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O caso de
ter a Saúde Pública multado um médium espírita muito estimado em Botafogo, pelo
fato de receitar remédios homeopáticos a clientes que o procuravam, fazendo
isto de forma mais amplamente desinteressada, provoca um exame — que sinto
tê-lo de fazer muito perfunctoriamente1 sobre a mentalidade geral
dos nossos médicos.
De todos
os nossos doutores, o médico, com muitas exceções, é o mais estreito em descortino2
intelectual e o é tanto mais quanto mais famoso é. Fora do campo de sua
atividade mental, ele não enxerga nada que possa merecer consideração e muito
menos que possa reagir sobre as suas teorias particulares, senão para tirar
delas o valor absoluto que a limitação intelectual dos nossos grandes
esculápios3 lhes empresta.
Objetivos
à outrance4, eles como que recebem o fato bruto e não o preparam pela
análise, pela abstração e por outros processos lógicos para se incorporar ao
pensamento abstrato, à ciência, enfim.
Se fossem
físicos, diriam que a vara em parte mergulhada n’água está quebrada, se
astrônomos, que o sol gira em torno da terra; etc. etc.
Não
admitem, já não direi uma crítica do conhecimento, mas uma simples crítica do
poder e da verdade do que nos dizem os nossos sentidos.
Além
dessa lamentável miopia mental, juntam a vaidade dos medíocres, que podem ser
celebridades e ocupar altos cargos oficiais, e enchem-se de uma presunção
profissional e uma vaidade pessoal que os levam a tomar atitudes de
grão-sacerdotes e de infalibilidade papal.
Por
vaidade, não querem que se diga que a medicina propriamente é uma “arte”. Como,
sendo como ela o é, os diminuísse de alguma forma; e, por presunção, para não
se nivelarem com toda a gente que escreve, inventaram uma geringonça5
pseudoclássica, com a qual redigem os seus laboriosos tratados. Duros e
desdenhosos com os seus subalternos não formados, eles levam esse espírito de
superioridade sobre o resto dos homens, a sua presunção de inerrância6,
o sentimento do direito divino que lhes dá a carta, para as leis que elaboram
ou projetam, favorecendo-os em tudo e outorgando-lhes todos poderes e autoridades,
deixando para os demais não formados migalhas e deveres humilhantes.
Preferia
ser subordinado ao oficial — do Exército, bem entendido — mais truculento que
houvesse do que ao médico mais melífluo7 nas salas de Botafogo ou
nos desvãos8 do Municipal, que se conheça.
A
medicina é importante atividade intelectual, mas não é a única importante e não
chegou a tal ponto de perfeição que os médicos tenham na cabeça ou nos livros
as leis que regem as moléstias e a sua cura e a organização do Universo.
Se eles
fossem verdadeiramente cientistas haviam de ter dúvidas e nunca tentariam
estabelecer na Terra a ditadura dos médicos, porque esta só seria válida se a
medicina fosse uma verdade perfeitamente e completamente estabelecida.
Entretanto,
aqui e acolá, as suas doutrinas estão sujeitas à caução9 ou se
baseiam em outros dados científicos que, por uma pequena descoberta de amanhã,
em disciplina muito afastada da arte de Hipócrates10, podem ser
deitadas por terra.
Os
médicos, os nossos, porém, não querem ver isso e arrotam a infalibilidade do
laboratório, como se este não fosse, em última análise, ótica, física, cujas
leis amanhã podem ser derrogadas11 ou mesmo revogadas.
Demais,
essas odiosas medidas, consignadas12 no tal Código Negro, que a
Saúde Pública ultimamente expediu, só visam os pobres, os desgraçados e os sem
proteção...
Esse
código é bem uma demonstração da limitação intelectual e sentimental do geral
dos nossos médicos. Posto em prática, com todo o rigor e honestidade, ele poria
o presidente da república, os congressistas e os juízes sob o guante13
do mais modesto funcionário da Saúde Pública. Ele cria em teoria a medicocracia
ou o que outro nome tenha.
O
governo, o único de uma classe que é lógico consigo mesmo, é a teocracia, porque
é de supor que os sacerdotes conheçam os secretos desígnios de Deus sobre os
homens e os seus destinos; mas os de outra qualquer que não possuem semelhante
sabedoria é ilógica14 e sem sentido.
Os
médicos não querem saber disso e se arrogam ou se quiseram arrogar o direito de
dirigir os engenheiros encarregados das obras de saneamento, de dirigir os
políticos no governo dos povos, de substituir as mães no acalentar os filhos,
de vestir o amor dos sexos com o auxílio da duvidosa reação de Wasserman15
etc. etc.
Como
todos os iniciados, eles se julgam acima dos defeitos, vícios ou o que quer que
seja que atribuem aos outros...
Quando
foi por ocasião da morte do doutor Francisco de Castro, houve quem dissesse que
o notável professor havia morrido de peste bubônica16.
A Saúde
Pública de então suspeitou isso, tanto que mandou verificar o óbito. O Senhor
Azevedo Sodré e outros médicos de sua roda ficaram indignados com a coisa,
impediram a entrada do médico da higiene federal e houve um começo de “bate-boca”
científico, como dizem eles.
Consta
isto dos jornais do tempo. Pode ser verificado.
De forma
que, para o doutíssimo Sodré e seus amigos, o doutor Francisco de Castro era um
mestre excepcional que não podia ser vitimado por uma moléstia que atinge o
comum dos mortais. Curiosa sabedoria!
Com mais
paciência e tempo aos médicos que tanto gostam de gritar: são fatos! Podia
apresentar mais fatos para demonstrar a contradição que eles revelam nas
aplicações de suas severas e infalíveis teorias. Para os demais, principalmente
os miseráveis, todo o rigor é pouco, é preciso mesmo o vexame e a brutalidade;
mas, para os fartos, especialmente os médicos notáveis, não há necessidade
energias despóticas, porque, a esses, os morbus17 terríveis não
atingem. A moléstia é como a fome: só alcança os pobres, os sem dinheiro.
Concordo em parte.
Se assim
é, o que o bom senso, embora eu não seja dele grande adepto, está a mostrar é
que nós nos devemos preocupar principalmente em acabar com a miséria, com a
pobreza, e não aumentá-las com impostos e com ostentações munificentes18
de sultões, de vizires e de paxás19, para depois transformar a
miséria e a epidemia, criarmos luxuosas repartições encarregadas de espalhar
paliativos20, com apoio de medidas tirânicas e vexatórias21.
Essas
ligeiras considerações, porém, levaram-me longe e abandonei o caso do médium
espírita.
De que
acusam esse homem? De indicar remédios homeopáticos que lhe são indicados pelos
espíritos dos mortos, cujas comunicações ele pode receber, devido a isto ou
àquilo.
Há nisto,
em primeiro lugar, o fato acessível ao exame de todos nós, que é o dos
medicamentos homeopáticos. A doutrina vigente entre os magnatas médicos é que a
homeopatia não cura, não tem nenhum poder terapêutico; os seus medicamentos são
água pura, água de pote.
Não me
trato pela homeopatia, mas noto que os médicos que assim se fazem, depois de
severos estudos e em idade de madureza intelectual, adotam a homeopatia. Haja
em vista o doutor Licínio Cardoso, os falecidos Meireles, Murtinho e Nerval de
Gouveia. Tais exemplos, se não me fazem mudar da minha habitual medicina,
dão-me direito em não aceitar sobre a doutrina médica de Hahnemann22
o julgamento desdenhoso da quase totalidade dos nossos médicos.
Há, além,
no caso do Senhor Inácio Bittencourt, um fato de fé, de crença, sobre o qual os
médicos da Saúde Pública não podem possuir nenhuma competência oficial para
discutir, para negar ou aceitar.
Se os
medicamentos que o Senhor Bittencourt indica são inócuos e ele os indica em
virtude de uma certa crença religiosa, não se pode encontrar em semelhante ato
matéria para multa, por infração, ou processo por crime.
Isto tudo
só pode existir no procedimento do médium para quem o julgar através da vaidade
e da presunção dos nossos profissionais da medicina.
Eles se esquecem
que nós vivemos, no dizer de Renan, de velhas crenças que estão sendo abaladas,
entre as quais está o poder a certeza certa da ciência.
Ela
talvez possa ser assim considerada, enquanto Ciência; mas, deixando o seu campo
abstrato para aplicações práticas, periclita23 muito o seu império;
e quem sabe disto não pode querer dominar os outros ou excomungá-los, em nome
de Deus tão vacilante.
[revista]
A. B. C., 19/03/1921
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| Lima Barreto |
Notas da
edição:
1. Perfunctoriamente:
superficialmente
2.
Descortino: perspicácia
3.
Esculápios: médicos
4. À entrance (fr.): exagerados
5. Geringonça: linguagem vulgar
6.
Inerrância: que não pode errar
7. Melífluo:
suave, doce
8. Desvãos:
recantos escondidos
9.
Caução: cautela, precaução
10. Arte
de Hipócrates: referência à medicina
11.
Derrogadas: alteradas
12.
Consignadas: estabelecidas
13.
Guante: mão de ferro, autoridade despótica
14. É
ilógica: deveria ser “são ilógicos”
15.
Wassermann: referência ao teste de Wassermann, exame de sangue para
diagnosticar a sífilis
16. Peste
bubônica: doença transmitida pelo rato preto
17. Morbus: moléstias
18. Munificentes:
generosas
19.
Sultões, vizires e paxás: nobres da antiga Pérsia
20.
Paliativos: tratamentos que fornecem alívio, de duração variável
21.
Vexatórias: que envergonham
22. Hahnemann:
médico alemão (1755 — 1843), criador do método homeopático para tratamento das
doenças
23.
Periclita: corre perigo
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Lima
Barreto: A crônica militante, Seleção, Notas e Edição sob os cuidados de
Claudia de Arruda Campos, Enide Yatsuda Frederico, Walnice Nogueira Galvão e
Zenir Campos Reis, Apresentação de Maria Salete Magnoni, Prefácio ‘Lima Barreto
militante’ de Zenir Campos Reis e Posfácio/Ensaio de Astrojildo Pereira, 1ª
edição, 2016, Expressão Popular, São Paulo — SP; Afonso Henriques de Lima Barreto
(1881 — 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou
na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi
contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e
revistas, Fon-Fon, A. B. C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente
para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição
do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos,
chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro
do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de
Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que
sabia javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919),
Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea
de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação
póstuma, 1948) e outros...; o escritor Lima Barreto, particularmente nos textos
satíricos de comentários sociais ou políticos, fez uso de vários pseudônimos
como assinaturas de suas crônicas nos periódicos — jornais e revistas — nos
quais foram publicadas, Amil, Jonathan, Xim, Horácio Acácio, Inácio Costa,
Pingente, Barão de Sumarel, Eran, J. Caminha, Aquele, estão entre eles.