sábado, 31 de outubro de 2015

Artur Azevedo: Impressões de Teatro

A Guimarães Passos

Que dramalhão! Um intrigante ousado,
Vendo chegar da Palestina o conde,
Diz-lhe que a pobre da condessa esconde
No seio o fruto de um amor culpado.

Naturalmente o conde fica irado
"O pai quem é?" pergunta.  "Eu", lhe responde
Um pajem que entra.  "Um duelo!"  "Sim! Quando? Onde?"
No encontro morre o amante desgraçado..

Folga o intrigante... Porém surge um mano,
E vendo morto o irmão, perde a cabeça,
Crava o punhal no peito do tirano.

É preso o mano, mata-se a condessa,
Endoidece o marido... e cai o pano,
Antes que outra catástrofe aconteça.

(Rimas, edição da Cia. Industrial
 Americana, Rio, 1909, p.179  180.)

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Antologia dos Poetas Brasileiros Poesia da fase parnasiana, Organização de Manuel Bandeira e Nota Editorial de Alexei Bueno, 1996, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo (1855 1908), maranhense de São Luís, foi jornalista, romancista, comediógrafo, contista, poeta e uma das grandes figuras do humorismo brasileiro; escreveu e publicou Carapuças (poesia, 1871), Sonetos (1875), Uma Véspera de Reis (teatro, 1876), A Capital Federal (teatro, 1897), O Escravocrata (teatro, 1884), O Dote (teatro, 1896), Um Dia de Finados (sátira, 1880), Contos Fora da Moda (contos, 1897), Contos em Verso (1898) etc.; como jornalista, trabalhou nos principais jornais da época, no Rio de Janeiro, tendo fundado e dirigido A Gazetinha, Vida Moderna e O Álbum; na elaboração de sua obra, multiplicava-se em pseudônimos: Elói o herói, Gavroche, Petrônio, Cosimo, Juvenal, Dorante, Frivolino, Batista o trocista e outros.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Carlos Drummond de Andrade: A grande manchete

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APROXIMA-SE a hora da manchete:
O PETRÓLEO ACABOU.
Acabaram as alucinações
os crimes, os romances,
as guerras do petróleo.
O mundo fica livre
do pesadelo institucionalizado.

Atirados ao lixo
motores de combustão interna
e lataria colorida,
o Museu da Sucata exibe
o derradeiro carro carrasco.
Tem etiqueta de remorso:
“Cansei a humanidade”.

Ruas voltam a existir 
para o homem
e as alegrias de estar-junto.
A poluição perdeu
seu aliado fidelíssimo.
A pressa acabou.

Acabou, pessoal! o congestionamento,
o palavrão,
a neurose coletiva.
A morte violenta entre ferragens
com seu véu de óleo
e chamas
acabou.

Milhões de árvores meninas irrompem do asfalto
e da consciência
em carnaval de sol.
Dão sombras grátis
ao papo dos amigos,
à doçura do ócio no intervalo
do batente,
do amor antes aprisionado sob o capô
ou esmigalhado pelas rodas,
à vida de mil formas naturais.
Pessoas, animais,
confraternizam: Milagre!

Dura 5 (?) minutos a festa
da natureza com a cidade.
Irrompem
formas eletrônicas implacáveis,
engenhos teleguiados catapúlticos
de máximo poder ofensivo
e reconquistam o espaço
em que a vida bailava.

Recomeça o problema de viver
na cidade-problema?

De que valeu cantar
o fim da gasolina de alta octanagem?

Enquanto não vem a formidável manchete
vamos curtindo
outras manchetinhas a varejo.
Vamos curtindo
a visão do caos e do extermínio
na rua, na foto,
no sono atormentado:
Mais 400 carros por dia nas pistas
que encolhem, encolhem, são apenas
enfumaçadas fita de rangidos.
Mais loucura, mais palavrão e mais desastre.

E lemos Ralph Nader:
a cada 10 minutos
morre uma pessoa em acidente
de carro; a cada 15 segundos
sai alguém ferido
na pátria industrial dos automóveis.
Vamos imitá-la?
Vamos vencê-la em desafio 
de quem mata mais e morre mais?
Ou vamos ficar apenas
engarrafados sem garrafa
no ar poluído e constelado
de placa, de sinais
que assinalam o grande entupimento?

Perguntas estas são mensagem
também ela espremida na garrafa
que bóia no alto-mar de ondas surdas
e cegas
à espera do futuro que as responda.

Discurso de Primavera, e algumas sombras  1977

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Carlos Drummond de Andrade, Poesia e Prosa, Volume Único, Introdução Geral “As várias faces de uma poesia”, de Emanuel de Moraes, 5ª  edição, 1979, Editora Nova Aguilar, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Drummond de Andrade (1902 1987), mineiro de Itabira, poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa, publicadas em livros, jornais e revistas, pelo país afora e no resto do mundo: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo Boitempo II (1973); De Noticias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e tantos outros títulos...

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Adroaldo Jacques Eid: O chute do Saci *

Minha foto
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Por entre os cipós e o rústico sapé,
Espaço primitivo e rude da Natureza,
Ostentando astúcia e destreza,
Nós te "caçamos", Saci Pererê.

Cachimbo na boca,
Soltando fumaça,
Barrete vermelho,
Apenas um joelho,
Assustando quem passa...

Então, transcendeste o âmbito fabuloso
E te converteste à humana realidade.
Por fim, desta próspera sociedade,
Tomaste o símbolo augusto e majestoso!

Baluarte de elevado idealismo,
Perseveraste nas adversidades,
Foste prudente nas amenidades
E não sucumbiste ao comodismo!

Empunhando o lume da esperança,
Não obstante, todo o sacrifício,
Puseste de pé o portentoso edifício,
Estandarte de altivez e pujança!

Sede de profícua convivência,
Acervo dos despojos das vitórias;
Cenário de labutas e muitas glórias,
Irmandade de reconhecida eminência.

Que dia ímpar e extraordinário!
Meio século de existência...
Por isso, devotamos nossas reverências
E te rogamos um feliz aniversário.

Saci Pererê,
De uma perna só,
Domina esta bola
E chuta sem dó!

Nem vexame, nem fracasso!
Tu não és um aleijão;
És, isto sim, um campeão,
Pois marcaste um golaço!

(07  12  2014)



* Clique no título lá em cima e acesse www.sacifutebol.blogspot.com.br
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Adroaldo Jacques Eid, iperoense, em Minhas Composições Biografia, descreve a si mesmo: “27 dezembro de 1946. Eis que, após nove meses de tranqüilidade no útero materno, a mão do Destino, atrevido e implacável, me botou pra fora! Mais um, na arena do mundo, para repartir com outros milhões as migalhas da sobrevivência humana... Após dezenove anos de vida bucólica, outra vez premido pela Sorte, fui jogado na cidade grande São Paulo onde, preocupado com a corda bamba do futuro, retomei os estudos; prestei vestibular e me formei professor de Português pela Universidade de São Paulo. (. . .) ... manifesto meus sentimentos e opiniões através da política partidária, crônicas e textos, em prosa e em versos, quase literários, os quais evidenciam meus dois lados: o campestre e o urbano.”; Adroaldo, além de ter lecionado, costuma participar de revistas e de concursos de arte; gravou, em parceria, algumas de suas composições, em produção independente.
(http://bloggermestrejacques.blogspot.com.br/2011/07/minhas-composicoes.html)

SACI  Sociedade Atlética Cidade de Iperó, é um clube de futebol. Foi fundado em 12 de outubro de 1965, por Amadeu Jacques Eid. O clube iperoense tem um estádio-sede, o Saci-Pererê.

Castro Alves: Adormecida

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Ses longs cheveux épars la couvrent tout entière
La croix de son collier repose dans sa main,
Comme pour témoigner qu’elle a fait sa priére.
Et qu’elle va la faire en s’éveillant demain.
A.DE MUSSET


Uma noite, eu me lembro... Ela dormia
Numa rede encostada molemente...
Quase aberto o roupão... solto o cabelo
E o pé descalço do tapete rente.

‘Stava aberta a janela. Um cheiro agreste
Exalavam as silvas da campina...
E ao longe, um pedaço do horizonte,
Via-se a noite plácida e divina.

De um jasmineiro os galhos encurvados,
Indiscretos entravam pela sala,
E de leve oscilando ao tom das auras,
Iam na face trêmulos 
 beijá-la.

Era um quadro celeste!... A cada afago
Mesmo em sonhos a moça estremecia...
Quando ela serenava... a flor beijava-a...
Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia...

Dir-se-ia que naquele doce instante
Brincavam duas cândidas crianças...
A brisa, que agitava as folhas verdes,
Fazia-lhe ondear as negras tranças!

E o ramo ora chegava ora afastava-se...
Mas quando a via despeitada a meio,
P’ra não zangá-la... sacudia alegre
Uma chuva de pétalas no seio...

Eu, fitando esta cena, repetia
Naquela noite lânguida e sentida:
“Ó flor! 
 tu és a virgem das campinas!
“Virgem!  tu és a flor da minha vida!...”

1868

Espumas flutuantes

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A Poesia no Brasil, Volume 1 — Das Origens até 1920, Organização, Bibliografias e Notas de Sônia Brayner, 1981, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Antônio Frederico de Castro Alves (1847 1871), baiano, um poeta da liberdade, antiescravagista, escreveu poemas-denúncia que ainda hoje constituem referências na luta contra a escravidão e em favor da liberdade no Brasil; escreveu Espumas Flutuantes, Os Escravos, A Cachoeira de Paulo Afonso e Poesias Coligidas, além de obras em prosa; em Os Escravos, quem não há de recordar dos poemas épicos nos quais trata a questão dos negros escravizados, do tráfico e do comércio, na sociedade brasileira da época do império?! Além de Bandido Negro, ora postado, sito Mater Dolorosa, Vozes d'África, O Navio Negreiro, A Canção do Africano, A Mãe do Cativo, A Cruz da Estrada, Tragédia no Lar...

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Augusto dos Anjos: O Morcego

Lote 3 Cadernos Poesia Brasileira Instituto Cultural Itaú
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Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.

"Vou mandar levantar outra parede..."
Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!

Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh'alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!

A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!

1912  Eu



Nota da edição:
UM ESTRANHO MORCEGO COMO IMAGEM DA CONSCIÊNCIA  A consciência humana é identificada com um morcego que se alimenta à noite do sangue das pessoas. Essa consciência, isto é, a razão, pode colocar limites à livre expressão do indivíduo. Curiosamente, em nossa mitologia cultural, a imagem do morcego é associada ao reino dos infernos e não da razão, que seria celestial.
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Cadernos Poesia Brasileira 5 — Parnasianismo/Simbolismo, Prefácio de Benjamin Abdala Junior, 1997, Instituto Cultural Itaú, São Paulo — SP; Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884 1914), paraibano de Sapé, formado em Direito pela Faculdade de Recife, professor, foi poeta e publicou, em vida, sua única obra, Eu (1912); em 1920, foi editado na Paraíba, Eu e Outras Poesias, reunindo a sua produção posterior ao primeiro e único livro; hoje é um dos poetas mais estudados e reeditados no Brasil.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Cruz e Sousa: Escravocratas

Lote 3 Cadernos Poesia Brasileira Instituto Cultural Itaú
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Oh! trânsfugas do bem que sob o manto régio
manhosos, agachados bem como um crocodilo,
viveis sensualmente à luz dum privilégio
na pose bestial dum cágado tranqüilo.

Eu rio-me de vós e cravo-vos as setas
ardentes do olhar 
 formando uma vergasta
dos raios mil do sol, das iras dos poetas,
e vibro-vos à espinha 
 enquanto o grande basta

O basta gigantesco, imenso, extraordinário 
da branca consciência  o rútilo sacrário
no tímpano do ouvido  audaz me não soar.

Eu quero em rude verso altivo adamastórico,
vermelho, colossal, d'estrépito, gongórico,
castrar-vos como um touro 
 ouvindo-vos urrar!

1961  Obra completa

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Nota da edição:
SÍMBOLOS DE RANCOR POÉTICO  O poeta negro mostra todo o seu rancor contra os escravocratas. Procura valer-se, para tanto,de imagens poéticas tradicionais, que seriam símbolo da manutenção de sua consciência indignada.
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Cadernos Poesia Brasileira 5 Parnasianismo/Simbolismo, Prefácio de Benjamin Abdala Junior, 1997, Instituto Cultural Itaú, São Paulo SP; João da Cruz e Sousa (1861 1898), catarinense nascido em Desterro, atual Florianópolis, filho de escravos alforriados e acolhido pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa e esposa, estudou e foi educado nas melhores escolas da região; com a morte de seus protetores teve que abandonar os estudos e foi obrigado a trabalhar; sofreu perseguições raciais, foi proibido de assumir o cargo de promotor público, por ser negro; já no Rio de Janeiro, em 1890, manteve contato com a poesia simbolista francesa, colaborou em alguns jornais e publicou Missal (1893, poemas em prosa) e Broquéis (1893, poemas); em 1885, havia publicado Tropos e Fantasias (poemas em prosa), em conjunto com Virgílio Várzea; mesmo já bastante conhecido, só conseguiu arrumar um emprego miserável, como arquivista, na Estrada de Ferro Central (do Brasil); foram editados postumamente Evocações (1898), Faróis (1900) e Últimos Sonetos (1905).

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Augusto dos Anjos: À Mesa

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Cedo à sofreguidão do estômago. É a hora 
De comer. Coisa hedionda! Corro. E agora,
Antegozando a ensangüentada presa,
Rodeado pelas moscas repugnantes,
Para comer meus próprios semelhantes
           Eis-me sentado à mesa!

Como porções de carne morta... Ai! Como
Os que, como eu, têm carne, com este assomo
Que a espécie humana em comer carne tem!...
Como! E pois que a Razão me não reprime,
Possa a terra vingar-se do meu crime
           Comendo-me também.


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Toda a Poesia de Augusto dos Anjos — Estudo crítico de Ferreira Gullar e Apresentação de Otto Maria Carpeaux, 1976, Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro RJ; Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884 1914), paraibano de Sapé, formado em Direito pela Faculdade de Recife, professor, foi poeta e publicou, em vida, sua única obra, Eu (1912); em 1920, foi editado na Paraíba, Eu e Outras Poesias, reunindo a sua produção posterior ao primeiro e único livro; hoje é um dos poetas mais estudados e reeditados no Brasil.

domingo, 25 de outubro de 2015

Gilka Machado: Ser Mulher . . .

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Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada
para os gozos da vida; a liberdade e o amor;
tentar da glória a etérea e altívola escalada,
na eterna aspiração de um sonho superior...


Ser mulher, desejar outra alma pura e alada
para poder, com ela, o infinito transpor;
sentir a vida triste, insípida, isolada,
buscar um companheiro e encontrar um senhor...
 
Ser mulher, calcular todo o infinito curto
para a larga expansão do desejado surto,
no ascenso espiritual aos perfeitos ideais...
 
Ser mulher, e, oh! atroz, tantálica tristeza!
ficar na vida qual uma águia inerte, presa
nos pesados grilhões dos preceitos sociais!

1915  Cristais Partidos

GILKA MACHADO

Nota da edição:
A CONDIÇÃO SOCIAL DA MULHER – A aspiração de liberdade da mulher choca-se com os “preceitos sociais”, que não permitem que ela desenvolva vôo existencial próprio. Esse é um dos poemas reivindicatórios que servem de paradigma para a literatura feminina brasileira.
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Cadernos Poesia Brasileira 5 — Parnasianismo/Simbolismo, Prefácio de Benjamin Abdala Junior, 1997, Instituto Cultural Itaú, São Paulo — SP; Gilka da Costa Melo Machado (1893 1980), nascida no Rio de Janeiro RJ, vinda de numa família de artistas, também trazia a arte nas veias: desde criança fazia versos; escreveu e publicou Cristais partidos (1915), A revelação dos perfumes (1916), Estados de Alma (1917), Mulher Nua (1922), Meu Glorioso Pecado (1928), Poesia (1929), Sublimação (1938), Carne e alma (1938), Meu Rosto (1947), Velha poesia (1965) e Poesias Completas (1987); foi premiada por sua obra (Revista O Malho, 1933, e Academia Brasileira de Letras, Prêmio Machado de Assis, 1979).

sábado, 24 de outubro de 2015

Genésio dos Santos: Iperó — 21.03.2015 — Cinquentenário de emancipação

História de Iperó | Câmara Municipal de Iperó
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Crônica um tanto autobiográfica

                    Parabéns, Iperó, pelos seus cinquenta anos de emancipação municipal. Parabéns iperoenses nativos e/ou de coração!
                    Em 21 de março de 1965, Iperó, que deixara de ser distrito de Boituva, passaria a ter um governo recém-nascido com prefeito e vereadores da própria cidade. Para mim, não era uma cidade qualquer. Não foi e não é uma cidade qualquer.
                    Em junho de 1963, meu pai  Paulino Ferreira  fora removido da Turma 34 (Itapeva) para a Turma 1 (km 141 da EFS, início do ex-Ramal de Itararé). Pai, mãe e irmãos, vivíamos e continuaríamos vivendo por um bom tempo à beira da linha do trem. Íamos à vila só quando necessário, fosse pra fazer alguma compra no comércio, para ir à missa, ao futebol, a alguma festa ou desfile em data comemorativa. A ida à escola, porém, era compulsória de segunda a sexta. Estudei o quinto ano do antigo grupo escolar (segundo semestre de 1963) no “Gaspar”, àquela época ali só havia o ensino primário. Mas foi lá também que, em 1969, estudei a quarta série do ginásio. E, entre 1964 e 1968, estudei séries ginasiais no Mário Vercellino, em Boituva. Interrompendo-se o ginásio, fiz o Curso de Telegrafista, em outro “Gaspar”, escola técnica da ferrovia, em Sorocaba. Sabemos que no ensino educacional de hoje, primário e ginásio se fundiram e compõem os nove anos do fundamental. Meus irmãos e irmãs, em diferentes momentos, também passaram por essa rotina.
                    Continuando as reminiscências, foi em 67 ou 68 que deixamos a Turma 1 e fomos morar na cidade. Qualquer dia eu conto esta história da saída da Turma 1. Dá uma novela ou quase um conto... de terror.
                    Viemos pra Vila Moraes (era nome oficial?), moramos por dois ou três meses de aluguel na Rua Constantino Pastini, próximo da confluência com a hoje Avenida Paulo Antunes Moreira; depois, meu pai construiu a casa, em dois lotes adquiridos na antiga Rua Dois (Rua Aparecida?), atual Rua José de Moraes, 222. Ali moramos por um bom tempo, em casa com poço dentro da cozinha, inicialmente sem reboco, sem vidros em janelas, sem forro no teto. Também cheguei a construir uma casa, no fim da década de 70, junto ao trevo de saída para Bacaetava/Sorocaba e Tatuí. Quanto às casas, tanto a alugada quanto as adquiridas e depois vendidas, ainda estão lá, com modificações. No entanto, das residências da Turma 1, que pertenciam à EFS, não há nem vestígio. Tenho fotos dos locais.
                    Para aquela criança de calças curtas e para todas as crianças, dois ou três anos a mais ou a menos com relação à idade de outros guris ou gurias, pareciam ser quilômetros a serem percorridos e quase que intransponíveis nas relações de amizade e de brincadeiras com os demais coleguinhas. Daquele tempo, eu que tinha onze anos, me recordo da “Escola Gaspar”, onde fiz o quinto ano do Grupo Escolar. E me lembro do professor Benvindo Jacob e, da quarta série do ginásio, a recordação é do Paulo Mazulquim, professor de Matemática, da Célia Mioni, professora de Português, do Ipojucan, professor de Artes, e de alguns outros dos quais me fogem os nomes.
                    Comunitariamente, convivíamos, eu, meus pais e irmãos, com uns poucos moradores da Turma  o Sêo Fernando e Dona Cristina, com os filhos Fião, Tuim; o Seu Ico e Dona Dita (Benedito e Benedita), com os filhos Adão, Gusto e Nenê; com a Dona Detinha, Sêo Gino e filhos, do sítio vizinho à Turma, junto à várzea do outro lado da linha do trem. Vivíamos num ambiente quase que apartado do das pessoas da cidade. Éramos um pouco bichos do mato. Só de vez em quando éramos “visitados” por algum mascate ou um e outro andarilho que perambulava no caminho dos trens.
                    Como já disse acima, foi após a mudança para a Vila Moraes, que passamos a conviver com os “da cidade”. A minha ligação forte com Iperó, que se deu inicialmente com a ferrovia e sua gente (minha gente!), depois fortaleceu-se muito mais na convivência com a vila, seus lugares e ocasiões, e suas gentes (minhas gentes!). Tantas coisas passam pela mente: a inauguração da caixa d’água municipal, na Rua Constantino Pastini; as festas de Santo Antonio e de Santa Rita e suas procissões, quermesses e leilões; os desfiles e a bandinha Santa Cecília; a sinuca e discussões sobre futebol no Bar do Santista (que era palmeirense!), no Bar do Felício e no Bar do Giba, o Copa 70; o carrinho de doces do Zé Pequeno; as serenatas com o Zé Augusto e outros violonistas e/ou violeiros; a ida ao “Escadão” ou à plataforma da estação para ver, apreciar (e conferir!) a chegada e saída dos trens e seus passageiros; os jogos de malha e de bocha; as ‘composições japonesas’ (trens!), nossas conduções para as escolas em Boituva e Sorocaba; a convivência nas escolas; o cinema em seu “Barracão”; os serviços na “cata” de algodão, no corte de cana, nas plantações dos japoneses Mauri e Kandi, no plantio de gramas na Rodovia Castelo Branco ainda não inaugurada, no açougue do Zeca Calixto, no escritório contábil do Marcos Andrade; o futebol (que não joguei, por ser um absoluto perna de pau!) nos campos do Sorocabana e as peladas nas ruas de terra da Vila Moraes; o estágio do Curso de Telegrafista, na estação; os vizinhos da Rua Dois (hoje Rua José de Moraes); os jogos de xadrez na casa do Zé Lopes e do ‘Vanusa’ e irmãos; e tantas outras situações, gentes e lugares que fizeram parte de minha infançolescência e que não cabem numa só postagem.
                    No livro Eu, a ferrovia e o tempo, de Benedicto Peixoto Filho, há a reprodução de uma foto da turma de ginasianos formandos de 1969. Lá estão, entre outros, o Peixoto, o Zé Fogaça, o Hélio ‘Saúva’, o Zé Roberto ‘Tiguera’, as irmãs que tocavam clarina (não me lembro do nome delas), as irmãs Vera e Márcia Andrade, as ‘georgeoetterenses’ Iraci e Ana Nilce, algumas professoras e professores, as meninas e meninos de Tatuí, e eu inclusive. Eu tinha esta foto e a perdi em minhas andanças (este livro do Peixoto me foi emprestado recentemente pelo Zé Roberto e ainda está comigo, preciso devolvê-lo). Não há como não recordar do período em que fiz estágio do Curso de CFT (telegrafista!) na Estação. Fizeram parte disso, como instrutores e monitores, os ferroviários Osmar, Dito Galvão, Jaime Vilhena, Adilson Nóbrega, Peixoto, Telo, Zé Fogaça e outros, alguns deles também estavam na turma de formandos de 1969.
                    E como esquecer da minha “fuga” para Osasco, rumo ao Bradesco, meu primeiro registro em carteira, e que para onde também, logo depois, partiram algumas dezenas de iperoenses em busca de emprego? Chegamos até a formar um time de futebol, com titulares e segundões, e de uniforme completo, o CAJU (Clube Atlético Juventude Unida), que teve vida curtíssima. Afinal, eu nunca servi para cartola e muitos dos futebolistas “bradesquianos” já eram jogadores do Sorocabana ou do SACI. Tenho fotos dos times.
                    Tudo isso me vem em torrentes neste dia em que Iperó está completando seus cinquenta anos de emancipação. As pessoas todas estão vivas. Em Iperó, em outras praças, em minha memória. Mas fica pra amanhã, ou depois, um relato mais organizado e pormenorizado disso tudo.
                    Um carinho especial ao Hugo, ao Zé Roberto e demais colaboradores e incentivadores desta página * sobre Iperó e suas gentes.
                    Sintam-se contemplados, também, todos os que não foram citados nominalmente neste texto (e são muitos e muitas!) e que de alguma forma conviveram comigo à época.
                    Beijos e abraços aos nativos e aos de coração.
                    Fui.

Iperó e o trem” – Cidade de Iperó

* Clique no título lá em cima e acesse a página www.cidadedeipero.com.br, pilotada por Hugo Augusto Rodrigues, iperoense, jornalista...
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Genésio dos Santos Ferreira, nascido em 1952, paulista de Itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da Estrada de Ferro Sorocabana, escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, labutou em escritórios de contabilidade; veio pra São Paulo no início da década de setenta do século e milênio passados e hoje é um bicho urbano adaptado; até agorinha mesmo foi bancário, hoje aposentado; poeta e cronista não tão ativo, escreveu e publicou Número Um (poesias, 1978) e Cinco Poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical, escreveu crônicas para os jornais O Espelho — SP, Folha Bancária e pilotou o devezenquandário Na Moita (1991 1997), editados sob a responsabilidade do Sindicato dos Bancários de São Paulo; é aprendiz de blogueiro e iperoense de coração.