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terça-feira, 13 de julho de 2021

Countee Cullen: Há uma coisa que me assombra

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[traduzido por Oswaldino Marques]

Jamais pus em dúvida a misericórdia de Deus
A sua clemência e magnânimos desígnios;
Bem certo estou de que se fosse indulgente
Com argumentos cavilosos, logo explicaria
Por que, no seu desterro, cega vive a toupeira
E a carne que O espelha deve um dia finar-se;

Por que hedionda culpa o desditoso Tântalo
E sem tréguas tentado pelo pomo fugidio,
E se Sísifo a exaurir-se na intérmina vertente
E movido apenas por um estúpido capricho.

Seus caminhos são inescrutáveis e obscuros
Às indagações de quem aflito se agita
Na viscosa trama de frívolos cuidados
E é débil demais para ousar compreender
O remendo cérebro que comanda a Sua mão;
Mas uma coisa há que me deixa perplexo:
Fazer um poeta negro e obrigá-lo a cantar!

Countee Cullen

Yet Do I Marvel

I doubt not God is good, well-meaning, kind,
And did He stoop to quibble could tell why
The little buried mole continues blind,
Why flesh that mirrors Him must some day die,
Make plain the reason tortured Tantalus
Is baited by the fickle fruit, declare
If merely brute caprice dooms Sisyphus
To struggle up a never-ending stair.

Inscrutable His ways are, and immune
To catechism by a mind too strewn
With petty cares to slightly understand
What awful brain compels His awful hand.
Yet do I marvel at this curious thing:
To make a poet black, and bid him sing!
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Poemas Famosos da Língua Inglesa [diversos autores], Compilação, Tradução, Prefácios das 1ª e 2ª edições e Notas de Oswaldino Marques, edição bilíngue, volume 599 da Coleção Antologia de Poetas Universais, 1968, Edições de Ouro, Rio de Janeiro — RJ; Countee Cullen (1903 1946), nascido Countee LeRoy Porter, estadunidense de Louisville [ ? ], Kentucky, viveu desde seus nove anos no Harlem, Nova York, estudou na DeWitt Clinton High Scholl, Bronx, NY, na New York University e na Harward University, foi escritor, poeta, dramaturgo e professor; pertenceu à nova geração de escritores afro-americanos e participou do movimento Harlem Renaissance; colaborou como editor assistente na revista Opportunity, agraciado com uma bolsa Guggenheim pode estudar na França e viveu por um período viajando entre aquele país e os Estados Unidos, foi professor de inglês, francês e redação criativa na Frederick Douglass Junior High School, em Nova York; suas obras: Color (poesias, 1925), Copper Sun (poesias, 1927), The Ballad of the Brown Girl (poesias, 1928), The Black Christ and Other Poems (1929), One Way to Heaven (romance comédia social, 1932), The Medea and Some Poems (tradução de Medeia, de Eurípedes, e alguns poemas, 1935), The Lost Zoo (poesias literatura juvenil, 1940), My Lives nad How I Lost Them (autobiografia do seu gato, 1942), St. Louis Woman (drama, 1946) e outros textos.

quarta-feira, 23 de junho de 2021

Countee Cullen: Incidente

 
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[traduzido por Oswaldino Marques]

Um dia, quando eu perambulava pelas ruas da velha Baltimore,
O coração aos pulos, a cabeça transtornada de alegria,
Deparou-se-me um baltimoriano
A olhar insistentemente para mim.

Ora, eu tinha oito anos e era muita franzino,
Nosso tamanho, sem tirar nem pôr, era o mesmo;
E vai então e sorri, mas ele estendeu um palmo de língua
E xingou:  Negro!

De maio até dezembro
Vi a Baltimore inteira,
Mas de tudo que por lá aconteceu comigo
Essa é a única lembrança que conservo.

Countee Cullen

Incident

Once riding in old Baltimore,
       Heart-filled, head-filled with glee,
I saw a Baltimorean
       Keep looking straight at me.

Now I was eight and very small,
       And he was no whit bigger,
And so I smiled, but he poked out
       His tongue and called me, "Nigger."

I saw the whole of Baltimore
       From May until December:
Of all the things that happened there
       That's all that I remember.
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Poemas Famosos da Língua Inglesa [diversos autores], Compilação, Tradução, Prefácios das 1ª e 2ª edições e Notas de Oswaldino Marques, edição bilíngue, volume 599 da Coleção Antologia de Poetas Universais, 1968, Edições de Ouro, Rio de Janeiro — RJ; Countee Cullen (1903 1946), nascido Countee LeRoy Porter, estadunidense de Louisville [ ? ], Kentucky, viveu desde seus nove anos no Harlem, Nova York, estudou na DeWitt Clinton High Scholl, Bronx, NY, na New York University e na Harward University, foi escritor, poeta, dramaturgo e professor; pertenceu à nova geração de escritores afro-americanos e participou do movimento Harlem Renaissance; colaborou como editor assistente na revista Opportunity, agraciado com uma bolsa Guggenheim pode estudar na França e viveu por um período viajando entre aquele país e os Estados Unidos, foi professor de inglês, francês e redação criativa na Frederick Douglass Junior High School, em Nova York; obras: Color (poesias, 1925), Copper Sun (poesias, 1927), The Ballad of the Brown Girl (poesias, 1928), The Black Christ and Other Poems (1929), One Way to Heaven (romance comédia social, 1932), The Medea and Some Poems (tradução de Medeia, de Eurípedes, e alguns poemas, 1935), The Lost Zoo (poesias literatura juvenil, 1940), My Lives nad How I Lost Them (autobiografia do seu gato, 1942), St. Louis Woman (drama, 1946) e outros textos.