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A Pompílio de Albuquerque
Ó cândida poesia, ó virgem branca e pura!
Águia do pensamento, errante, foragida!
Onde pairas, que em vão te anseia, te procura,
Sequiosa de luz, minha alma consumida?
De que monte sublime, aos altos céus vizinho,
Foste ouvir de mais perto os cantos siderais?
Que nova brisa embala o palpitante ninho
De novos ideais?
Envolve a tua fronte a tênebra sombria?
Que ignota mão sustém o pomo do futuro
Sobre o abismo do tempo, ó santa poesia,
Que rebrame a teus pés, profundo, horrendo, escuro?
Como, quando remuge a rábida tormenta,
Resvala a indócil nau aos férvidos parcéis,
Ó Arte, — rolarão na onda
que rebenta
Teus válidos pincéis?
Poesia, onde estás? Teu corpo voluptuoso
No bosque do ideal repousa adormecido,
Na alfombra que margeia o rio harmonioso,
Que beija-te chorando o trêmulo vestido?
Esmoreceu-te o sono a pálpebra brilhante
Por onde irradiava a luz do teu olhar,
De que uma réstia só talvez fosse bastante
Para o mundo salvar?
Estancou-se o caudal fresquíssimo e fecundo
Onde os bravos leões, batidos pela calma,
Vinham umedecer o lábio sitibundo,
E reviver de novo à sombra de tua alma?
— Já não ousam volver os
plainos devastados?
Ó sagrada vestal, é certo, pois, que em vão
Espreita o teu dormir, com os olhos encovados,
O estudo, teu irmão?
Do mundo que desaba a poeira te sufoca?
Das lepras sociais minada surdamente,
Sentindo a vasa rir, cerraste a casta boca,
E o rosto virginal voltaste descontente?
— Oh! Não! — Voaste além, librada nos espaços,
De onde vibres melhor a tua ardente voz,
Enquanto a sociedade estorce-se nos braços
Da corrupção atroz.
Ergueste o vôo além — e viste das alturas,
Nas amplas espirais do vasto precipício
Torcerem-se do mal as vítimas escuras,
A luta das paixões, a cólera do vício;
Depois, sobre um altar, com diamantinos cravos,
Tu viste um áureo Cristo, enorme, preso à cruz,
E ouviste soluçar nas trevas os escravos
Repelidos da luz.
O nédio aristocrata o corpo preguiçoso
Viste estirar, e abrindo a boca enfastiada
Contratar sem pudor. Com riso caviloso,
O preço por que deve a honra ser comprada;
A altiva Liberdade, a tua irmã divina,
Sofismada, negada; — e
ouviste sussurrar
Da febre da vingança a onda purpurina
No peito popular.
Tu viste a populaça, amarelenta e nua,
No lodo da miséria exausta se arrastando;
Um prostíbulo infame aberto em cada rua;
A embriaguez a rir; crianças soluçando;
O poder apoiando as pontas das espadas
Ao corpo social que verga-se ao grilhão,
E nota espavorido as fauces esfaimadas
Que fitam, do canhão.
Viste mais… E um tropel de Eumênides e harpias,
Minaz fermentação de ignívomo elemento,
Lançaste sobre o mundo em legiões sombrias,
Com o surdo horror do mar e as cóleras do vento.
“Roei da sociedade a vacilante base!”
Bradaste à inundação com lábio varonil;
“O edifício fatal de uma só vez se arrase,
Desfeito em cinza vil!”
E és hoje a grande luz da tempestade invicta!
De cada consciência entraste nos arcanos,
E o militar venal, e o ignóbil jesuíta
Ameaçam-te em vão com o cetro dos tiranos!
És a deusa viril da Ilíada sagrada!
És o raio de paz com brados de trovão!
Empunhas da Justiça a lança imaculada,
E o escudo da Razão!
* Nota do Organizador Wellington de Almeida Santos: In
Cantos Tropicais. Rio de Janeiro; Agostinho Gonçalves Guimarães, 1878, pp.
136-9.
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Teófilo Dias — Série Essencial 54, Academia
Brasileira de Letras, Organização, Notícia Biográfica e Notas de Wellington de Almeida
Santos, 2012, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Teófilo Odorico Dias de
Mesquita (1854 — 1889), maranhense de Caxias, formado pela Faculdade de Direito
de São Paulo (atual USP — Largo São Francisco), foi advogado, jornalista, professor,
político e poeta; colaborou com os jornais Província de São Paulo, A República,
O Meridional, Provinciano, e também com a Revista Brasileira, de José Veríssimo;
lecionou Gramática Filosófica e Francês; em 1878, participou da chamada “Batalha
de Parnaso” junto a escritores que, no Rio e em São Paulo, reagiam contra o romantismo; obras: Flores e Amores (1874), Cantos Tropicais (1878), Fanfarras (1882),
Lira dos Verdes Anos (1878), A comédia dos deuses (1888); o poeta é considerado
por nomes consagrados — Antonio Candido, Manuel Bandeira, Silvio Romero entre outros
—, autor inaugural do Parnasianismo ou, no mínimo, precursor deste período literário,
embora haja vozes discordantes.