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quinta-feira, 2 de junho de 2016

Aníbal Machado *: A Locomotiva

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[A Manuel Bandeira]

Locomotiva
Para onde quer que vás
Aldeia ou porto
Apita.

Para o sul
Para o norte
Há milhões de corpos sob a terra
Milhões de espectros nos vagões.

Trem do amanhecer
Rompe o silêncio branco
Recomeça devagar
Tua marcha de quebra-gelo.

Através de campos carbonizados
Apita, locomotiva,
O longo apito de acordar.

Apita bem alto
Para fora da terra
Para além dos céus.

Apita entre os cemitérios
Apita para o espanto dos que ficaram.
Apita de novo para a vida
Primeiro trem da madrugada.



No Prefácio da 1ª. edição desta Antologia, o poeta Vinícius de Moraes escreveu a propósito dos bissextos: “... poetas que nós, seus íntimos, chamamos cordialmente de bissextos — poetas sem livros de versos — bissextos pela escassez de sua produção, cuja excelência sem embargo os coloca ao lado dos mais citados”.
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Antologia dos Poetas Brasileiros — Bissextos Contemporâneos, Organização de Manuel Bandeira, 1996, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Aníbal Monteiro Machado (1894 1964), mineiro de Sabará, formado em Direito, foi futebolista, professor, promotor, ensaísta, escritor, homem de teatro, ativista cultural e poeta bissexto; seus escritos iniciais foram publicados na revista Vida de Minas, sob o pseudônimo de Antônio Verde; ao mudar-se para o Rio de Janeiro, fez de sua residência um dos pontos de encontro do universo literário-cultural carioca da época  decádas de 40 a 60 , reunindo escritores, artistas plásticos e artistas teatrais; com viva atuação intelectual, é tido como um dos organizadores, animador e introdutor, das vanguardas políticas; convivendo com o Modernismo em sua segunda fase, colaborou com os periódicos Revista de Antropofagia, Estética, Revista Acadêmica e Boletim de Ariel; escreveu também para revistas e suplementos literários dos jornais O Correio da Manhã e Diário do Povo; foi co-fundador, junto com Apparício Torelly  o Barão de Itararé , do periódico O Jornal do Povo; sua obra publicada: O Cinema e sua Influência na Vida Moderna (ensaio, 1941), Vida Feliz (contos, 1944), Cadernos de João (contos, 1957), Novelas Reunidas (contos), João Ternura (romance, 1965), Parque de Diversões (inéditos e dispersos  organização de Raul Antelo, 1994) etc.; participou da formação de grupos teatrais, traduziu e adaptou textos e peças de Anton Tchekhov, Franz Kafka e George Bernanos; como presidente da Associação Brasileira de Escritores, organizou, com Sérgio Milliet, em 1945, o 1º. Congresso Brasileiro de Escritores; como futebolista, foi jogador do time principal do Atlético Mineiro e posteriormente veio a ser diretor do clube.