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[traduzido por Roswitha Kempf
e Margarida Finkel]
Flutuando em águas claras de
muitos mares
desprendi-me balouçando de
meta e peso.
ao seguir com os tubarões sob
a lua vermelha.
Desde que meu lenho apodrece e
as velas puem,
desde que o mofo rompe as
amarras que à praia me prendiam,
mais distante e esmaecido me
parece o horizonte.
E desde que aquele esmaeceu e
me abandonaram
e estas águas, os céus
distantes,
senti no fundo que devia
acabar.
E desde que sabia sem me
revoltar
que havia de afundar-me nestes
mares,
entreguei-me às águas sem
ressentimento.
E as águas vieram e logo
trouxeram
muitos animais para o meu bojo
que entre as paredes se
aproximavam.
O céu já varara o convés
podre,
a amizade nascia em cada
canto;
até mesmo os tubarões
tornaram-se bons em mim.
E na quarta lua as algas
flutuavam
na minha madeira e verdejavam
nos vaus;
meu aspecto mudou-se mais uma
vez.
Oscilante e verde em minhas
entranhas
seguia devagar sem muito
padecer,
pesado de lua, tubarão e
baleia.
Asilo, fui para gaivotas e
algas,
sem culpa porém por não
salvá-las
quando afundar-me pesado e
cheio.
Agora, na oitava lua, as águas
penetram mais amiúde em mim,
minha face empalidece e rogo
que tudo termine.
Pescadores de outras águas
atestaram: Viram
algo indefinível boiar no alto
mar.
Uma ilha? Uma balsa
abandonada? Algo
fosforescente de excremento de
gaivotas,
repleto de lua, algas e morte,
dirigia-se calado ao pálido
céu.
[suplemento dominical de cultura] Folhetim*, 24.03.85
Das
Schiff
Durch die klaren Wasser
schwimmend vieler Meere
Löst ich schaukelnd mich von
Ziel und schwere
Mit den Haien ziehend unter
rotem Mond.
Seit mein Holz fault und die
Segel schlissen
Seit die Seile modern, die am
Strand mich rissen
Ist entfernter mir und
bleicher auch mein Horizont.
Und seit jener hinblich und
mich diesen
Wassern die entfernten Himmel
ließen
Fühl ich tief, daß ich vergehen
soll.
Seit ich wußte, ohne mich zu
wehren
Daß ich untergehen soll in
diesen Meeren
Ließ ich mich den Wassern ohne
Groll.
Und die Wasser kamen, und sie
schwemmten
Viele Tiere in mich, und in
fremden
Wänden freundeten sich Tier
und Tier.
Einst fiel Himmel durch die
morsche Decke
Und sie kannten sich in jeder
Ecke
Und die Haie blieben gut in
mir.
Und in vierten Monde schwammen
Algen
In mein Holz und grünten in
den Balken:
Mein Gesicht ward anders noch
einmal.
Grün und wehrend in den
Eingeweiden
Fuhr ich langsam, ohne viel zu
Leiden
Schwer mit Mond und Pflanze,
hai und Wal.
Möw' und Algen war ich
Ruhestätte
Schuldlos immer, daß ich sie
nicht rette.
Wenn ich sinke, bin ich schwer
und voll.
Jetzt, im achten Monde, rinnen
Wasser
Häufiger in mich. mein Gesicht
wird blasser.
Und ich bitte, daß es enden
soll.
Fremde Fischer sagten aus: Sie
sahen
Etwas nahen, das verschwamm
beim Nahen.
Eine Insel? Ein verkommnes
Floß?
Etwas fuhr, schimmernd von
Möwenkoten
Voll von Alge, Wasser, Mond
und Totem
Stumm und dick auf den
erbleichten Himmel los.
* Nota do blogue Verso e Conversa:
o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que Folhetim foi um
suplemento dominical de cultura do jornal Folha de São Paulo; criado e dirigido
por Tarso de Castro (1941 — 1991), trazia como objetivo inicial ser um “caderno
de leitura e humor” e, com linha editorial e estrutura modificadas através do tempo,
circulou entre 1977 e 1989; o jornalista Tarso de Castro também foi um dos fundadores
do semanário Pasquim, periódico de origem carioca.
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Folhetim: Poemas traduzidos [vários
poetas e tradutores], Organização de Matinas Susuki Jr. e Nelson Ascher e Apresentação
de Matinas Susuki Jr., 1987, Edições Folha de São Paulo, São Paulo — SP; Eugen Bertholt
Friedrich Brecht (1898 — 1956), alemão de Augsburg — Baviera, foi dramaturgo, encenador
e poeta; em 1917 iniciou o curso de Medicina em Munique, mas tendo sido convocado
pelo exército na Primeira Guerra, interrompeu o estudo e trabalhou como enfermeiro
em hospital militar; com a ascensão de Hitler em 1933, deixou a Alemanha e exilou-se
primeiro na Dinamarca e depois nos Estados Unidos e Suiça; de volta à Alemanha em
1948, fundou a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e
na arte dramática, deixou-nos extensa produção artística, Baal (texto de 1918/produção
em 1926), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1918/1920), Mann is Mann (Um
Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs,
1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926),
Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938) e tantos outros textos
escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática,
havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.