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Todo homem é uma ilha
(arquipélago às vezes)
sempre pélago:
todo homem é um poço e
neste poço
ninguém mergulha: — o
caminho
do fundo do poço é um
labirinto.
Chega-se a ele — chegar-se-ia —
por uma gruta e ali
ninguém
possui a chave o
abre-te-sésamo
dessa caverna de Ali Babá.
Quem abriria os seus baús?
Pois algum dia
todo homem foi algum
pirata
todo homem, alguma vez,
náufrago foi
no poço do mar
com sua proa seu galeão.
Jazem ali cobertos de
águas
velhos cadernos jamais escritos
talvez escritos — lidos
jamais
de sua história suas
vergonhas
glórias de sonhos e
pesadelos.
Jazem histórias jazem
cardumes dos outros homens
tempos e espaços de
encruzilhada
também mulheres — muitas — algumas
uma talvez também um poço.
Homem nenhum sabe a
história
sabe as histórias de
outros homens.
Todo homem é um poço
se alguém chegar ao fundo
dele
pode encontrar o ouro e a
lama
baú de ossos com seus
destroços:
levanta a tampa — ali
ainda
sua bravura nunca cumprida
sua tristeza sua alegria:
não é preciso saber de
quem
ali ainda estremecera — ainda dói —
o rosto mudo — pureza pura
de um pobre herói.
Copacabana, 9 de janeiro
de 1999
Algumas Partituras — 2002

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Roteiro da Poesia Brasileira — Anos 30, Seleção e Prefácio de Ivan Junqueira, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2008, São Paulo — SP; Gerardo Mello Mourão (1917 — 2007), cearense de Ipueiras, estudou no Seminário São Clemente, em Congonhas do Campo — MG, foi poeta, ficcionista, jornalista, tradutor poliglota, ensaísta, biógrafo e também político conservador; no seminário, além do latim e do grego, aprendeu o holandês, o alemão, o francês, o italiano, o inglês e o espanhol; traduziu textos de Homero e Píndaro, Virgílio e Horácio, Ovídio e Propércio; viajou por países da América e também da Europa, tendo lecionado no Chile e sido correspondente da Folha de São Paulo, em Pequim; foi o primeiro correspondente brasileiro e sul-americano na China; bibliografia: Poesia do homem só (1938), Argentina (1942), Cabo das Tormentas (1950), O Valete de Espadas e as dez elegias (1960), Peripécia de Gerardo (1972, Prêmio Mário de Andrade), Rastro de Apolo (1977), A Invenção do saber (1983), Cânon & Fuga (1999), O sagrado e o profano (2002), Invenção do Mar (1997, recebeu o Prêmio Jabuti — 1999), O Bêbado de Deus (2001), Algumas Partituras (2002) e outros títulos; traduziu Rainer Maria Rilke (O Canto de Amor e Morte do Porta-estandarte Cristóvão Rilke, 1977) etc; político conservador, foi preso diversas vezes e, como deputado federal, cassado pela ditadura militar, em 1969.
Roteiro da Poesia Brasileira — Anos 30, Seleção e Prefácio de Ivan Junqueira, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2008, São Paulo — SP; Gerardo Mello Mourão (1917 — 2007), cearense de Ipueiras, estudou no Seminário São Clemente, em Congonhas do Campo — MG, foi poeta, ficcionista, jornalista, tradutor poliglota, ensaísta, biógrafo e também político conservador; no seminário, além do latim e do grego, aprendeu o holandês, o alemão, o francês, o italiano, o inglês e o espanhol; traduziu textos de Homero e Píndaro, Virgílio e Horácio, Ovídio e Propércio; viajou por países da América e também da Europa, tendo lecionado no Chile e sido correspondente da Folha de São Paulo, em Pequim; foi o primeiro correspondente brasileiro e sul-americano na China; bibliografia: Poesia do homem só (1938), Argentina (1942), Cabo das Tormentas (1950), O Valete de Espadas e as dez elegias (1960), Peripécia de Gerardo (1972, Prêmio Mário de Andrade), Rastro de Apolo (1977), A Invenção do saber (1983), Cânon & Fuga (1999), O sagrado e o profano (2002), Invenção do Mar (1997, recebeu o Prêmio Jabuti — 1999), O Bêbado de Deus (2001), Algumas Partituras (2002) e outros títulos; traduziu Rainer Maria Rilke (O Canto de Amor e Morte do Porta-estandarte Cristóvão Rilke, 1977) etc; político conservador, foi preso diversas vezes e, como deputado federal, cassado pela ditadura militar, em 1969.