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sábado, 14 de janeiro de 2023

Camilo Pessanha: Poema Final

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Ó cores virtuais que jazeis subterrâneas,
Fulgurações azuis, vermelhos de hemoptise,
Represados clarões, cromáticas vesânias ,
No limbo onde esperais a luz que vos batize,
 
As pálpebras cerrai, ansiosas não veleis.
 
Abortos que pendeis as frontes cor de cidra,
Tão graves de cismar, nos bocais dos museus,
E escutando o correr da água na clepsidra,
Vagamente sorris, resignados e ateus,
 
Cessai de cogitar, o abismo não sondeis.
 
Gemebundo arrulhar dos sonhos não sonhados,
Que toda a noite errais, doces almas penando,
E as asas lacerais na aresta dos telhados,
E no vento expirais em um queixume brando,
 
Adormecei. Não suspireis. Não respireis.
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Poesia Simbolista — Literatura Portuguesa [vários poetas], Seleção, Introdução, Traços Biobibliográficos e Notas de Álvaro Cardoso Gomes, 1986, Global Editora, São Paulo — SP; Camilo de Almeida Pessanha (1867 1926), português coimbrão, formado em Direito pela Universidade de Coimbra, ingressou na magistratura, foi professor de Filosofia e poeta; ao longo do seu período acadêmico publicou poemas (o primeiro, 'Lúbrica', datado de 1895) em revistas e jornais como A Crítica, de Coimbra, Novo Tempo, periódico de Mangualde, e A Gazeta, de Coimbra; devido seu ofício de magistrado viveu em diversas regiões de Portugal; em 1894 partiu para Macau após ter sido aprovado em concurso e nomeado professor de Filosofia no recém criado Liceu de Macau; pelas mãos da escritora Ana de Castro Osório e a partir de autógrafos recolhidos e recortes de jornais, publicou-se em vida apenas uma obra do poeta, Clepsidra (1920), várias vezes reeditada; foi desse modo que os versos de Pessanha, considerado um dos poetas mais importantes do Simbolismo português, se salvaram do esquecimento.

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

Camilo Pessanha: Lúbrica

 
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Quando a vejo, de tarde, na alameda,
Arrastando, com ar de antiga fada,
Pela rama da murta despontada,
A saia transparente de alva seda,

E medito no gozo que promete
A sua boca fresca, pequenina,
E o seio mergulhado em renda fina,
Sob a curva ligeira do corpete;

Pela mente me passa, em nuvem densa,
Um tropel infinito de desejos:
Quero, às vezes, sorvê-la, em grandes beijos,
Da luxúria febril na chama intensa...

Desejo, num transporte de gigante,
Estreitá-la de rijo entre meus braços,
Até quase esmagar nesses abraços
A sua carne branca e palpitante;

Como, da Ásia nos bosques tropicais,
Apertam, em espiral auri-luzente,
Os músculos hercúleos da serpente,
Aos troncos das palmeiras colossais.

Mas, depois, quando o peso do cansaço
A sepulta na morna letargia,
Dormitando, repousa todo o dia,
À sombra da palmeira, o corpo lasso.

Assim, quisera eu, exausto, quando,
No delírio da gula todo absorto,
Me prostrasse, embriagado, semimorto,
O vapor do prazer em sono brando;

Entrever, sobre fundo esvaecido,
Dos fantasmas da febre o incerto mar,
Mas sempre sob o azul do seu olhar,
Aspirando o frescor do seu vestido,

Como os ébrios chineses, delirantes,
Respiram, a dormir, o fumo quieto,
Que o seu longo cachimbo predileto
No ambiente espalhava pouco antes...

Se me lembra, porém, que essa doçura,
Efeito da inocência em que anda envolta,
Me foge, como um sonho, ou nuvem solta,
Ao ferir-lhe um só beijo a face pura;

Que há de dissipar-se no momento
Em que eu tentar correr para abraçá-la,
Miragem inconstante, que resvala
No horizonte do louco pensamento;

Quero admirá-la, então, tranqüilamente,
Em feliz apatia, de olhos fitos,
Como admiro o matiz dos passaritos,
Temendo que o ruído os afugente;

Para assim conservar-lhe a graça imensa,
E ver outros mordidos por desejos
De sorver sua carne, em grandes beijos,
Da luxúria febril na chama intensa...

Mas não posso contar: nada há que exceda
A nuvem de desejos que me esmaga,
Quando a vejo, da tarde à sombra vaga,
Passeando sozinha na alameda...

(1895)

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Poesia Simbolista — Literatura Portuguesa [vários poetas], Seleção, Introdução, Traços biográficos e Notas de Álvaro Cardoso Gomes, 1986, Global Editora, São Paulo — SP; Camilo de Almeida Pessanha (1867 1926), português coimbrão, formado em Direito pela Universidade de Coimbra, ingressou na magistratura, foi professor de Filosofia e poeta; ao longo do seu período acadêmico publicou poemas (o primeiro, 'Lúbrica', datado de 1895) em revistas e jornais como A Crítica, de Coimbra, Novo Tempo, periódico de Mangualde, e A Gazeta, de Coimbra; devido seu ofício de magistrado viveu em diversas regiões de Portugal; em 1894 partiu para Macau após ter sido aprovado em concurso e nomeado professor de Filosofia no recém criado Liceu de Macau; pelas mãos da escritora Ana de Castro Osório e a partir de autógrafos recolhidos e recortes de jornais, publicou-se em vida apenas uma obra do poeta, Clepsidra (1920), várias vezes reeditada; foi desse modo que os versos de Pessanha, considerado um dos poetas mais importantes do Simbolismo português, se salvaram do esquecimento.

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

António Nobre: Da influência da Lua

 
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Outono. O sol, qual brigue em chamas, morre
Nos longes de água... Ó tardes de novena!
Tardes de sonho em que a poesia escorre
E os bardos, a cismar, molham a pena!

Ao longe, os rios de águas prateadas,
Por entre os verdes canaviais, esguios,
São como estradas líquidas, e as estradas,
Ao luar, parecem verdadeiros rios!

Os choupos nus, tremendo, arripiadinhos,
O xale pedem a quem vai passando...
E os seus leitos nupciais, os ninhos,
As lavandiscas noivas piando, piando!

O orvalho cai do céu, como unguento.
Abrem as bocas, aparando-os, os goivos;
E a laranjeira, aos repelões do Vento,
Deixa cair por terra a flor dos noivos.

E o orvalho cai... E, à falta de água, rega
O vale sem fruto, a terra árida e nua!
E o Padre-Oceano, lá de longe, prega
O seu sermão de Lágrimas, à Lua!

A Lua! Ela não tarda aí, espera!
O mágico poder que ela possui!
Sobre as sementes, sobre o Oceano impera,
Sobre as mulheres grávidas influi...

Ai os meus nervos, quando a Lua é cheia!
Da Arte, novas concepções descubro,
Todo me aflijo, fazem lá ideia!
Ai a ascensão da Lua, pelo Outubro!

Tardes de Outubro! Ó tardes de novena!
Outono! Mês de Maio, na lareira!
Tardes...
             Lá vem a Lua, gratiae plena,

Do convento dos céus, a eterna freira!

Porto, 1886

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Poesia Simbolista — Literatura Portuguesa [vários poetas], Seleção, Introdução, Traços Biográficos e Notas de Álvaro Cardoso Gomes, 1986, Global Editora, São Paulo — SP; António Pereira Nobre (1867 1900), português do Porto, licenciado em Ciências Políticas pela École Libre des Sciences Politiques, de Paris, foi poeta decadentista e simbolista; colaborou com suas poesias nas revistas A Mocidade de Hoje e Boémia Nova, além de nos periódicos Branco e Negro, A Imprensa, A Leitura e Revista de turismo; suas obras: (1892), sua única obra poética editada em vida e que consta constituir-se num dos marcos da poesia portuguesa do século XIX, postumamente publicaram-se Despedida e Primeiros Versos, com alguns inéditos reunidos.

terça-feira, 30 de agosto de 2022

Camilo Pessanha: Água morrente

 
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Il pleure dans mon coeur
Comme Il pleut sur la ville.
Verlaine

Meus olhos apagados,
Vede a água cair.
Das beiras dos telhados,
Cair, sempre cair.

Das beiras dos telhados,
Cair, quase morrer...
Meus olhos apagados,
E cansados de ver.

Meus olhos, afogai-vos
Na vã tristeza ambiente.
Caí e derramai-vos
Como a água morrente.

Porque o melhor, enfim,
É não ouvir nem ver...
Passarem sobre mim
E nada me doer!

 Sorrindo interiormente,
Co'as pálpebras cerradas,
As águas da torrente
Já tão longe passadas. 

Rixas, tumultos, lutas,
Não me fazerem dano...
Alheio às vãs labutas,
Às estações do ano.

Passar o estio, o outono,
A poda, a cava, e a redra,
E eu dormindo um sono
Debaixo duma pedra.

Melhor até se o acaso
O leito me reserva
No prado extenso e raso
Apenas sob a erva

Que Abril copioso ensope...
E, esvelto, a intervalos
Fustigue-me o galope
De bandos de cavalos.

Ou no serrano mato,
A brigas tão propício,
Onde o viver ingrato
Dispõe ao sacrifício

Das vidas, mortes duras
Ruam pelas quebradas,
Com choques de armaduras
E tinidos de espadas...

Ou sob o piso, até,
Infame e vil da rua,
Onde a torva ralé
Irrompe, tumultua,

Se estorce, vocifera,
Selvagem nos conflitos,
Com ímpetos de fera
Nos olhos, saltos, gritos...

Roubos, assassinatos!
Horas jamais tranqüilas,
Em brutos pugilatos
Fraturam-se as maxilas...

E eu sob a terra firme,
Compacta, recalcada,
Muito quietinho. A rir-me
De não me doer nada.

Clepsidra — 1920

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Poesia Simbolista — Literatura Portuguesa [vários poetas], Seleção, Introdução, Notas e Traços Biográficos de Álvaro Cardoso Gomes, 1986, Global Editora, São Paulo — SP; Camilo de Almeida Pessanha (1867 1926), português coimbrão, formado em Direito pela Universidade de Coimbra, ingressou na magistratura, foi professor de Filosofia e poeta; ao longo do seu período acadêmico publicou poemas (o primeiro, 'Lúbrica', datado de 1895) em revistas e jornais como A Crítica, de Coimbra, Novo Tempo, periódico de Mangualde, e A Gazeta, de Coimbra; devido seu ofício de magistrado viveu em diversas regiões de Portugal; em 1894 partiu para Macau após ter sido aprovado em concurso e nomeado professor de Filosofia no recém criado Liceu de Macau; pelas mãos da escritora Ana de Castro Osório e a partir de autógrafos recolhidos e recortes de jornais, publicou-se em vida apenas uma obra do poeta, Clepsidra (1920), várias vezes reeditada; foi desse modo que os versos de Pessanha, considerado um dos poetas mais importantes do Simbolismo português, se salvaram do esquecimento.

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

Eugênio de Castro: Um cacto no pólo

 
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V

          Julguei que se tinha levantado um obelisco místico no meio da praça; e que o obelisco dava uma sombra azul; e que tinham acendido um fogão no quarto úmido; e que tinham dado alta ao doente.
          Julguei que nascia o sol à meia-noite; e que uma boca muda me falava; e que esfolhavam lírios sobre o meu peito; e que havia uma novena ao pé do jardim de Aclimação.
          Uma boca muda me falou; mas o obelisco, de tênue que era, não deu sombra; e o fogão não aqueceu o quarto úmido; e o doente teve uma recaída.
          E o clown entrou, folião, na Igreja; e fez jogos malabares com os cibórios e os turíbulos; e tornou a nevar; e, após os brancos etésios, soprou o mistral forte.
          E na alcova branca entrou a Dama expulsa, cujo corpo é de âmbar e cera e todo recendente de um matrimónio aromal de mirra e valeriana, a Dama dos flexuosos e vertiginosos dedos rosados.
          E seus cabelos de czarina eram claros como a estopa e finos como as teias de aranha; e seu ventre alvo, de estéril, era todo azul, todo azul de tatuagens.
          E a Educanda fugiu do Recolhimento; e com a Dama expulsa passei a noite em branco; e a noite foi toda escarlate.
          E no dia seguinte, em vez dos sacros livros, que de ordinário me deleitam, li Schopenhauer, e achei Arthur Schopenhauer setecentas vezes superior a todos os Doutores da Igreja.

Horas  1891

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Poesia Simbolista — Literatura Portuguesa [vários poetas], Seleção, Introdução, Notas e Traços Biográficos de Álvaro Cardoso Gomes, 1986, Global Editora, São Paulo — SP; Eugênio de Castro e Almeida (1869 1944), português coimbrense, fez o curso de Letras em Lisboa, foi pedagogo na Escola Normal Superior da Universidade de Coimbra, onde também exerceu o cargo de Secretário e lecionou Letras; escritor e poeta, ainda estudante publicou livros de poesia; já formado, em viagem para Paris tomou contato com as novidades do Simbolismo e, de volta a Lisboa, foi um dos fundadores da revista Os Insubmissos (1889), colaborou com a revista Boêmia Nova, ambas divulgadoras do Simbolismo Francês; em 1890 publicou sua obra Oaristos, a qual, por seu prefácio revolucionário, é considerada um marco do Simbolismo Lusitano; o poeta dirigiu a Arte (1895 a 1897), mais importante revista literária portuguesa da época; obras: Oaristos (1890), Horas (1891), Silva, Interlúnio, Belkiss (todos em 1894), Tirésias, Sagramor (1895), Salomé e Outros Poemas (1896), O Rei Galaor (1897), O Anel de Polícrates (1907), A Caixinha das Cem Contas (1923), Descendo a Encosta (1924), Chamas de uma Candeia Velha (1925) etc; atualmente, Eugênio de Castro é conhecido pelos prefácios de Oaristos e Horas, introdutores do movimento simbolista em terras lusitanas.

terça-feira, 2 de agosto de 2022

Camilo Pessanha: Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho, . . . [soneto]

 
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Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho,
Onde esperei morrer, meus tão castos lençóis?
Do meu jardim exíguo os altos girassóis
Quem foi que os arrancou e lançou no caminho?

Quem quebrou (que furor cruel e simiesco!)
A mesa de eu cear, tábua tosca, de pinho?
E me espalhou a lenha? E me entornou o vinho?
Da minha vinha o vinho acidulado e fresco...

Ó minha pobre mãe!... Não te ergas mais da cova.
Olha a noite, olha o vento. Em ruína a casa nova...
Dos meus ossos o lume a extinguir-se breve.

Não venhas mais ao lar. Não vagabundes mais.
Alma da minha mãe... Não andes mais à neve,
De noite a mendigar às portas dos casais.

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Poesia Simbolista — Literatura Portuguesa [vários poetas], Seleção, Introdução, Notas e Traços Biográficos de Álvaro Cardoso Gomes, 1986, Global Editora, São Paulo — SP; Camilo de Almeida Pessanha (1867 1926), português coimbrão, formado em Direito pela Universidade de Coimbra, ingressou na magistratura, foi professor de Filosofia e poeta; ao longo do seu período acadêmico publicou poemas (o primeiro, 'Lúbrica', datado de 1895) em revistas e jornais como A Crítica, de Coimbra, Novo Tempo, periódico de Mangualde, e A Gazeta, de Coimbra; devido seu ofício de magistrado viveu em diversas regiões de Portugal; em 1894 partiu para Macau após ter sido aprovado em concurso e nomeado professor de Filosofia no recém criado Liceu de Macau; pelas mãos da escritora Ana de Castro Osório e a partir de autógrafos recolhidos e recortes de jornais, publicou-se em vida apenas uma obra do poeta, Clepsidra (1920), várias vezes reeditada; foi desse modo que os versos de Pessanha, considerado um dos poetas mais importantes do Simbolismo português, se salvaram do esquecimento.

sexta-feira, 29 de julho de 2022

António Nobre: Ó Virgens que passais, ao Sol-poente, . . . [soneto]

 
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Ó virgens que passais, ao Sol-poente,
Pelas estradas ermas, a cantar!
Eu quero ouvir uma canção ardente,
Que me transporte ao meu perdido Lar.

Cantai-me, nessa voz onipotente,
O Sol que tomba, aureolando o Mar,
A fartura da seara reluzente,
O vinho, a Graça, a formosura, o luar!

Cantai! cantai as límpidas cantigas!
Das ruínas do meu Lar desaterrai
Todas aquelas ilusões antigas

Que eu vi morrer num sonho, como um ai...
Ó suaves e frescas raparigas,
Adormecei-me nessa voz... Cantai!

Porto, 1886

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Poesia Simbolista — Literatura Portuguesa [vários poetas], Seleção, Introdução, Traços Biográficos e Notas de Álvaro Cardoso Gomes, 1986, Global Editora, São Paulo — SP; António Pereira Nobre (1867 1900), português do Porto, licenciado em Ciências Políticas pela École Libre des Sciences Politiques, de Paris, foi poeta decadentista e simbolista; colaborou com suas poesias nas revistas A Mocidade de Hoje e Boémia Nova, além de nos periódicos Branco e Negro, A Imprensa, A Leitura e Revista de turismo; obras: (1892), sua única obra poética editada em vida e que consta constituir-se num dos marcos da poesia portuguesa do século XIX, postumamente publicaram-se Despedida e Primeiros Versos, com alguns inéditos reunidos.

quinta-feira, 21 de julho de 2022

Eugênio de Castro: Tua frieza aumenta o meu desejo: . . . [soneto]

 
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VIII

Un autre, plus heureus, va unir son
sort à celui de mon amie. Mais
quoi-qu’elle trompe ainsi mes
plus chéres esperances, dois-je la
moins aimer?
Mackensie

Tua frieza aumenta o meu desejo:
Fecho os meus olhos para te esquecer,
Mas quanto mais procuro não te ver,
Quanto mais fecho os olhos mais te vejo.

Humildemente, atrás de ti rastejo,
Humildemente, sem te convencer,
Antes sentindo para mim crescer
Dos teus desdéns o frígido cortejo.

Sei que jamais hei de possuir-te, sei
Que outro, feliz, ditoso como um rei
Enlaçará teu virgem corpo em flor.

Meu coração no entanto não se cansa:
Amam metade os que amam com espr'ança,
Amar sem espr'ança é o verdadeiro amor.

Paris, 29 de setembro de 1889.

Oaristos — 1890

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Poesia Simbolista — Literatura Portuguesa [vários poetas], Seleção, Introdução, Traços Biográficos e Notas de Álvaro Cardoso Gomes, 1986, Global Editora, São Paulo — SP; Eugênio de Castro e Almeida (1869 1944), português coimbrense, fez o curso de Letras em Lisboa, foi pedagogo na Escola Normal Superior da Universidade de Coimbra, onde também exerceu o cargo de Secretário e lecionou Letras; escritor e poeta, ainda estudante publicou livros de poesia; já formado, em viagem para Paris tomou contato com as novidades do Simbolismo e, de volta a Lisboa, foi um dos fundadores da revista Os Insubmissos (1889), colaborou com a revista Boêmia Nova, ambas divulgadoras do Simbolismo Francês; em 1890 publicou sua obra Oaristos, a qual, por seu prefácio revolucionário, é considerada um marco do Simbolismo Lusitano; o poeta dirigiu a Arte (1895 a 1897), mais importante revista literária portuguesa da época; obras: Oaristos (1890), Horas (1891), Silva, Interlúnio, Belkiss (todos em 1894), Tirésias, Sagramor (1895), Salomé e Outros Poemas (1896), O Rei Galaor (1897), O Anel de Polícrates (1907), A Caixinha das Cem Contas (1923), Descendo a Encosta (1924), Chamas de uma Candeia Velha (1925) etc; atualmente, Eugênio de Castro é conhecido pelos prefácios de Oaristos e Horas, introdutores do movimento simbolista em terras lusitanas.

sábado, 9 de julho de 2022

Camilo Pessanha: Paisagens de inverno

 
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I

Ó meu coração, torna para trás.
Onde vais a correr, desatinado?
Meus olhos incendidos que o pecado
Queimou, o sol! Voltai, noites de paz.

Vergam da neve os olmos dos caminhos.
A cinza arrefeceu sobre o brasido.
Noites da serra, o casebre transido...
Ó meus olhos, cismai como os velhinhos.

Extintas primaveras evocai-as:
Já vai florir o pomar das macieiras,
Hemos de enfeitar os chapéus de maias.

Sossegai, esfriai, olhos febris.
E hemos de ir cantar nas derradeiras
Ladainhas... Doces vozes senis...

II

Passou o Outono já, já torna o frio...
Outono de seu riso magoado.
Álgido Inverno! Oblíquo o sol, gelado...
O sol, e as águas límpidas do rio.

Águas claras do rio! Águas do rio,
Fugindo sob o meu olhar cansado,
Para onde me levais meu vão cuidado?
Aonde vais, meu coração vazio?

Ficai, cabelos dela, flutuando,
E, debaixo das águas fugidias,
Os seus olhos abertos e cismando...

Onde ides a correr, melancolias?
E, refratadas, longamente ondeando,
As suas mãos translúcidas e frias...

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Poesia Simbolista — Literatura Portuguesa [vários poetas], Seleção, Introdução, Traços Biográficos e Notas de Álvaro Cardoso Gomes, 1986, Global Editora, São Paulo — SP; Camilo de Almeida Pessanha (1867 1926), português coimbrão, formado em Direito pela Universidade de Coimbra, ingressou na magistratura, foi professor de Filosofia e poeta; ao longo do seu período acadêmico publicou poemas (o primeiro, 'Lúbrica', datado de 1895) em revistas e jornais como A Crítica, de Coimbra, Novo Tempo, periódico de Mangualde, e A Gazeta, de Coimbra; devido seu ofício de magistrado viveu em diversas regiões de Portugal; em 1894 partiu para Macau após ter sido aprovado em concurso e nomeado professor de Filosofia no recém criado Liceu de Macau; pelas mãos da escritora Ana de Castro Osório e a partir de autógrafos recolhidos e recortes de jornais, publicou-se em vida apenas uma obra do poeta, Clepsidra (1920), várias vezes reeditada; foi desse modo que os versos de Pessanha, considerado um dos poetas mais importantes do Simbolismo português, se salvaram do esquecimento.

terça-feira, 5 de julho de 2022

Eugênio de Castro: Em verso vou cantar o meu Diamante preto! . . .

 
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II

Em verso vou cantar o meu Diamante preto!

Do mais grácil, estranho e bizantino aspecto,
Flexível corno um junco e esbelto como um fuso,
Seu núbil corpo tem, num dualismo confuso,
A finura do lírio e o garbo das serpentes;
Soberba e esguia, com seus passos indolentes,
Quando caminha. lembra uma túlipa a andar;
Lenta e sutil, parece até que vai no ar,
Como um caule de flor, levada pela aragem;
Basta vê-la uma vez para que a sua imagem
Leve, tão leve como os perfumes e o som,
Fique vibrando em nós, eternamente, com
A doçura sem par duma voz que se extingue...

Franzino e original, o seu corpo é um moringue
Em cujo colo estreito alguém tivesse posto
Um moreno botão de rosa-chã,  seu rosto,
Grácil botão que exala uma essência secreta,
Botão onde pousou noturna borboleta
Com asas negras, muito negras,  seus bandós.
Sua desfalecida e liquescente voz,
Dorida como um ai e lassa como um canto,
Sua lânguida voz, maravilhoso encanto,
De que Ela tem o amavioso monopólio,
É um fio de veludo, um suavíssimo óleo:
Suave, a sua voz suave se derrama...

Seu hálito infantil endoidece e embalsama,
Subtil como o ananás, forte como um veneno.

Seu pescoço sem par é um cortiço moreno,
Que os meus desejos vão circundando em colmeia.

Tem música no andar, quando à tarde passeia
Do seu alto balcão nos marmóreos losangos.

A sua boca é um sorvete de morangos.

Seu magro busto oval brilha, como um santelmo,
Sob o seu penteado, esse ebânico elmo
Pesado e nocturnal, com reflexos azuis.

Seu gesto excede em graça as larvas dos pauis,
Que em curvos voos vão voando à flor dos pântanos.

Tem as unhas de opala; o seu riso quebranta-nos;
Vibrante de coral, seus cílios são de seda;
Seu capitoso olhar é um vinho que embebeda;
Seus negros olhos são duas amoras negras!

Original, detesta as convenções e as regras;
Ama o luxo, o requinte e a excentricidade,
Faz tudo o que lhe apraz, impõe sua vontade,
Diz o que sente, sem lisonja, sem disfarce.

Cousa que muito poucos têm, sabe domar-se:
Como é medrosa, a fim de ver se perde o medo,
Às quietas horas do Mistério e do Segredo,
Percorre longos, funerários corredores,
Onde pairam, chorando as suas fundas dores,
Fantasmas glaciais, errantes e protervos!
Nervosa, com o fim de subjugar seus nervos,
Corta as unhas em bico, à guisa de punhais:

 Chega mesmo a morder pedaços de veludo!

Detesta o movimento, as expansões e tudo
O que possa alterar o seu viver inerte;
Não costuma sair; sonha; não se diverte;
Seus raros gestos são cheios de bizarria,
Finos, excepcionais, sem par. Pedi-lhe um dia
Que me dissesse qual é o sonho singular,
O sonho que Ela mais quisera realizar,
Aquilo que Ela mais desejaria ter,
Ao que Ela respondeu:  «Desejaria viver
«No pólo norte, numa estufa de cristal!»

Odeia a luz: ama a penumbra vesperal...
Odeia o piano: adora o som lento do órgão...
E suas finas mãos que bem raro me outorgam
A permissão de as oscular, suas mãos finas,
As suas mãos arquiducais, longas, divinas,
Não sustiveram nunca o peso duma agulha.

Ama os perfumes e as visões; odeia a bulha;
Seu corpo estonteante e lânguido que exala
Doces e sensuais aromas de Sofala,
Do Cairo, do Japão, do Iêmen e da Pérsia,
Seu corpo sensual foi feito para a inércia:
 Até para falar às vezes tem preguiça!

Tal é a fria flor taciturna, insubmissa,
Cujos olhos astrais cortam como estiletes,
Tal é a bem Amada impassível, trigueira,
Cujos olhos astrais  agudos alfinetes,
Ferem meu coração  dorida pregadeira!

Coimbra, 15 de novembro de 1889.

Oaristos — 1890

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Poesia Simbolista — Literatura Portuguesa [vários poetas], Seleção, Introdução, Traços Biográficos e Notas de Álvaro Cardoso Gomes, 1986, Global Editora, São Paulo — SP; Eugênio de Castro e Almeida (1869 1944), português coimbrense, fez o curso de Letras em Lisboa, foi pedagogo na Escola Normal Superior da Universidade de Coimbra, onde também exerceu o cargo de Secretário e lecionou Letras; escritor e poeta, ainda estudante publicou livros de poesia; já formado, em viagem para Paris tomou contato com as novidades do Simbolismo e, de volta a Lisboa, foi um dos fundadores da revista Os Insubmissos (1889), colaborou com a revista Boêmia Nova, ambas divulgadoras do Simbolismo Francês; em 1890 publicou sua obra Oaristos, a qual, por seu prefácio revolucionário, é considerada um marco do Simbolismo Lusitano; o poeta dirigiu a Arte (1895 a 1897), mais importante revista literária portuguesa da época; obras: Oaristos (1890), Horas (1891), Silva, Interlúnio, Belkiss (todos em 1894), Tirésias, Sagramor (1895), Salomé e Outros Poemas (1896), O Rei Galaor (1897), O Anel de Polícrates (1907), A Caixinha das Cem Contas (1923), Descendo a Encosta (1924), Chamas de uma Candeia Velha (1925) etc; atualmente, Eugênio de Castro é conhecido pelos prefácios de Oaristos e Horas, introdutores do movimento simbolista em terras lusitanas.

sábado, 2 de julho de 2022

António Nobre: Enterro de Ofélia

 
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Morreu. Vai a dormir, vai a sonhar... Deixá-la!
(Falai baixinho: agora mesmo se ficou...)
Como Padres orando, os choupos formam ala,
Nas margens do ribeiro onde ela se afogou.

Toda de branco vai, nesse hábito de opala,
Para um convento: não o que Hamlet lhe indicou,
Mas para um outro, olhai! que tem por nome Vala,
De onde jamais saiu quem, lá, uma vez entrou!

O doce Pôr-do-Sol, que era doido por ela,
Que a perseguia sempre, em palácio e na rua,
Vede-o, coitado! mal pode suster a vela...

Como damas de honor, Ninfas seguem-lhe os rastros,
E, assomando no Céu, sua Madrinha, a Lua,
Por ela vai desfiando as suas contas, Astros!

Leça, 1888

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Poesia Simbolista — Literatura Portuguesa [vários poetas], Seleção, Introdução, Traços Biográficos e Notas de Álvaro Cardoso Gomes, 1986, Global Editora, São Paulo — SP; António Pereira Nobre (1867 1900), português do Porto, licenciado em Ciências Políticas pela École Libre des Sciences Politiques, de Paris, foi poeta decadentista e simbolista; colaborou com suas poesias nas revistas A Mocidade de Hoje e Boémia Nova, além de nos periódicos Branco e Negro, A Imprensa, A Leitura e Revista de turismo; obras: (1892), sua única obra poética editada em vida e que consta constituir-se num dos marcos da poesia portuguesa do século XIX, postumamente publicaram-se Despedida e Primeiros Versos, com alguns inéditos reunidos.