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Nesta
manhã na Holanda
penso em
René Descartes.
Olhando a
água fugir
nos
canais sucessivos
como
fogem os dias
no mar
encarcerado
junto às
casas de câmbio,
eu penso,
logo existo.
E perto
dos navios
e bondes
amarelos
minha
verdade é chama
que não
resiste ao vento.
Ó meu
caro Descartes,
tua
certeza é dúvida
oculta
nas tulipas
abertas
para a noite
de sol e
sacramento.
Todos nós
somos sombras.
Nosso
existir é um sonho
que sonha
o pensamento
entre os
plátanos verdes
e as
vacas apojadas
que
margeiam a estrada
por onde
eu passo e penso.
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Antologia
Poética — Coleção Prestígio: Lêdo Ivo, Seleção de Walmir Ayala e Introdução de Antônio
Carlos Villaça, 1990, Ediouro — Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Lêdo
Ivo (1924 — 2012), alagoano de Maceió, fez o primário no Grupo Escolar D. Pedro
II e o secundário no Colégio Diocesano, bacharelou-se pela Faculdade Nacional
de Direito (hoje UFRJ) e não exerceu a profissão, foi jornalista, poeta, romancista,
contista, cronista, ensaísta e tradutor; em 1938, deu início à colaboração na
imprensa local [Maceió] e teve textos publicados na revista Carioca [Rio de
Janeiro]; em 1940, transferindo-se para Recife, cursou o Colégio
Carneiro Leão e também colaborou na imprensa; em 1942, de volta a Maceió,
concluiu o curso “complementar” no Liceu Alagoano, trabalhou como repórter e,
em 1943, já no Rio de Janeiro, formou-se em Direito, passou a colaborar em suplementos
literários e trabalhou como jornalista; em 1944, estreou na vida poética com a
publicação de As Imaginações; suas obras: em poesia, As Imaginações (1944), Ode
e Elegia (1945), Acontecimento do Soneto (1948), Ode ao Crepúsculo (1948),
Finisterra (poesia, 1972, laureado com o Prêmio Luísa Cláudio de Sousa), A
Noite Misteriosa (1982), Calabar (1985), Mar Oceano (1987), Crepúsculo Civil (1990),
Curral de Peixe (1997) e outros; em prosa, As Alianças (romance [recebeu o
Prêmio Graça Aranha], 1947), O Caminho Sem Aventura (romance, 1948), Lição de Mário
de Andrade (ensaio, 1951), O Preto no Branco. Exegese de um poema de Manuel Bandeira
(ensaio, 1955), A Cidade e os Dias (crônicas, 1957), Raimundo Correia: poesia (ensaio
— apresentação, seleção e notas, 1958), Use a Passagem Subterrânea (contos, 1961),
O Sobrinho do General (romance, 1964), O Flautim (contos, 1966), O Navio Adormecido
no Bosque (crônicas, 1971), Ninho de Cobras (romance, 1973), Modernismo e Modernidade
(ensaio, 1972), Teoria e Celebração (ensaio, 1976), Confissões de um poeta (autobiografia,
1979), A Ética da Aventura (ensaio, 1982), O Canário Azul (infanto-juvenil, 1990),
O aluno relapso (autobiografia, 1991), O Menino da Noite (infanto-juvenil, 1995),
e tantos outros títulos em verso ou prosa, além de ter seus poemas e contos editados
em muitas antologias literárias; Lêdo Ivo, que obteve diversas premiações na
área da literatura, teve obras vertidas para os idiomas espanhol, italiano, inglês,
holandês, francês e sueco e, por sua vez, traduziu Austen, Maupassant, Rimbaud e
Dostoievski; viajou por diversos países das Américas e da Europa.