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[traduzido por Péricles
Eugênio da Silva Ramos]
Tanto a cabra cavou-se que mau
pouso sente,
Tanto o pote vai à água que há
de se quebrar,
Tanto se esquenta o ferro que
se põe candente,
Tanto o malham que irá em
pedaços terminar;
Tanto se afasta alguém que o
deixam de lembrar,
Tanto quanto o prezamos é o
valor de alguém,
Tanto ele é mau que muitos hão
de o desprezar,
Tanto clamamos por Natal que
ele enfim vem.
Tanto alguém fala que de si
mesmo dissente,
Tanto vale o bom nome como em
graça estar,
Tanto promete alguém que enfim
desdiz o assente,
Tanto se pede que afinal se há
de ganhar,
Tanto algo é caro, tanto é
mais de procurar,
Tanto o procuram que hão de o
conseguir também,
Tanto é comum, é tanto menos
de buscar,
Tanto clamamos por Natal que
ele enfim vem.
Tanto o cão é estimado que
acha o que o alimente,
Tanto corre a canção, que até
se faz trautear,
Tanto se guarda a fruta, que
apodrece, gente!
Tanto a praça é forçada, que
há de se entregar,
Tanto se apressa que não vai
sair-se bem;
Tanto abraçamos que o abraçado
há de arriar,
Tanto clamamos por Natal que
ele enfim vem.
Tanto graceja alguém, que não
ri finalmente,
Tanto se gasta que a camisa
vai faltar,
Tanto alguém dá que não tem
mais o que apresente,
Tanto vale “aí tens” como algo
a se gozar,
Tanto alguém ama a Deus, que a
Igreja há de acatar **,
Tanto se esbanja que o pedir
por fim advém,
Tanto o vento se move que há
de o norte aflar,
Tanto clamamos por Natal que
ele enfim vem.
Príncipe, tanto vive que cria
juízo, o alvar;
Tanto alguém vai que a vez da
volta sobrevém,
Tanto lhe batem que até siso
há de mostrar,
Tanto clamamos por Natal que
ele enfim vem.
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| François Villon |
Ballade des Proverbes
Tant grate chievre que mal
gist,
Tant va le pot a l'eaue qu'il
brise,
Tant chauffe-on le fer qu'il
rougist,
Tant le maille on qu'il se
debrise,
Tant vault l'homme comme on le
prise,
Tant s'eslongne il qu'il n'en
souvient,
Tant mauvais est qu'on le
desprise,
Tant crie l'on Noel qu'il
vient.
Tant parle on qu’on se
contredist,
Tant vault bon bruyt que grace
acquise,
Tant promet on qu’on s’en
desdist,
Tant prie on que chose est
acquise,
Tant plus est chiere et plus
est quise,
Tant la quiert on qu’on y
parvient,
Tant plus commune et moins
requise,
Tant crie l’on Noel qu’il
vient.
Tant ayme on chien qu'on le
nourrist,
Tant court chanson qu'elle est
apprise,
Tant garde on fruit qu'il se
pourrist,
Tant bat on place qu'elle est
prise,
Tant tarde on que fault
entreprise,
Tant se haste on que mal
advient,
Tant embrasse on que chiet la
prise,
Tant crie l'on Noel qu'il
vient.
Tant raille on que plus on
n’en rit,
Tant despent on qu'on n'a
chemise,
Tant est on franc que tout y
frit,
Tant vault “tien” que chose
promise,
Tant ayme on Dieu qu'on suit
l'Eglise,
Tant donne on qu'emprunter
convient,
Tant tourne vent qu'il chiet
en bise,
Tant crie l'on Noel qu'il
vient.
Prince, tant vit fol qu'il
s'avise,
Tant va il qu'après il
revient,
Tant le mate on qu'il se
ravise,
Tant crie l'on Noel qu'il
vient.
Notas de Péricles Eugênio da
Silva Ramos:
* Deve-se o título a P. L.
Jacob (1854);
** “A religião de Villon
também se define em um só provérbio. A fé completamente simples do filho da
pobre paroquiana do mosteiro, essa fé que é tão-só amor de Deus e nada deve à
inteligência dos mestres teólogos da Sorbonne, essa fé mantém o poeta no seio
da Igreja, seja o que for que pense dela. Mas é preciso muito amor a Deus para
seguir a Igreja naqueles temos de lutas e de incertezas” (Favier, Jean).
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Poemas de François Villon — Tradução, Notícia e Notas de Péricles
Eugênio da Silva Ramos, Coleção Toda Poesia 2, 1986, Art Editora, São
Paulo — SP; François Villon (1431 — desaparecido em 1463),
pseudônimo de François de Montcorbier ou François de Loges, francês e
parisiense, fez bacharelado, licenciatura e mestrado na Faculdade de Artes
da Universidade de Paris e é considerado o precursor dos poetas malditos do
romantismo; ainda estudante, envolveu-se em episódio de roubo de um marco da
escola, feriu de morte um sacerdote que lhe provocara e, Villon, também ferido,
deixou Paris, mas depois obteve duas cartas de remissão pelo homicídio; após,
participou do roubo do tesouro do Colégio de Navarra e, descoberto por
deduragem de um outro que deu com a língua nos dentes, novamente ausentou-se de
Paris, tendo levado vida errante na província, andejado pelas estradas e se
misturado com marginais; consta ter sido preso em Orléans, depois libertado por
indulto de Luís XI e, de retorno a Paris, foi outra vez encarcerado, agora no
Châtelet; mais uma vez, por envolver-se em rixa de companheiros com os escreventes
de mestre Ferrebouc, foi condenado à morte, mas a pena foi depois transformada
em desterro de Paris, por dez anos, sentença essa dada pela Corte do
Parlamento; foi nessa ocasião que escreveu a célebre ‘Balada dos Enforcados’;
paralela a essa vida de errância crescia a sua fama como poeta, o mais faz
parte das lendas criadas em torno de seu nome e de seus escritos; eis o que nos
relata e nos apresenta Péricles Eugênio da Silva Ramos em sua ‘Notícia sobre
François Villon’, deste Poemas; bibliografia: entre tantas
baladas e rondós, Le Lais (Legado, 1457), Le Testament (O
Testamento, 1461), Ballade des Pendus (Balada dos Enforcados, 1462).