terça-feira, 25 de março de 2014

Gonçalves Crespo: As Velhas Negras

Nossos Clássicos 93: Gonçalves Crespo
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A Mme. Aline de Gusmão

As velhas negras, coitadas,
Ao longe estão assentadas
Do batuque folgazão.
Pulam crioulas faceiras
Em derredor das fogueiras
E das pipas de alcatrão.

Na floresta rumorosa
Esparge a lua formosa
A clara luz tropical.
Tremeluzem pirilampos
No verde-escuro dos campos
E nos côncavos do val.

Que noite de paz! Que noite!
Não se ouve o estalar do açoite,
Nem as pragas do feitor!
E as pobres negras, coitadas,
Pendem as frontes cansadas
Num letárgico torpor!

E cismam: outrora, e dantes
Havia também descantes,
E o tempo era tão feliz!
Ai! que profunda saudade
Da vida, da mocidade
Nas matas do seu país!

E ante o seu olhar vazio
De esperanças, frio, frio
Como um véu de viuvez,
Ressurge e chora o passado
— Pobre ninho abandonado
Que a neve alagou, desfez...

E pensam nos seus amores
Efêmeros como as flores
Que o sol queima no sertão...
Os filhos quando crescidos,
Foram levados, vendidos,
E ninguém sabe onde estão.

Conheceram muito dono:
Embalaram tanto sono
De tanta sinhá gentil!
Foram mucambas amadas.
E agora inúteis, curvadas,
Numa velhice imbecil!

No entanto o luar de prata
Envolve a colina e a mata
E os cafezais em redor!
E os negros, mostrando os dentes,
Saltam lépidos, contentes,
No batuque estrugidor.

No espaçoso e amplo terreiro
A filha do Fazendeiro,
A sinhá sentimental,
Ouve um primo recém-vindo,
Que lhe narra o poema infindo
Das noites de Portugal.

E ela avista, entre sorrisos,
De uns longínquos paraísos
A tentadora visão...
No entanto as velhas, coitadas,
Cismam ao longe assentadas
Do batuque folgazão...
Noturnos, 1882
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Coleção Nossos Clássicos — Gonçalves Crespo, Volume 93, Apresentação de Rolando Morel Pinto, publicados sob a direção de Alceu Amoroso Lima, Roberto Alvim Corrêa e Jorge de Sena, 1967, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro  RJ; Antônio Cândido Gonçalves Crespo (1846  1883), nascido no Rio de Janeiro, filho de mãe escrava à época de seu nascimento e de pai negociante português, fez seus estudos em Lisboa e formou-se em Direito na Universidade de Coimbra; dedicou-se no entanto ao jornalismo e à poesia, colaborando com os periódicos O Ocidente e a Folha, na qual também publicavam Guerra Junqueira e Antero de Quental, entre outros notáveis da época; escreveu e publicou Miniaturas (primeira edição, 1871), Noturnos (1882).

Alberto de Oliveira: Num Trem de Subúrbio *

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No trem de ferro vimo-nos, um dia,
E amarmo-nos foi obra de um momento,
Tudo rápido, como a ventania,
Como locomotiva ou o pensamento.
― “Amo-te!”
      ― “Adoro-te!”
            A estação primeira
Surge. Saltamos nela ao som de um berro.
Nosso amor, numa nuvem de poeira,
Tinha passado, como o trem de ferro.

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* Alberto de Oliveira, muitíssimo exposto a amores platônicos, escapava frequentemente pela ironia ― como se observa em  numerosos poemas, inclusive "Num Trem de Subúrbio", com  aquele berro antifinal, marcadamente anti-romântico. (Geir Campos)
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Coleção Nossos Clássicos — Alberto de Oliveira, Volume 32, Apresentação de Geir Campos, publicados sob a direção de Alceu Amoroso Lima, Roberto Alvim Corrêa e Jorge de Sena, 1969, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Antônio Mariano Alberto de Oliveira (1857 1937), fluminense de Palmital de Saquarema, farmacêutico e professor, foi poeta e figura de destaque do Parnasianismo; publicou Canções românticas (1878), Meridionais (introdução de Machado de Assis, 1884), Sonetos e poemas (1885), Versos e Rimas (1895), que reuniu em Poesias — primeira série (1900), e mais Poesias — segunda série (1906), Poesias — terceira série (1913) e Poesias — quarta série (1927).

quarta-feira, 19 de março de 2014

Olegário Mariano: Conselho de Amigo

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Cigarra! Levo a ouvir-te o dia inteiro,
Gosto da tua frívola cantiga,
Mas vou dar-te um conselho, rapariga:
Trata de abastecer o teu celeiro.

Trabalha, segue o exemplo da formiga,
Aí vem o inverno, as chuvas, o nevoeiro,
E tu, não tendo um pouso hospitaleiro,
Pedirás… e é bem triste ser mendiga!

E ela, ouvindo os conselhos que eu lhe dava
(Quem dá conselhos sempre se consome…)
Continuava cantando… continuava…

Parece que no canto ela dizia:
— Se eu deixar de cantar morro de fome…
Que a cantiga é o meu pão de cada dia.
Últimas Cigarras  1920

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Toda Uma Vida de Poesia  Volume I (1911 a 1931)  Olegário Mariano, Primeira edição, 1957, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro  RJ; Olegário Mariano Carneiro da Cunha (1889  1958), pernambucano de Recife, político e diplomata, foi poeta e jornalista; estreante na vida literária aos 22 anos com o volume Angelus, viveu o período parnasiano-simbolista e de transição para o modernismo; escreveu para as revistas Caretas e Para Todos com o pseudônimo de João da Avenida; ficou conhecido como o "poeta das cigarras" por causa de um de seus temas prediletos; obra literária: Angelus (1911); Sonetos (1912); Evangelho da Sombra e do Silêncio (1913); Água corrente (prefácio de Olavo Bilac, 1918); Últimas Cigarras (1920); Bataclan (crônicas em versos, 1923); Canto da minha terra (1930); Destino (1931); Vida, caixa de brinquedos (crônicas em versos, 1933); A Vida que já vivi (memórias, 1945); e tantos outros títulos.

terça-feira, 18 de março de 2014

Olegário Mariano: A Cigarra e a Formiga

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Dona Formiga, nesta redondeza
Rústica e solitária,
É tida
Como três vezes milionária,
Possuidora de esplêndida riqueza
Que levou a juntar durante toda a vida.

Acostumou-se desde criança à luta,
Ao sol de fogo e à aventura brava.
Vivia a trabalhar heróica e resoluta
Armazenando tudo o que ganhava.

Hoje está bem, mas é geralmente malquista.
Faltam-lhe uns poucos sentimentos nobres.
É em demasia egoísta
E odeia as raparigas que são pobres.

Dona Cigarra, por exemplo, alheia
A tudo, vive como pode, à toa...
Canta os dias a fio...
Tem a garganta quase sempre cheia
E quase sempre o estômago vazio...
Entretanto, coitada! é humilde e boa.

Chega a passar misérias, mas que importa?
Só quer que a sua vida não se acabe.
Anda de porta em porta...
Se não trabalha, é só porque não sabe.

Entregou-se de vez à vida airada e quando
Se lhe fala em riqueza,
Ela responde, trêfega, cantando
Que o seu grande tesouro é a Natureza.

Ora, um dia... (chegara o inverno) a pobre
Foi ter à casa verde da vizinha
E apelou humilhada,
Para o seu grande sentimento nobre:
— “Mate-me a fome cruel que me espezinha,
quero pão e mais nada.”

Mas a irônica amiga,
Impassível, britânica, solene,
Falou assim:
— “Sou a mesma Formiga
De que falava o velho La Fontaine,
Nada esperes de mim.“

— “Tu que fizeste na estação ardente
Quando me extenuava, estrada fora?”
— “Eu cantava” — responde-lhe a inocente.
— “Ah! Cantavas? — Pois canta e dança agora!”

Deus que ouvira, entretanto,
Sentenciou da alta abóbada vazia:
Canta, Cigarra, canta que o teu canto
Será teu pão de cada dia.

Esta lenda bizarra
Que o tempo não consome,
Vem aos poetas provar
Que a Cigarra
Nunca mais morreu de fome...
Morre agora é de cantar.
Últimas Cigarras  1920

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Toda Uma Vida de Poesia  Volume I (1911 a 1931)  Olegário Mariano, Primeira edição, 1957, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro RJ; Olegário Mariano Carneiro da Cunha (1889 1958), pernambucano de Recife, político e diplomata, foi poeta e jornalista; estreante na vida literária aos 22 anos com o volume Angelus, viveu o período parnasiano-simbolista e de transição para o modernismo; escreveu para as revistas Caretas e Para Todos com o pseudônimo de João da Avenida; ficou conhecido como o "poeta das cigarras" por causa de um de seus temas prediletos; obra literária: Angelus (1911); Sonetos (1912); Evangelho da Sombra e do Silêncio (1913); Água corrente (prefácio de Olavo Bilac, 1918); Últimas Cigarras (1920); Bataclan (crônicas em versos, 1923); Canto da minha terra (1930); Destino (1931); Vida, caixa de brinquedos (crônicas em versos, 1933); A Vida que já vivi (memórias, 1945); e tantos outros títulos.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Carlos Drummond de Andrade: Poema de Sete Faces

["Vai, Carlos! ser gauche na vida."]

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A Mário de Andrade, meu amigo

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
Alguma Poesia, 1930

Carlos Drummond De Andrade - Reunião
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Reunião — 10 Livros de Poesia — Drummond, Introdução de Antônio Houaiss, Quinta edição, Livraria José Olympio Editora, 1973, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Drummond de Andrade (1902 — 1987), poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa, publicadas em livros, jornais e revistas: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952) Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Noticias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e tantos outros...