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sexta-feira, 13 de abril de 2018

Gerardo Mello Mourão: O poço

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Todo homem é uma ilha (arquipélago às vezes)
sempre pélago:
todo homem é um poço e neste poço
ninguém mergulha:  o caminho
do fundo do poço é um labirinto.

Chega-se a ele  chegar-se-ia 
por uma gruta e ali ninguém
possui a chave o abre-te-sésamo
dessa caverna de Ali Babá.

Quem abriria os seus baús? Pois algum dia
todo homem foi algum pirata
todo homem, alguma vez, náufrago foi
no poço do mar
com sua proa seu galeão.

Jazem ali cobertos de águas
velhos cadernos jamais escritos
talvez escritos  lidos jamais
de sua história suas vergonhas
glórias de sonhos e pesadelos.

Jazem histórias jazem cardumes dos outros homens
tempos e espaços de encruzilhada
também mulheres  muitas  algumas
uma talvez também um poço.

Homem nenhum sabe a história
sabe as histórias de outros homens.

Todo homem é um poço
se alguém chegar ao fundo dele
pode encontrar o ouro e a lama
baú de ossos com seus destroços:
levanta a tampa  ali ainda
sua bravura nunca cumprida
sua tristeza sua alegria:
não é preciso saber de quem
ali ainda estremecera  ainda dói 
o rosto mudo  pureza pura
de um pobre herói.

Copacabana, 9 de janeiro de 1999
Algumas Partituras  2002

Imagem relacionada
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Roteiro da Poesia Brasileira  Anos 30, Seleção e Prefácio de Ivan Junqueira, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2008, São Paulo — SP; Gerardo Mello Mourão (1917  2007), cearense de Ipueiras, estudou no Seminário São Clemente, em Congonhas do Campo MG, foi poeta, ficcionista, jornalista, tradutor poliglota, ensaísta, biógrafo e também político conservador; no seminário, além do latim e do grego, aprendeu o holandês, o alemão, o francês, o italiano, o inglês e o espanhol; traduziu textos de Homero e Píndaro, Virgílio e Horácio, Ovídio e Propércio; viajou por países da América e também da Europa, tendo lecionado no Chile e sido correspondente da Folha de São Paulo, em Pequim; foi o primeiro correspondente brasileiro e sul-americano na China; bibliografia: Poesia do homem só (1938), Argentina (1942), Cabo das Tormentas (1950), O Valete de Espadas e as dez elegias (1960), Peripécia de Gerardo (1972, Prêmio Mário de Andrade), Rastro de Apolo (1977), A Invenção do saber (1983), Cânon & Fuga (1999), O sagrado e o profano (2002), Invenção do Mar (1997, recebeu o Prêmio Jabuti — 1999), O Bêbado de Deus (2001), Algumas Partituras (2002) e outros títulos; traduziu Rainer Maria Rilke (O Canto de Amor e Morte do Porta-estandarte Cristóvão Rilke, 1977) etc; político conservador, foi preso diversas vezes e, como deputado federal, cassado pela ditadura militar, em 1969.