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[versão
em português por Jorge de Sena]
[ . . . ]
“E aqui, memória ou estátua, ficaremos
O mesmo um só, qual de mãos dadas éramos
Nem as mãos se sentiam por sentir sentir.
Ver-me-ão os homens quando o que és entendam.
Podiam ir-se os deuses, no vasto rodar
Das curvas eras. Só por ti apenas,
Que, um deles, no ido bando houveras ido,
Viriam, qual dormissem, para despertar
“Então o fim dos dias, renascendo Jove
E Ganimedes a servi-lo em seu festim,
Solta da morte a nossa alma dual veria
E recriada em dor, em medo, em alegria —
Tudo o que o amor contém;
Vida — toda a beleza que luxúria
faz
Do vero amor do amor, no encanto
fascinada;
E se a nossa memória a pó se reduzisse,
Uma divina raça do fim das idades
Nossa unidade dual ressuscitava.”
Ainda chovia. Em leves passos veio a noite
Fechando as pálpebras cansadas dos sentidos.
A mesma consciência de eu e de alma
Tornou-se, qual paisagem vaga em chuva, vaga.
O Imperador imóvel jaz, e tanto que
Semiesqueceu onde ora jaz, ou de onde vem
A dor que era inda sal nos lábios seus.
Algo distante fora tudo: um manuscrito
Que se enrolou. E o que sentira a fímbria era
Que halo é em torno à lua quando a noite chora.
A cabeça pousava sobre os braços, estes
No baixo leito, alheios a senti-lo, estavam.
Os seus olhos fechados cria abertos, vendo
O nu chão negro, frio, triste, sem sentido.
Doer-lhe o respirar tudo era que sabia.
Do tombante negrume o vento ergueu-se
E tombou; lá no pátio ecoou uma voz;
E o Imperador dormia.
Os deuses vieram
E algo levaram, qual não senso sabe,
Em braços de poder e de repouso invisos.
Antinous
[ . . . ]
«And here, memory or statue, we
shall stand,
Still the same one, as we were hand
in hand
Nor felt each other's hand for
feeling feeling.
Men still will see me when thy
sense they take.
The entire gods might pass, in the
vast wheeling
Of the globed ages. If but for thy
sake,
That, being theirs, hadst gone with
their gone band,
They would return, as they had
slept to wake.
«Then the end of days when Jove
were born again
And Ganymede again pour at his
feast
Would see our dual soul from death
released
And recreated unto joy, fear, pain
—
All that love doth contain;
Life — all the beauty that doth
make a lust
Of love's own true love, at the
spell amazed;
And, if our very memory wore to
dust,
By some god's race of the end of
ages must
Our dual unity again be raised.»
It rained still. But slow-treading
night came in,
Closing the weary eyelids of each
sense.
The very consciousness of self and
soul
Grew, like a landscape through dim
raining, dim.
The Emperor lay still, so still
that now
He half forgot where now he lay, or
whence
The sorrow that was still salt on
his lips.
All had been something very far, a
scroll
Rolled up. The things he felt were
like the rim
That haloes round the moon when the
night weeps.
His head was bowed into his arms,
and they
On the low couch, foreign to his
sense, lay.
His closed eyes seemed open to him,
and seeing
The naked floor, dark, cold, sad
and unmeaning.
His hurting breath was all his
sense could know.
Out of the falling darkness the
wind rose
And fell; a voice swooned in the
courts below;
And the Emperor slept.
The
gods came now
And bore something away, no sense
knows how,
On unseen arms of power and repose.
Lisbon, 1915
* Nota do blogue Verso e Conversa:
acerca do Fernando Pessoa “britânico”, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro
desta página registra, abaixo, trecho do que Jorge de Sena, tradutor deste
Poemas Ingleses, expõe na Introdução Geral “O heterónimo Fernando Pessoa e os
poemas ingleses que publicou”:
“[ . . . ] Pessoa é, na verdade, e foi sempre, um “naturalizado” numa língua e numa cultura que não recebera na infância e na adolescência, e em que se integrou por actos de inteligência, e também, possivelmente, por não terem tido os seus poemas ingleses a recepção britânica que ele ingenuamente esperava. [ . . . ] e, por outro lado, consolava-o dos limites de ser apenas português, pela ilusão de que ele mesmo decidira “ficar” lá onde as raízes familiares e tradicionais afinal o prendiam (e por isso Álvaro de Campos ou Ricardo Reis viveram no estrangeiro, como não o “ele-mesmo”, Alberto Caieiro, ou o Bernardo Soares, que são projecções e hipóteses diversas do Pessoa que “ficou”).Fernando Pessoa partiu para a África do Sul com sete anos e meio, e voltou a Lisboa onde nascera, e para não mais sair dela, nove anos e meio depois, aos dezassete anos, tendo, aos treze, passado um ano em Lisboa e nos Açores. Quer dizer que a sua vida “britânica” durou realmente dois períodos apenas: um de cinco anos e meio de infância e primeira adolescência, e outro de três anos adolescentes, separados por um ano português. E, na britanidade da Colónia do Cabo (que não era ainda a União Sul-Africana de hoje), tinha consigo a sua família, e esta não estava emigrada, mas dependente da eventualidade de um cargo diplomático do chefe dela. [ . . . ]”
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Poemas Ingleses publicados por Fernando
Pessoa: Antinous, Inscriptions, Epithalamium, 35 Sonnets e Dispersos, edição bilíngue,
Introdução geral [O heterónimo Fernando Pessoa e os poemas ingleses que publicou],
Traduções [para o idioma português], Variantes e Notas de Jorge de Sena, e também
Traduções de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal, 1974, Edições Ática,
Lisboa — Portugal; Fernando Antônio Nogueira de Seabra Pessoa (1888 — 1935), português
e lisboeta, considerado um dos maiores poetas da língua portuguesa, foi também escritor,
crítico literário, tradutor e editor; fez seus estudos escolares no Convent Scholl,
na High School e na Comercial School, todas em Durban — África do Sul, onde aprendeu
fluentemente o idioma inglês; em 1902, teve publicado no jornal O Imparcial seu
primeiro poema: “Quando a dor me amargurar”; no mundo das letras, contribuiu com
revistas e jornais da época: A Águia (1912 e 1913), A Renascença (1914), Orpheu
(1915), Exílio (1916), Centauro (1916), a revista literária Athena (1924 e 1925),
Presença — revista de arte e crítica (Coimbra, 1927, início de colaboração intensa)
entre tantos outros veículos de comunicação, alguns criados por ele e outros parceiros
do ofício; em sua extensiva produção literária construiu também diversos heterônimos,
dos quais os mais famosos e conhecidos são: Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo
Reis e Bernardo Soares; em 1921, criou a editora Olisipo, na qual editou seus English
Poems e verteu para o inglês obras de António Botto e de Almada Negreiros; em 1922,
seu conto “O Banqueiro Anarquista” foi publicado no primeiro número de Contemporânea
— revista de literatura e arte, lisboeta; suas obras: em vida, vieram à luz, em
inglês, Antinous (escrita em 1915, publicada em folheto próprio, 1918), 35 Sonnets
(1918), English Poems I e II e Ephitalamium ou English Poems III [escrita em 1913],
(ambas publicadas em 1921), além de Mensagem (poemas, única obra editada e
publicada em português, 1934); traduziu obras de Shakespeare e Edgar Allan Poe para
o português; o poeta legou-nos, ainda, uma vida inteira de trabalho inédito e inacabado,
com edições póstumas de poemas e outros textos até então não publicados em livro.