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domingo, 15 de outubro de 2023

Bertolt Brecht: O barco

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[traduzido por Roswitha Kempf e Margarida Finkel]

Flutuando em águas claras de muitos mares
desprendi-me balouçando de meta e peso.
ao seguir com os tubarões sob a lua vermelha.
Desde que meu lenho apodrece e as velas puem,
desde que o mofo rompe as amarras que à praia me prendiam,
mais distante e esmaecido me parece o horizonte.

E desde que aquele esmaeceu e me abandonaram
e estas águas, os céus distantes,
senti no fundo que devia acabar.
E desde que sabia sem me revoltar
que havia de afundar-me nestes mares,
entreguei-me às águas sem ressentimento.

E as águas vieram e logo trouxeram
muitos animais para o meu bojo
que entre as paredes se aproximavam.
O céu já varara o convés podre,
a amizade nascia em cada canto;
até mesmo os tubarões tornaram-se bons em mim.

E na quarta lua as algas flutuavam
na minha madeira e verdejavam nos vaus;
meu aspecto mudou-se mais uma vez.
Oscilante e verde em minhas entranhas
seguia devagar sem muito padecer,
pesado de lua, tubarão e baleia.

Asilo, fui para gaivotas e algas,
sem culpa porém por não salvá-las
quando afundar-me pesado e cheio.
Agora, na oitava lua, as águas
penetram mais amiúde em mim,
minha face empalidece e rogo que tudo termine.

Pescadores de outras águas atestaram: Viram
algo indefinível boiar no alto mar.
Uma ilha? Uma balsa abandonada? Algo
fosforescente de excremento de gaivotas,
repleto de lua, algas e morte,
dirigia-se calado ao pálido céu.

[suplemento dominical de cultura] Folhetim*, 24.03.85

Bertolt Brecht

Das Schiff

Durch die klaren Wasser schwimmend vieler Meere
Löst ich schaukelnd mich von Ziel und schwere
Mit den Haien ziehend unter rotem Mond.
Seit mein Holz fault und die Segel schlissen
Seit die Seile modern, die am Strand mich rissen
Ist entfernter mir und bleicher auch mein Horizont.

Und seit jener hinblich und mich diesen
Wassern die entfernten Himmel ließen
Fühl ich tief, daß ich vergehen soll.
Seit ich wußte, ohne mich zu wehren
Daß ich untergehen soll in diesen Meeren
Ließ ich mich den Wassern ohne Groll.

Und die Wasser kamen, und sie schwemmten
Viele Tiere in mich, und in fremden
Wänden freundeten sich Tier und Tier.
Einst fiel Himmel durch die morsche Decke
Und sie kannten sich in jeder Ecke
Und die Haie blieben gut in mir.

Und in vierten Monde schwammen Algen
In mein Holz und grünten in den Balken:
Mein Gesicht ward anders noch einmal.
Grün und wehrend in den Eingeweiden
Fuhr ich langsam, ohne viel zu Leiden
Schwer mit Mond und Pflanze, hai und Wal.

Möw' und Algen war ich Ruhestätte
Schuldlos immer, daß ich sie nicht rette.
Wenn ich sinke, bin ich schwer und voll.
Jetzt, im achten Monde, rinnen Wasser
Häufiger in mich. mein Gesicht wird blasser.
Und ich bitte, daß es enden soll.

Fremde Fischer sagten aus: Sie sahen
Etwas nahen, das verschwamm beim Nahen.
Eine Insel? Ein verkommnes Floß?
Etwas fuhr, schimmernd von Möwenkoten
Voll von Alge, Wasser, Mond und Totem
Stumm und dick auf den erbleichten Himmel los.

* Nota do blogue Verso e Conversa: o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que Folhetim foi um suplemento dominical de cultura do jornal Folha de São Paulo; criado e dirigido por Tarso de Castro (1941 — 1991), trazia como objetivo inicial ser um “caderno de leitura e humor” e, com linha editorial e estrutura modificadas através do tempo, circulou entre 1977 e 1989; o jornalista Tarso de Castro também foi um dos fundadores do semanário Pasquim, periódico de origem carioca.
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Folhetim: Poemas traduzidos [vários poetas e tradutores], Organização de Matinas Susuki Jr. e Nelson Ascher e Apresentação de Matinas Susuki Jr., 1987, Edições Folha de São Paulo, São Paulo — SP; Eugen Bertholt Friedrich Brecht (1898 1956), alemão de Augsburg Baviera, foi dramaturgo, encenador e poeta; em 1917 iniciou o curso de Medicina em Munique, mas tendo sido convocado pelo exército na Primeira Guerra, interrompeu o estudo e trabalhou como enfermeiro em hospital militar; com a ascensão de Hitler em 1933, deixou a Alemanha e exilou-se primeiro na Dinamarca e depois nos Estados Unidos e Suiça; de volta à Alemanha em 1948, fundou a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção artística, Baal (texto de 1918/produção em 1926), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1918/1920), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938) e tantos outros textos escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.