[traduzido por Michel Déguy (?)]
O homem ainda não começou seu trabalho: está ainda preparando suas ferramentas. Quando chegar o momento, dificilmente conservará o nome de homem…
(O grande vento que faz, que assobia na lareira, me sopra insanidade.)
— Que aquisição a memória!…
Quando o homem tiver reconhecido que é nada, então poderá começar. Poderá a inteligência ou desaparecer ou substituir tudo? Ela começará a construir.
As questões, os enigmas necessários terão sido rebaixados. Nascer, sofrer, morrer não serão mais dificuldades. Haverá muito que a energia, os materiais, os seres vivos auxiliares estarão à disposição. O comércio e a indústria não mais existirão. Haverá uma única ciência e ela será quase inata.
A terra será apenas uma cidade. Nada mais se fará naturalmente — isto é, às cegas.
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| Paul Valéry |
Vent du Nord-Est
L’homme n’a pas encore commencé son travail: il en est encore à préparer ses outils. Quand le temps sera venu, à peine gardera-t-il ce nom d’homme…
(Le grand vent qu’il fait, qui crie dans la cheminée, me souffle des insanités.)
— Quelle acquisition, la mémoire!…
Quand l’homme aura reconnu qu’il n’est rien, alors cela pourra commencer. Alors l’intelligence pourra ou disparaître, ou tout remplacer? Elle commencera à bâtir.
Les questions, les énigmes nécessaires auront été avalées. Naître, souffrir, mourir ne feront plus de difficultés. Il y aura longtemps que l’énergie, les matières, les êtres vivants auxiliaires seront à disposition. Le commerce, l’industrie, ne seront plus. Il y aura une seule science et elle sera presque innée.
La terre ne sera qu’une ville. Rien ne se fera plus naturellement — c’est-à-dire aveuglément.
Paul Valéry, VI, 255 [1916], em Poésie perdue,
Paris, Gallimard, 2000,
p. 118.
____________________Poetas que pensaram o mundo — Organização de Adauto Novaes, 2005, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Ambroise-Paul-Toussaint-Jules Valéry (1871 — 1945), mais conhecido como Paul Valéry, francês de Sète, fez seus estudos secundários no Lycée de Montpellier, cursou Direito, exerceu diversas atividades na vida pública francesa, foi filósofo, escritor e poeta considerado um dos expoentes da escola Simbolista; seus primeiros versos vieram à luz a partir de 1889, ao mesmo tempo em que frequentava a faculdade, tendo sido publicados nos periódicos Revue Maritime de Marseille, La Revue Indépendante, de Paris, e La Conque; bibliografia: A Jovem Parca (1917), Album de vers Anciens (1920), Charmes (1922), Analetos (1927), Discours aux l’honneur de Goethe (1932), Mauvaises pensées et autres (1942) etecétera etecétera; o poeta Paul Valéry é tido como o autor de poemas dos mais significativos entre os que foram produzidos no século XX, ao lado de obras de T. S. Eliot, Ezra Pound, Fernando Pessoa, Rainer Maria Rilke...
