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Você conhece essa palavra?
Ultimamente
tem aparecido no vocabulário de pessoas que falam em público ou dão entrevista
uma palavra que não consta ainda em nenhum dicionário da língua. Como a palavra
vem sendo aplicada quase que exclusivamente pelos chamados tecnocratas e seus
admiradores, pensou-se a princípio que fosse um termo exclusivo da cultura oral
desse grupo, como o “xadisso” dos escolares, o “simbora” dos caminhoneiros, o “sacumé”
dos malandros, o “mequitá” dos roqueiros etc. Seria uma transposição fonética
do som de alguma palavra estrangeira? A palavra é haniveldí ou aniveldí — pelo menos é assim que soa.
Vamos dar
alguns exemplos ouvidos recentemente no rádio e na televisão para ver se algum
dos nossos leitores consegue identificar a origem da palavra:
- “De fato, pouco adianta ter uma estrutura sofisticada, aniveldí proteção do direito de autor...” (Informativo do Conselho Nacional de Direito Autoral, Ministério da Cultura.)
- “Falando aniveldí atendimento ambulatorial...” (Médico na televisão.)
- “Esse assunto tem que ser examinado aniveldí uma rigorosa avaliação quantitativa dos serviços disponíveis.” (Tecnocrata em debate na Rádio JB.)
- “Aniveldí comportamento comunitário me parece que a proposta não foi bem compreendida.” (Assessor do prefeito Marcelo Alencar em entrevista a O Globo.)
- “Aniveldí quebra de safra, não acho que o Brasil apresente excepcionalidade em comparação com outros países em desenvolvimento”. (Tecnocrata da Seplan falando na TV Globo.)
- “Aniveldí capacidade de pagar os serviços da dívida, os países de renda média importadores de petróleo são os que apresentam maior risco.” (Relatório do Banco Mundial para 1985.)
O que está
parecendo é que a palavra aniveldí é daquelas que nada transmitem,
entram na frase apenas para esticá-la ou dar a impressão de que o falante é
cobra no assunto que está tratando. Vamos fazer a experiência de expurgá-la de
qualquer das frases acima, e ver se ela faz falta:
“Falando
de atendimento ambulatorial... / ... ter uma estrutura sofisticada para a proteção do
direito do autor. / Pelo
comportamento comunitário me parece... / Em quebra de safra... / Em capacidade de pagar...” (Não nos preocupamos em consertar as
frases, todas formuladas segundo as tortuosidades da mente de seus autores.)
Em suma, não
existe palavra alguma chamada aniveldí, nem precisa existir. O que existe é
muito pedantismo, ou falta do que dizer.

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O Almanach de Piumhy — Ano CLIX — Número 02 — Restaurado por José J. Veiga, 1988, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; J. J. Veiga, ou José Jacintho Pereira Veiga (1915 — 1999), goiano de Corumbá de Goiás, que ao terminar seus
estudos secundários transferiu-se para o Rio de Janeiro e ali formou-se em
Direito, foi jornalista, redator, ficcionista e tradutor, tendo trabalhado nos
periódicos Tribuna da Imprensa, O Globo, Reader's Digest, na BBC — Londres e na coordenação do Depto. Editorial da FGV — Fundação
Getúlio Vargas; considerado um dos maiores autores do realismo fantástico na
literatura brasileira, escreveu e publicou Os Cavalinhos de Platiplanto (1959), A Hora dos Ruminantes (1966), A Estranha Máquina Extraviada (1967), Sombras de
Reis Barbudos (1972), Os Pecados da Tribo (1976), O Professor Burrim e as
Quatro Calamidades (1978), De Jogos e Festas (1980), Torvelinho Dia e Noite (1985), A Casca da Serpente (1989), O Risonho Cavalo do Príncipe (1993), Objetos Turbulentos (1997) e outros títulos; teve obras publicadas nos Estados
Unidos, México, Inglaterra, Espanha, Dinamarca, Suécia, Noruega e Portugal; em
1997, pelo conjunto de sua obra, recebeu o Prêmio Machado de Assis, da Academia
Brasileira de Letras; de sua biografia também consta ter "restaurado" O Almanach de Piumhy — Ano CLIX — Número 02 (1988) e O Almanach de Piumhy — Ano CLX — Número 03 (1989).