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Pela manhã, calçaram lhe- sapatos
de sono. E à tarde, alegres inimigos
pintaram suas mãos, murchas, ausentes,
para esconder-lhe o último espetáculo.
Rude neblina vem molhar-lhe os ossos,
o seu olhar ferido e a sua face
densa, todas as magras vestes frias
e os pés vazios, interminavelmente.
É uma flauta dormindo? Um tênue mapa
que se desprende dos seus próprios rumos?
Ele agora está só, largo e preciso,
perfeito como o tempo, mas sem luta.
Ele agora viaja e nos seus ombros
leva o espanto das coisas terminadas.
Os Instrumentos do Tempo — 1958

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Roteiro
da Poesia Brasileira — Anos 50, Seleção e Prefácio de André
Seffrin, Direção de Edla van Steen, primeira edição, 2007,
Editora Global, São Paulo — SP; Antônio Fernando Pessoa Ferreira (1932 — 2010), pernambucano de Olinda, jornalista desde os 21 anos, foi também escritor e poeta;
trabalhou nos jornais Diário Carioca, Correio da Manhã e Última Hora, nas
revistas Manchete e Cruzeiro, no Rio de Janeiro, e na Folha da Tarde, Folha de São
Paulo e revistas do Grupo Abril, em São Paulo; num período sombrio ditadura iniciada
em 1964, foi preso em 1969, acusado de hospedar um procurado pelos militares;
colaborou com o semanário O Pasquim; bibliografia: Os Instrumentos do Tempo (poesias,
ganhador do Prêmio Fábio Prado, 1958), Em Redor do A (poesias, 1967), Os Fantasmas
da Gaveta (contos, 1983), O Umbigo do Anjo (contos, 1998), Os Demônios Morrem Duas Vezes (romance, 2005), O Assobio da Foice
(romance, 2010).