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domingo, 8 de março de 2026

Paul Verlaine: Luar

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[traduzido por Renata Cordeiro]

Vossa alma é paisagem escolhida
Que encantam bergamascos com folia,
Laúde, dança e quase entristecida
Máscara, em fantasiosas fantasias.

No modo menor, cantam a harmonia
Do vitorioso amor, da azada vida,
Porém, não se convencem da alegria,
E é no luar a música envolvida,

No luar calmo, triste, mas formoso,
Que dá sonhos aos pássaros das árvores,
E mais suspiros de êxtase aos grandiosos
Jatos d’água, elegantes, entre os mármores.

Paul Verlaine

Clair de lune *

Votre âme est un paysage choisi
Que vont charmant masques et bergamasques
Jouant du luth, et dansant, et quasi
Tristes sous leurs déguisements fantasques.

Tout en chantant sur le mode mineur
L’amour vainqueur et la vie opportune,
Ils n’ont pas l’air de croire à leur bonheur
Et leur chanson se mêle au clair de lune,

Au calme clair de lune triste et beau,
Qui fait rêver les oiseaux dans les arbres
Et sangloter d’extase les jets d’eau,
Les grands jets d’eau sveltes parmi les marbres.

(Fêtes galantes — 1869)

* Nota do blogue Verso e Conversa: o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página pesquisou e deixa registrado que Clair de lune é um dos poemas de Verlaine que foram musicados pelo compositor clássico Claude Debussy (1862  1918).
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Pequena Antologia de Poemas Franceses: De François Villon a Fernando Pessoa — Concepção, Seleção, Introdução, Tradução e Notas de Renata Maria Parreira Cordeiro, 2002, Landy Livraria Editora e Distribuidora Ltda., São Paulo — SP; Paul Marie Verlaine (1844 1896), francês nascido em Metz, educou-se no Liceu Bonaparte (Lycée Condorcet, atual Liceu Condorcet), em Paris, trabalhou como funcionário público, bacharelou-se em Literatura, foi professor, escritor e poeta; desde cedo escrevia poemas, inicialmente influenciado pelo parnasianismo; em 1866, estreou em livros com Poèmes Saturniens, teve sete de seus poemas publicados no Parnasse Contemporain; considerado um dos expoentes da poesia e literatura francesa, usou a expressão 'poètes maudits' (poetas malditos) para se referir aos poetas de sua época e de seu convívio Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Paul Valéry, ... , grupo ao qual ele se incluía, e que privilegiavam a luta contra as convenções poéticas vigentes e sofriam reprimendas sociais por isso, tendo sido muitos deles ignorados pelos críticos; só posteriormente, em 1886, com a publicação do Manifesto Simbolista, por Jean Moréas, o termo "simbolismo" passou a nominar aquele novo ambiente literário; Paul Verlaine escreveu e publicou em poesia, Poèmes Saturniens (1866), Les Amies (1867), Fêtes Galantes (1869), La Bonne Chanson (1870), Romances Sans Paroles (1874), Sagesse (1880), Jadis et naguère (1884), Amour (1888), Parallèlement (1889), Hombres (poemas eróticos [escritos até 1891], publicação clandestina, 1903) e outros títulos, e, em prosa, Les Poètes maudits (1884), Louise Leclercq (1886), Les Memoires d'un veuf (1886), Mes hôpitaux (1891), Mes prisons (1893), Quinze jours en Hollande (1893) etc.; em 1875, no Reino Unido, Verlaine lecionou “latim, grego, desenho e francês” no Stickney Grammar School Boston; participou da Comuna de Paris sem ter sido atuante nas ruas, teve poemas musicados pelo compositor Claude Debussy em Ariettes oubliées [‘Canções esquecidas, ciclo de seis melodias para voz e piano’]; o poeta, que foi casado com Mathilde Mauté, teve relacionamento sentimental amoroso conturbado com Rimbaud e o feriu com dois tiros, foi preso e encarcerado e, nos anos finais de sua vida, Paris o viu dependente de drogas e de alcoolismo, vivendo em bairros pobres e se socorrendo em hospitais públicos.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Paul Verlaine: Marinha

 
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[traduzido por Baptista Cepellos]

A lua aparece,
Lutuosa, entre brumas,
E o oceano estremece,
Revolto em espumas.

Em viva limalha,
Rápido corisco
A altura retalha,
Num trêmulo risco.

Em hórridas guaias,
As vagas num bando,
Se quebram nas praias,
Rolando... rolando...

Ergue-se uma tromba
Nos céus, de repente,
E o raio ribomba,
Formidavelmente!

Paul Verlaine

Marine

L’Océan sonore
Palpite sous l’oeil
De la lune en deuil
Et palpite encore,

Tandis qu’un éclair
Brutal et sinistre
Fend le ciel de bistre
D’un long zigzag clair,

Et que chaque lame,
En bonds convulsifs,
Le long des récifs
Va, vient, luit et clame,

Et qu’au firmament,
Où l’ouragan erre,
Rugit le tonnerre
Formidablement.

(Poèmes Saturniens — 1866)
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Antologia de Poetas Estrangeiros — Seleção e Notas de Afonso Telles Alves, [diversos autores e tradutores], Volume VIII da coleção Antologia da Literatura Mundial, 1960, Livraria e Editora Logos Ltda., São Paulo — SP; Paul Marie Verlaine (1844 1896), francês nascido em Metz, educou-se no Liceu Bonaparte (Lycée Condorcet, atual Liceu Condorcet), em Paris, trabalhou como funcionário público, bacharelou-se em Literatura, foi professor e, desde cedo, escrevia poemas, inicialmente influenciado pelo parnasianismo; em 1866, estreou em livros com Poèmes Saturniens, teve sete de seus poemas publicados no Parnasse Contemporain; considerado um dos expoentes da poesia e literatura francesa, usou a expressão poètes maudits (poetas malditos) para se referir aos poetas de sua época e de seu convívio Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Paul Valéry, ... , grupo ao qual ele se incluía, e que privilegiavam a luta contra as convenções poéticas vigentes e sofriam reprimendas sociais por isso, tendo sido muitos deles ignorados pelos críticos; só posteriormente, em 1886, com a publicação do Manifesto Simbolista, por Jean Moréas, o termo "simbolismo" passou a nominar aquele novo ambiente literário; Paul Verlaine escreveu e publicou em poesia, Poèmes Saturniens (1866), Les Amies (1867), Fêtes Galantes (1869), La Bonne Chanson (1870), Romances Sans Paroles (1874), Sagesse (1880), Jadis et naguère (1884), Amour (1888), Parallèlement (1889), Hombres (poemas eróticos [escritos até 1891], publicação clandestina, 1903) e outros títulos, e, em prosa, Les Poètes maudits (1884), Louise Leclercq (1886), Les Memoires d'un veuf (1886), Mes hôpitaux (1891), Mes prisons (1893), Quinze jours en Hollande (1893) etc.; em 1875, no Reino Unido, Verlaine lecionou "latim, grego, desenho e francês" no Stickney Grammar School, Boston; participou da comuna de Paris sem ter sido atuante nas ruas, teve poemas musicados pelo compositor Claude Debussy em Ariettes oubliées ['Canções esquecidas', ciclo de seis melodias para voz e piano']; o poeta, que foi casado com Mathilde Mauté, teve relacionamento sentimental amoroso conturbado com Rimbaud e o feriu com dois tiros, foi preso e encarcerado e, nos anos finais de sua vida, Paris o viu dependente de drogas e de alcoolismo, vivendo em bairros pobres e se socorrendo em hospitais públicos.

quarta-feira, 16 de abril de 2025

Paul Verlaine: Putas II


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[traduzido por Heloisa Jahn]

Tu também me cais muito bem,
Malgrado o jeitão meio rude
Não o deu uma mulher severa:
Mas de uma virago assumida.

É, tu me serves, muito embora
Com voz de homem gargarejes
Engrolações de beberrona,
Já que não paras de beber!

Mas mulher! Ah, juro por Deus!
De deixar a gente bem louco,
De fazer de tudo uma festa
A botar o sangue fervendo.

Teu corpo espeta o pano preto
e se vê bem que não é truque
Com um farto par de peitos duros,
Flexíveis, um tesão, só vendo!

E molda um ventre que se alonga
Até as coxas: dois pitéus.
Alguém lembrou molho, tempero,
Pra certo peixe em certa ceia?

As meias brancas parabéns
Por usares roupas discretas
Nos deixam algo exorbitados:
Como balançam essas pernas!

Há no teu semblante moreno
Vestígios de graves fadigas:
Qualquer um vê que na labuta
Preferes os mais equipados.

E esse olhar astucioso
Que se umedece e umidifica,
Onde a ralé toda pulula
Inocente mas destemida,

Teu jeito todo desde os pés,
Que se inclinam pra todo abraço,
O rosto rebocado, as mechas
Tingidas, que vemos de perto

Recarrega as pilhas usadas
E a juventude do pedaço,
À qual logo nos integramos,
Com estertores de fantoches,

Um bando de pobres coitados
Afanosos ao teu redor
Cheirando a carne como sopa,
Pronta a gemer sob os teus pés!

Sem vacilar, tu nos destroças,
Mas, paciente com nossos restos,
Aproveitas palavras, gestos,
Em receitas imaginosas.

Depois, embora sejas má,
Tens conosco tanta indulgência!
Tu, danada de ruim com a corja,
Dás um jeito e a coisa marcha!

Tu nos abocanhas (ou dizes)
Não por prazer, sua vampira,
Mas pra gente ficar por dentro
Ao menos de certas gracinhas.

Nós cumprimos nossas tarefas
Porque no fundo nos violas
Pronta a gozar das nossas fuças
Com um amante mais novinho.

Paul Verlaine

Filles II

Et toi, tu me chausses aussi,
Malgré ta manière un peu rude
Qui n’est pas celle d’une prude
Mais d’un virago réussi.

Qui, tu me bottes, quoique tu
Gargarises dans ta voix d’homme
Toutes les gammes de rogomme,
Buveuse à coude rabattu!

Mais femme! sacré nom de Dieu!
À nous faire perdre la tête,
Nous foutre tout le reste en fête
Et, nom de Dieu, le sang en feu.

Ton corps dresse, sous le reps noir,
Sans qu’assurément tu nous triches,
Une paire de nénais riches
Souples, durs, excitants, faut voir!

Et moule un ventre jusqu’au bas
Entre deux friands haut-de-cuisse,
Qui parle de sauce et d’épice
Pour quel poisson de quel repas?

Tes bas blancs et je t’applaudis
De n’arlequiner point des formes
Nous font ouvrir des yeux énormes
Sur des mollets que rebondis!

Ton visage de brune où les
Traces de robustes fatigues
Marquent clairement que tu briques
Surtout le choc des mieux râblés,

Ton regard ficelle et gobeur
Qui sait se mouiller puis qui mouille,
Où toute la godaille grouille
Sans reproche, ô non! mais sans peur,

Toute ta figure des pieds
Cambrés vers toutes les étreintes
Aux traits crépis, aux mèches teintes,
Par nos longs baisers épiés

Ravigote les roquentins,
Et les ci-devant jeunes hommes
Que voilà bientôt que nous sommes,
Nous électrise en vieux pantins,

Fait de nous de vrais bacheliers,
Empressés autour de ta croupe,
Humant la chair comme une soupe,
Prêts à râler sous tes souliers!

Tu nous mets bientôt à quia,
Mais, patiente avec nos restes,
Les accommodes, mots et gestes,
En ragoûts où de tout y a.

Et puis, quoique mauvaise au fond,
Tu nous as de ces indulgences!
Toi, si teigne entre les engeances,
Tu fais tant que les choses vont.

Tu nous gobes (ou nous le dis)
Non de te satisfaire, ô goule!
Mais de nous tenir à la coule
D’au moins les trucs les plus gentils.

Ces devoirs nous les déchargeons,
Parce qu’au fond tu nous violes,
Quitte à te ficher de nos fioles
Avec de plus jeunes cochons.

[Femmes — 1890]
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Para ser caluniado — poemas eróticos: Paul Verlaine, edição bilíngue, Apresentação, Seleção, Tradução e Notas de Heloisa Jahn, Coleção Circo de Letras nº 31, 1985, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; Paul Marie Verlaine (1844 1896), francês nascido em Metz, educou-se no Liceu Bonaparte (atual Liceu Condorcet), em Paris, trabalhou como funcionário público e desde cedo começou a escrever poesias, influenciado inicialmente pelo parnasianismo; considerado um dos expoentes da poesia e literatura francesa, usou a expressão poètes maudits (poetas malditos) para se referir aos poetas de sua época e de seu convívio Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Paul Valéry, ... , grupo ao qual ele se incluía, e que privilegiavam a luta contra as convenções poéticas vigentes e sofriam reprimendas sociais por isso, tendo sido muitos deles ignorados pelos críticos; só posteriormente, em 1886, com a publicação do Manifesto Simbolista, por Jean Moréas, o termo "simbolismo" passou a nominar aquele novo ambiente literário; Paul Verlaine escreveu e publicou em poesia, Poèmes Saturniens (1866), Les Amies (1867), Fêtes Galantes (1869), La Bonne Chanson (1870), Romances Sans Paroles (1874), Sagesse (1880), Jadis et naguère (1884), Amour (1888), Parallèlement (1889) e outros títulos, e, em prosa, Les Poètes maudits (1884), Louise Leclercq (1886), Les Memoires d'un veuf (1886), Mes hôpitaux (1891), Mes prisons (1893), Quinze jours en Hollande (1893) etc.; o poeta, que foi casado com Mathilde Mauté, participou da Comuna de Paris sem ser atuante nas ruas, teve relacionamento sentimental amoroso conturbado com Rimbaud e o feriu com dois tiros, foi preso e encarcerado e, nos anos finais de sua vida, Paris o viu dependente de drogas e de alcoolismo, vivendo em bairros pobres e se socorrendo em hospitais públicos.

domingo, 10 de novembro de 2024

Paul Verlaine: Arte poética

 

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[traduzido por Augusto de Campos]

A Charles Morice

Antes de tudo, a Música. Preza
Portanto o Ímpar. Só cabe usar
O que é mais vago e solúvel no ar,
Sem nada em si que pousa ou que pesa.

Pesar palavras será preciso,
Mas com algum desdém pela pinça:
Nada melhor do que a canção cinza
Onde o Indeciso se une ao Preciso.

Uns belos olhos atrás do véu,
O lusco-fusco no meio-dia,
A turba azul de estrelas que estria
O outono agônico pelo céu!

Pois a Nuance é que leva a palma,
Nada de Cor, somente a nuance!
Nuance, só, que nos afiance
O sonho ao sonho e a flauta na alma!

Foge do Chiste, a Farpa mesquinha,
Frase de espírito, Riso alvar,
Que o olho do Azul faz lacrimejar,
Alho plebeu de baixa cozinha!

A eloquência? Torce-lhe o pescoço!
E convém empregar de uma vez
A rima com certa sensatez
Ou vamos todos parar no fosso!

Quem nos dirá dos males da rima!
Que surdo absurdo ou que negro louco
Forjou em joia este toco oco
Que soa falso e vil sob a lima?

Música ainda, e eternamente!
Que teu verso seja o voo alto
Que se desprende da alma no salto
Para outros céus e para outra mente.

Que teu verso seja a aventura
Esparsa ao árdego ar da manhã
Que enchem de aroma o timo e a hortelã…
E todo o resto é literatura.

Paul Verlaine

Art Poétique

A Charles Morice.

De la musique avant toute chose,
Et pour cela préfère l’Impair,
Plus vague et plus soluble dans l’air,
Sans rien en lui qui pèse ou qui pose.

Il faut aussi que tu n’ailles point
Choisir tes mots sans quelque méprise:
Rien de plus cher que la chanson grise
Où l’Indécis au Précis se joint.

C’est des beaux yeux derrière des voiles
C’est le grand jour tremblant de midi,
C’est, par un ciel d’automne attiédi,
Le bleu fouillis des claires étoiles!

Car nous voulons la Nuance encor,
Pas la Couleur, rien que la nuance!
Oh! la nuance seule fiance
Le rêve au rêve et la flûte au cor!

Fuis du plus loin la Pointe assassine,
L’Esprit cruel et le Rire impur,
Qui font pleurer les yeux de l’Azur,
Et tout cet ail de basse cuisine!

Prends l’éloquence et tords-lui son cou!
Tu feras bien, en train d’énergie,
De rendre un peu la Rime assagie.
Si l’on n’y veille, elle ira jusqu’où?

O qui dira les torts de la Rime?
Quel enfant sourd ou quel nègre fou
Nous a forgé ce bijou d’un sou
Qui sonne creux et faux sous la lime?

De la musique encore et toujours!
Que ton vers soit la chose envolée
Qu’on sent qui fuit d’une âme en allée
Vers d’autres cieux à d’autres amours.

Que ton vers soit la bonne aventure
Eparse au vent crispé du matin
Qui va fleurant la menthe et le thym...
Et tout le reste est littérature.
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o anticrítico — augusto de campos [poemas do autor e poemas bilíngue, de vários poetas], Texto-apresentação “Antes do Anti”, Traduções e Nota informativa de Augusto de Campos, 1986, 1ª reimpressão, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Paul Marie Verlaine (1844 1896), francês nascido em Metz, educou-se no Liceu Bonaparte (atual Liceu Condorcet), em Paris, trabalhou como funcionário público e desde cedo começou a escrever poesias, influenciado inicialmente pelo parnasianismo; considerado um dos expoentes da poesia e literatura francesa, usou a expressão poètes maudits (poetas malditos) para se referir aos poetas de sua época e de seu convívio Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Paul Valéry, ... , grupo ao qual ele se incluía, e que privilegiavam a luta contra as convenções poéticas vigentes e sofriam reprimendas sociais por isso, tendo sido muitos deles ignorados pelos críticos; só posteriormente, em 1886, com a publicação do Manifesto Simbolista, por Jean Moréas, o termo "simbolismo" passou a nominar aquele novo ambiente literário; Paul Verlaine escreveu e publicou em poesia, Poèmes Saturniens (1866), Les Amies (1867), Fêtes Galantes (1869), La Bonne Chanson (1870), Romances Sans Paroles (1874), Sagesse (1880), Jadis et naguère (1884), Amour (1888), Parallèlement (1889) e outros títulos, e, em prosa, Les Poètes maudits (1884), Louise Leclercq (1886), Les Memoires d'un veuf (1886), Mes hôpitaux (1891), Mes prisons (1893), Quinze jours en Hollande (1893) etc.; o poeta, que foi casado com Mathilde Mauté, participou da Comuna de Paris sem ser atuante nas ruas, teve relacionamento sentimental amoroso conturbado com Rimbaud e o feriu com dois tiros, foi preso e encarcerado e, nos anos finais de sua vida, Paris o viu dependente de drogas e de alcoolismo, vivendo em bairros pobres e se socorrendo em hospitais públicos.

sexta-feira, 21 de junho de 2024

augusto de campos: reverlaine


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paul verlaine
pauvre lélian
parecia fora da jogada
com todos os seus belos
sanglolons
mas vejam:
essa arte poética
débussydissonante
(que tem quase um século)
é de outra música.
o verso ímpar
de 9 sílabas
não é fácil de manejar
não é fácil também usar
a palavra ail
em vez de aile
ou alho
em lugar de ala
num poema.

e há uma série de d´sticos-lemas
até hoje válidos:
prends l’éloquence et tords-lui son cou!
q o confuso mário de andrade
da escrava que não era isaura
tachou de “errado”
erro corrigido por oswald
nos minipoemas
pau-brasil
como viu paulo prado:
“le poète japonais
essuye son couteau:
cette fois d’èloquence est morte”
ou
“em comprimidos,
minutos de poesia.”

“torce, aprimora, alteia, lima
a frase: e, enfim,
no verso de ouro engasta a rima
como um rubim.”

Olavo braz Martins dos Guimarães Bilac
tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac

pois sim

o qui dira les torts de la rima?
a rima, ce bijou d’un sou
(este toco oco):
“mulheres, rilke, esses bijus de um níquel!”
décio Pignatari em “o poeta virgem”
da sua bufoneria brasiliensis
(1952)!

de la musique avant toute chose
sim, a música é mais importante:
“all things that are...
are musical”
(richard crashaw)
“everything we do
is music”
(john cage)

“musica sola mei
superest medicina veneni”
disse a tarântula
à tarantela
“antidotum tarantulae”,
roma, 1641,
na pequena história da música
do mais útil mário de andrade.

“poesia não é bem literatura”
disse pound,
“provença knew”.

verlaine também, l’aventure
et tout le reste est littérature.

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o anticrítico — augusto de campos [poemas do autor e poemas bilíngue, de vários poetas], Texto-apresentação “Antes do Anti”, Traduções e Nota informativa de Augusto de Campos, 1986, 1ª reimpressão, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Augusto Luís Browne de Campos, paulistano, nascido em 1931, poeta, tradutor, ensaísta e crítico literário e de música, é reconhecido, desde 1952, quando lançou a revista literária "Noigandres" em parceria com seu irmão Haroldo de Campos e Décio Pignatari, como um dos representantes, criadores e divulgadores do movimento internacional da Poesia Concreta; a maioria de seus poemas está reunida em Viva Vaia (1979) e Não (2003); obra poética: Antologia Noigandres (1962), Linguaviagem (1970), Equivocábulo (1970), Colidoouescapo (1971), Despoesia, 1979 — 1993 (1994), Poesia é Risco, antologia poético-musical (cd livro, 1995); o autor também escreveu e publicou ensaios diversos e traduziu outros autores, em voo solo ou em co-autoria com outros estudiosos da literatura, inclusos Haroldo de Campos e Décio Pignatari.

sexta-feira, 22 de março de 2024

Paul Verlaine: As mãos


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[traduzido por Guilherme de Almeida]

As doces mãos que foram minhas,
Tão bonitas e tão pequenas
Depois de enganos e de penas
E de tantas coisas mesquinhas,

Depois de portos tão risonhos,
Províncias, cantos pitorescos,
Reais como em tempos principescos,
As doces mãos abrem-me os sonhos.

Mãos em sonho sobre a minha alma,
Que sei eu o que vos dignastes,
Entre tão pérfidos contrastes,
Dizer a esta alma pasma e calma?

Mentirá minha visão casta
De espiritual afinidade,
De maternal cumplicidade
E de afeição estreita e vasta?

Remorso bom, mágoa tão boa,
Sonhos santos, mãos consagradas,
Oh! Essas mãos, mãos veneradas,
Fazei o gesto que perdoa! *

Paul Verlaine

Les chères mains qui furent miennes, . . .

Les chères mains qui furent miennes,
Toutes petites, toutes belles,
Après ces méprises mortelles
Et toutes ces choses païennes,

Après les rades et les grèves,
Et les pays et les provinces,
Royales mieux qu'au temps des princes,
Les chères mains m'ouvrent les rêves.

Mains en songe, mains sur mon âme,
Sais-je, moi, ce que vous daignâtes,
Parmi ces rumeurs scélérates,
Dire à cette âme qui se pâme?

Ment-elle, ma vision chaste
D'affinité spirituelle,
De complicité maternelle,
D'affection étroite et vaste?

Remords si cher, peine très bonne,
Rêves bénis, mains consacrées,
Ô ces mains, ces mains vénérées,
Faites le geste qui pardonne!

* Nota da edição: Verlaine P. “As mãos”. In: A voz dos botequins e outros poemas, Trad. Guilherme de Almeida, São Paulo: Hedra, 2009, p.71, [Sagesse, 1880].
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Rimbaud — biografia: Jean-Baptiste Baronian, Tradução de Joana Canêdo, biografias L&PM POCKET Volume 975, 1ª edição, 2011, L&PM, Porto Alegre — RS; Paul Marie Verlaine (1844 1896), francês nascido em Metz, educou-se no Liceu Bonaparte (atual Liceu Condorcet), em Paris, trabalhou como funcionário público e desde cedo começou a escrever poesias, influenciado inicialmente pelo parnasianismo; considerado um dos expoentes da poesia e literatura francesa, usou a expressão poètes maudits (poetas malditos) para se referir aos poetas de sua época e de seu convívio Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Paul Valéry, ... , grupo ao qual ele se incluía, e que privilegiavam a luta contra as convenções poéticas vigentes e sofriam reprimendas sociais por isso, tendo sido muitos deles ignorados pelos críticos; só posteriormente, em 1886, com a publicação do Manifesto Simbolista, por Jean Moréas, o termo "simbolismo" passou a nominar aquele novo ambiente literário; Paul Verlaine escreveu e publicou em poesia, Poèmes Saturniens (1866), Les Amies (1867), Fêtes Galantes (1869), La Bonne Chanson (1870), Romances Sans Paroles (1874), Sagesse (1880), Jadis et naguère (1884), Amour (1888), Parallèlement (1889) e outros títulos, e, em prosa, Les Poètes maudits (1884), Louise Leclercq (1886), Les Memoires d'un veuf (1886), Mes hôpitaux (1891), Mes prisons (1893), Quinze jours en Hollande (1893) etc.; o poeta, que foi casado com Mathilde Mauté, participou da Comuna de Paris sem ser atuante nas ruas, teve relacionamento sentimental amoroso conturbado com Rimbaud e o feriu com dois tiros, foi preso e encarcerado e, nos anos finais de sua vida, Paris o viu dependente de drogas e de alcoolismo, vivendo em bairros pobres e se socorrendo em hospitais públicos.

quinta-feira, 19 de outubro de 2023

Paul Verlaine: Costas


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[traduzido por Heloisa Jahn]

À noite vi duas mulheres das mais finas.
A cena era num baile, as coisas que se sonha!
Uma das duas magra, loura, um olho azul,
Um negro, e o olhar desiludido que nos fixa.

A outra morena, olhar matreiro enganador
Seis alegremente oferecidos, dignos
De algum semideus! As duas mulheres tinham,
Ocultos pelo farfalhar de seus vestidos,

Torsos belíssimos, doidos de excitação
Aos quais, se falassem, mais nada faltaria:
Retaguarda régia nas lutas do prazer.

E essas Senhoras da mais alta sociedade
Tentavam empenhar o elã de meu desejo,
Sem poder compreender a minha indiferença.

Paul Verlaine

Lombes

Deux femmes des mieux m'ont apparu cette nuit.
Mon rêve était au bal, je vous demande un peu!
L'une d'entre elles maigre assez, blonde, un œil bleu,
Un noir et ce regard mécréant qui poursuit.

L'autre, brune au regard sournois qui flatte et nuit,
Seins joyeux d'être vus, dignes d'un demi-dieu!
Et toutes deux avaient, pour rappeler le jeu
De la main chaude, sous la traîne qui bruit,

Des bas de dos très beaux et d'une gaîté folle
Auxquels il ne manquait vraiment que la parole,
Royale arrière-garde aux combats du plaisir.

Et ces Dames scrutez l'armorial de France
S'efforçaient d'entamer l'orgueil de mon désir,
Et n'en revenaient pas de mon indifférence.

[Parallèlement — 1889]
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Para ser caluniado — poemas eróticos: Paul Verlaine, Apresentação, Seleção, Tradução e Notas de Heloisa Jahn, Coleção Circo de Letras nº 31, 1985, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; Paul Marie Verlaine (1844 1896), francês nascido em Metz, educou-se no Liceu Bonaparte (atual Liceu Condorcet), em Paris, trabalhou como funcionário público e desde cedo começou a escrever poesias, influenciado inicialmente pelo parnasianismo; considerado um dos expoentes da poesia e literatura francesa, usou a expressão poètes maudits (poetas malditos) para se referir aos poetas de sua época e de seu convívio Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Paul Valéry, ... , grupo ao qual ele se incluía, e que privilegiavam a luta contra as convenções poéticas vigentes e sofriam reprimendas sociais por isso, tendo sido muitos deles ignorados pelos críticos; só posteriormente, em 1886, com a publicação do Manifesto Simbolista, por Jean Moréas, o termo "simbolismo" passou a nominar aquele novo ambiente literário; Paul Verlaine escreveu e publicou em poesia, Poèmes Saturniens (1866), Les Amies (1867), Fêtes Galantes (1869), La Bonne Chanson (1870), Romances Sans Paroles (1874), Sagesse (1880), Jadis et naguère (1884), Amour (1888), Parallèlement (1889) e outros títulos, e, em prosa, Les Poètes maudits (1884), Louise Leclercq (1886), Les Memoires d'un veuf (1886), Mes hôpitaux (1891), Mes prisons (1893), Quinze jours en Hollande (1893) etc.; o poeta, que foi casado com Mathilde Mauté, participou da Comuna de Paris sem ser atuante nas ruas, teve relacionamento sentimental amoroso conturbado com Rimbaud e o feriu com dois tiros, foi preso e encarcerado e, nos anos finais de sua vida, Paris o viu dependente de drogas e de alcoolismo, vivendo em bairros pobres e se socorrendo em hospitais públicos.

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

Paul Verlaine: Moral abreviada


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[traduzido por Heloisa Jahn]

Uma nuca de loura e de graça inclinada,
Um colo que arrulha, belos, lascivos seios,
Com medalhões escuros na mama afogueada,
Esse busto se assenta em baixas almofadas
Enquanto entre duas pernas para o ar, vibrantes,
Uma mulher se ajoelha ocupada com quê?
Amor o sabe expondo aos deuses a epopeia
Singela de seu cu magnífico, um espelho
Límpido da Beleza, que ali quer se ver
Pra crer. Cu feminino, que vence o viril
Serenamente o de efebo e o infantil.
Ao cu feminino, supremo, culto e glória!

Paul Verlaine

Morale en raccourci

Une tête de blonde et de grâce pâmée,
Sous un cou roucouleur de beaux tétons bandants,
Et leur médaillon sombre à la mamme enflammée,
Ce buste assis sur des coussins bas, cependant
Qu’entre deux jambes, très vibrantes, très en l’air,
Une femme à genoux vers quels soins occupée 
Amour le sait ne montre aux dieux que l’épopée
Candide de son cul splendide, miroir clair
De la Beauté qui veut s’y voir afin d’y croire.
Cul féminin, vainqueur serein du cul viril,
Fût-il éphébéen, fût-il puéril.
Cul féminin, cul sur tous culs, los, culte et gloire!

[Femmes — 1890]
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Para ser caluniado — poemas eróticos: Paul Verlaine, Apresentação, Seleção, Tradução e Notas de Heloisa Jahn, Coleção Circo de Letras nº 31, 1985, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; Paul Marie Verlaine (1844 1896), francês nascido em Metz, educou-se no Liceu Bonaparte (atual Liceu Condorcet), em Paris, trabalhou como funcionário público e desde cedo começou a escrever poesias, influenciado inicialmente pelo parnasianismo; considerado um dos expoentes da poesia e literatura francesa, usou a expressão poètes maudits (poetas malditos) para se referir aos poetas de sua época e de seu convívio Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Paul Valéry, ... , grupo ao qual ele se incluía, e que privilegiavam a luta contra as convenções poéticas vigentes e sofriam reprimendas sociais por isso, tendo sido muitos deles ignorados pelos críticos; só posteriormente, em 1886, com a publicação do Manifesto Simbolista, por Jean Moréas, o termo "simbolismo" passou a nominar aquele novo ambiente literário; Paul Verlaine escreveu e publicou em poesia, Poèmes Saturniens (1866), Les Amies (1867), Fêtes Galantes (1869), La Bonne Chanson (1870), Romances Sans Paroles (1874), Sagesse (1880), Jadis et naguère (1884), Amour (1888), Parallèlement (1889) e outros títulos, e, em prosa, Les Poètes maudits (1884), Louise Leclercq (1886), Les Memoires d'un veuf (1886), Mes hôpitaux (1891), Mes prisons (1893), Quinze jours en Hollande (1893) etc.; o poeta, que foi casado com Mathilde Mauté, participou da Comuna de Paris sem ser atuante nas ruas, teve relacionamento sentimental amoroso conturbado com Rimbaud e o feriu com dois tiros, foi preso e encarcerado e, nos anos finais de sua vida, Paris o viu dependente de drogas e de alcoolismo, vivendo em bairros pobres e se socorrendo em hospitais públicos.