terça-feira, 30 de junho de 2020

W.H Auden: Acalanto

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[traduzido por João Moura Jr.]

Pousa, amor, a cabeça sonolenta,
Humana sobre o meu braço inconstante;
A beleza das crianças pensativas
Tempo e febres consomem lentamente
E cabe à tumba mostrar quão efêmeras
Essas mesmas crianças vêm a ser:
Mas que em meu braço, até que nasça o dia,
Possa repousar a viva criatura,
Mortal e culpada, e, no entanto, para
Mim a coisa mais bela de se ver.

Nem a alma nem o corpo têm amarras:
Para os amantes, quando eles se deitam
No seu declive indulgente e encantado,
Tomados da languidez costumeira,
Intensa é a visão que Vênus manda
De uma simpatia sobrenatural,
De esperança e amor generalizado;
Enquanto uma abstrata intuição desperta,
No meio das geleiras e das pedras,
Do eremita o êxtase carnal.

Certeza e fidelidade se estiolam
Quando bate meia-noite o relógio
Como se fossem vibrações de um sino,
E lançam seu pedante palavrório,
Aos gritos, os delirantes em voga:
Os últimos centavos a pagar
 Assim o prevê o baralho mofino 
Serão saldados; porém, desta noite,
Que não se perca nenhum pensamento,
Nenhum suspiro, nenhum beijo ou olhar.

A beleza, a meia-noite e a visão morrem:
Deixa os ventos do amanhecer, que sopram
Suaves em tua sonhadora cabeça,
Exibirem um dia de tal forma
Propício que o olho e o coração o saúdem,
Satisfeitos com o mundo mortal;
Quer a secura meridiana te veja
Nutrida pela força involuntária
E permita-te ir a noite adversária
Guardada pelo amor universal.

W. H. Auden

Lullaby

Lay your sleeping head, my love,
Human on my faithless arm;
Time and fevers burn away
Individual beauty from
Thoughtful children, and the grave
Proves the child ephemeral:
But in my arms till break of day
Let the living creature lie,
Mortal, guilty, but to me
The entirely beautiful.

Soul and body have no bounds:
To lovers as they lie upon
Her tolerant enchanted slope
In their ordinary swoon,
Grave the vision Venus sends
Of supernatural sympathy,
Universal love and hope;
While an abstract insight wakes
Among the glaciers and the rocks
The hermit’s carnal ecstasy.

Certainty, fidelity
On the stroke of midnight pass
Like vibrations of a bell
And fashionable madmen raise
Their pedantic boring cry:
Every farthing of the cost,
All the dreaded cards foretell,
Shall be paid, but from this night
Not a whisper, not a thought,
Not a kiss nor look be lost.

Beauty, midnight, vision dies:
Let the winds of dawn that blow
Softly round your dreaming head
Such a day of welcome show
Eye and knocking heart may bless,
Find the mortal world enough;
Noons of dryness find you fed
By the involuntary powers,
Nights of insult let you pass
Watched by every human love.

January 1937
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W. H. Auden — Poemas, Seleção de João Moura Jr. Tradução e Introdução de José Paulo Paes e João Moura Jr., edição bilíngue, 1986, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Wystan Hugh Auden ou W. H. Auden (1907 1973), inglês de York, estudou ciências biológicas no Christ Church College da Universidade de Oxford e, se dedicando às artes literárias, foi poeta, roteirista, historiador literário, dramaturgo, escritor, libretista, crítico literário, professor universitário, ensaísta e compositor; bibliografia: Paid on both sides: a Charade (poemas, 1930), The Dance of Death (peça, 1933), Look, Stranger! (poemas, 1936), This Island (poemas, 1937), Episile to a Godson & other poems (1972) e outros títulos, além de libretos de ópera, roteiros de cinema e colaborações musicais; em 1948, Auden foi laureado com o Prêmio Pulitzer de Poesia e, em 1954, com o Prêmio Bollingen.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Alexis-Félix Arvers: Nesta vida há mistério e na alma, o irrevelado, . . . [soneto]

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[traduzido por Renata Cordeiro]

Nesta vida há mistério e na alma, o irrevelado,
Um sempiterno amor num instante nascido;
É o mal sem esperança, e deve ser calado
e àquela que o causou, o mal é dessabido.

Ai! Perto dela vou passar despercebido,
Com ela, o eterno só, jamais acompanhado;
e até ao fim do meu caminho aqui trilhado
nada ousarei pedir, sem nada ter obtido.

Embora por Deus boa e terna, vai seguir
Seu rumo, distraída, e sem jamais ouvir
Meu murmúrio de amor que aos seus pés se erguerá;

dirá, pia fiel ao austero dever,
lendo estes versos só repletos do seu ser,
“Que mulher será esta?”, e nada entenderá.

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Sonnet

Mon âme a son secret, ma vie a son mystère;
Un amour éternel en un moment conçu;
Le mal est sans espoir, aussi j’ai dû le taire,
Et celle qui l’a fait n’en a jamais rien su.

Hélas! J’aurai passé près d’elle inaperçu
Toujours à ses côtés et toujours solitaire;
et j’aurai jusqu’au bout fait mon temps sur la terre,
n’osant rien demander, et n’ayant rien reçu.

Pour elle, quoique Dieu l’ait faite bonne et tendre,
Elle ira son chemin, distraite, et sans entendre
Ce murmure d’amour elevé sur ses pas;

à l’austère devoir pieusement fidèle,
Elle dira, lisant ces vers tout remplis d’elle,
“Quelle est donc cette femme?” et ne comprendra pas.
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Pequena Antologia de Poemas Franceses: De François Villon a Fernando Pessoa — Concepção, Seleção, Tradução e Notas de Renata Maria Parreira  Cordeiro, 2002, Landy Livraria Editora e Distribuidora Ltda., São Paulo — SP; Aléxis-Félix Arvers (1806 1850), francês e parisiense, estudou Direito, foi funcionário de cartório e perseguiu o desejo de ser poeta e escritor; fez sucesso com uma peça teatral, uma comédia que caiu no esquecimento, e levou uma vida de dandy por Paris; um seu poema, conhecido como ‘Soneto de Arvers’ e aqui transcrito, despertou grande polêmica nos meios literários à época, com todos curiosos em descobrir quem teria sido sua musa inspiradora, ‘Quelle est donc cette femme?’, ‘Quem será essa mulher?’; o ‘Soneto de Arvers’ foi amplamente traduzido para os mais diversos idiomas, inclusive para o esperanto; em língua portuguesa contam-se em dezenas os tradutores, entre os quais Guilherme de Almeida, Olegário Mariano, José Oiticica, Gondim da Fonseca, J. G. de Araújo Jorge, José Lino Grünewald, Lúcio de Mendonça, Benedicto Lopes, Bastos Tigre, além de ter inspirado outras criações em resposta ou citando o soneto famoso; Félix Arvers escreveu e publicou Minhas horas perdidas (Mês heures perdues, poesias, 1833), com o referido soneto incluso.

domingo, 28 de junho de 2020

Nestor Tangerini: Ontem e Hoje

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No meu tempo, uma senhora
se vestia por inteiro,
sim, não era como agora,
neste Rio de Janeiro.

Hoje em dia, não se zanga
o marido, se, na rua,
a mulher anda de tanga,
ou, na praia, quase nua.

No cinema, uma donzela
que estivesse a nosso lado,
resistia ao que na tela
fosse vendo interpretado.

Porém hoje a senhorita
junto a nós, ali no escuro,
nos agarra vendo a fita,
e nos beija até, no duro.

Essa Boa, toda prosa,
cujo corpo é um violão,
que aí está toda orgulhosa,
por saber-se um pancadão,

pequenina, sentou tanto
no meu colo, entre os pais!
Hoje em dia, aqui, no entanto,
ela já não senta mais.

Até mesmo a ortografia,
de sofrer transformações,
acabou numa “Anarquia” *,
numa escrita de senões.

Hoje só se escreve assim,
sem acento: BOA, SOA,
porém BOA, para mim,
sem “acento”, não é BOA...

Dom T

Revista O Espeto, 15.09.1947, Rio de Janeiro.


* Nota do atrevido aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: Nelson Tangerini, o autor da crônica “Anarquia Na Gramática? Sim, obrigado!” na qual expõe o poema de seu pai, Nestor Tangerini, nos relata: ... “A palavra Anarquia, muita vezes mal empregada  como sinônimo de bagunça e falta de ordem – significa, na verdade, para os anarquistas, uma doutrina que prega uma nova ordem: os homens governariam a si próprios, não aceitariam governantes e o estado, e todas as fronteiras e religiões seriam abolidas. Uma nova pedagogia seria proposta, a Pedagogia libertária: racional, sem religião, sem o ranço autoritário e sem idolatria de qualquer espécie – política ou religiosa.” ... Nelson também registra que “Amigo e fã incondicional de José Oiticica, o também gramático Nestor Tangerini escrevia crônicas para a revista O Espeto, na qual tirava dúvidas de língua portuguesa, usando sua conhecida verve, com o pseudônimo José Oitiçoca.”
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Nestor Tangerini e o Café Paris — Crônicas de Nelson Tangerini, Apresentação de Jorge Eduardo Magalhães, 2010, Editora Nitpress, Niterói — RJ; Nestor Tambourindeguy Tangerini (1895 1966), paulista e piracicabano, cursou Farmácia e Direito, foi poeta satírico, jornalista, escritor, compositor, caricaturista, teatrólogo, professor de português e ex-funcionário do antigo DCT (Departamento de Correios e Telégrafos); viveu em Niterói, à época capital do Estado do Rio de Janeiro, e foi um dos frequentadores da Roda do Café Paris, reduto de intelectuais e boêmios de Niterói; como teatrólogo atuante no teatro de revistas escreveu Tudo pelo Brasil (com Lili Leitão), Cadeia de Sorte, Na Boca da Hora e Lição Doméstica (estas, em parceria com Aldo Cabral), O Tabuleiro da Baiana, Gol etc.; compôs canções e publicou crônicas e poesias em revistas literárias e jornais; colaborou com a revista de humor e sátira O Espeto, onde publicava sonetos, trovas, poemas, crônicas, esquetes, caricatura e monólogos, sempre fazendo uso de vários pseudônimos: Dom T, Conselheiro Armando Graça, João da Ponte, João do Paris, Conselheiro XX Mirim, José Oitiçoca, Malba Taclan, Álvaro Amoreyra, Benedito Merga Lião, Pastaciúta...

Mallarmé: Sonho antigo

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[traduzido por Joaquim Brasil Fontes]

Ei-la no atrium, a loura Lycóris
Sob onda de perfumes docemente inclinada.
Como um choupo amarelo ao rocio se expande,
Seus cabelos no seio chovem, longos e floridos.

Nos caniços, tu viste, sob um rio azulado,
À tarde, insinuar-se a fronte da pálida Febe?
 Ela dorme em seu banho e o colo de alabastro,
Como a lua, prateia-lhe um jorro caído do céu.

Seu dedo que sob a água serena desfolhava uma rosa
Tal uma odorante oferece um cálice verde:
Desce, Ó Hebe morena! verte, com a rósea mão
O vinho que faz arder um coração, a todo coração aberto.

Ei-la no atrium, a loura Lycóris
Sob onda de perfumes docemente inclinada:
Como teu arco de prata, Diana nas selvas lançada,
Sob seus amantes eleitos o belo corpo repousa.

Stéphane Mallarmé

Rève Antique

Elle est dans l'atrium la blonde Lycoris
Sous un flot parfumé mollement renversée.
Comme un saule jauni s'épand sous la rosée,
Ses cheveux sur son sein pleuvent longs et fleuris.

Dans les roseaux, vis-tu, sur un fleuve bleuâtre,
Le soir, glisser le front de la pâle Phoebé?
 Elle dort dans son bain et sa gorge d'albâtre,
Comme la lune, argente un flot du ciel tombé.

Son doigt qui sur l'eau calme effeuillait une rose
Comme une urne odorante offre un calice vert:
Descends, ô brune Hébé! verse de ta main rose
Ce vin qui fait qu'un coeur brûle, à tout coeur ouvert.

Elle est dans l'atrium la blonde Lycoris
Sous un flot parfumé mollement renversée:
Comme ton arc d'argent, Diane aux forêts lancée,
Se détend son beau corps sous ses amants choisis.
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Os Anos de Exílio do Jovem Mallarmé — Joaquim Brasil Fontes, Estudos Literários 24, 2007, Apresentação/Ensaio 'A Paixão da Ausência' de Pedro Meira Monteiro, Ateliê Editorial, São Paulo — SP; Stéphane Mallarmé (1842 1898) ou Étienne Mallarmé, francês nascido em Paris, foi poeta, tradutor, crítico literário e professor de inglês; considerado como um dos primeiros simbolistas franceses e um dos precursores da poesia concreta, consta que seus primeiros poemas surgiram na década de 1860 e que, como boa parte dos poetas de sua geração, também sofrera influência de Charles Baudelaire; Mallarmé é tido, durante os anos de 1880, como sendo a figura central de um grupo de escritores com quem discutia poesia e arte, entre os quais Paul Valéry, André Gide e Marcel Proust; fundou a revista Última Moda, onde escreveu sobre estética literária, colaborou no jornal Le Parnasse Contemporain e publicou na revista Cosmopolis; escreveu Herodíade (Herodíades, 1869), L'Aprés-midi d'um faune (A tarde de um fauno, 1876), Un coup de dés jamais n'abolira le hasard (Um Lance de Dados Jamais Abolirá o Acaso, 1897) e muitos outros textos; traduziu Edgard Allan Poe, W. C. Elphinstone Hope e James Whistler.

sexta-feira, 26 de junho de 2020

p. da silva: o voo da ave

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além da cerca de arame farpado
em pleno inverno o gado apascenta,
no céu o aviso de que uma tormenta
já vem bem próxima, algo está errado.

patos, marrecos grasnam no terreiro,
terra brasilis, sem nenhum cuidado
à espera de que se um passo for dado
só será dado pelo chacareiro.

na tarde que se adentra em lusco-fusco
morcegos sobrevoam a região
como prenúncio da escuridão.

e um tucano vendo o tempo brusco,
ser ou não ser, divaga, eis a questão:
 fico no muro ou corro pro mourão?

sp, 26.06.2020
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p. da silva e genésio dos santos são uma só pessoa...

Manuel António Pina: O retrato

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O menino que caiu da moldura do retrato
como quem tomba da varanda à rua
onde está?, em que lembrança sua
ou em que sepultura do passado,

sufocado, com a boca atafulhada ainda de sonhos?
O seu nome é agora menos um nome que uma doença rara
que te desfigurou a cara, uma doença sem nome e sem cura;
cabereis os dois na mesma sepultura?

De todos os meus sonhos o mais insone é este,
o de alguém perguntando por um estranho
algures, onde o Lexotan se tornou literatura.
Caberemos todos na mesma sepultura?

Como se desenha uma casa — 2011

Caras | Morreu Manuel António Pina
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Manuel António Pina: O coração pronto para o roubo — poemas escolhidos, Seleção e Posfácio de Leonardo Gandolfi, 2018, 1ª edição, Editora 34, São Paulo — SP; Manuel António Pina (1943 2012), português de Sabugal, licenciado em Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, foi advogado, jornalista, dramaturgo, poeta, cronista e autor de livros infantis; trabalhou por três décadas no Jornal de Notícias, do Porto, cidade onde viveu desde a idade de dezessete anos; colaborou com o Jornal de Música e com a revista Notícias Magazine; bibliografia: em poesia, Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calmo é apenas um pouco tarde (1974), Aquele que quer morrer (1978), A lâmpada do quarto? A criança? (1981), O pássaro da cabeça (1983), Nenhum sítio (1984), O caminho de casa (1989), Um sítio onde pousar a cabeça (1991), Farewell happy fields (1993), Cuidados intensivos (1994), Nenhuma palavra e nenhuma lembrança (1999), Atropelamento e fuga (2001), Os livros (2003), Como se desenha uma casa (2011) etc., em prosa, Os papéis de K (novela, 2003), O anacronista (crônicas, 1994), Porto, modo de dizer (crônicas, 2002), Por outras palavras & mais crônicas de jornal (2010), para teatro e literatura infantil, O país das pessoas de pernas para o ar (1973), Gigões & Amantes (1974), O Inventão (1987), entre outros textos em verso e prosa; teve sua obra difundida em diversos países e idiomas: França (francês e corso), Estados Unidos, Espanha (espanhol, galego e catalão), Dinamarca, Alemanha, Países Baixos, Rússia, Croácia e Bulgária; foi premiado diversas vezes, tendo sido laureado, em 2011, com o Prêmio Camões, a maior honraria para autores em língua portuguesa.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Carlos Drummond de Andrade: Notícias

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Entre mim e os mortos há o mar
e os telegramas
Há anos que nenhum navio parte
nem chega. Mas sempre os telegramas
frios, duros, sem conforto.

Na praia, e sem poder sair.
Volto, os telegramas vêm comigo.
Não se calam, a casa é pequena
para um homem e tantas notícias.

Vejo-te no escuro, cidade enigmática.
Chamas com urgência, estou paralisado.
De ti para mim, apelos,
de mim para ti, silêncio.
Mas no escuro nos visitamos.

Escuto vocês todos, irmãos sombrios.
No pão, no couro, na superfície
macia das coisas sem raiva,
sinto vozes amigas, recados
furtivos, mensagens em código.

Os telegramas vieram no vento.
Quanto sertão, quanta renúncia atravessaram!
Todo homem sozinho devia fazer uma canoa
e remar para onde os telegramas estão chamando.

A Rosa do Povo — 1945

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Reunião — 10 Livros de Poesia — Drummond, Introdução de Antônio Houaiss, 5ª edição, Livraria José Olympio Editora, 1973, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Drummond de Andrade (1902 1987), mineiro de Itabira, poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa, publicadas em livros, jornais e revistas, pelo país afora e no resto do mundo; bibliografia: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Notícias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e outros textos...

quarta-feira, 24 de junho de 2020

wallace stevens: le monocle de mon oncle (estrofes VII, VIII e IX) *

Poesia da recusa - Livros na Amazon Brasil- 9788527307666
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[traduzido por Augusto de Campos]

( . . . )

VII

As mulas e seus anjos descem lentas
Dos vales reluzentes de além-sol.
Declínios de seus sinos soam longe.
Tais almocreves delicados passam
Enquanto centuriões riem e batem
Copas rinchantes sobre os tabuleiros.
A parábola, em suma, quer dizer:
O mel do céu pode vir ou não vir,
Mas o da terra vem e vai, de pronto.
Suponha que os arcanjos transportassem
Uma donzela eternamente em flor.

VIII

Tedioso scholar, vislumbrei no amor
Módulo antigo de uma nova mente.
Ele vem, flore, gera o fruto e morre.
(Um tropo trivial, porém veraz).
A flor se foi. Somos o fruto agora.
Duas cabaças de ouro em nossas vinhas,
Sob o clima outonal, rugas de neve.
Grotescos de gordura, distorcidos,
Pendemos como abóboras vincadas.
O céu que ri verá a nós ambos, crostas
Rotas sob as borrascas invernais.

IX

Em versos movediços, versos-ruído
Ampliados por gritos, choques, nítidos
Como sonhos mortais de homens que cumprem
Seu destino na guerra, ah! vem, celebra a
Fé dos quarenta, guarda de Cupido!
Dom Coração, a idéia mais lasciva
Fora menos lasciva aos teus anseios.
Testo sons, pensamentos, testo tudo
Para que o som e o tom de um paladino
Justifique a oblação. Onde encontrar
Bravura digna de tão grande hino?

( . . . )

1918

How Wallace Stevens Changed My Life - Hartford Courant
Wallace Stevens

le monocle de mon oncle

( . . . )

VII

The mules that angels ride come slowly down
The blazing passes, from beyond the sun.
Descensions of their tinkling bells arrive.
These muleteers are dainty of their way.
Meantime, centurions guffaw and beat
Their shrilling tankards on the table-boards.
This parable, in sense, amounts to this:
The honey of heaven may or may not come,
But that of earth both comes and goes at once.
Suppose these couries brought amid their train
A damsel heightened by eternal bloom.

VIII

Like a dull scholar, I behold, in love,
An ancient aspect touching a new mind.
It comes, it blooms, it bears its fruit and dies.
This trivial trope reveals a way of truth.
Our bloom is gone. We are the fruit thereof.
Two golden gourds distended on our vines,
Into the Autumn weather, splashed with frost,
Distorted by hale fatness, turned grotesque.
We hang like warty squashes, streaked and rayed,
The laughing sky will see the two of us
Washed into rinds by rotting winter rains.

IX

In verses wild with motion, full of din,
Loudened by cries, by clashes, quick and sure
As the deadly thought of men accomplishing
Their curious fates in war, come, celebrate
The faith of forty, ward of Cupido.
Most venerable heart, the lustiest conceit
Is not too lusty for your broadening.
I quiz all sounds, all thoughts, all everything
For the music and manner of the paladins
To make oblation fit. Where shall I find
Bravura adequate to this great hymn?

( . . . )

1918

* Nota do atrevido aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: O poema ‘Le monocle de mon oncle’ é composto de 12 estrofes contendo 11 versos cada.
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poesia da recusa (vários autores) — augusto de campos, Seleção, Tradução, Traços Biobibliográficos e Introdução de Augusto de Campos, Coleção Signo 42, 2006, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Wallace Stevens (1879 1955), estadunidense de Reading, Pensilvânia, estudou Direito em Harward e na New York Law School, foi poeta, jornalista, advogado e administrador de companhia de seguros; em 1914, teve seus primeiros poemas divulgados na revista Poetry, de Harriet Monroe; como jornalista, por um breve período foi repórter do New York Evening Post; bibliografia: Harmonium (1923), The Man With the Blue Guitar (1937), Esthétique Du Mal (1945), Three Academic Pieces (1947), The Auroras of Autumn (1950), The Necessary Angel (ensaios, 1951); Collected Poems (1954) e outros títulos, além de duas peças para teatro; recebeu premiações por sua obra (Prêmio Bollingen, National Book Award Poesia e Prêmio Pulitzer de Poesia).

terça-feira, 23 de junho de 2020

Paul Valéry: O Bosque Amigo

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[traduzido por Júlio Castañon Guimarães]

Lado a lado, pensamos coisas puras,
Enquanto ao longo dessas estradas,
Seguíamos adiante de mãos dadas,
Sem falar... por entre flores obscuras;

Andávamos, sós, como enamorados
Pelo verde da noite e pradarias,
Partilhando essa luz das fantasias,
A lua fiel aos seres desvairados,

E depois, morremos sobre a alfombra,
Muito longe, sós na suave sombra
Desse íntimo bosque a murmurar;

E sempre no alto, no brilho imenso,
Eis que nos encontramos a chorar
Ó caro companheiro do silêncio!

Biografia de Paul Valéry
Paul Valéry

Le Bois Amical

Nous avons pensé des choses pures
Côte à côte, le long des chemins,
Nous nous sommes tenus par les mains
Sans dire… parmi les fleurs obscures;

Nous marchions comme des fiancés
Seuls, dans la nuit verte des prairies;
Nous partagions ce fruit de féeries
La lune amicale aux insensés

Et puis, nous sommes morts sur la mousse,
Très loin, tout seuls parmi l’ombre douce
De ce bois intime et murmurant;

Et là-haut, dans la lumière immense,
Nous nous sommes trouvés en pleurant
Ô mon cher compagnon de silence!
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Fragmentos do Narciso e Outros Poemas: Paul Valéry — Tradução e Anotações Prévias de Júlio Castañon Guimarães, edição bilíngue, 2013, Ateliê Editorial, Cotia — SP; Ambroise-Paul-Toussaint-Jules Valéry (1871 1945), mais conhecido como Paul Valéry, francês de Sète, fez seus estudos secundários no Lycée de Montpellier, cursou Direito, exerceu diversas atividades na vida pública francesa, foi filósofo, escritor e poeta considerado um dos expoentes da escola Simbolista; seus primeiros versos vieram à luz a partir de 1889, ao mesmo tempo em que frequentava a faculdade, tendo sido publicados nos periódicos Revue Maritime de Marseille, La Revue Indépendante, de Paris, e La Conque; bibliografia: A Jovem Parca (1917), Album de vers Anciens (1920), Charmes (1922), Analetos (1927), Discours aux l’honneur de Goethe (1932), Mauvaises pensées et autres (1942) etecétera etecétera; o poeta Paul Valéry é tido como o autor de poemas dos mais significativos entre os que foram produzidos no século XX, ao lado de obras de T. S. Eliot, Ezra Pound, Fernando Pessoa, Rainer Maria Rilke...