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quarta-feira, 24 de março de 2021

Guerra-Duval: Ontem de noite...

 
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Ontem de noite...
Na noite negra o inverno branco.
Negro e branco d’água forte
Ontem de noite,
Ardia ainda o meu Círio branco;
À meia-noite,
Veio e soprou-o a feia Morte.

À meia-noite,
Bateu à porta bem de mansinho,
Como um mendigo desgraçadinho
Que pela esmola,
(Ai! feia Morte, por que apagaste os Olhos Noivos?
Ontem de noite,
O Padre veio d’hissope e estola...
Eu aspergi-A, depois cobri-A de dor e goivos.

À meia noite,
(Doze corujas piando, as carnes arrepiando...)
Um cão negro veio uivar à porta
Da minha Noiva morta;
Ontem de noite,
Noite de agoiros roxos corvejando
No meu peito (inda as tenho cravadas!)
Sete assassinos cravaram Sete Espadas!

(Palavras que o Vento leva..., págs. 151-153.)

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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 1, (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 2ª edição, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; Adalberto Guerra-Duval (1872 1947), gaúcho de Porto Alegre, graduado em Direito por São Paulo, seguiu carreira diplomática, foi poeta e secretário do semanário Rua do Ouvidor, de duração efêmera; Guerra-Duval não só é considerado “o introdutor do verso livre na poesia brasileira, mas também um virtuoso da métrica, que usou versos longos e curtos segundo técnicas diversas e com igual perícia”; como diplomata, serviu em capitais da Europa (Roma, Londres, Haia, Berlim, Lisboa) e da América Latina (Assunção e Buenos Aires), aposentando-se como embaixador em Roma; escreveu e publicou Palavras que o Vento Leva... (Oficinas de Ad. Mertens, Bruxelas, 1900), além de textos dispersos, quase sempre poesias, em gazetas e revistas da época; restaram inéditos, um volume de versos, e dois de prosa: Conceito Moral do Esporte e Cifra, coletânea de recordações de sua vida literária e diplomática; faleceu em Petrópolis.

sexta-feira, 5 de março de 2021

Guerra-Duval: Dias de névoas e de saudades...

 
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Dias de névoas e de Saudades,
Dias tão longos!
Dentro de negros caixões ablongos
Vão alegrias, vão mocidades.

Saudades, névoas, tardes morrentes...
E as almas tristes, como doentes,
Passam, magoadas, a suspirar
Toda a tristeza esparsa no Ar.

 Almas violetas sentimentais
Dos poetas loucos, mortos de Amor...
E as Almas Noivas andam aos ais,
Porque são gêmeas o Amor e a Dor.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Há tantos dias que chove, tantos!
Ai! que esta chuva que m’envelhece,
Que me atormenta, que me anoitece,
Parece feita d’água de prantos...

(Palavras que o Vento leva..., págs. 47-48.)

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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 1, (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 2ª edição, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; Adalberto Guerra-Duval (1872 1947), gaúcho de Porto Alegre, graduado em Direito por São Paulo, seguiu carreira diplomática, foi poeta e secretário do semanário Rua do Ouvidor, de duração efêmera; Guerra-Duval não só é considerado “o introdutor do verso livre na poesia brasileira, mas também um virtuoso da métrica, que usou versos longos e curtos segundo técnicas diversas e com igual perícia”; como diplomata, serviu em capitais da Europa (Roma, Londres, Haia, Berlim, Lisboa) e da América Latina (Assunção e Buenos Aires), aposentando-se como embaixador em Roma; escreveu e publicou Palavras que o Vento Leva... (Oficinas de Ad. Mertens, Bruxelas, 1900), além de textos dispersos, quase sempre poesias, em gazetas e revistas da época; restaram inéditos, um volume de versos, e dois de prosa: Conceito Moral do Esporte e Cifra, coletânea de recordações de sua vida literária e diplomática; faleceu em Petrópolis.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Guerra-Duval: Grisalha

 
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Manto griséu de chuvas,
Mantos griséus...
Andam chorando contos de viúvas
Sob estes céus.

Os fios de lágrimas pelos ares
São fios de pérolas em colares.

Gases de névoa brumando os mares...
Névoa, Saudade que s’evapora...

Chove nest’alma, como lá fora.

Dias de cinzas do meu inverno,
Dias agrestes;
Todas as árvores são ciprestes,
E o dia d’hoje é um dia eterno.

Que chuva parda! que gente triste!
Neste crepúsculo ao meio-dia,
Ando pensando na nostalgia
Dalguma terra que não existe...

(Palavras que o Vento leva..., págs. 55-56.)

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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 1, (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 2ª edição, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; Adalberto Guerra-Duval (1872 1947), gaúcho de Porto Alegre, graduado em Direito por São Paulo, seguiu carreira diplomática, foi poeta e secretário do semanário Rua do Ouvidor, de duração efêmera; Guerra-Duval não só é considerado “o introdutor do verso livre na poesia brasileira, mas também um virtuoso da métrica, que usou versos longos e curtos segundo técnicas diversas e com igual perícia”; como diplomata, serviu em capitais da Europa (Roma, Londres, Haia, Berlim, Lisboa) e da América Latina (Assunção e Buenos Aires), aposentando-se como embaixador em Roma; escreveu e publicou Palavras que o Vento Leva... (Oficinas de Ad. Mertens, Bruxelas, 1900), além de textos dispersos, quase sempre poesias, em gazetas e revistas da época; restaram inéditos, um volume de versos, e dois de prosa: Conceito Moral do Esporte e Cifra, coletânea de recordações de sua vida literária e diplomática; faleceu em Petrópolis.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Guerra Duval: Porque o meu braço é encordoado em músculos . . . [soneto]

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Porque o meu braço é encordoado em músculos
E pareço talhado para a lida,
Ninguém crê nos meus íntimos crepúsculos. . .
 Vocês não sabem que eu nasci suicida?

E levantei-me cedo e fui viajar. . .
Por mais que andasse não saí do mundo,
Por mais que andasse, ia comigo, a andar,
A sombra de um desgosto vagamundo.

E para que viajar? O esforço é inútil.
A desventura é a túnica inconsútil.
A carne é dolorosa, a carne é triste.

Uma viagem só, para o Nirvana,
Que nesta longa travessia humana
Vi o avesso de tudo quanto existe!

(Reconstituído de memória por Corintho da Fonseca,
 que mencionava a publicação em Rua do Ouvidor.) *



* Anotação de Andrade Muricy
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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 1, por Andrade Muricy, (Coleção de Literatura Brasileira 12), 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; Adalberto Guerra-Duval (1872 1947), gaúcho de Porto Alegre, graduado em Direito por São Paulo, seguiu carreira diplomática, foi poeta e secretário do semanário Rua do Ouvidor, de duração efêmera; Guerra-Duval não só é considerado “o introdutor do verso livre na poesia brasileira, mas também um virtuoso da métrica, que usou versos longos e curtos segundo técnicas diversas e com igual perícia”; como diplomata, serviu em capitais da Europa (Roma, Londres, Haia, Berlim, Lisboa) e da América Latina (Assunção e Buenos Aires), aposentando-se como embaixador em Roma; escreveu e publicou Palavras que o Vento Leva... (Oficinas de Ad. Mertens, Bruxelas, 1900), além de textos dispersos, quase sempre poesias, em gazetas e revistas da época; restaram inéditos, um volume de versos, e dois de prosa: Conceito Moral do Esporte e Cifra, coletânea de recordações de sua vida literária e diplomática; faleceu em Petrópolis.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Guerra-Duval: Soneto d'outono

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Grandes panos grisalhos... Folhas mortas
nos esqueletos d'árvores d'outono...
A Morte e o Frio andam batendo às portas,
e o Vento ulula como um cão sem dono.

(Pelos outonos, minha Primavera,
padeço as agonias ambientes,
e há no meu peito alguém que desespera...
Por que há de haver outonos e poentes!)

Nesta paisagem lívida de spleen
a Alegria expirou dentro de mim;
e o Sol, o loiro Sol do meu país!

Morreu de tédio pelo outono gris...
Como a nódoa d'azeite que s'espalma,
a Tristeza manchou toda a minh'alma!

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Nota do Organizador: Durante o simbolismo teve plena aceitação o asserto de Amiel segundo o qual "uma paisagem é um estado de alma".
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Poesia Simbolista, Antologia  — Introdução, Seleção e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1965, Edições Melhoramentos, São Paulo — SP; Adalberto Guerra-Duval (1872 1947), gaúcho de Porto Alegre, graduado em Direito por São Paulo, seguiu carreira diplomática e foi poeta; Guerra-Duval não só é considerado “o introdutor do verso livre na poesia brasileira, mas também um virtuoso da métrica, que usou versos longos e curtos segundo técnicas diversas e com igual perícia”; como diplomata, serviu em capitais da Europa (Roma, Londres, Haia, Berlim, Lisboa) e da América Latina (Assunção e Buenos Aires), aposentando-se como embaixador em Roma; escreveu e publicou Palavras que o Vento Leva... (Oficinas de Ad. Mertens, Bruxelas, 1900). Faleceu em Petrópolis.