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domingo, 8 de julho de 2018

Francisco Carvalho: As compoteiras

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Minha existência esvaída
no tempo das compoteiras.
Primas de coxas de vidro
confabulam sobre as mesas.

Compoteiras desenhadas
na teia de muitas lendas.
Rede branca de saudade
nos esteios da fazenda.

De repente os mortos descem
pelo espaldar das cadeiras,
os olhos fitos nos olhos
volúveis das compoteiras.

Compoteiras coloridas
pela infância e o devaneio.
Mesma a forma, o mesmo gosto
adocicado de um seio.

Compoteiras adoçadas
pela amargura esvaída
do coração das escravas
embalando a nossa vida.

Fossem de vidro lavrado
ou do cristal que reluz,
meu coração transbordava
das compoteiras azuis.

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Revista do Clube da Poesia de São Paulo — Poesia nº 3, (vários autores), Ano II, dezembro de 1978, Editor: Geraldo Pinto Rodrigues, São Paulo —  SP; Francisco de Oliveira Carvalho (1927  2013), cearense de Russas, estudou no Ateneu São Bernardo, foi escritor e poeta; ainda em Russas, publicou seus primeiros versos, numa pequena tipografia; depois, mudando-se para Fortaleza, fez carreira profissional como assessor na Universidade Federal do Ceará, participou da vida intelectual da capital do estado e envolveu-se com os movimentos literários do seu tempo; bibliografia: Cristal da memória (1955), Canção atrás da esfinge (1956), Do girassol e da nuvem (1960), O tempo e os amantes (1966), Dimensão das coisas (1967),  Memorial de Orfeu (1969), Quadrante solar (Prêmio Nestlé de Literatura, 1982), Barca dos sentidos (1989), Rosa geométrica (1990), Exercícios de literatura (ensaio, 1990), Crônica das raízes (1992), Galope de Pégaso (1994), Textos e contextos (ensaio, 1995), Girassóis de barro  (Prêmio da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, 1997),  Romance da nuvem pássaro (1998), A concha e o rumor (2000), Memórias do espantalho (2004), e outros títulos em verso e prosa, além de ter participado em antologias publicados no Brasil, Portugal, França e Alemanha; o poeta teve parte de sua obra traduzida para o búlgaro; pertenceu à Academia Cearense de Letras.

Joaquim Cardoso: O Relógio

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Quem é que sobe as escadas
Batendo o liso degrau?
Marcando o surdo compasso
Com uma perna de pau?

Quem é que tosse baixinho
Na penumbra da ante-sala?
Por que resmunga sozinho?
Por que não cospe e não fala?

Por que dois vermes sombrios
Passando na face morta?
E o mesmo sopro contínuo
Na frincha daquela porta?

Da velha parede triste
No musgo roçar macio:
São horas leves e tenras
Nascendo do solo frio.

Um punhal feriu o espaço...
E o alvo sangue a gotejar;
Deste sangue os meus cabelos
Pela vida hão de sangrar.

Todos os grilos calaram
Só o silêncio assobia;
Parece que o tempo passa
Com sua capa vazia.

O tempo enfim cristaliza
Em dimensão natural;
Mas há demônios que arpejam
Na aresta do seu cristal.

No tempo pulverizado
Há cinza também da morte:
Estão serrando no escuro
As tábuas da minha sorte.

Resultado de imagem para Joaquim Maria Moreira Cardozo
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Revista do Clube da Poesia de São Paulo  Poesia nº 3, (vários autores), Ano II, dezembro de 1978, Editor: Geraldo Pinto Rodrigues, São Paulo —  SP; Joaquim Cardoso (1897  1978), ou Joaquim Maria Moreira Cardozo, pernambucano de Recife, formado em Engenharia Civil, foi poeta, contista, engenheiro civil, desenhista, professor universitário e editor; na imprensa, fez charges para o Diário de Pernambuco, colaborou na Revista do Norte (foi diretor), Revista do Patrimônio Histórico, revistas Para Todos e Módulo; foi professor de Teoria e Filosofia da Arquitetura na antiga Escola de Belas Artes de Pernambuco; bibliografia: Poemas (1947), Signo estrelado (1960), Coronel de Macambira (1963), De uma noite de festa (1971), Poesias Completas (1971), Os anjos e os demônios de Deus (1973), O capataz de Salema, Antonio Conselheiro, Marechal, boi de carro (1975), O interior da matéria (1976), Um livro aceso e nove canções sombrias (póstumo, 1981); como engenheiro civil, participou dos cálculos de projetos de obras monumentais de Oscar Niemeyer, o Conjunto Arquitetônico da Pampulha, em Belo Horizonte  MG, e do Palácio da Alvorada, Catedral Metropolitana, Cúpula do Congresso Nacional, Palácio Itamarati, todos em Brasília  DF, além de outros trabalhos.