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quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Antonio Machado: Arte poética

 
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[traduzido por Wilton José Marques]

    Há em toda alma uma festa somente,
tu vais sabê-lo, Amor, sombra florida,
sonho de aroma, e logo... nada: andrajos,
rancor, filosofia.
Roto no espelho o teu melhor idílio,
e de costas voltadas já à vida,
será tua oração cada manhã:
Para ser enforcado, belo dia!

Antonio Machado

Arte poética

    Y en toda el alma hay una sola fiesta
tú lo sabrás, Amor sombra florida,
sueño de aroma, y luego... nada; andrajos,
rencor, filosofía.
Roto en tu espejo tu mejor idilio,
y vuelto ya de espaldas a la vida,
ha de ser tu oración de la mañana:
¡Oh, para ser ahorcado, hermoso día!

(De ‘Primeiras poesias’,
in Antonio Machado: poesía,
Antologia de Jorge Campos.
Madrid, Alianza Editorial, 1978, 2ª ed.)
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Transverso — coletânea de poemas traduzidos (onze poetas e dez tradutores), Organização, Nota liminar e Posfácio de José Paulo Paes e notas dos diversos tradutores, Editora Unicamp, Campinas — SP; Antonio Cipriano José María Machado Ruiz, ou Antonio Machado (1875 1939), espanhol de Sevilha, ainda bem jovem mudou-se com sua família para Madrid, formou-se na Institución de Libre Enseñanza, foi professor de francês, tornando-se catedrático neste idioma no Instituto de Segunda Enseñanza de Soria e, depois, no Instituto Calderón de Madrid, foi dramaturgo e poeta modernista; colaborou como articulista nas revistas modernistas La caricatura, Helios e Alma española; em 1927 foi eleito membro da Real Academia Española de la Lengua; bibliografia: Soledades (1903), Soledades, galerias y otros poemas (1907), Campos de Castilla (1912), Poesías completas (1917, 1928, 1933, 1936), Nuevas canciones (1924), La guerra (1937), Poesía de guerra (1961) e Poesía y Prosa (1965); Antonio Machado também escreveu as peças de teatro La Lola se vá a los puertos (1929) e La prima Fernanda (1931), ambas em co-autoria com Manuel Machado, seu irmão e também poeta, além de Juan de Mairena: Sentencias, donaires, apuntes de un profesor apócrifo (prosa, 1936) e outros textos; em 1936, com a eclosão da Guerra Civil, na luta contra o franquismo, ditadura imposta por Francisco Franco, o poeta foi forçado a retirar-se de Madrid, mudando-se para Valencia, depois para Barcelona, e daí partiu para o exílio em Paris, onde veio a falecer.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Antonio Machado: Pela miséria lenta do caminho . . .

 
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[traduzido por Wilton José Marques]

     Pela miséria lenta do caminho
a hora florida brota
do teu amor, qual solitário espinho
do vale humilde, na ensombrada curva.
O salmo verdadeiro
de tênue voz torna hoje
lento o meu coração e dá-me aos lábios
a palavra quebrantada e trêmula.
Meus velhos mares dormem; apagam-se
as espumas sonoras
sobre a praia estéril. A borrasca
longe vai-se na nuvem irritada.
Retorna a paz ao céu;
a brisa tutelar espalha aromas
outra vez sobre o campo, e eis que aparece
na solidão bendita a tua sombra.

(Soledades — 1903)

Antonio Machado

     En la miseria lenta del camino
la hora florida, brota,
de tu amor, como espino solitario
del valle humilde a la revuelta umbrosa.
El salmo verdadero
de tenue voz hoy torna
lento a mi corazón y da a mis labios
la palabra quebrada y temblosa.
Mis viejos mares duermem; se apagaron
sus espumas sonoras
sobre  la playa estéril. La borrasca
camina lejos en la nube torva.
Vuelve la paz al cielo;
la brisa tutelar esparce aromas
otra vez sobre el campo, y aparece
en la bendita soledad tu sombra.

(Soledades — 1903)
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Transverso — coletânea de poemas traduzidos (onze poetas e dez tradutores), Organização, Nota liminar e Posfácio de José Paulo Paes e notas dos diversos tradutores, Editora Unicamp, Campinas — SP; Antonio Cipriano José María Machado Ruiz, ou Antonio Machado (1875 1939), espanhol de Sevilha, ainda bem jovem mudou-se com sua família para Madrid, formou-se na Institución de Libre Enseñanza, foi professor de francês, tornando-se catedrático neste idioma no Instituto de Segunda Enseñanza de Soria e, depois, no Instituto Calderón de Madrid, foi dramaturgo e poeta modernista; colaborou como articulista nas revistas modernistas La caricatura, Helios e Alma española; em 1927 foi eleito membro da Real Academia Española de la Lengua; bibliografia: Soledades (1903), Soledades, galerias y otros poemas (1907), Campos de Castilla (1912), Poesías completas (1917, 1928, 1933, 1936), Nuevas canciones (1924), La guerra (1937), Poesía de guerra (1961) e Poesía y Prosa (1965); Antonio Machado também escreveu as peças de teatro La Lola se vá a los puertos (1929) e La prima Fernanda (1931), ambas em co-autoria com Manuel Machado, seu irmão e também poeta, além de Juan de Mairena: Sentencias, donaires, apuntes de un profesor apócrifo (prosa, 1936) e outros textos; em 1936, com a eclosão da Guerra Civil, na luta contra o franquismo, ditadura imposta por Francisco Franco, o poeta foi forçado a retirar-se de Madrid, mudando-se para Valencia, depois para Barcelona, e daí partiu para o exílio em Paris, onde veio a falecer.

sábado, 24 de outubro de 2020

Antonio Machado: Canção

 
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[traduzido por Manuel Bandeira]

Abril florescia
Na paisagem mansa.
Entre os jasmineiros
E as roseiras brancas
Do balcão fronteiro
Vi as irmãs sentadas.
A menor cosia,
A maior fiava...
Entre os jasmineiros
E as roseiras brancas,
A mais pequenina,
Risonha e rosada,
De agulha suspensa,
Sentiu que eu a olhava.
A maior seguia,
Silenciosa e pálida,
O fuso na roca,
Que o fio enroscava.
Abril florescia
Na paisagem mansa.

Numa tarde clara
A maior chorava,
Entre os jasmineiros
E as roseiras brancas,
Ante o branco linho
Que na roca fiava.
Que tens? perguntei-lhe.
Silenciosa e pálida,
Indicou o vestido
Que a irmã começara:
Na túnica negra
A agulha brilhava;
Sobre o véu luzia
A agulha de prata.
Apontou a tarde
De abril que sonhava:
Naquele momento
Os sinos dobravam.
E na tarde clara
Me ensinou suas lágrimas...
Abril florescia
Na paisagem mansa.

Noutro abril alegre,
Noutra tarde clara,
O balcão florido
Solitário estava...
Nem a pequenina,
Risonha e rosada,
Tampouco a irmã triste,
Silenciosa e pálida,
Nem a negra túnica,
Nem a touca branca...
Apenas no fuso
O linho girava
Por mão invisível;
E na obscura sala
A lua do límpido
Espelho brilhava...
Entre os jasmineiros
E as roseiras brancas
Do balcão florido,
Minha imagem dava
Na lua do espelho,
Que longe sonhava...
Abril florescia
Na paisagem mansa.


Abril florecía
frente a mi ventana.
Entre los jazmines
y las rosas blancas
de un balcón florido,
vi las dos hermanas.
La menor cosía,
la mayor hilaba...
Entre los jazmines
y las rosas blancas,
la más pequeñita,
risueña y rosada
su aguja en el aire ,
miró a mi ventana.
La mayor seguía
silenciosa y pálida,
el huso en su rueca
que el lino enroscaba.
Abril florecía
frente a mi ventana.

Una clara tarde
la mayor lloraba,
entre los jazmines
y las rosas blancas,
y ante el blanco lino
que en su rueca hilaba.
¿Qué tienes le dije
silenciosa pálida?
Señaló el vestido
que empezó la hermana.
En la negra túnica
la aguja brillaba;
sobre el velo blanco,
el dedal de plata.
Señaló a la tarde
de abril que soñaba,
mientras que se oía
tañer de campanas.
Y en la clara tarde
me enseñó sus lágrimas...
Abril florecía
frente a mi ventana.

Fue otro abril alegre
y otra tarde plácida.
El balcón florido
solitario estaba...
Ni la pequeñita
risueña y rosada,
ni la hermana triste,
silenciosa y pálida,
ni la negra túnica,
ni la toca blanca...
Tan sólo en el huso
el lino giraba
por mano invisible,
y en la oscura sala
la luna del limpio
espejo brillaba...
Entre los jazmines
y las rosas blancas
del balcón florido,
me miré en la clara
luna del espejo
que lejos soñaba...
Abril florecía
frente a mi ventana.

Canciones (1907)
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Estrela da Vida Inteira — Manuel Bandeira, nova edição, 2008, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Antonio Cipriano José María Machado Ruiz, ou Antonio Machado (1875 1939), espanhol de Sevilha, ainda bem jovem mudou-se com sua família para Madrid, formou-se na Institución de Libre Enseñanza, foi professor de francês, tornando-se catedrático neste idioma no Instituto de Segunda Enseñanza de Soria e, depois, no Instituto Calderón de Madrid, foi dramaturgo e poeta modernista; colaborou como articulista nas revistas modernistas La caricatura, Helios e Alma española; em 1927 foi eleito membro da Real Academia Española de la Lengua; bibliografia: Soledades (1903), Soledades, galerías y otros poemas (1907), Campos de Castilla (1912), Poesías completas (1917, 1928, 1933, 1936), Nuevas canciones (1924), La guerra (1937), Poesía de guerra (1961) e Poesía y Prosa (1965); Antonio Machado também escreveu as peças de teatro La Lola se vá a los puertos (1929) e La prima Fernanda (1931), ambas em co-autoria com Manuel Machado, seu irmão e também poeta, além de Juan de Mairena: Sentencias, donaires, apuntes de un profesor apócrifo (prosa, 1936) e outros textos; em 1936, com a eclosão da Guerra Civil, na luta contra o franquismo, ditadura imposta por Francisco Franco, o poeta foi forçado a retirar-se de Madrid, mudando-se para Valencia, depois para Barcelona, e daí partiu para o exílio em Paris, onde veio a falecer.

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Antonio Machado: O crime foi em Granada *

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[traduzido por Dalila Teles Veras] **

A Federico Garcia Lorca

I

O crime

Viram-no, caminhando entre fuzis
por uma rua larga
sair para o campo frio
ainda com estrelas, na madrugada.
Mataram Federico
quando a luz surgia.
O pelotão de verdugos
não ousou mirá-lo na cara
todos fecharam os olhos;
resmungaram: nem Deus te salva!
Morto, caiu Federico
 Sangue pela fronte e chumbo nas entranhas 
... Que foi em Granada o crime
saibam  Pobre Granada! , em sua Granada...

II

O poeta e a morte

Viram-no a andar sozinho com Ela
sem medo de sua foice
 Já o sol de torre em torre; os martelos
de bigorna em bigorna retiniam nas forjas.
Falava Federico
seduzindo a morte. Ela escutava
"Porque ontem, em meu verso, companheira,
soava o golpe de tuas secas palmas
e deste o gelo a meu cantar, e à minha tragédia
o gume de teu cutelo de prata,
cantarei a carne que não tens
os olhos que te faltam
teus cabelos que o vento sacudia
os rubros lábios que beijavam...
Hoje, como ontem, cigana morte minha
permaneço a sós contigo
por estes ares de Granada, minha Granada!"

III

Viram-no a caminhar...
Edifiquem, amigos,
de pedra e sonho, em Alhambra,
um túmulo para o poeta
próximo a uma fonte onde a água chore
e eternamente diga:
o crime foi em Granada, em sua Granada!


El crimen fue em Granada

I

El crimen

Se le vio, caminando entre fusiles,
por una calle larga,
salir al campo frío,
aún con estrellas, de la madrugada.
Mataron a Federico
cuando la luz asomaba.
El pelotón de verdugos
no osó mirarle la cara.
Todos cerraron los ojos;
rezaron: ¡ni Dios te salva!
Muerto cayó Federico
 sangre en la frente y plomo en las entrañas 
...Que fue en Granada el crimen
sabed  ¡pobre Granada! , en su Granada...

II

El poeta y la muerte

Se le vi caminar solo con Ella,
sin miedo a su guadaña.
— Ya el sol en torre y torre; los martillos
en yunque-yunque y yunque de las fraguas.
Hablaba Federico,
requebrando a la muerte. Ella escuchaba.
"Porque ayer en mi verso, compañera,
sonaba el golpe de tus secas palmas,
y diste el hielo a mi cantar, y el filo
a mi tragedia de tu hoz de plata,
te cantaré la carne que no tienes,
los ojos que te faltan,
tus cabellos que el viento sacudía,
los rojos labios donde te besaban...
Hoy como ayer, gitana, muerte mía,
qué bien contigo a solas,
por estes aires de Granada, ¡mi Granada!"

III

Se le vio caminar...
Labrad, amigos,
de piedra y sueño, en la Alhambra,
un túmulo al poeta,
sobre una fuente donde llore el agua,
y eternamente diga:
el crimen fue em Granada, ¡en su Granada!


* Nota de Andrés Morales: Publicado en la revista "Ayuda" el 17 de octubre de 1936. La primera edición en libro corresponde al libro colectivo preparado por Emilio Prados Homenaje al poeta García Lorca contra su muerte. Ediciones Españolas. Valencia-Barcelona, 1937. La editio princeps en libro de su autor corresponde a Machado, Antonio. La guerra. Editorial Espasa-Calpe. Madrid, 1937.
** Nota deste Verso e Conversa: este atrevido aprendiz de blogueiro faz constar que a tradução deste poema, feita por Dalila Teles Veras, foi colhida da página de Antonio Miranda, pesquisador, bibliotecário, tradutor e poeta, na internet (clique no título lá em cima).
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España Reunida  Antologia Poética de la Guerra Civil Española, 1936  1939, Estudio, Selección, Introducción y Notas de Andrés Morales, 1999, Ril Editores, Santiago de Chile  Chile; Antonio Cipriano José María Machado Ruiz, ou Antonio Machado (1875  1939), espanhol de Sevilha, ainda bem jovem mudou-se com sua família para Madrid, formou-se na Institución de Libre Enseñanza, foi professor de francês, tornando-se catedrático neste idioma no Instituto de Segunda Enseñanza de Soria e, depois, no Instituto Calderón de Madrid, foi dramaturgo e poeta modernista; colaborou como articulista nas revistas modernistas La caricatura, Helios e Alma española; em 1927 foi eleito membro da Real Academia Española de la Lengua; bibliografia: Soledades (1903), Soledades, galerías y otros poemas (1907), Campos de Castilla (1912), Poesías completas (1917, 1928, 1933, 1936), Nuevas canciones (1924), La guerra (1937), Poesía de guerra (1961) e Poesía y Prosa (1965); Antonio Machado também escreveu as peças de teatro La Lola se va a los puertos (1929) e La prima Fernanda (1931), ambas em co-autoria com Manuel Machado, seu irmão e também poeta, além de Juan de Mairena: Sentencias, donaires, apuntes de um profesor apócrifo (prosa, 1936) e outros textos; em 1936, com a eclosão da Guerra Civil, na luta contra o franquismo, ditadura imposta por Francisco Franco, o poeta foi forçado a retirar-se de Madrid, mudando-se para Valencia, depois para Barcelona, e daí partiu para o exílio em Paris, onde veio a falecer.