/https://skoob.s3.amazonaws.com/livros/169941/NOSSOS_CLASSICOS_93_GONCALVES_CRESPO_1304721433B.jpg)
____________________
A Mme. Aline de Gusmão
As velhas negras, coitadas,
Ao longe estão assentadas
Do batuque folgazão.
Pulam crioulas faceiras
Em derredor das fogueiras
E das pipas de alcatrão.
Na floresta rumorosa
Esparge a lua formosa
A clara luz tropical.
Tremeluzem pirilampos
No verde-escuro dos campos
E nos côncavos do val.
Que noite de paz! Que noite!
Não se ouve o estalar do açoite,
Nem as pragas do feitor!
E as pobres negras, coitadas,
Pendem as frontes cansadas
Num letárgico torpor!
E cismam: outrora, e dantes
Havia também descantes,
E o tempo era tão feliz!
Ai! que profunda saudade
Da vida, da mocidade
Nas matas do seu país!
E ante o seu olhar vazio
De esperanças, frio, frio
Como um véu de viuvez,
Ressurge e chora o passado
— Pobre ninho abandonado
Que a neve alagou, desfez...
E pensam nos seus amores
Efêmeros como as flores
Que o sol queima no sertão...
Os filhos quando crescidos,
Foram levados, vendidos,
E ninguém sabe onde estão.
Conheceram muito dono:
Embalaram tanto sono
De tanta sinhá gentil!
Foram mucambas amadas.
E agora inúteis, curvadas,
Numa velhice imbecil!
No entanto o luar de prata
Envolve a colina e a mata
E os cafezais em redor!
E os negros, mostrando os dentes,
Saltam lépidos, contentes,
No batuque estrugidor.
No espaçoso e amplo terreiro
A filha do Fazendeiro,
A sinhá sentimental,
Ouve um primo recém-vindo,
Que lhe narra o poema infindo
Das noites de Portugal.
E ela avista, entre sorrisos,
De uns longínquos paraísos
A tentadora visão...
No entanto as velhas, coitadas,
Cismam ao longe assentadas
Do batuque folgazão...
Noturnos, 1882
____________________
Coleção Nossos Clássicos — Gonçalves
Crespo, Volume 93, Apresentação de Rolando Morel Pinto, publicados sob a
direção de Alceu Amoroso Lima, Roberto Alvim Corrêa e Jorge de Sena, 1967,
Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Antônio Cândido Gonçalves
Crespo (1846 — 1883), nascido no Rio de Janeiro, filho de mãe escrava à época
de seu nascimento e de pai negociante português, fez seus estudos em Lisboa e
formou-se em Direito na Universidade de Coimbra; dedicou-se no entanto ao jornalismo
e à poesia, colaborando com os periódicos O Ocidente e a Folha, na qual também publicavam
Guerra Junqueira e Antero de Quental, entre outros notáveis da época; escreveu e
publicou Miniaturas (primeira edição, 1871), Noturnos (1882).


