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domingo, 16 de julho de 2017

José J. Veiga: Aniveldí

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Você conhece essa palavra?

Ultimamente tem aparecido no vocabulário de pessoas que falam em público ou dão entrevista uma palavra que não consta ainda em nenhum dicionário da língua. Como a palavra vem sendo aplicada quase que exclusivamente pelos chamados tecnocratas e seus admiradores, pensou-se a princípio que fosse um termo exclusivo da cultura oral desse grupo, como o “xadisso” dos escolares, o “simbora” dos caminhoneiros, o “sacumé” dos malandros, o “mequitá” dos roqueiros etc. Seria uma transposição fonética do som de alguma palavra estrangeira? A palavra é haniveldí ou aniveldí pelo menos é assim que soa.

Vamos dar alguns exemplos ouvidos recentemente no rádio e na televisão para ver se algum dos nossos leitores consegue identificar a origem da palavra:
  • De fato, pouco adianta ter uma estrutura sofisticada, aniveldí proteção do direito de autor...” (Informativo do Conselho Nacional de Direito Autoral, Ministério da Cultura.)
  • “Falando aniveldí atendimento ambulatorial...” (Médico na televisão.)
  • “Esse assunto tem que ser examinado aniveldí uma rigorosa avaliação quantitativa dos serviços disponíveis.” (Tecnocrata em debate na Rádio JB.)
  • Aniveldí comportamento comunitário me parece que a proposta não foi bem compreendida.” (Assessor do prefeito Marcelo Alencar em entrevista a O Globo.)
  • Aniveldí quebra de safra, não acho que o Brasil apresente excepcionalidade em comparação com outros países em desenvolvimento”. (Tecnocrata da Seplan falando na TV Globo.)
  • Aniveldí capacidade de pagar os serviços da dívida, os países de renda média importadores de petróleo são os que apresentam maior risco.” (Relatório do Banco Mundial para 1985.)
O que está parecendo é que a palavra aniveldí é daquelas que nada transmitem, entram na frase apenas para esticá-la ou dar a impressão de que o falante é cobra no assunto que está tratando. Vamos fazer a experiência de expurgá-la de qualquer das frases acima, e ver se ela faz falta:

“Falando de atendimento ambulatorial... ... ter uma estrutura sofisticada para a proteção do direito do autor. Pelo comportamento comunitário me parece... Em quebra de safra... Em capacidade de pagar...” (Não nos preocupamos em consertar as frases, todas formuladas segundo as tortuosidades da mente de seus autores.)

Em suma, não existe palavra alguma chamada aniveldí, nem precisa existir. O que existe é muito pedantismo, ou falta do que dizer.

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O Almanach de Piumhy Ano CLIX Número 02 Restaurado por José J. Veiga, 1988, Editora Record, Rio de Janeiro RJ; J. J. Veiga, ou José Jacintho Pereira Veiga (1915 1999), goiano de Corumbá de Goiás, que ao terminar seus estudos secundários transferiu-se para o Rio de Janeiro e ali formou-se em Direito, foi jornalista, redator, ficcionista e tradutor, tendo trabalhado nos periódicos Tribuna da Imprensa, O Globo, Reader's Digest, na BBC — Londres e na coordenação do Depto. Editorial da FGV Fundação Getúlio Vargas; considerado um dos maiores autores do realismo fantástico na literatura brasileira, escreveu e publicou Os Cavalinhos de Platiplanto (1959), A Hora dos Ruminantes (1966), A Estranha Máquina Extraviada (1967), Sombras de Reis Barbudos (1972), Os Pecados da Tribo (1976), O Professor Burrim e as Quatro Calamidades (1978), De Jogos e Festas (1980), Torvelinho Dia e Noite (1985), A Casca da Serpente (1989), O Risonho Cavalo do Príncipe (1993), Objetos Turbulentos (1997) e outros títulos; teve obras publicadas nos Estados Unidos, México, Inglaterra, Espanha, Dinamarca, Suécia, Noruega e Portugal; em 1997, pelo conjunto de sua obra, recebeu o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras; de sua biografia também consta ter "restaurado" O Almanach de Piumhy Ano CLIX Número 02 (1988) e O Almanach de Piumhy Ano CLX Número 03 (1989).