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domingo, 27 de fevereiro de 2022

Laurindo Rabelo: A Romã*

 
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Entre as frutas que há no mundo
Não há uma fruta irmã
Na beleza e na doçura
Da que se chamou romã.

Tem coroa de rainha,
Rósea cor na casca tem,
Quando racha me retrata
A boquinha de meu bem.

Pela vez primeira vi,
Num jardim, pela manhã,
O meu bem, que em vez de flores,
Me trazia uma romã...

Consentiu, pra que eu sentisse,
Desse seu fruto a doçura,
Que eu pusesse a mão no pomo,
A boca na rachadura


* Nota do Organizador Fábio Frohwein de Salles Moniz [com acréscimo deste Verso e Conversa]: In: Melo Moraes Filho, Alexandre José de. Serenatas e Saraus. Rio de Janeiro & Paris: H. Garnier, Livreiro-Editor, 1902, V. 3, p. 262; o atrevido aprendiz de blogueiro desta página complementa que Fábio Frohwein, na Apresentação deste Laurindo Rabelo — Série Essencial, relata que A Romã é um lundu [canção] e integra o grupo de poemas de Laurindo: “Trata-se, na verdade, de letras de canções, que, antes de ser publicadas, circulavam na tradição oral de cantadores ao acompanhamento do violão ou piano, apresentando consequentemente variações. Como Laurindo não publicou nenhum lundu [ . . . ] em Trovas, ou em sua reedição, é praticamente impossível discernir qual variação estaria de acordo com a chamada ‘vontade do autor’.
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Laurindo Rabelo — Série Essencial, Academia Brasileira de Letras, Organização, Apresentação, Notícia Biográfica e Notas de Fábio Frohwein de Salles Moniz, 2012, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Laurindo José da Silva Rabelo (1826 1864), nascido no Rio de Janeiro RJ, ordenou-se pelo Seminário São José, no Rio, abandonou a carreira eclesiástica, formou-se em Medicina, tendo estudado nas faculdades do Rio e da Bahia, tornou-se médico e ingressou no Corpo de Saúde do Exército, mas também abandonou a medicina, foi professor de História, Geografia, Português, Latim e Francês e poeta; consta ter recebido a alcunha de “Bocage brasileiro”, pelo seu estilo literário; teve textos publicados na Marmota Fluminense; obras: Trovas (1853), Tese apresentada e sustentada perante a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (1856), Poesias do Dr. Laurindo da Silva Rabelo (coligidas por Eduardo de Sá Pereira de Castro, 1867), Compêndio de Gramática da Língua Portuguesa (adotado pelas escolas regimentais do Governo Imperial, 1867), Obras poéticas (poesias eróticas, 1882); Obras Completas (poesia, prosa e gramática, 1946); é o patrono da cadeira nº 26 da Academia Brasileira de Letras.

sábado, 5 de fevereiro de 2022

Laurindo Rabelo: Riso e morte*

 
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Eu vim ao mundo chorando,
Chorar é o meu viver;
Quando eu deixar de chorar,
Estou prestes a morrer.

Quando a alma ao infortúnio
Assim ligado se tem,
Como termo da desgraça
A morte não longe vem.

Quando eu deixar de chorar,
Quando contente me rir,
Não se enganem, desconfiem,
Que não tardo a sucumbir.

Vem, oh! morte, ver meu pranto,
Não receies, podes vir;
Choro nos braços da vida,
Nos teus braços me hei de rir.

Muitas vezes um prazer
Que parece de ventura,
Não é mais que um riso d’alma
Vendo perto a sepultura.

O feliz ri-se da vida
Por ver nela o seu jardim;
O desgraçado, na morte
Por ver da desgraça, o fim.


Nota de Antenor Nascentes: Consta da Coleção A. G. Guimarães, I caderno, pág. 5. Musicada por João Cunha.
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Poesias Completas [Líricas] de Laurindo Rabêlo — Coleção, Anotações e Prefácio de Antenor Nascentes, Biblioteca Popular Brasileira Volume XXXIII, 1963, Instituto Nacional do Livro, Ministério da Educação e Cultura, Rio de Janeiro — RJ; Laurindo José da Silva Rabelo (1826 1864), nascido no Rio de Janeiro RJ, ordenou-se pelo Seminário São José, no Rio, abandonou a carreira eclesiástica, formou-se em Medicina, tendo estudado nas faculdades do Rio e da Bahia, tornou-se médico e ingressou no Corpo de Saúde do Exército, mas também abandonou a medicina, foi professor de História, Geografia e Português, e também poeta; consta ter recebido a alcunha de “Bocage brasileiro”, pelo seu estilo literário; teve textos publicados na Marmota Fluminense; obras: Trovas (1853), Tese apresentada e sustentada perante a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (1856), Poesias do Dr. Laurindo da Silva Rabelo (coligidas por Eduardo de Sá Pereira de Castro, 1867), Compêndio de Gramática da Língua Portuguesa (adotado pelas escolas regimentais do Governo Imperial, 1867), Obras poéticas (poesias eróticas, 1882); Obras Completas (poesia, prosa e gramática, 1946); é o patrono da cadeira nº 26 da Academia Brasileira de Letras.

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

Laurindo Rabelo: Ao Rego*

 
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(Sátira) — [décimas]

Ilustríssimos Senhores
Da nossa Municipal,
Deixai que um fraco mortal
Inferior dos Inferiores,
Implore os vossos favores
E bondade conhecida,
Para que seja atendida
E posta em atividade,
Com a maior brevidade,
Uma importante medida.

Já não servem as calçadas
De guarda ao limpo vestido,
Que o REGO a elas unido,
Cheiro d‘águas encharcadas,
Põe as vestes salpicadas
D‘água suja a cada instante;
Enquanto o gás implicante
Das fezes com que se enfeita,
Com seu aroma deleita
As ventas do caminhante.

Inda aqui nesta cidade,
Assim como na campanha,
A mesma infelicidade
Ao REGO sempre acompanha;
A porcaria é tamanha
Como nunca vi igual,
Porque todos em geral,
Iguais na vontade sua,
Converteram em comua
O REGO do hospital.

Parece fatalidade
Esta desgraça do rego;
Sempre com péssimo emprego
O tem visto a humanidade.
Da natureza a impiedade
Deu-lhe um destino bem cru,
Quando vejo um homem nu
Fico disto na certeza,
Pois noto que a natureza
Abriu-lhe um rego no cu.

Muita gente há que nutrindo
Econômicos desejos,
Fazem da casa os despejos,
Das despesas prescindindo;
Quando tudo está dormindo,
Vão cuidar do doce emprego
E com todo o seu sossego,
Inocência e singeleza
Passam a fazer limpeza
Mesmo na boca do rego.

Causa raiva seriamente,
Tira-me todo o sossego,
Ver assim o pobre rego
Cagado por tanta gente,
Não ter remédio um doente
E outras coisas iguais
É mau para os hospitais,
Isto é claro, está bem visto;
Mas além de tudo isto,
Cagar no “rego” é demais!

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Vós, porém, sábios eleitos
Podeis o erro emendar;
É dos sábios melhorar
Ou destruir os defeitos;
Mas se devem imperfeitos
Os “regos” sempre ficar,
Mandai-os eliminar
De qualquer lugar decente,
E haja “rego” somente
Onde se deva cagar.

Nestes termos pede o vate
Do Hospital para sossego,
Que seja entupido o rego
Que lhe dá tanto combate;
O Congresso sem debate,
Pronto pode assim dispor;
Ninguém sátira supor
Vá que o meu pedido encerra:
Falo de um rego de terra,
E não do Rego Doutor.


* Nota do Organizador Fábio Frohwein de Salles Moniz [com acréscimo deste Verso e Conversa]: In: Obras Poéticas. Rio de Janeiro: [s. n.], 1882, pp. 37—41; o atrevido aprendiz de blogueiro desta página complementa que Fábio Frohwein, em Notícia Biográfica deste Laurindo Rabelo — Série Essencial, relata que estas décimas foram escritas em função de desavenças havidas entre o poeta e o Dr. [Manoel do] Rego Macedo, diretor do Hospital Militar de Porto Alegre e/ou, dizem outros, diretor do Hospital Militar do Castelo, no Rio de Janeiro.
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Laurindo Rabelo — Série Essencial, Academia Brasileira de Letras, Organização, Apresentação, Notícia Biográfica e Notas de Fábio Frohwein de Salles Moniz, 2012, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Laurindo José da Silva Rabelo (1826 1864), nascido no Rio de Janeiro RJ, ordenou-se pelo Seminário São José, no Rio, abandonou a carreira eclesiástica, formou-se em Medicina, tendo estudado nas faculdades do Rio e da Bahia, tornou-se médico e ingressou no Corpo de Saúde do Exército, mas também abandonou a medicina, foi professor de História, Geografia, Português, Latim e Francês e poeta; consta ter recebido a alcunha de “Bocage brasileiro”, pelo seu estilo literário; teve textos publicados na Marmota Fluminense; obras: Trovas (1853), Tese apresentada e sustentada perante a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (1856), Poesias do Dr. Laurindo da Silva Rabelo (coligidas por Eduardo de Sá Pereira de Castro, 1867), Compêndio de Gramática da Língua Portuguesa (adotado pelas escolas regimentais do Governo Imperial, 1867), Obras poéticas (poesias eróticas, 1882); Obras Completas (poesia, prosa e gramática, 1946); é o patrono da cadeira nº 26 da Academia Brasileira de Letras.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Laurindo Rabelo: O que São Meus Versos

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Se é vate, quem acesa a fantasia
Tem de divina luz na chama eterna;
Se é vate, quem do mundo o movimento
C’o movimento das canções governa;

Se é vate, quem tem n’alma sempre abertas
Doces límpidas fontes de ternura,
Veladas por amor, onde se miram
As faces da querida formosura;

Se é vate quem dos povos, quando fala,
As paixões vivifica, excita o pasmo,
E da glória recebe sobre a arena
As palmas, que lhe of’rece o entusiasmo;

Eu triste, cujo fraco pensamento
Do desgosto gelou fatal quebranto;
Que, de tanto gemer desfalecido,
Nem sequer movo os ecos com meu canto!

Eu triste, que só tenho abertas n’alma
Envenenadas fontes d’agonia,
Malditas por amor, a quem nem sombra
De amiga formosura o Céu confia!

Eu triste, que, dos homens desprezado,
Só entregue a meu mal, quase em delírio,
Ator no palco estreito da desgraça,
Só espero a coroa do martírio!

Vate não sou, mortais; bem o conheço;
Meus versos, pela dor só inspirados, 
Nem são versos  menti  são ais sentidos,
Às vezes, sem querer, d’alma exalados;

São fel, que o coração verte em golfadas
Por contínuas angústias comprimido;
São pedaços das nuvens, que m’encobrem
Do horizonte da vida o sol querido;

São anéis da cadeia, q’arrojou-me
Aos pulsos a desgraça, ímpia, sanhuda;
São gotas do veneno corrosivo,
Que em pranto pelos olhos me transuda.

Seca de fé, minha alma os lança ao mundo,
Do caminho que levam descuidada,
Qual, ludíbrio do vento, as secas folhas
Solta a esmo no ar planta mirrada.

Trovas  1853, Bahia:
Tipografia de E. Pedrosa, pp. 7-8.

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Laurindo Rabelo  Série Essencial 9, Academia Brasileira de Letras, Organização, Apresentação, Notícia Biográfica e Notas de Fábio Frohwein de Salles Moniz, 2012, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Laurindo José da Silva Rabelo (1826  1864), nascido no Rio de Janeiro  RJ, ordenou-se pelo Seminário São José, no Rio, abandonou a carreira eclesiástica, formou-se em Medicina, tendo estudado nas faculdades do Rio e da Bahia, tornou-se médico e ingressou no Corpo de Saúde do Exército, mas também abandonou a medicina, foi professor de História, Geografia e Português, e também poeta; consta ter recebido a alcunha de “Bocage brasileiro”, pelo seu estilo literário; teve textos publicados na Marmota Fluminense; bibliografia: Trovas (1853), Tese apresentada e sustentada perante a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (1856), Poesias do Dr. Laurindo da Silva Rabelo (coligidas por Eduardo de Sá Pereira de Castro, 1867), Compêndio de Gramática da Língua Portuguesa (adotado pelas escolas regimentais do Governo Imperial, 1867), Obras poéticas (1882); Obras Completas (poesia, prosa e gramática, 1946); é o patrono da cadeira nº 26 da Academia Brasileira de Letras.

domingo, 23 de outubro de 2016

Laurindo Rabelo: Dois impossíveis

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Jamais! Quando a razão e o sentimento
Disputam-se o domínio da vontade,
Se uma nobre altivez nos alimenta
Não se perde de todo a liberdade.

A luta é forte: o coração sucumbe
Quase nas ânsias do lutar terrível;
A paixão o devora quase inteiro,
Devorá-lo de todo é impossível!

Jamais! a chama crepitante lastra.
Em curso impetuoso se propaga;
Lancem-lhe embora prantos sobre prantos,
É inútil, que o fogo não se apaga.

Mas chega um ponto em que lhe acena o ímpeto
Em que não queima já, mas martiriza.
Em que tristeza branda e não loucura
À razão se sujeita e se harmoniza.

É nesse ponto de indizível tempo
Onde, por misterioso encantamento,
O sentir à razão vencer não pode,
Nem a razão vencer ao sentimento.

No fundo de noss'alma um espetáculo
Se levanta de triste majestade,
Se de um lado a razão seu facho acende
Do outro os lírios seus planta a saudade.

Melancólica paz domina o sítio,
Só da razão o facho bruxuleia,
Quando por entre os lírios da saudade
Do zelo semimorto a serpe ondeia!

Dois limites então na atividade
Conhece o ser pensante, o ser sensível:
Um impossível 
 a razão escreve,
Escreve o sentimento outro impossível!

Amei-te! os meus extremos compensaste
Com tanta ingratidão, tanta dureza,
Que assim como adorar-te foi loucura,
Mais extremos te dar fora baixeza.

Minh'alma nos seus brios ofendida
De pronto a seus extremos pôs remate,
Que, mesmo apaixonada, uma alma nobre,
Desespera-se, morre, não se abate.

Pode queixar-se inteira felicidade
De teu olhar de fogo inextinguível,
Acabar minha crença, meu futuro.
Aviltar-me? Jamais! É impossível!

Mas a razão que salva da baixeza
O coração depois de idolatrar-te,
Me anima a abandonar-te, a não querer-te:
Mas a esquecer-te, não: sempre hei de amar-te!

Porém amar-te desse amor latente,
Raio de luz celeste e sempre puro,
Que tem no seu passado o seu presente,
E tem no seu presente o seu futuro;

Tão livre, tão despido de interesse,
Que para nunca abandonar seu posto,
Para nunca esquecer-te, nem precisa
Beber, te vendo, vida no teu rosto;

Que, desprezando altivo quantas graças
No teu semblante, no teu porte via
Adora respeitoso aquela imagem
Que dele copiou na fantasia.

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Páginas de Ouro da Poesia Brasileira — Seleção e Prefácio de Alberto de Oliveira, H. Garnier, Livreiro Editor, 1911, Rio de Janeiro — RJ; Laurindo José da Silva Rabelo (1826  1864), nascido no Rio de Janeiro  RJ, ordenou-se pelo Seminário São José, no Rio e abandonou a carreira eclesiástica, formou-se em Medicina, tendo estudado nas faculdades do Rio e da Bahia, tornou-se médico e ingressou no Corpo de Saúde do Exército, mas também abandonou a medicina; foi professor de História, Geografia e Português, e também poeta; consta ter recebido a alcunha de “Bocage brasileiro”, pelo seu estilo literário; teve textos publicados na Marmota Fluminense; bibliografia: Trovas (1853), Tese apresentada e sustentada perante a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (1856), Poesias do Dr. Laurindo da Silva Rabelo (coligidas por Eduardo de Sá Pereira de Castro, 1867), Compêndio de Gramática da Língua Portuguesa (adotado pelas escolas regimentais do Governo Imperial, 1867), Obras poéticas (1882); Obras Completas (poesia, prosa e gramática, 1946); é o patrono da cadeira nº 26 da Academia Brasileira de Letras.