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sábado, 3 de julho de 2021

Marques de Azevedo: Sodade do ranchinho

 
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Na sombra duma perêra,
Nascida na ribancêra,
No meio dum parmitá
Era a casinha da Dita,
A morena mais bunita
E facêra do arraiá.

Eu vou contá pra vancêis:
Foi numa festa de Reis
Que nóis dois se cunhecemo.
Eu sirrí, ela me viu,
Sirrí mais, ela sirriu,
E ansim foi que nóis se amêmo.

Casemo, fiz um ranchinho,
Na berada dum corguinho,
Donde cantava a perdiz.
Lá dentro puis meu amô,
No terrêro prantei frô,
Préla podê sê feliz.

Tudo dia, na paióça,
Quano eu vortava da roça,
E tava oiano as panela,
Ela jurava, jurava,
Que era só eu que lhe amava,
Pru resto da vida dela!

Numa tarde triste e feia,
Quando eu cheguei lá da ardêia,
Achei vazio o meu rancho.
Na porta tava caído,
Um lenço, meu conhecido,
Que era do Juca do Sancho.

Botei na cinta a garrucha,
Muntei na besta gaúcha,
E fui seguino o fadário,
Numa vórta de caminho,
Discobrí os dois juntinho,
Cumo um casá de canário.

Só dois tiro... e dois defunto
Ficaro na estrada junto,
E, eu, já fais desasseis ano,
No fundo duma cadeia,
Na afrição que turtuvêia,
Passei chorano, chorano.

Onte fui vê meu ranchinho,
Num achei. O coitadinho,
Se acabô cas tempestade,
Mais, no jardim do terrêro,
Inda encontrei num cantêro
A frô chamada sodade!

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Poemas Caipiras — Marques de Azevedo, Apresentação/Prefácio de Sebastião Noronha, 1957, Editora Acaiaca, Belo Horizonte — MG; Alfredo Marques de Azevedo (1892  ?  ), mineiro de Santa Rita do Sapucaí, foi advogado e juiz, jornalista e poeta; fundou e dirigiu a revista A Flama; no exercício de sua profissão jurídica, andejou por várias localidades do interior mineiro; obras: Em memória de Rui Barbosa, Versos de outrora, Poemas Caipiras (1957) e outros; em 1957, o autor anunciava estar no prelo as obras Reverso da vida — contos, A festa de Zazá — comédia e Anedotário Forense; Marques de Azevedo, autor da letra do hino de Resplendor MG, morou em Abaeté, também em MG.

quarta-feira, 3 de março de 2021

Marques de Azevedo: Papai Noé

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Era véspa de Natá...
Que alegria no arraiá,
Pra maió festa do ano!
Os grande e os piquinino
Escuitano a vóis dos sino,
Tava contente cantano.

A Teresinha, inocente,
Só pensava no presente
Que préla Deus ia dá...
As fia do coroné
Falô num papai Noé
Que às criança sabe amá.

Botô duas chinelinha
Num cantinho da cozinha
E ansim sonhano drumia.
Cedinho foi num repente
Percurá os seus presente
Mais elas tavam vazia.

Eu disse, então:  Teresinha,
Ocê é memo bobinha...
O tar Noé é ridico.
Ele prus pobre é só fita,
Só trais as coisa bunita
Prus que são fio de rico!

 Eu sei que Nosso Sinhô
Os meus brinquedo botô
Dentro das renda dum saco.
Mais as chinela é tão véia
Que Deus botô as tetéia
Que sumiro prus buraco.

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Poemas Caipiras — Marques de Azevedo, Apresentação/Prefácio de Sebastião Noronha, 1957, Editora Acaiaca, Belo Horizonte — MG; Alfredo Marques de Azevedo (1892   ?  ), mineiro de Santa Rita do Sapucaí, foi advogado e juiz, jornalista e poeta; fundou e dirigiu a revista A Flama; no exercício de sua profissão, andejou por várias localidades do interior mineiro; bibliografia: Em memória de Rui Barbosa, Versos de outrora, Poemas Caipiras (1957) e outros; em 1957, o autor anunciava estar no prelo as obras Reverso da vida — contos, A festa de Zazá — comédia e Anedotário Forense; Marques de Azevedo, autor da letra do hino de Resplendor MG; morou em Abaeté, também em MG.

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Marques de Azevedo: Os treis Natá

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A história que eu vou contá...
Vanceis vai me perdoá,
Si eu chegá no fim chorano.
É a história da minha fia.
Nhana Piadade Maria,
Que morreu na frô dos ano.

Quano nasceu, ela tinha
Zoinho preto e a pelinha
Rosada cumo uma rosa.
Era memo tão bonita,
Que vanceis nem aquerdita...
Tão bunita e tão fermosa!

Foi no Natá, eu se alembro...
Vinte e cinco de dezembro,
Dum ano bem afastado.
Cunvidei tudo os amigo
Pra vim se alegrá cumigo,
Na festa do batizado...

E foi cresceno, cresceno...
O seu sumbrante moreno
Tinha tanta sumpatia,
Que um dia o Juca Procela
Quereu se casá cum ela...
Quiria porque quiria...

Ôtro Natá foi chegado...
Tuda a gente do Povoado
Se amuntuano num momento,
Pra mode vê minha fia,
Cum tanta graça e alegria,
Na hora do casamento.

Numa casa piquinina,
Bem no meio da campina,
Cós passarinho cantano,
Ela vivia contente...
Inté que ficou duente,
Cada veis mais definhano!

Veio o tercêro Natá.
Tudo era verde: o arrozá,
As roça, as arve e os fruto...
Mais meu pobre coração,
Oiano aquele caxão,
Se cubriu de dô e luto!...

O enterro antão foi siguino,
De gavazinho, sumino
Numa quebrada da serra...
Dispois... os sino chorano,
O caxão foi-se afundano,
Nos sete parmo de terra!

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Poemas Caipiras — Marques de Azevedo, Apresentação/Prefácio de Sebastião Noronha, 1957, Editora Acaiaca, Belo Horizonte — MG; Alfredo Marques de Azevedo (1892   ?  ), mineiro de Santa Rita do Sapucaí, foi advogado e juiz, jornalista e poeta; fundou e dirigiu a revista A Flama; no exercício de sua profissão, andejou por várias localidades do interior mineiro; bibliografia: Em memória de Rui Barbosa, Versos de outrora, Poemas Caipiras (1957) e outros; em 1957, o autor anunciava estar no prelo as obras Reverso da vida — contos, A festa de Zazá — comédia e Anedotário Forense; Marques de Azevedo, autor da letra do hino de Resplendor MG; morou em Abaeté, também em MG.

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Marques de Azevedo: Piloto

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Eu falo e afirmo o que digo:
Entre os miór dos amigo,
Tá o cachorro, pra gente.
Hoje penso na amizade
Do meu Piloto, e a sodade
Me entristece de repente.

Bamo, Piloto, campeá...
Ele pegô a sartá
E ansim, na frente correu.
Entremo, antão, na capoêra,
Buscano a vaca Facêra
Que do currá suverteu.

Ali perto dum cupim,
Maranhado de capim,
O Piloto me cercô.
E custasse o que custasse,
Quiria, apois, que eu vortasse,
Pelo memo carreadô.

Me agarrô nas mãos e perna
E numa afrição que inferna,
Nos terrão me féis caí.
Cuidei qui ele tava loco,
Percurei no chão um toco
E matei o pobre ali.

Quano no cupim cheguei
E no sapezá pisei,
Sinti um górpe no pé.
Dei um sarto na macéga,
Co a vista já quase cega,
Rastano uma cascavé!

 E agora eu vivo alejado
Capengano, amofinado
Sem meu amigo querido.
E quano o só vai sumino,
E a lua cheia subino
Inda escuito o seu gemido.

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Poemas Caipiras — Marques de Azevedo, Apresentação/Prefácio de Sebastião Noronha, 1957, Editora Acaiaca, Belo Horizonte — MG; Alfredo Marques de Azevedo (1892   ?  ), mineiro de Santa Rita do Sapucaí, foi advogado e juiz, jornalista e poeta; fundou e dirigiu a revista A Flama; no exercício de sua profissão, andejou por várias localidades do interior mineiro; bibliografia: Em memória de Rui Barbosa, Versos de outrora, Poemas Caipiras (1957) e outros; em 1957, o autor anunciava estar no prelo as obras Reverso da vida — contos, A festa de Zazá — comédia e Anedotário Forense; Marques de Azevedo, autor da letra do hino de Resplendor  MG; morou em Abaeté, também em MG.

domingo, 30 de agosto de 2020

Marques de Azevedo: Duda

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Num posso cocê, Benfica.
Se eu tô bem vestido, fala
Que é preu namorá nas sala,
As fia de gente rica.

Se tô má vestido, crama
Que eu tô pra Zefa tombado...
Que é só o home que ama
Que véve ansim relaxado.

Pur isso eu vistí agora,
Palitó novo da Orora
E carça véia a valê

Pra mostrá pus faladô
Que ocê é que é meu amô...
Que gosto memo é docê.

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Poemas Caipiras — Marques de Azevedo, Apresentação/Prefácio de Sebastião Noronha, 1957, Editora Acaiaca, Belo Horizonte — MG; Alfredo Marques de Azevedo (1892   ?  ), mineiro de Santa Rita do Sapucaí, foi advogado e juiz, jornalista e poeta; fundou e dirigiu a revista A Flama; no exercício de sua profissão, andejou por várias localidades do interior mineiro; bibliografia: Em memória de Rui Barbosa, Versos de outrora, Poemas Caipiras (1957) e outros; em 1957, o autor anunciava estar no prelo as obras Reverso da vida — contos, A festa de Zazá — comédia e Anedotário Forense; Marques de Azevedo, autor da letra do hino de Resplendor MG, morou em Abaeté, também em MG.