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terça-feira, 28 de abril de 2026

Rainer Maria Rilke: Morgue

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[traduzido por José Paulo Paes]

Ali jazem em ordem como se
à espera de algum ato tardio
que os pudesse ligar entre si e
reconciliá-los com aquele frio;

tudo está por enquanto inacabado.
Por que, dentro dos bolsos, um cartão
com o nome de cada? O ar de enfado
nas suas bocas, foi esforço vão

tentar lavá-lo: só ficou patente.
Mais áspera, a barba ainda nos rostos:
o zelador da morgue tem seus gostos;

nem os de boca aberta lhe dão náuseas.
Com olhos revirados sob as pálpebras,
os mortos veem-se agora interiormente.

R. M. Rilke

Morgue

Da liegen sie bereit, als ob es gälte,
nachträglich eine Handlung zu erfinden,
die mit einander und mit dieser Kälte
sie zu versöhnen weiss und zu verbinden;

denn das ist alles noch wie ohne Schluss.
Wasfür ein Name hätte in den Taschen
sich finden sollen? An dem Überdruss
um ihren Mund hat man herumgewaschen:

er ging nicht ab; er wurde nur ganz rein.
Die Bärte stehen, noch ein wenig härter,
doch ordentlicher im Geschmack der Wärter,

nur um die Gaffenden nicht anzuwidern.
Die Augen haben hinter ihren Lidern
sich umgewandt und schauen jetzt hinein.

[Neue Gedichte — 1º (1907)]
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Poemas — R. M. Rilke, Seleção, Tradução, Introdução e Notas de José Paulo Paes e Apresentação de João Moura Jr., bilíngue, 2001, 1ª edição, 3ª reimpressão, Companhia das Letras — São Paulo — SP; Rainer Maria Rilke (1875 1926), ou René Karl Wilhelm Johann Josef Maria Rilke, austríaco de Praga (antigo Império Austro-Húngaro, atual República Tcheca), fez seus estudos nas universidades de Praga, Munique e Berlim, foi poeta e novelista; o poeta, um quase nômade, andejou por muitos países na Europa; no início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, Rilke residia em Munique e ali permaneceu até o término do conflito; escreveu e publicou Leben und Lieder (Vida e Canções, 1894), Larenopfer (Oferenda aos lares, 1895), Das Buch der Bilder (O Livro das Imagens, 1902), Die Weise von Liebe und Todd es Cornets Christoph Rilke (A Canção do amor e de Morte do Porta-Estandarte Cristóvão Rilke, 1904), Stundenbuch (O Livro das Horas, 1905), Neue Gedichte (Novos Poemas, 19071908), Die Aufzeichnungen des Malte Laurids Brigge (Os Cadernos de Malte Laurids Brigge, 1910), Das Marien Leben (A Vida de Maria, 1913), Duineser Elegien (Elegias de Duíno, 1923), Sonette an Orpheus (Sonetos a Orfeu, 1923), Briefe an einen jungen Dichter (publicação póstuma, Cartas a um Jovem Poeta, 1929); também escreveu poemas em francês.

sexta-feira, 27 de março de 2026

William Carlos Williams: Primavera e o mais

 
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[traduzido por José Paulo Paes]

A caminho do hospital de isolamento
sob as vagas de nuvens mosqueadas
de azul que chegam impelidas
do nordeste um vento frio. Além, o
ermo de extensos campos lamacentos
pardos de erva ressequida, em pé ou aparada

nesgas de água parada
dispersão de árvores altas

Ao longo do caminho todo, ruivos, roxos
bifurcados, erectos, ramalhudos
os arbustos e arvoredos com
folhas de vide, pardas, mortas a seu pé
sem vides

Sem vida aparente, a vagarosa
e tonta primavera se aproxima

Eles entram o novo mundo nus,
friorentos, inseguros de tudo,
salvo que entram. À sua volta sempre
o vento frio, já conhecido

Hoje a relva, amanhã a tesa folha
espiralada da cenoura brava
Um por um os objetos se definem
Mais depressa: luz, perfil de folha

Eis agora porém a hirta dignidade da
entrada Entanto, a mudança profunda
acometeu-os: arraigados, eles
aferram-se ao chão e começam a acordar

(Primavera e o mais 1923)

William Carlos Williams

Spring and all

By the road to the contagious hospital
under the surge of the blue
mottled clouds driven from the
northeast a cold wind. Beyond, the
waste of broad, muddy fields
brown with dried weeds, standing and fallen

patches of standing water
the scattering of tall trees

All along the road the reddish
purplish, forked, upstanding, twiggy
stuff of bushes and small trees
with dead, brown leaves under them
leafless vines

Lifeless in appearance, sluggish
dazed spring approaches

They enter the new world naked,
cold, uncertain of all
save that they enter. All about them
the cold, familiar wind

Now the grass, tomorrow
the stiff curl of wildcarrot leaf
One by one objects are defined
It quickens: clarity, outline of leaf

But now the stark dignity of
entrance Still, the profound change
has come upon them: rooted, they
grip down and begin to awaken

(Spring and all —  1923)
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Poemas: William Carlos Williams — [edição bilíngue], Seleção, Tradução, Estudo crítico e Notas de José Paulo Paes, 1987, Companhia das Letras, São Paulo — SP; William Carlos Williams (1883 1963), estadunidense de Rutherford, New Jersey, formou-se pela Faculdade de Medicina da Universidade da Pensilvânia, foi médico pediatra e clínico geral, romancista, ensaísta e poeta do modernismo e do imagismo estadunidense; Williams, antes mesmo de aprender o inglês, aprendeu o espanhol, visto que sua mãe, de origem basca, nascera em Porto Rico, Caribe, e em casa seus pais conversavam neste idioma; suas obras: Poems (1909), Kora in Hell: Improvisations (poema-prosa, 1920), The Great American Novel (novela, 1923), Spring and all (Primavera e o mais, 1923), Novelette and Other Prose (1932), An early martyr and other poems (Um mártir precoce e outros poemas, 1935), White Mule (novela, 1937), Life along the Passaic River (contos, 1938), The Complete Collected Poems of William Carlos Williams 1906—1938 (Poemas reunidos completos, 1938), The Wedge (A cunha, poesias, 1944), Paterson — Books I, II, III, IV and V (1946 1958), Autobiography (1951), The Desert Music and Other Poems (A música do deserto e outros poemas, 1954), Selected Essays (1954), Pictures from Brueghel and Other Poems (Quadros de Brueghel e outros poemas, 1962), Many Loves and Other Plays: The Collected Plays of William Carlos Williams (drama, 1962) e outros textos em verso e prosa; William Carlos Williams recebeu premiações por sua obra, entre as quais o National Book Award for Poetry, o Prêmio Bollingen e, postumamente, o Pulitzer de Poesia, por Pictures from Brueghel and Other Poems.

quinta-feira, 19 de março de 2026

Rainer Maria Rilke: Eu vos saúdo, sarcófagos antigos . . . [soneto]


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[traduzido por José Paulo Paes]

I – 10

Eu vos saúdo, sarcófagos antigos
que risonha a água dos dias romanos
percorre como cantiga de ciganos:
meu coração vos guardou sempre consigo.

Ou os abertos como olhos de pastor
que alegre despertasse à luz da alvorada
cheios de silêncio e lâmios , do interior
deles borboletas vão-se em revoada.

Vós a quem a dúvida não mortifica,
saúdo-vos, bocas outra vez abertas,
que já sabeis o que calar significa.

Não o sabemos, amigos, nós também?
Ambos afeiçoa a hora tão incerta
que sobre o rosto dos homens se detém.

(Sonetos a Orfeu, 1923)

R. M. Rilke

Euch, die ihr nie mein Gefühl verliesst

– 10

Euch, die ihr nie mein Gefühl verliesst,
grüss ich, antikische Sarkophage,
die das fröhliche Wasser römischer Tage
als ein wandelndes Lied durchfliesst.

Oder jene so offenen, wie das Aug
eines frohen erwachenden Hirten,
innen voll Stille und Bienensaug 
denen entzückte Falter entschwirrten;

alle, die man dem Zweifel entreisst,
grüss ich, die wiedergeöffneten Munde,
die schon wussten was schweigen heisst.

Wissen wirs, Freunde, wissen wirs nicht?
Beides bildet die zögernde Stunde
in dem menschlichen Angesicht.

(Sonette an Orpheus, 1923)
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Poemas — R. M. Rilke, Seleção, Tradução, Introdução e Notas de José Paulo Paes e Apresentação de João Moura Jr., 2001, bílingue. 1ª edição, 3ª reimpressão, Companhia das Letras — São Paulo — SP; Rainer Maria Rilke (1875 1926), ou René Karl Wilhelm Johann Josef Maria Rilke, austríaco de Praga (antigo Império Austro-Húngaro, atual República Tcheca), fez seus estudos nas universidades de Praga, Munique e Berlim, foi poeta e novelista; o poeta, um quase nômade, andejou por muitos países na Europa; no início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, Rilke residia em Munique e ali permaneceu até o término do conflito; escreveu e publicou Leben und Lieder (Vida e Canções, 1894), Larenopfer (Oferenda aos lares, 1895), Das Buch der Bilder (O Livro das Imagens, 1902), Die Weise von Liebe und Todd es Cornets Christoph Rilke (A Canção do amor e de Morte do Porta-Estandarte Cristóvão Rilke, 1904), Stundenbuch (O Livro das Horas, 1905), Neue Gedichte (Novos Poemas, 19071908), Die Aufzeichnungen des Malte Laurids Brigge (Os Cadernos de Malte Laurids Brigge, 1910), Das Marien Leben (A Vida de Maria, 1913), Duineser Elegien (Elegias de Duíno, 1923), Sonette an Orpheus (Sonetos a Orfeu, 1923), Briefe an einen jungen Dichter (publicação póstuma, Cartas a um Jovem Poeta, 1929); também escreveu poemas em francês.

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

William Carlos Williams: O direito de passagem

 
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[traduzido por José Paulo Paes]

Transitando com a idéia posta
em nada deste mundo

a não ser o direito de passagem
eu desfruto a estrada por

efeito de lei
vi

um homem de idade
que sorriu e desviou o olhar

para o norte, além de uma casa
uma mulher de azul

que estava rindo e se
inclinando para a frente

a fim de olhar o rosto meio
voltado do homem

e um menino de uns oito anos que
olhava para o meio da

barriga do homem
para uma corrente de relógio

A suprema importância
deste inominado espetáculo

fez com que eu acelerasse
ao passar por eles sem palavra

Por que me importaria o rumo?
e lá fui rodando sobre as

quatro rodas do meu carro
pela estrada molhada até

que vi uma moça com uma perna sobre
o parapeito de um balcão

(Primavera e o mais 1923)


The right of way

In passing with my mind
on nothing in the world

but the right of way
I enjoy on the road by

virtue of the law
I saw

an elderly man who
smiled and looked away

to the north past a house
a woman in blue

who was laughing and
leaning forward to look up

into the man’s half
averted face

and a boy of eight who was
looking at the middle of

the man’s belly
at a watchcham

The supreme importance
of this nameless spectacle

sped me by them
without a word

Why bother where I went?
for I went spinning on the

four wheels of my car
along the wet road until

I saw a girl with one leg
over the rail of a balcony.

(Spring and all —  1923)
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Poemas: William Carlos Williams — [edição bilíngue], Seleção, Tradução, Estudo crítico e Notas de José Paulo Paes, 1987, Companhia das Letras, São Paulo — SP; William Carlos Williams (1883 1963), estadunidense de Rutherford, New Jersey, formou-se pela Faculdade de Medicina da Universidade da Pensilvânia, foi médico pediatra e clínico geral, romancista, ensaísta e poeta do modernismo e do imagismo estadunidense; Williams, antes mesmo de aprender o inglês, aprendeu o espanhol, visto que sua mãe, de origem basca, nascera em Porto Rico, Caribe, e em casa seus pais conversavam neste idioma; suas obras: Poems (1909), Kora in Hell: Improvisations (poema-prosa, 1920), The Great American Novel (novela, 1923), Spring and all (Primavera e o mais, 1923), Novelette and Other Prose (1932), An early martyr and other poems (Um mártir precoce e outros poemas, 1935), White Mule (novela, 1937), Life along the Passaic River (contos, 1938), The Complete Collected Poems of William Carlos Williams 1906—1938 (Poemas reunidos completos, 1938), The Wedge (A cunha, poesias, 1944), Paterson — Books I, II, III, IV and V (1946 1958), Autobiography (1951), The Desert Music and Other Poems (A música do deserto e outros poemas, 1954), Selected Essays (1954), Pictures from Brueghel and Other Poems (Quadros de Brueghel e outros poemas, 1962), Many Loves and Other Plays: The Collected Plays of William Carlos Williams (drama, 1962) e outros textos em verso e prosa; William Carlos Williams recebeu premiações por sua obra, entre as quais o National Book Award for Poetry, o Prêmio Bollingen e, postumamente, o Pulitzer de Poesia, por Pictures from Brueghel and Other Poems.

quinta-feira, 17 de julho de 2025

William Carlos Williams: Morte

 
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[traduzido por José Paulo Paes]

Ele está morto
o cão não terá mais
de dormir sobre as batatas
dele para evitar
que congelem

está morto
o velho bastardo
É um bastardo porque

já não há mais nada
de legítimo
nele
  está morto
de dar nojo

       é
uma velharia
esquecida de Deus sem
nenhum sopro de vida

Não é coisíssima alguma
  está morto
pele só

  Ponham-lhe a cabeça
numa cadeira e os
pés em outra e ele
ficará ali esticado
feito um acrobata

O amor batido. Por
ele. Eis por que
é insuportável
       porque
ali jaz carecido
de barbear-se no peito
um uivo estrangulado
de amor e derrota

Ele saltou para fora
do homem e deixou
o homem se ir embora
                                       o farsante

Morto
         de olhos
revirados no branco
sem luz um escárnio

                                     que
o amor já não pode tocar

enterrem-no e escondam-lhe
logo o rosto
de vergonha.

William Carlos Williams

Death

He’s dead
the dog won’t have to
sleep on his potatoes
any more to keep them
from freezing

he’s dead
the old bastard
He’s a bastard because

there’s nothing
legitimate in him any
more
  he’s dead
He’s sick-dead

        he’s
a godforsaken curio
without
any breath in it

He’s nothing at all
  he’s dead
shrunken up to skin

  Put his head on
one chair and his
feet on another and
he’ll lie there
like an acrobat

Love's beaten. He
beat it. That's why
he's insufferable
        because
he's here needing a
shave and making love
an inside howl
of anguish and defeat

He's come out of the man
and he's let
the man go
                     the liar

Dead
        his eyes
rolled up out of
the light a mockery

                                   which
love cannot touch

just bury it
and hide its face
for shame.

(Collected poems 1921-1931 — 1934)
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Poemas: William Carlos Williams — [edição bilíngue], Seleção, Tradução, Estudo crítico e Notas de José Paulo Paes, 1987, Companhia das Letras, São Paulo — SP; William Carlos Williams (1883 1963), estadunidense de Rutherford, New Jersey, formou-se pela Faculdade de Medicina da Universidade da Pensilvânia, foi médico pediatra e clínico geral, romancista, ensaísta e poeta do modernismo e do imagismo estadunidense; Williams, antes mesmo de aprender o inglês, aprendeu o espanhol, visto que sua mãe, de origem basca, nascera em Porto Rico, Caribe, e em casa seus pais conversavam neste idioma; suas obras: Poems (1909), Kora in hell: improvisations (poema-prosa, 1920), The great american novel (novela, 1923), Spring and all (Primavera e o mais, 1923), Novelette and other prose (1932), Collected poems — 1921-1931 (Poemas reunidos, 1934), An early martyr and other poems (Um mártir precoce e outros poemas, 1935), White mule (novela, 1937), Life along the Passaic River (contos, 1938), The complete collected poems of William Carlos Williams 1906—1938 (Poemas reunidos completos, 1938), The wedge (A cunha, poesias, 1944), Paterson — books I, II, III, IV and V (1946 1958), Autobiography (1951), The desert music and other poems (A música do deserto e outros poemas, 1954), Selected essays (1954), Pictures from Brueghel and other poems (Quadros de Brueghel e outros poemas, 1962), Many loves and other plays: the collected plays of William Carlos Williams (drama, 1962) e outros textos em verso e prosa; William Carlos Williams recebeu premiações por sua obra, entre as quais o National Book Award for Poetry, o Prêmio Bollingen e, postumamente, o Pulitzer de Poesia, por Pictures from Brueghel and other poems.

sexta-feira, 6 de junho de 2025

William Carlos Williams: A parábola dos cegos

 
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[traduzido por José Paulo Paes]

IX

Esta horrível mas soberba tela
a parábola dos cegos
sem vermelho algum

na composição mostra um bando
de mendigos um a
guiar o outro atravessando

diagonalmente o quadro
desde um lado
para tropeçar enfim num charco

onde a pintura
e a composição terminam atrás
do qual nenhum homem vidente

é representado os rostos
sem barbear dos in-
digentes com seus poucos

e miseráveis pertences vê-se
uma bacia de lavar numa casinha
campônia e a ponta de uma torre de igreja

as faces estão erguidas
como que para a luz
não há nenhum detalhe estranho

à composição cada um
segue os outros bordão
na mão triunfante até o desastre

(Quadros de Brueghel e outros poemas — 1962)

William Carlos Williams

The parable of the blind

IX

This horrible but superb painting
the parable of the blind
without a red

in the composition shows a group
of beggars leading
each other diagonally downward

across the canvas
from one side
to stumble finally into a bog

where the picture
and the composition ends back
of which no seeing man

is represented the unshaven
features of the des-
titute with their few

pitiful possessions a basin
to wash in a peasant
cottage is seen and a church spire

the faces are raised
as toward the light
there is no detail extraneous

to the composition one
follows the others stick in
hand triumphant to disaster

(Pictures from Brueghel and other poems — 1962)

De Parabel van der Blinden – 1568 [Bíblia: Mateus 15:14]
Pieter Bruegel de Oudere [1525-1530 – 1569]
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Poemas: William Carlos Williams — [edição bilíngue], Seleção, Tradução, Estudo crítico e Notas de José Paulo Paes, 1987, Companhia das Letras, São Paulo — SP; William Carlos Williams (1883 1963), estadunidense de Rutherford, New Jersey, formou-se pela Faculdade de Medicina da Universidade da Pensilvânia, foi médico pediatra e clínico geral, romancista, ensaísta e poeta do modernismo e do imagismo estadunidense; Williams, antes mesmo de aprender o inglês, aprendeu o espanhol, visto que sua mãe, de origem basca, nascera em Porto Rico, Caribe, e em casa seus pais conversavam neste idioma; suas obras: Poems (1909), Kora in hell: improvisations (poema-prosa, 1920), The great american novel (novela, 1923), Spring and all (Primavera e o mais, 1923), Novelette and other prose (1932), Collected poems — 1921-1931 (Poemas reunidos, 1934), An early martyr and other poems (Um mártir precoce e outros poemas, 1935), White mule (novela, 1937), Life along the Passaic River (contos, 1938), The complete collected poems of William Carlos Williams 1906—1938 (Poemas reunidos completos, 1938), The wedge (A cunha, poesias, 1944), Paterson — books I, II, III, IV and V (1946 1958), Autobiography (1951), The desert music and other poems (A música do deserto e outros poemas, 1954), Selected essays (1954), Pictures from Brueghel and other poems (Quadros de Brueghel e outros poemas, 1962), Many loves and other plays: the collected plays of William Carlos Williams (drama, 1962) e outros textos em verso e prosa; William Carlos Williams recebeu premiações por sua obra, entre as quais o National Book Award for Poetry, o Prêmio Bollingen e, postumamente, o Pulitzer de Poesia, por Pictures from Brueghel and other poems.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

José Paulo Paes: A um recém-nascido

 
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Que bichinho é este
tão tenro
tão frágil
que mal agüenta o peso
do seu próprio nome?

É o filho do homem.

Que bichinho é este
expulso de um mar
tranqüilo, todo seu
que veio ter à praia
do que der e vier?

É o filho da mulher.

Que bichinho é este
de boca tão pequena
que num instante passa
do sorriso ao bocejo
e dele ao berro enorme?

É o filho da fome.

Que bichinho é este
que por milagre cessa
o choro assim que pode
mamar uma teta
túrgida, madura?

É o filho da fartura.

Que bichinho é este
cujos pés, na pressa
de seguir caminho
não param de agitar-se
sequer por um segundo?

É o filho do mundo.

Que bichinho é este
que estende os braços curtos
como se tivesse
já ao alcance da mão
algum dos sonhos seus?

É um filho de Deus.

(Prosas Seguidas de Odes Mínimas — 1992)

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A lua no cinema e outros poemas [várias autorias], Organização e Apresentação de Eucanaã Ferraz, Ilustrações de Fabio Zimbres, 2011, Companhia das Letras, São Paulo — SP; José Paulo Paes (1926 — 1998), paulista de Taquaritinga, foi poeta, tradutor, ensaísta, crítico literário, jornalista e editor; formado em Química Industrial, durante anos trabalhou em laboratório farmacêutico (Curitiba PR), sem jamais ter deixado de lado a literatura, gosto adquirido devido a convivência com seu avô que era livreiro; na cidade paranaense colaborou com a revista Joaquim (1946 1948), dirigida por Dalton Trevisan; transferindo-se para São Paulo, passou a colaborar com os jornais Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, O Tempo, Jornal de Notícias e Revista Brasiliense; suas obras: O Aluno (1947), Cúmplices (1951), Novas Cartas Chilenas (1954), Mistério em Casa (1961), Anatomias (1967), Resíduo (1973), Calendário Perplexo (1983), É isso Ali (1984), Gregos & Baianos (ensaio, 1985), Um por Todos (poesia reunida, 1988), A Poesia Está Morta Mas Juro Que Não Fui Eu (1988), Poemas para brincar (infantil, 1989), Prosas Seguidas de Odes Mínimas (1992), Lé com Cré (1993), A Meu Esmo (1995), De Ontem Para Hoje (1996), Um passarinho me contou (1997), Melhores poemas (1998), Uma Letra Puxa a Outra (1998), Ri Melhor Quem Ri Primeiro (1999), O Lugar do Outro (1999), Socráticas (livro inédito, edição póstuma, 2001) e tantos outros títulos em parceria com poetas e escritores, no gênero poesia infantil e infanto-juvenil; como editor e tradutor, verteu para o português autores gregos, dinamarqueses, italianos, norte-americanos, ingleses ..., tais como Charles Dickens, Joseph Conrad, Pietro Aretino, Konstantínos Kaváfis, Laurence Sterne, W. H. Auden, William Carlos Williams, J. K. Huysmans, Paul Éluard, Hölderlin, Paladas de Alexandria, Edward Lear, Rilke, Seféris, Lewis Carroll, Níkos Kazantzákis, Ovídio etc.; foi laureado com diversos prêmios literários nas categorias poesia, literatura infanto-juvenil e tradução.