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Faz três dias, encontrei-me, por
acaso, com um cocheiro, conhecido velho, ainda renitente na aceitação das
ideias libertárias. Era na rua do Rosário, defronte de um tabelionato.
Aproveitei o acaso para dar-lhe uma lição prática e decisiva.
Disse-lhe eu: “Sabes o que é aquilo?”
— É um cartório.
— Pois atravessemos e postemo-nos
à porta.
Dito e feito. Á mesa mais próxima da
rua um tabelião, dos velhos, recebia, de uma chusma de clientes, folhas de
papel, escritas e assinadas. Eram documentos, iam a reconhecer as firmas.
— Quantas horas trabalham tu por
dia?, perguntei ao cocheiro.
— Trabalhava dez e doze, ou mais,
conforme o serviço. Agora, com as greves e as reclamações, trabalho ora oito,
ora dez.
— Quanto ganhas no teu caminhão?
— Ganho seis mil-réis por dia.
— E que serviço está fazendo
aquele velho?
— Está reconhecendo firmas.
— Este serviço produz alguma
coisa útil à humanidade?
— Sei lá!
— Pois eu sei. Não produz nada
real para bem dos homens: pelo contrário, aquele velho está causando grande
mal, está servindo à classe dos possuidores, dos que se assenhorearam da Terra,
dos que se arvoraram em donos, dos exploradores, em suma. O mister daquele
velho é impedir que os possuidores se roubem uns aos outros e se deixem
expropriar pelos não possuidores, isto é, pelos verdadeiros trabalhadores. Não
achas que o trabalho desse tabelião era vantajosamente evitável?
— Pode ser que sim.
— Responde-me agora: qual dos
dois serviços é mais útil, o teu ou o daquele velho?
— Ah! certo que é o meu.
— Pois repara bem no quanto ganha
o velho.
E o cocheiro viu, a cada firma
reconhecida, a cada minuto de trabalho improdutivo, corresponder, para a gaveta
já recheada do sevandija, uma nota de mil-réis.
— Repara bem, prossegui: tu
recebes dez tostões, quando muito, por uma hora de serviço pesadíssimo e útil à
sociedade; aquele velho recebe dez tostões por um minuto de serviço
insignificante e prejudicial. Dize-me agora: sabes de onde vêm os dez tostões
que recebe aquele velho?
— De nós todos.
— De nós todos é um modo de
dizer. Aqueles dez tostões representam riqueza, e riqueza cria-se com trabalho
útil; logo, aquele dinheiro provém, todo, dos verdadeiros trabalhadores. Está
vendo um falso serviço remunerado principalmente à custa dos verdadeiros
serviços.
Tu te levantas às quatro e às cinco
da manhã, e o velho às nove ou dez. Moras num cubículo, tu com a mulher e os
filhos, e ele mora numa casa confortabilíssima, com três ou quatro criados de
servir. Compreendes a injustiça da organização social?
— Sim, senhor,
estou compreendendo muito bem; mas isso não tem remédio, ou o remédio está no
anarquismo.
— Há de estar,
por força, na Igreja Católica Romana.
— A religião,
pelo menos, consola a gente.
— Pois então
vai-te consolando.
E despedimo-nos. Ora, aconteceu que
esse proletário foi, à noite, à sociedade dos cocheiros. No meio da sessão,
apareceram delegados do partido católico romano. Iam falar aos operários sobre
a questão social. Eram da falange organizada e capitaneada pelo Monsenhor
Rangel, feito apóstolo da redenção social, por obra e graça da Santa Madre
Igreja.
Um dos emissários discursou mostrando
ser a crise humana conseqüência necessária da falta de religião dos
trabalhadores. A única salvação possível estava no acordo entre operários e
patrões dentro dos preceitos da Santa Igreja, compendiados por Leão XIII, na
famosa bula De Rerum Novarum.
Os trabalhadores tinham mil razões,
eram explorados, vilipendiados, escravizados. Para defendê-los, a Igreja, mãe dos
pobres e dos aflitos, abria os braços promissores e se esforçaria por agregar a
todos dentro dos preceitos evangélicos.
Voltassem os trabalhadores os olhos
para a cruz, que o Salvador dos homens era Jesus Cristo, morto para nos salvar.
Acrescentou, ou devia ter acrescentado, que
a recompensa verdadeira dos trabalhos e padecimentos desta vida não está na
Terra, mas no Céu; que os exploradores de hoje, os ricos, os potentados, esses
vão, quase todos, para o Inferno, como anunciou Jesus Cristo (história do
camelo pelo fundo de uma agulha), e que os humildes, os pequenos, os oprimidos
de hoje, esses hão de ter, depois da morte, o reino celestial. Por isso, os
trabalhadores devem ser humildes, obedientes, respeitadores das leis, dos seus
patrões, do clero; importa muito que repilam do seu meio os demagogos, os
revolucionários, os propagadores de idéias novas, sobretudo os anarquistas,
esses monstros incendiários, envenenadores, estupradores... e o mais que já se
sabe.
A assembléia ouvia aquilo estatelada.
Infelizmente, havia vários anarquistas que apartearam o orador e, terminada a
arenga, surgiu o operário Antônio Pinto a refutar o orador romano.
Esse operário, bom trabalhador da
grande causa, disse aos seus infortunados companheiros o que lhes cumpria
ouvir: que não é possível ao trabalhador de hoje confiar na sinceridade, muito
menos na proteção da Igreja Católica Romana ou de qualquer outra seita
religiosa.
Por quê?
A explicação é simples: as formigas
não defendem o tamanduá que as come, defendem-se a si mesmas; a raposa não
agride as demais raposas para salvar patos e galinhas; o capitalista, o agiota,
o usurário não se vai inimizar com seus colegas financistas em favor dos
pequenos possuidores dos não possuidores cujas riquezas eles açambarcam por
qualquer meio.
O interesse das formigas é contrário
ao interesse do tamanduá, o interesse das galinhas é oposto ao das raposas, o
interesse dos argentários é adverso aos interesses dos trabalhadores.
Ora, a Igreja é capitalista,
proprietária, açambarcadora: logo, os interesses dela são contrários, opostos e
adversos aos interesses dos trabalhadores.
Para que as formigas confiassem no
tamanduá, era mister fazer-se o tamanduá formiga; para que as galinhas
confiassem na raposa, era preciso verem-na galinha; para que os trabalhadores
confiem na Santa Madre Igreja, é de todo imprescindível que a Santa Madre
Igreja, isto é, seu papa, seus cardeais, seus
bispos e arcebispos, seus padres e monsenhores, seus cônegos, seus
frades, suas freiras se façam trabalhadores.
Foi o que resumiu o operário Antônio
Pinto nesta frase dura mas profundamente característica: “Só acreditamos nos
bons serviços da Igreja Católica Romana, quando o senhor Cardeal e seus
subordinados vierem para a boléia de um caminhão”.
No dia seguinte, encontrei o cocheiro
amigo na mesma rua do Rosário. Ele me foi dizendo alvoroçado: “Agora, sim!
Compreendi tudo muito bem aquele repetidíssimo aforismo de que a emancipação
dos trabalhadores há de ser obra dos mesmos trabalhadores”.
E me contou que, enquanto o seu
colega rebatia o orador católico, ele foi pensando no velho tabelião. No
trabalho dele e na injustiça formidável do seu ganho.
Insensivelmente, entrou a meditar nos
serviços pelo clero e na imensa riqueza da Santa Igreja. Os tais serviços nada
tinham de real ou sequer de útil, porque ninguém vive de água benta, missa,
confissões, batizados, rezas ou bentinhos... exceto os mesmos padres. Quanto à
salvação das almas, é uma cantiga milenar, ou, quando muito, hipótese a rever
depois de emancipado o homem socialmente.
Os sacerdotes, pois, vivem como vivem
o tabelião, usurpando com o seu trabalho falso o trabalho verdadeiro dos
proletários. Para merecer confiança dos trabalhadores, a Igreja deve antes de
tudo fazer duas coisas: primeira, restituir aos trabalhadores o patrimônio
eclesiástico; segunda, obrigar o clero inteiro a exercer uma profissão
produtora de riquezas e não aceitar um vintém pelos serviços religiosos.
Mas isso é... impossível.
Liberdade, ano III, nº 31,
junho de 1919 — Rio de Janeiro
* O conto tem subtítulo: “Rejeitado pelo Jornal do Brasil”.
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Contos Anarquistas (diversos
autores), Organização, Introdução e Notas de Antonio Arnoni Prado e Francisco
Foot Hardman, 1985, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; José Rodrigues Leite
e Oiticica (1882 — 1957), mineiro de Oliveira, fez
seus primeiros estudos em Maceió — AL, e daí para o Rio de Janeiro,
ingressou na Politécnica e desistiu de ser engenheiro; cursou Direito na
Faculdade de Recife e no Rio, mas, bacharel, nunca se utilizou do diploma;
frequentou o primeiro ano da Faculdade de Medicina no Rio, e também não
concluiu; dedicando-se ao magistério e à filologia, foi professor, filólogo,
foneticista, jornalista, escritor e poeta; como poeta, fez parte do grupo que,
em sua época, "deu conteúdo social à arte, pois, partidário do anarquismo,
seus versos refletem bem as idéias que esposou e que, por mais de uma vez,
levaram-no à cadeia", relata Fernando Góes em Panorama da Poesia
Brasileira, Volume V; fundou os periódicos Spartacus (co-fundador,
Astrogildo Pereira, 1919), 5 de Julho (jornal clandestino, 1929)
e Ação Direta (1929); divulgou textos políticos, poéticos e em prosa,
e colaborou com a imprensa operária libertária, através dos jornais A Lanterna, Spartacus, Livre Pensador, A Plebe, e a
revista A Vida; obras: Sonetos, primeira série (1911), Ode ao Sol (1915), Estudos de Fonologia (1916), Sonetos, segunda série (1919), Princípios e Fins do Programa Comunista-Anarquista (1919), A Trama dum Grande Crime (1922), Manual de Estilo (1923), Azalan! (peça teatral, 1924), Do Método
de Estudo das Línguas Sul-Americanas (1930), A Doutrina Anarquista ao
Alcance de Todos (1945), Roteiro de Fonética Fisiológica, Técnica do
Verso e Dicção (1955), e outros títulos.