

Toda terra passei a sombra
fazendo contas,
mas não de cabelos,
não de rugas,
não de coisas perdidas,
não.

Toda morte passei a vida
fazendo contas:
mas de que se trata
não me lembro,
não.

Toda vida passei a morte
fazendo contas
e se saí perdendo
ou se saí ganhando
não sei, a terra
não sabe.

Et cetera.

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Pablo Neruda

Triste canción para aburrir a cualquiera

Toda a la noche me pasé la vida
sacando cuentas,
pero no de vacas,
pero no de libras,
pero no de francos,
pero no de dólares,
no, nada de eso.

Toda la vida me pasé la noche
sacando cuentas,
pero no de coches,
pero no de gatos,
pero no de amores,
no.

Toda la vida me pasé la luz
sacando cuentas,
pero no de libros,
pero no de perros,
pero no de cifras,
no.

Toda la luna me pasé la noche
sacando cuentas,
pero no de besos,
pero no de novias,
pero no de camas,
no.

Toda la noche me pasé las olas
sacando cuentas,
pero no de botellas,
pero no de dientes,
pero no de copas,
no.

Toda la guerra me pasé la paz
sacando cuentas,
pero no de muertos,
pero no de flores,
no.

Toda la lluvia me pasé la tierra
haciendo cuentas,
pero no de caminos,
pero no de canciones,
no.

Toda la tierra me pasé la sombra
sacando cuentas,
pero no de cabelos,
no de arrugas,
no de cosas perdidas,
no.

Toda la muerte me pasé la vida
sacando cuentas:
pero de qué se trata
no me acuerdo,
no.

Toda la vida me pasé la muerte
sacando cuentas
y si salí perdendo
o si salí ganando
yo no lo sé, la tierra
no lo sabe.

Etcétera.
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Defeitos Escolhidos & 2000  Pablo Neruda, Tradução de Geraldo Galvão Ferraz, Edição Bilíngue, Volume 451, Coleção L&PM Pocket, reimpressão em 2011, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; conhecido e reconhecido pelo pseudônimo, Pablo Neruda (1904 1973), nascido Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, chileno de Parral, estudou Pedagogia e Francês na Universidade do Chile, foi diplomata e poeta; aos treze anos começa a contribuir com alguns textos  para o jornal La Montaña; em 1920, já como Pablo Neruda, publicou poemas no periódico literário Selva Austral; considerado um dos mais importantes poetas de língua castelhana do século XX, escreveu e publicou Crepusculario (1923), Veinte poemas de amor y una canción desesperada (1924), Tentativa del hombre infinito (1926), El habitante y su esperanza (novela, 1926), Canto general (1950), Los versos del Capitán (1952), Todo el amor (1953), Estravagario (1958), Cien sonetos de amor (1959), Cantos ceremoniales (1961), La Barcarola (1967), Las manos del día (1968), Fin del mundo (1969), Maremoto (1970), La espada escendida (1970), Confieso que he vivido — Memorias (1977) e outros títulos; foi laureado com o Prêmio Nacional de Literatura do Chile (1945), Prêmio Lênin da Paz (1953) e Prêmio Nobel de Literatura (1971); como diplomata do governo chileno, viveu em Burma, Ceilão, Java, Cingapura, Buenos Aires, Barcelona e Madri.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Lima Barreto: Como é?

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                    Noticiam os jornais que a polícia prendeu dois vadios e, de acordo com as leis e o código, processou-os por vadiagem.
                    Até ai a coisa não tem grande importância. Em toda a sociedade, há de haver por força vadios.
                    Uns, por doença nativa; outros, por vício.
                    Tem havido até vadios bem notáveis.
                    Dante foi um pouco vagabundo; Camões, idem; Bocage também; e muitos outros que figuram nos dicionários biográficos e têm estátua na praça pública.
                    Não vem, tudo isto ao caso; mas uma idéia puxa outra...
                    O que há de curioso no caso de polícia de que vos falei, é que os tais vadios logo se prontificaram a prestar fiança de quinhentos-réis, cada um, para se defenderem soltos. Como é isto? Vagabundos possuidores de tão importante quantia? Há muito homem morigerado e trabalhador, por aí, que nunca viu tal dinheiro.
                    Deve haver engano, por força.
                    De resto, se não o há, sou de parecer que a tal lei está mal feita.
                    O legislador nunca devia admiti que vadios, homens que nada fazem, portanto, não ganham, pudessem dispor de dinheiro, e dinheiro grosso, para se afiançarem.
                    Ou eles o têm e obtiveram-no por meios e, portanto, não são vadios; ou, tendo-o e não trabalhando, são coisas muito diferentes de simples vadios.
                    Quem cabras não tem e cabritos vende...
                    Não sou, pois, bacharel, jurista, nem rábula e fico aqui.

Marginália, sem data

Lima_Barreto
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Lima Barreto: Crônicas Escolhidas, Apresentação de João Antônio, Coleção Folha de São Paulo, 1995, Editora Ática, São Paulo — SP; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 — 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A.B.C.Careta dentre eles; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; obras literárias: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e editado em livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (obra inacabada, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...

Mário Quintana: Dorme, Ruazinha. . . É Tudo Escuro! . . . [soneto]

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Dorme, ruazinha… É tudo escuro…
E os meus passos, quem é que pode ouvi-los?
Dorme o teu sono sossegado e puro,
Com teus lampiões, com teus jardins tranqüilos…

Dorme… Não há ladrões, eu te asseguro…
Nem guardas para acaso persegui-los…
Na noite alta, como sobre um muro,
As estrelinhas cantam como grilos…

O vento está dormindo na calçada,
O vento enovelou-se como um cão…
Dorme, ruazinha… Não há nada…

Só os meus passos… Mas tão leves são
Que até parecem, pela madrugada,
Os da minha futura assombração…

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Antologia de Poemas para a infância (diversos autores), Organização de Henriqueta Lisboa e Ilustrações de Dawidson França, 3ª edição, 2009, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Mário de Miranda Quintana (1906  1994), gaúcho de Alegrete, foi jornalista, tradutor e poeta; escreveu e publicou A Rua dos Cataventos (1940), Canções (1946), Sapato Florido (1948), O Aprendiz de Feiticeiro (1950), Inéditos e Esparsos (1953), Pé de Pilão (literatura infanto-juvenil, 1968),  Quintanares (1976), Apontamentos de História Sobrenatural (1976), A Vaca e o Hipogrifo (1978), Prosa e Verso (1978), Baú de Espantos (1986) etecétera, etecétera, etecétera, além de participação em antologias; traduziu obras de Proust, Balzac, Mérimée, Conrad, Maupassant, Voltaire, Beaumarchais, entre outros autores; trabalhou em jornais gaúchos.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Safo: Ode a Afrodite

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[traduzido por Joaquim Brasil Fontes]

Aphrodite em trono de cores e brilhos,
imortal filho de Zeus, urdidora de tramas!
eu te imploro: a dores e mágoas não dobres,
Soberana, meu coração;

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mas vem até mim, se jamais no passado,
ouviste ao longe meu grito, e atendeste,
e o palácio do pai abandonado,
áureo, tu vieste,

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no carro atrelado: conduziam-te, rápidos,
lindos pardais sobre a terra sombria,
lado a lado num bater de asas, do céu,
através dos ares,

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e pronto chegaram; e tu, Bem aventurada,
com um sorriso no teu rosto imortal,
perguntaste por que de novo eu sofria,
e por que de novo eu suplicava;

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e o que para mim eu mais quero,
no coração delirante. Quem de novo, a Persuasiva
deve convencer para o teu amor? Quem,
ó Psappha, te contraria?

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Pois, ela, que foge, em breve te seguirá;
ela que os recusa, presentes vai fazer;
ela que não te ama, vai te amar em breve,
embora não querendo.

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vem, outra vez  agora! Livra-me
desta angústia e alcança para mim,
tu mesma, o que o coração mais deseja:
sê meu Ajudante-em-Combates!

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Ποικιλόθρον᾽ ὰθάνατ᾽ ᾽Αφροδιτα,
παῖ Δίοσ, δολόπλοκε, λίσσομαί σε
μή μ᾽ ἄσαισι μήτ᾽ ὀνίαισι δάμνα,
πότνια, θῦμον.

ἀλλά τυίδ᾽ ἔλθ᾽, αἴποτα κἀτέρωτα
τᾶσ ἔμασ αύδωσ αἴοισα πήλγι
ἔκλυεσ πάτροσ δὲ δόμον λίποισα
χρύσιον ἦλθεσ

ἄρμ᾽ ὐποζεύξαια, κάλοι δέ σ᾽ ἆγον
ὤκεεσ στροῦθοι περὶ γᾶσ μελαίνασ
πύκνα δινεῦντεσ πτέῤ ἀπ᾽ ὠράνω
αἴθεροσ διὰ μέσσω.

αῖψα δ᾽ ἐχίκοντο, σὺ δ᾽, ὦ μάσαιρα
μειδιάσαισ᾽ ἀθάνατῳ προσώπῳ,
ἤρἐ ὄττι δηὖτε πέπονθα κὤττι
δἦγτε κάλημι

κὤττι μοι μάλιστα θέλω γένεσθαι
μαινόλᾳ θύμῳ, τίνα δηὖτε πείθω
μαῖσ ἄγην ἐσ σὰν φιλότατα τίσ τ, ὦ
Πσάπφ᾽, ἀδίκηει;

καὶ γάρ αἰ φεύγει, ταχέωσ διώξει,
αἰ δὲ δῶρα μὴ δέκετ ἀλλά δώσει,
αἰ δὲ μὴ φίλει ταχέωσ φιλήσει,
κωὐκ ἐθέλοισα.

ἔλθε μοι καὶ νῦν, χαλεπᾶν δὲ λῦσον
ἐκ μερίμναν ὄσσα δέ μοι τέλεσσαι
θῦμοσ ἰμμέρρει τέλεσον, σὐ δ᾽ αὔτα
σύμμαχοσ ἔσσο.

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Eros, tecelão de mitos: a poesia de Safo de Lesbos  Joaquim Brasil Fontes (poema e fragmentos em edição bilíngue), Apresentação-estudo de Benedito Nunes, 2ª edição revista e corrigida, 2003, Editora Iluminuras, São Paulo —  SP; acerca de Safo de Lesbos (nascida entre 630 a.C. e 604 a.C. —  com morte em data incerta), grega de Mitilene, ilha de Lesbos, muito pouco ou quase nada se sabe; foi poetisa, além de tecelã e sacerdotisa; de sua poesia, chegaram até nós apenas 650 versos (fragmentos de poesias diversas) e tão somente um poema registrado em sua integralidade, a 'Ode a Afrodite', preservado em obra de Dionisio de Halicarnasso (grego da Ásia Menor, viveu em Roma por volta de 30 a.C.); é considerada a primeira poetisa com registro na história do nosso mundo ocidental; além de tais fragmentos poéticos e do único poema integral, uma fonte sobre a vida da poetisa são os relatos biográficos e literários de comentadores da antiguidade, historiadores que tiveram muito mais acesso à poesia de Safo do que nós temos hoje em dia, no entanto não podemos saber até que ponto tais relatos estão corretos; além da poesia lírica, tais comentadores nos contam que Safo também escrevia poesia elegíaca e iâmbica; consta ter criado uma confraria para preparar moças nobres para o casamento, onde estudavam música, liam poesia e aprendiam a dançar, sempre com a proteção da deusa Afrodite e das musas; a poetisa foi chamada de a ‘décima musa’, por Platão (428/427 a.C.  348/347 a.C.), influenciou os poetas Horácio (65 a.C.  8 a.C.) e Catulo (87 a.C.?  57 a.C.?), que a traduziram e imitaram seus textos e, em época muito mais contemporânea a nós, influenciou também os italianos Ugo Foscolo (1778  1827) e Giacomo Leopardi (1798 — 1837); são vários os poetas que em suas criações se referem a Safo e sua poesia, dentre os quais Baudelaire e Paul Verlaine.