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quinta-feira, 1 de março de 2012

Lupe Cotrim Garaude: Iniciemos


Meu filho, iniciemos já
nosso diálogo.
Tua vida está suspensa em mim,
inédita seiva nos percorre.
Não sou apenas um, mas dois em ti
 um sangue de esperança nos inunda.
A mesma carne, a que darás outra existência
é veia que nos une, e o mesmo espírito,
onde paira a ânsia de verdade
se desdobra, intacto em tua infância:
que cresças com ele, mais livre
ainda, a realizá-lo por inteiro.

Sei que me aguardam tuas mãos,
primeiro frágeis,
e teus olhos, na procura de conquistar
os contornos deste mundo;
sei que necessitas minhas mãos e meus olhos
para revelar-te os contatos, os significados
e toda me apronto para relatar
esse gratuito mistério, essa fonte
de beleza, que paira
além do céu e da miséria.

Ser-te-á difícil
ser alguém com tanta exigências
e renunciar, para criar relações possíveis
com teu próximo; sei que necessitas
de muita coerência para cresceres justo,
sem ferir-te a tua solidão
na terra desconexa; sei de tua inocência
e desconfiança, força e receio
amor e ódio, e me transformo
mais em caminho do que em seta:
melhor rumo não me ocorre, além
do coração, para servir tua existência.

Um novo tempo surge em mim
a cada instante,
um tempo de futuro,
a que confio tua vida.

O passado depura-se, e guardo
cada dia para ofertar-te
o mais belo poente,
o apelo dos perfumes intensos,
o sentimento exato,
a memória dos encontros totais.
Outra armadura e outra coragem
não sei de dar-te, que esse núcleo
melhor, recolhido da humanidade.

Na tua hesitação e dúvida,

escolha a alternativa
hei de lembrar-te
a sutileza da borboleta
na imensidade do vale;
a constância verde
do mar ininterrupto;
a extrema voz do vento;
a líquida firmeza
da vontade dos rios;
a natureza toda pulsando
no mais grave pensamento.

Meu filho, ofereço-te
uma terra que amo,
um próximo que sinto como próximo
um amanhã que confio,
um universo humano.

Neste amor, que compartilho contigo
no mais ermo de mim
revelo este segredo
onde possas erguer
o amor de ti mesmo.

Meu filho, eis o mundo;
que saibas recebê-lo.
Encontro (1983)
____________________
Roteiro da Poesia Brasileira  Anos 50, Seleção e Prefácio de André Seffrin, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2007, São Paulo  SP; Lupe Cotrim Garaude (1933  1970), ou Maria José Cotrim Garaude (Gianotti), nascida em São Paulo  SP, nos legou a seguinte obra poética: Monólogos do afeto (1956), Raiz comum (1959), Entre a flor e o tempo (1961), Cânticos da terra (1963), O poeta e o mundo (1963), Inventos (1967), Poemas ao outro (1970) e Encontro (1983); além de poeta, foi professora de Estética da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.