quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Adrienne Rich: Que tempos são estes

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[traduzido por Marcelo Lotufo]

Há um lugar entre duas fileiras de árvores onde a grama cresce colina
acima
e a velha estrada revolucionária acaba em sombras
perto da assembleia abandonada pelos perseguidos
que desapareceram nessas sombras.

Caminhei por lá colhendo cogumelos no limite do temor; mas não se
deixe enganar
este não é um poema russo, isto não é em algum outro lugar, mas
aqui;
nosso país aproximando-se da sua própria verdade e temor,
da sua própria maneira de fazer pessoas desaparecerem.

Eu não vou dizer onde fica este lugar, a trama escura da floresta
encontrando o feixe de luz não assinalado
encruzilhadas possuídas por fantasmas, paraíso em decomposição:
eu já sei quem quer comprá-lo, vendê-lo, fazer com que desapareça.

E eu não lhe direi onde fica; então por que eu lhe conto essa e outras
coisas? Porque você ainda me escuta, porque em tempos como estes
para você me escutar ao menos um pouco, é preciso
falar das árvores.

1991

Adrienne Rich

What Kind of Times Are These

There's a place between two stands of trees where the grass grows
uphill
and the old revolutionary road breaks off into shadows
near a meeting-house abandoned by the persecuted
who disappeared into those shadows.

I've walked there picking mushrooms at the edge of dread, but don't be
fooled,
this isn't a Russian poem, this is not somewhere else but here,
our country moving closer to its own truth and dread,
its own ways of making people disappear.

I won't tell you where the place is, the dark mesh of the woods
meeting the unmarked strip of light
ghost-ridden crossroads, leafmold paradise:
I know already who wants to buy it, sell it, make it disappear.

And I won't tell you where it is, so why do I tell you
anything? Because you still listen, because in times like these
to have you listen at all, it's necessary
to talk about trees.

1991

(Dark Fields of the Republic: Poems, 1991-1995, 1995)
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Que tempos são estes e outros poemas edição bilíngue: Adrienne Rich, Organização e Tradução de Marcelo Lotufo, 2018, Edições Jabuticaba, São Paulo SP; Adrienne Celine Rich (1929 2012), estadunidense de Baltimore Maryland, estudou no Radcliffe College bacharelou-se em Artes, foi poeta, escritora de não-ficção, ensaísta, feminista e professora; desde a infância, a poeta tomara gosto pela literatura através da biblioteca de seu pai e incentivador nos estudos [leu Ibsen, Arnold, Blake, Keats, Dante Gabriel Rossetti, Tennyson e outros]; a partir de 1966, morando em Nova Iorque, “Rich envolveu-se com a Nova Esquerda e tornou-se profundamente ativa no ativismo contra a guerra [do Vietnã], pelos direitos civis e pelo feminismo.”; como professora, lecionou em muitas instituições: Swarthmore College, Columbia University School of the Arts, City College of New York, Brandeis University, Stanford University e várias outras; suas obras: A Change of World (poesias, Uma Mudança de Mundo, 1951), The Diamond Cutters, and Other Poems (Os Lapidadores de Diamantes e Outros Poemas, 1955), Snapshots of a daughter in-law: poems, 1954-1962 (Instantâneos de uma nora: poemas, 1954-1962, 1963), Necessities of life: poems, 1962-1965 (Necessidades da vida: poemas 1962-1965, 1966), The Will to Change: Poems 1968-1970 (A Vontade de Mudar: Poemas 1968-1970, 1971), Of Woman Born: Motherhood as Experience and Institution (De Mulher Nascida: A Maternidade como Experiência e Instituição, 1976), On Lies, Secrets and Silence Selected Prose, 1966-1978 (Sobre Mentiras, Segredos e Silêncio: prosa selecionada, 1966-1978, 1979), Blood, Bread, and Poetry: Selected Prose, 1979–1985 (Sangue, Pão e Poesia: prosa selecionada, 1979-1985, 1986), What Is Found There: Notebooks on Poetry and Politics (O que se encontra lá: Cadernos sobre poesia e política, 1993), Dark Fields of the Republic: Poems, 1991-1995 (Campos Escuros da República: Poemas, 1991-1995, 1995), Adrienne Rich Collected Poems, 1950-2012 (2016) e muitos outros títulos em verso e prosa; a poeta, ensaísta e ativista do feminismo, que enviuvara no início dos anos 70, em 1976 iniciou sua “parceria homossexual com a romancista e editora jamaicana Michelle Cliff”, que durou até 27 de março de 2012 [data da morte de Adrienne Rich]; premiações e honrarias: Yale Younger Poets Award (Prêmio Yale para Jovens Poetas, pela obra A Change of World, 1950), Lenore Marshall Poetry Prize (Prêmio Lenore Marshall de Poesia, 1992), Wallace Stevens Award (Prêmio Wallace Stevens, 1996) etc.; Rich foi a única pessoa a recusar a National Medal of Arts (Medalha Nacional das Artes, 1997), “a mais alta honraria do governo ‘estadunidense’ para artistas” oferecida a ela pelo então presidente Bill Clinton, com a justificativa de que não podia ser hipócrita e aceitar prêmio oferecido pelos mesmos “poderosos que fazem da arte uma refém do poder e do dinheiro”.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Antero de Quental: Solemnia Verba

 
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Disse ao meu coração: Olha por quantos
Caminhos vãos andamos! Considera
Agora, desta altura, fria e austera,
Os ermos que regaram nossos prantos...

Pó e cinzas, onde houve flor e encantos!
E noite, onde foi luz de primavera!
Olha a teus pés o mundo e desespera,
Semeador de sombras e quebrantos!

Porém o coração, feito valente
Na escola da tortura repetida,
E no uso do pensar tornado crente,

Respondeu: Desta altura vejo o Amor!
Viver não foi em vão, se isto é vida,
Nem foi demais o desengano e a dor.

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Clássicos Jackson, Volume XXXIX — Poesia, 2º. Volume [vários autores e tradutores] — Selecção e Notas de Ary de Mesquita, 1958, W. M. Jackson Editores, Rio de Janeiro — RJ; Antero Tarquínio de Quental (1842 1891), natural de Ponta Delgada, Ilha de São Miguel [Arquipélago dos Açores]  Portugal, formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, foi poeta, escritor e tipógrafo; publicou seus primeiros sonetos em 1861 e, quatro anos após, influenciado pelo socialismo experimental de Pierre J. Proudhon, publicou Odes Modernas, na qual enalteceu a revolução e cuja obra esteve na origem da Questão Coimbrã, polêmica vivida pelo poeta e outros autores da época por instigarem a revolução intelectual; em 1866, indo viver em Lisboa, experimentou a vida de operário ao trabalhar como tipógrafo; foi um dos fundadores do Partido Socialista Português; em 1869, ajudou a fundar o jornal A República; em 1872, participou da edição da revista O Pensamento Social, colaborando igualmente em diversas outras publicações periódicas; escreveu e publicou Sonetos de Antero (1861), Odes Modernas (na origem da polêmica Questão Coimbrã, 1865), Bom Senso e Bom Gosto (opúsculos, 1865), A Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais (também na origem da Questão Coimbrã, 1865), Portugal perante a Revolução da Espanha (1868), Primaveras Românticas (1872), Considerações sobre a Filosofia da História Literária Portuguesa (1872), A Poesia na Actualidade (1881), Sonetos Completos (1886), A Filosofia da Natureza dos Naturistas (1886) entre outros títulos; suicidou-se com dois tiros de revólver, em 11 de setembro de 1891.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

José Régio: Epitáfio para um poeta

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(Os Epitáfios)

As asas não lhe cabem no caixão!
A farpela de luto não condiz
Com seu ar grave, mas, enfim, feliz;
A gravata e o calçado também não.
Ponham-no fora e dispam-lhe a farpela!
Descalcem-lhe os sapatos de verniz!
Não vêem que ele, nu, faz mais figura,
Como uma pedra, ou uma estrela?
Pois atirem-no assim à terra dura,
Ser-lhe-á conforto:
Deixem-no respirar ao menos morto!

(Filho do Homem — 1961)

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; José Régio, pseudônimo de José Maria dos Reis Pereira (1901 1969), português de Vila do Conde, fez seus primeiros estudos no liceu da cidade natal, formado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, foi escritor, poeta, professor, dramaturgo, romancista, contista, ensaísta, memorialista, epistológrafo, historiador de literatura, editor e diretor de revista; ainda jovem, publicou seus primeiros poemas nos jornais vilacondenses A República e O Democrático; em sua trajetória literária colaborou com seus textos nas revistas portuenses Crisálida e A Nossa Revista e nas coimbrãs Bisâncio e Tríptico, além de em outros periódicos “nacionais, ultramarinos, regionais e locais”, revista luso-brasileira Atlântico entre os quais; foi co-fundador da revista Presença, na companhia de João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca; lecionou no Liceu Alexandre Herculano, no Porto, e no Liceu de Portalegre, no qual veio a se aposentar; suas obras: em poesia: Poemas de Deus e do Diabo (1925), Biografia (1929), As Encruzilhadas de Deus (1936), Fado (1941), A Chaga do Lado (1954), Filho do Homem (1961), Cântico Suspenso (1968), ... em prosa: Jogo da Cabra Cega (romance, 1934), O Príncipe com Orelhas de Burro (romance, 1942), A Velha Casa I — Uma gota de sangue (romance, 1945), depois vieram A Velha Casa II, III, IV e V, de 1947 a 1966, Histórias de Mulheres (novelas, 1946), Há Mais Mundos (contos, 1962), Ensaios de Interpretação Crítica (1964), Três Ensaios sobre Arte (1967), ... para teatro: Jacob e o Anjo (1940), Benilde ou a Virgem Maria (1947), El-Rei Sebastião (1949), ... e outros textos, parte deles em edição póstuma, tais como epistolografias e memória; José Régio, além deste seu pseudônimo incorporado em sua biografia, também fez uso dos alterônimos literários João Bensaúde, Pedro Serra e Lelito.

domingo, 28 de dezembro de 2025

Jean Richepin: Tuas palavras


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[traduzido por Álvaro Reis]

Tuas palavras têm melodias divinas,
acordes de cristal, pianíssimo, vibrando!
De olhos cerrados fico, imerso em gozo, quando,
dizendo-me um segredo, o alvo pescoço inclinas...

Então não me inebria o olor das balsaminas
de tua boca é, mais o tom límpido e brando,
que dás a uma palavra, a um simples "sim", falando...
Tuas palavras têm meiguices peregrinas!

Eis, pois, o que me faz dormentes os sentidos;
ouço-te, sem saber o que estás a dizer-me,
qual numa língua estranha e suave aos meus ouvidos!...

E em pleno arrebatar dos êxtases radiosos
sinto invisível mão percorrer-me a epiderme...
Tuas palavras, flor! têm dedos cariciosos...

Jean Richepin

[Tes paroles ont des musiques . . . ]

XX

Tes paroles ont des musiques cristallines.
Rien qu’à les écouter, que de fois j’ai joui!
Je pâme, les yeux clos, et presque évanoui,
Quand, pour me parler bas, dans le cou, tu t’inclines.

Ce n’est pas de ton souffle embaumant les pralines
Que je me grise alors; c’est du ton inouï
Que tu mets dans un mot quelconque, un simple oui.
Ta bouche a des façons de prononcer câlines.

Voilà ce qui me fait tous les sens engourdis.
Je t’écoute, mais sans savoir ce que tu dis,
Comme si tu parlais une langue inconnue;

Je me laisse couler dans l’extase; et je sens
Une invisible main passer sur ma peau nue,
Car tes paroles même ont des doigts caressants.

(Les Caresses [groupement Thermidor] — 1877)
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Auguste-Jules Richepin, ou Jean Richepin (1849 1926), franco-argelino nascido em Medeia Argélia, à época departamento francês no norte da África, diplomou-se em Literatura na École Normale Supérieure, Paris, foi poeta, romancista, dramaturgo, marinheiro, estivador, porteiro, professor ...; frequentador do Quartier Latin a Montmartre, bairros parisienses, sua vida boêmia e marginal acabou por inspirá-lo na criação das primeiras e provocativas poesias, as quais, já na estréia com sua obra La chanson de Gueux (poemas, 1876), tal como o ocorrido com Baudelaire (na publicação de Les Fleurs du Mal), lhe renderam uma condenação à prisão, além do pagamento de 600 francos de multa, pelo fato de alguns dos poemas terem sido considerados ofensivos e terem causado escândalo social; suas obras: coleções de poemas: Chanson des gueux (1876), Les Caresses (groupements: Floréal, Thermidor, Brumaire et Nivôse, 1877), Les Blasphemes (1884), La Mer (1886), Les Litanies de la mer (1894), Mes Paradis (1894), La Bombarde (1899), Poèmes durant la guerre: 1914-1918, (1919), Les Glas (1922) ..., romances: Les Morts bizarres (1876), Madame André (1878), La Glu (1881), Le Pave (1883), Miarka la fille à l'ours (1883), Les braves gens (1886), Césarine (1888) ..., e peças teatrais: Nana Sahib (drame en vers en 7 tableaux, 1883), Le Chemineau (drame en 5 actes, 1897), etc.; o poeta também compôs textos para músicos, colaborou em vários jornais, pertenceu à Académie Française (Academia Francesa); um “viajante incansável”, andejou por Londres, viajou pela Itália, Espanha, Alemanha, Escandinávia, Norte da África, ocasiões em que proferia conferências e redigia artigos para a imprensa parisiense.

sábado, 27 de dezembro de 2025

Saturnino de Meireles: Estrelas

 
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Amo-as assim serenamente frias
Nesse vago crepúsculo sonhado,
Lembrando as formosuras fugidias
Que um outro Dante já tivesse amado.

Amo-as assim tão brancas e erradias,
Como se fossem para o seu noivado,
Cantando então as fundas nostalgias
Que em lírios abrem nosso amor velado.

Estrelas tristes que o silêncio canta
Nas harpas frias desse véu deserto
Que todo em névoas nosso ser quebranta.

Estrelas tristes, pálidas estrelas,
Que eu quisera de mim sentir bem perto
E só na mão poder então contê-las.

(Astros Mortos, pág. 63 a 66, Tipografia
Leuzinger, Rio de Janeiro, 1903.)

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Panorama da Poesia Brasileira, Volume IV — Simbolismo, por Fernando Góes, 1959, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Saturnino Soares de Meireles Filho (1878 1906), nascido no Rio de Janeiro [cidade e estado], foi poeta, ensaísta e ativista do simbolismo; apesar de ter tido apenas um emprego modesto numa companhia de seguros, foi de uma dedicação absoluta a Cruz e Sousa, de quem era amigo e discípulo e a quem reservava a quarta parte de seu parco salário; sobre Saturnino, escreveu Andrade Muricy "Mais do que a sua produção, a sua ação garante-lhe durabilidade à memória."; em seu único livro publicado em vida, Astros Mortos (1903), o poeta Saturnino Meireles fez dedicatória ao paupérrimo poeta negro, chamando-o de "grande mestre e divino amigo"; morto Cruz e Sousa em 19 de março de 1898, pagou-lhe a edição de Evocações [publicada postumamente naquele ano] e contribuiu para a publicação de Faróis [1900]; adquiriu, no Cemitério São Francisco Xavier, o terreno onde se ergueu o mausoléu do amigo e, finalmente, foi um dos fundadores e sustentadores da revista Rosa-Cruz (1901 1904), a qual tinha a finalidade de cultuar a memória de Cruz e Sousa, seu ídolo; sem dúvida, chefe desse grupo, Saturnino acabou por se tornar um dos mais importantes ativistas do movimento simbolista; suas obras: Astros Mortos (sonetos, 1903), Intuições (edição póstuma, prosa: crítica, teoria ou história literária, 1906), e o poeta também deixou inéditos: Kyola [drama teatral], Meus Íntimos [prosa], Estufa Espiritual [poemas], Meu Arquivo [coletânea de artigos publicados em jornais e revistas]; teve textos publicados com o pseudônimo Satur.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Paul Éluard: Domingo à tarde

 
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[traduzido por António Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge}

Enlaçavam-se os domínios arqueados de uma aurora cinzenta, num país cinzento, sem paixão, tímido.

Enlaçavam-se os céus implacáveis, os mares proibidos, as terras estéreis.

Enlaçavam-se os galopes incansáveis de cavalos magros, as ruas onde já não passavam os carros, os cães e os gatos moribundos.

Aureolavam-se de encantadora palidez as mulheres, as crianças de sentidos límpidos.

Aureolavam-se as aparências, os dias infindáveis, dias sem luz, as noites absurdas.

Aureolava-se a esperança de uma neve definitiva, marcando na fronte o ódio.

Adensavam-se os astros, adelgavam-se os lábios, alargavam-se as frontes como mesas inúteis.

Curvavam-se os cumes acessíveis, adoçavam-se os mais insípidos tormentos, comprazia-se a natureza numa única função.

Respondiam-se os mudos, escutavam-se os surdos, olhavam-se os cegos.

Nestes domínios confundidos onde até as lágrimas só se miravam em espelhos lamacentos, neste país eterno que reunia os países futuros, neste país onde o sol ia sacudir as suas cinzas.

Paul Éluard

Dimanche après-midi

S'enlaçaient les domaines voûtés d'une aurore grise dans un pays gris, sans passions, timide,

S'enlaçaient les cieux implacables, les mers interdites, les terres stériles,

S'enlaçaient les galops inlassables de chevaux maigres, les rues où les voitures ne passaient plus, les chiens et les chats mourants,

S'auréolaient de pâleur charmante les femmes, les enfants et les malades aux sens limpides,

S'auréolaient les apparences, les jours sans fin, jours sans lumière, les nuits absurdes,

S'auréolait l'espoir d'une neige définitive, marquant au front la haine,

S'épaississaient les astres, s'amincissaient les lèvres, s'élargissaient les fronts comme des tables inutiles,

Se courbaient les sommets accessibles, s'adoucissaient les plus fades tourments, se plaisait la nature a ne jouer qu'un rôle,

Se répondaient les muets, s'écoutaient les sourds, se regardaient les aveugles

Dans ces domaines confondus où même les larmes n'avaient plus que des miroirs boueux, dans ce pays éternel qui mêlait les pays futurs, dans ce pays où le soleil allait secouer ses cendres.

(Le Livre ouvert — 1940-1942)
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Algumas das Palavras, antologia — Paul Éluard, bilíngue, Organização, Seleção e Prefácio de António Ramos Rosa, Tradução de António Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge, 2ª edição, 1977, Publicações Dom Quixote, Lisboa — Portugal; Paul Éluard (1895 1952), pseudônimo de Eugène Emile Paul Grindel, ou Paul Eugène Grindel, francês de Saint-Denis, subúrbio parisiense, ainda adolescente contraiu tuberculose, teve que interromper seus estudos, foi poeta participante ativo do movimento dadaísta e um dos pilares do surrealismo; em 1914, foi “mobilizado” para a Primeira Guerra Mundial e atuou como enfermeiro militar; o poeta também lutou na segunda grande guerra; desde 1926, ele e a maioria dos surrealistas haviam se filiado ao Partido comunista francês, mas, mesmo Éluard sendo expulso depois, nunca deixou de marcar presença e apoiar revolucionários e revoluções; em 1942, seu poema ‘Une seule pensée(Um único pensamento) foi enviado clandestinamente da França, ocupada pelos nazistas, para a Inglaterra e, ali, após ser traduzido para vários idiomas, foi distribuído como panfleto e lançado por aviões aliados nos céus de uma Europa conflagrada quem contrabandeou o poema de Éluard foi o pintor brasileiro e pernambucano Cícero Dias (1907 2003), que muito posteriormente recebeu condecoração do governo francês pela proeza realizada; Paul Éluard manteve uma convivência intensa com os poetas André Breton e Louis Aragon e os artistas plásticos e pintores Picasso, De Chirico, Salvador Dalí, Magritte, Miró, Man Ray e Chagall, atuantes na vida cultural francesa e europeia da época; suas obras: Premiers poèmes (1913), De devoir et l’inquiétude (1917), Poèmes pour la paix (1918), Les animaux et leurs hommes, les hommes et leurs animaux (1920), Répétitions (1922), L’amoureuse (1923), Mourir de ne pas mourir (1924), Au défaut du silence (1925), La dame de carreau (1926), Capitale de la douleur (1926), L’amour la poésie (1929), À toute épreuve (1930), La vie immédiate (1932), La rose publique (1934), Facile (1935), Les yeux fertiles (1936), Évidence poétique habitude de la poésie (1937), Cours naturel (1938), Le livre ouvert (1940-1942), Poésie et vérité (1942), Au rendez-vous allemand (1942-1945), Le lit la table (1944), Une longue réflexion amoureuse (1945), Le dur désir de durer (1946), Poésie ininterrompue (1946), Corps mémorable (1948), Une leçon de morale (1949), Ode a Staline (1950), Le phénix (1951), Picasso (dessins, 1952), Poésie ininterrompue (1953); teve poemas adaptados e musicados por mais de um compositor; Paul Éluard teve relação conturbada com Gala (Elena Ivanovna Diakonova), jovem russa que havia conhecido em 1913 em um sanatório suíço, que se tornara sua musa, e com quem se casou em 1916; em 1930, Gala o deixou, e se uniu a Salvador Dali; após isso, Eluárd teve outras duas musas: Maria Benz, apelidada de "Nusch", uma artista de music hall de origem alsaciana, que veio a morrer algum tempo depois, e Dominique (Odette Lemort), francesa que havia conhecido em um Congresso da Paz, no México, e com ambas também se casou.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Miroslav Antić: Marcha fúnebre dos clowns [trechos]

 
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[traduzido por Aleksandar Jovanović *]

[III]

Quando eu morrer,
tenho ao menos a certeza:
ninguém há de arrastar-se para cuspir-me na face.

Todos hão de tornar-se amigos de um[a] só vez
e buscarão ainda prestar-me uma homenagem qualquer.

Compreendo-vos perfeitamente:
as pessoas mortas não são malfeitores,
tampouco são nojentas,
ou assassinas.

A morte é absolvição.

A morte é a forma mais adequada de partir,
sem apertos de mão,
sem promessas,
em paz.

A morte é a invalidez para os heróis
de crânios cortados,
e a insônia das cinzas
em que as almas pedem ventos de gramados.

Com a partida lucra-se bastante:
emplacam o nome e sobrenome das pessoas
pelos cantos
em papéis finos,
e todos lêem o vosso nome,
lêem,
como se de uma só vez vos tornásseis exposição de relevo,
concerto
ou pré-estréia de teatro.

[VII]

Quando eu morrer,
sentirei apenas pelos pássaros,
porque o tempo todo fiquei sonhando verões,
e o resto todo não possuía para mim
sentido ou significação extraordinários.

E vós sorris
quando descerem o grande clown na sepultura
e seus mundos compreensíveis
cansados das anedotas da vida.

E que tudo passe sem rezas
e sem patriotismo.
Para as mulheres das ruas a roupa íntima
das vestimentas monásticas!

Não fui ícone,
nem comandante militar,
nem cidadão provincial
cujos filhos o reconhecimento educa.

Os circos
foram o meu amor mais oculto
e o meu patriotismo mais policromado.

E multipliquei-me
quando os outros por mim
e pelo futuro da humanidade caíam mortos.
e morria
quando as guerras vindas da treva
novamente ressuscitam enevoadas.

Miroslav Antić

Posmrtni marš klovnova

III

Kad umrem,
bar sam siguran:
niko se neće dovući da mi pljune u lice.

Svi ćete mi odjednom biti prijatelji,
i ko zna kakvo izmisliti priznanje.

Potpuno vas razumem:
mrtvi ljudi nisu zločinci,
nisu gadovi,
nisu ubice.

Smrt je pomilovanje.

Smrt je najpristojniji način da se ode
bez rukovanja,
bez obećanja,
na miru.

Smrt je invalidnima herojima
za odrezane lobanje,
i nesanica pepela
u kojoj duše trava vetrove ištu.

Odlaskom se znatno dobija:
plakatiraju čovekovo ime i prezime
po uglovima
na finijem papiru,
i svako vas čita,
čita,
kao da ste odjednom postali važna izložba,
koncert
ili premijera u pozorištu.

VII

Kad umrem,
samo će mi biti žao ptica,
jer sve vreme sam sanjao letove,
pa ono drugo za mene nije imalo
naročitog smisla i značenja.

A vi se nasmejte
kad spušte u raku velikog klovna
i njegove nerazumljive svetove,
umorne od životnog šegaćenja.

I neka sve prodje bez molitvi
i rodoljublja.
Uličarkama donji veš
od kaludjerskih riza!

Nisam bio ni ikona,
ni vojskovodja,
ni graždanin provincijski
kome bone decu vaspitavaju.

Cirkusi su bili
moja najmračnija ljubav
i moj najšareniji patriotizam,

i radjao sam se
kad su drugi za mene
i za budućnost čovečanstva ginuli,
a umro
kad ratovi iz mraka
ponovo potmulo vaskrsavaju.

* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: O organizador e tradutor Aleksandar Jovanović, no Prefácio deste Poesia Iugoslava Contemporânea (Sérvia), nos relata o abaixo transcrito:
     “O presente volume apresenta alguns dos poetas mais expressivos da Literatura Iugoslava contemporânea, escrita em servo-croata. Mas, para que a compreensão do leitor seja mais clara, é preciso ressaltar que se trata de poetas da Literatura da Sérvia. Portanto, este livro não é uma visão integral da Modernidade na Literatura Iugoslava. Tampouco é uma visão integral da Modernidade na Literatura Iugoslava escrita em servo-croata. É uma parte dela.
     Para que uma antologia de Literatura Iugoslava fosse integral, seria preciso nela incluir não somente obras de escritores da Croácia, mas também da Bósnia-Herzegovina e do Montenegro (redigidos todos em servo-croata), e, ainda, obras de escritores da Eslovênia (escritos em esloveno) e da Literatura da Macedônia (escritos em macedônio). Não é, como sublinhamos, uma visão integral, mas é o primeiro esforço para que os leitores da língua portuguesa possam ter acesso a ela.
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Poesia Iugoslava Contemporânea (Sérvia) — [36 poetas], texto A Poesia Contemporânea da Sérvia — suas raízes e seus significados, por Jovan Pejčić, edição bilíngue, Prefácio, Tradução e Notas de Aleksandar Jovanović, 1987, Editora Meca, São Paulo — SP; Miroslav Antić (1932 1986), sérvio de Mokrin, Kikinda, região de Vóivodina, Reino da Iugoslávia, cursou o ensino primário e o médio em sua cidade natal e em Pančevo, onde morou, estudou na Faculdade de Filosofia (Estudos Eslavos, Tcheco e Russo), em Belgrado, foi editor, poeta e, indo além da literatura, também lidou com pintura, jornalismo e cinema, atuando como diretor de longas-metragens e documentários e também como cenografista; escreveu seus primeiros versos aos dezesseis anos, os quais foram publicados na revista Mladost; trabalhou no jornal Pancevac, de Pancevo, foi editor dos jornais Ritam, Dnevnik (ambos de Belgrado), Mladog pokolenja (de Novi Sad) e dirigiu os filmes Areia Sagrada (Sveti pijesak, 1968), Café da Manhã com o Diabo (Doručak s đavlom, 1971), As Folhas são Largas (Shiroko je liješte, 1981), O Leão Terrível ...; suas obras literárias: publicou mais de 20 livros dentre os quais "Desculpado pela primavera" (Ispričano za proljeća, coletânea de poemas-canções, 1950), Blasfêmias da ternura (Psovke nježnosti, 1959), Concertos para 1001 tambores (Koncert za 1001 bubanj, 1974), O Livro Cosido (Sašava Knjiga, 1972), “esta última obra tem encantado crianças, adultos e velhos, de modo indistinto”; foi várias vezes premiado por seus textos, tendo sido eleito membro da Associação de Escritores da Sérvia; parte de seus filmes, especialmente o Café da Manhã com o Diabo, foi proibida pelo governo comunista da época e, na década de 90, foram encontrados, restaurados e tornados público; suas atividades no jornalismo lhe possibilitaram conhecer pessoas cultas e outras culturas, ao viajar por vários países; seus poemas-canções foram traduzidos para os idiomas russo, macedônio, albanês, inglês, turco, húngaro, eslovaco, tcheco, francês, romeno, polonês e esloveno; antes de adquirir fama como poeta, Miroslav Antić já havia sido ajudante de pedreiro, porteiro no cais, operário de cervejaria, marinheiro e trabalhara em teatro de fantoches, em serviços de encanamento e esgoto, em telhados, carpintaria e vários outros ofícios.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Edith Sitwell: Canção

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[traduzido por Oswaldino Marques]

Somos a treva no calor do dia,
Flores sem raízes no ar, o frescor: somos a água
Jacente nas folhas perante a Morte, nosso sol,
E seu tremendo calor nos embriagou... a filha da beleza
O coração da rosa e nós somos um só.

Somos a prole do verão, o hálito da noite, os dias
Em que se pode ter esperança de tudo somos o irretornável
Sorriso daquele que está perdido, visto através das folhas do verão
Esse sol e sua falsa luz sempre a escarnecer.

Edith Sitwell

Song

We are the darkness in the heat of the day,
The rootless flowers in the air, the coolness: we are the water
Lying upon the leaves before Death, our sun,
And its vast heat has drunken us… Beauty's daughter
The heart of the rose and we are one.

We are the summer's children, the breath of evening, the days
When all may de hoped for, we are the unreturning
Smile of the lost one, seen through the summer leaves
That sun and its false light scorning.
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Poemas Famosos de Língua Inglesa [diversas autorias], edição bilíngue, Compilação, Tradução, Prefácios das 1ª e 2ª edições e Notas de Oswaldino Marques, Coleção Antologia de Poetas Universais — volume 599, 1968, Edições de Ouro, Rio de Janeiro — RJ; Edith Louisa Sitwell (1887 1964), ou Dame Edith Sitwell, britânica de Scarborough, North Riding of Yorkshire, Inglaterra, “a mais velha dos três Sitwells literários [ela, Osbert e Sacheverell, seus irmãos]”, pertencente à família da aristocracia rural e patrona de artes [davam suporte financeiro a alguns artistas privados de recursos], foi poetisa, crítica e biógrafa; suas obras: Façade (18 poemas compostos para um espetáculo musical, 1922), Wheels [The Sitwells] (antologias, várias edições publicadas entre 1916 e 1921), Poetry and Criticism (Poesia e Crítica, 1925), Gold Coast Customs (poemas, 1929), Collected Poems (1930), Alexander Pope (biografia, 1930), The English Eccentrics (Excêntricos Ingleses, crítica, 1933), Aspects of Modern Poetry (Aspectos da Poesia Moderna, 1934), Victoria of England (biografia, 1936), I Live Under a Black Sun (Vivo sob um Sol Negro, romance, 1937), Poems (1940), Street Songs (Canções de Rua, poemas, 1942), The Poet’s Notebook (coletânea, 1943), Green Song (1944), Song of Cold (Canção do Frio, 1945), Fanfare for Elizabeth (Fanfarra para Elizabeth, biografia, 1946), Still Fals the Rai (Street Songs), Three Poems of the Atomic Age, The Canticle of the Rose: Poems 1920-1947 (O Cântico da Rosa: Poemas 1920-1947, 1949), The Queens and the Hive (As Rainhas e a Colméia, crítica, 1962), Taken Care of The Autobiography of Edit Sitwell (publicação póstuma, autobiografia, 1965); Edith Sitwell, por sua vez, foi biografada por Rodolphe L. Megroz (The Three Sitwells: A Biographycal and Critical Study, 1927), Cecil M. Bowra (Edith Sitwell, 1947) e John Lehman (A Nest of Tigers: The Sitwells in Their Times, 1968); ainda consta de sua biografia: ter frequentado os salões de arte [e festas] de Gertrude Stein (romancista, poetisa, dramaturga e colecionadora de arte), em Paris, ter sido laureada com doutorados honorários das universidades de Leeds, Durham, Oxford e Sheffield, ter recebido a comenda de Dama do Império Britânico [daí, passou a constar da lista de honra do aniversário da rainha], ter se convertido ao catolicismo, ter sido patronesse do poeta Dylan Thomas e “muito próxima de H. D. (Hilda Doolittle, [poeta, romancista e memorialista]) e de Denton Welch [escritor e pintor]”.