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quinta-feira, 18 de março de 2021

Bertolt Brecht: Soneto para a nova edição de François Villon

 
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[traduzido por André Vallias]

E eis aqui, de um decomposto papel
De novo impresso o testamento no qual
Ele legou a todos que conheceu
Sujeira em sua leitura, façam um sinal!

Onde está a saliva que vocês cus-
piram nele? E ele próprio, a quem vocês deram
As costas? Suas canções fizeram-lhe jus
Mas quanto tempo ainda as canções terão?

Em vez de fumegar nove ou dez charutos
Leiam aqui (pela mesmíssima monta)
Tudo o que ele pensou de seus atributos.

Onde achar cáustico tão barato assim?
Que cada um retire o que tem em conta!
Eu mesmo já tirei um tanto pra mim...

[1930]

Bertolt Brecht


Sonett zur Neuausgabe des Francois Villon

Hier habt ihr aus verfallendem Papier
Noch einmal abgedruckt sein Testament,
In dem er Dreck schenkt allen, die er kennt —
Wenn’s ans Verteilen geht: schreit, bitte "Hier!"

Wo ist euer Speichel, den ihr auf ihn spiet?
Wo ist er selbst, dem eure Buckel galten?
Sein Lied hat noch am längsten ausgehalten
Doch wie lang hält es wohl noch aus, sein Lied?

Hier, anstatt daß ihr zehn Zigarren raucht
Könnt ihr zum gleichen Preis es nochmal lesen
(und so erfahren, was ihr ihm gewesen…)

Wo habt ihr Saures für drei Mark bekommen?
Nehm jeder sich heraus, was er grad braucht!
Ich selber hab mir was herausgenommen…

[1930]
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Bertolt Brecht — Poesia, Introdução e Tradução de André Vallias, bilíngue, 2019, Editora Perspectiva, 1ª edição, São Paulo — SP; Eugen Bertholt Friedrich Brecht (1898 1956), alemão de Augsburg Baviera, foi dramaturgo, encenador e poeta; em 1917 iniciou o curso de Medicina, em Munique, mas, tendo sido convocado pelo exército, na Primeira Guerra, trabalhou como enfermeiro em hospital militar; em 1933, com a ascensão de Hitler, deixa a Alemanha, exilando-se primeiro na Dinamarca, depois nos Estados Unidos e na Suiça; em 1948, de volta à Alemanha, funda a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção artística, Baal (texto de 1918/produção em 1926), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1918/1920), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938) e tantos outros textos escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

François Villon: Balada a sua amiga *

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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]

Falsa beleza, caro vens a me custar;
Rude efetivamente, hipócrita dulçor,
Amor mais duro do que ferro a se mascar,
Nomear-te posso irmã de minha grande dor,
Cessar de um pobre coração, charme traidor,
Orgulho oculto que se põe ao perecer;
Ímpio olhar, não quer Direito, em seu rigor, 1
Se tudo vai piorar, um pobre socorrer?

Muito melhor ter-me-ia sido procurar
Além socorro, o que viria em meu honor;
Rumo nenhum do amor podia me afastar.
Trotar, tal se me impõe, em fuga e desonor.
Heu, heu, socorro, o grande ajude-me, e o menor!
E que é isto? Sem nem golpear hei de morrer?
Ou a Piedade quer, por todo este teor, 2
Se tudo vai piorar, um pobre socorrer?

Tempo virá que há de fazer amarelar,
Murchar, secar vossa desabrochada flor.
Rir-me-ia, se pudesse a boca descerrar.
Mas não, não passaria isso de candor.
Velho estarei, e estareis vós feia e sem cor.
Bebei bastante, quanto possa em rio haver.
Portanto não causeis a todos esta dor,
Se tudo vai piorar, um pobre socorrer.

Príncipe 3, que és de todos o maior no amor,
Não queira em vosso desagrado eu incorrer;
Impõe-se a um coração leal, por Deus Senhor,
Se tudo vai piorar, um pobre socorrer.

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Ballade a s’Amye

Faulse beauté qui tant me couste chier,
Rude en effect, ypocrite doulceur,
Amour dure plus que fer a maschier,
Nommer que puis, de ma desfaçon seur,
Cherme félon, la mort d'ung povre cuer,
Orgueil mussié qui gens met au mourir,
Yeulx sans pitié, ne veult Droit de Rigueur,
Sans empirer, ung povre secourir?

Mieulx m'eust valu avoir esté serchier
Ailleurs secours: c'eust esté mon honneur;
Riens ne m’eust sceu lors de ce fait hachier.
Trotter m'en fault en fuyte a deshonneur.
Haro, haro, le grant et le mineur!
Et qu'est ce cy? Mourray sans coup ferir?
Ou Pitié veult, selon ceste teneur,
Sans empirer, ung povre secourir?

Ung temps viendra qui fera dessechier,
Jaunir, flestrir vostre espanye fleur;
Je m'en risse, se tant peusse maschier
Lors; mais nennil, ce seroit donc foleur:
Viel je seray; vous, laide, sans couleur;
Or beuvez fort, tant que ru peut courir;
Ne donnez pas à tous cette douleur,
Sans empirer, ung povre secourir.

Prince amoureux, des amans le greigneur,
Vostre mal gré ne vouldroye encourir,
Mais tout franc cuer doit pour Nostre Seigneur,
Sans empirer, ung povre secourir.


Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos:
* “O Testamento”, v. 942-969. O título é de Marot. A primeira estrofe traz FRANÇOIS em acróstico. A segunda, MARTHE. Tratar-se-ia de um amor transitório;
1 Ímpio... rigor, ] Direito, personificado.
2 Ou... teor,] idem
3 Príncipe ] crê-se em geral que Charles d’Orléans (1391 – 1465), o poeta; mas A. Burger pensa em René d’Anjou, rei da Sicília e de Jerusalém, hipótese em que Villon teria estado efetivamente em Angers.
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Villon — Balada dos Enforcados e Outros Poemas, Tradução, Introdução e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 2008, Editora Hedra, São Paulo — SP; François Villon (1431 desaparecido em 1463), pseudônimo de François de Montcorbier ou François de Loges, francês e parisiense, fez bacharelado, licenciatura e mestrado na Faculdade de Artes da Universidade de Paris e é considerado precursor dos poetas malditos do romantismo; ainda estudante, envolveu-se em episódio de roubo de um marco da escola, feriu de morte um sacerdote que lhe provocara e, Villon, também ferido, deixou Paris, mas depois obteve duas cartas de remissão pelo homicídio; após, participou do roubo do tesouro do Colégio de Navarra e, descoberto por deduragem de um outro que deu com a língua nos dentes, novamente ausentou-se de Paris, tendo levado vida errante na província, andejado pelas estradas e se misturado com marginais; consta ter sido preso em Orléans, depois libertado por indulto de Luís XI e, de retorno a Paris, foi outra vez encarcerado, agora no Châtelet; mais uma vez, por envolver-se em rixa de companheiros com os escreventes de mestre Ferrebouc, foi condenado à morte, mas a pena foi depois  transformada em desterro de Paris, por dez anos, sentença essa dada pela Corte do Parlamento; foi nessa ocasião que escreveu a célebre Balada dos Enforcados; paralela a essa vida de errância crescia a sua fama como poeta, o mais faz parte das lendas criadas em torno de seu nome e de seus escritos; eis o que nos relata e nos apresenta Péricles Eugênio da Silva Ramos em sua ‘Notícia sobre François Villon’, deste Villon — Balada dos Enforcados...; sua bibliografia: entre tantas baladas e rondós, Le Lais (Legado, 1457), Le Testament (O Testamento, 1461), Ballade des Pendus (Balada dos Enforcados, 1462).

sexta-feira, 24 de maio de 2019

François Villon: Balada de Margot, a Encorpada *

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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]

Se eu amo a bela e a sirvo do maior bom grado,
     Deveis tomar-me por pateta ou por vilão?
     Tem ela bens, em si, do mais perfeito agrado.
     Por seu amor, daga e broquel medo me dão;
     Quando vem gente, corro e a um pote levo a mão,
     Eu fujo para o vinho sem fazer rumor 1;
     Queijo, água, pão e vinho ponho ao seu dispor.
     “Ótimo!” eu digo-lhes se acaso pagam bem;
     “Voltai aqui, ao vos tomar do cio o ardor,
     Neste bordel que em boa vida nos mantém.”

Revelo-me, contudo, em grande desagrado
     Quando Margot se vem deitar sem um tostão;
     De morte a odeio, não a posso ver ao lado.
     Tomo-lhe a roupa, o cinto e a sobreveste, então,
     E juro que isso valerá o meu quinhão.
     Segura os lados. “É o Anticristo! 2”  ergue o clamor;
     Jura pela paixão de nosso Salvador
     Que não há de deixar. Eu pego um pau, porém,
     E embaixo do nariz lhe escrevo, com rancor,
     Neste bordel que em boa vida nos mantém.

Mais do que venenoso escaravelho inflado,
     Depois que a paz é feita, ocorre-me um punzão.
     Ela ri e o cocuruto meu vejo esmurrado.
     Diz-me “Go, go”, na coxa dá-me um safanão.
     Ébrios os dois, dormimos com disposição,
     E ao despertar, se tem no ventre esto, calor,
     Monta em mim, para que não perca o seu favor.
     Sob ela gemo, tábua chata no vaivém.
     Ela destrói-me todo com o lascivo humor,
     Neste bordel que em boa vida nos mantém.

Vento, granizo, gelo, está cozido o pão.
     Segue-me a dissoluta, eu sendo garanhão.
     Quem vale mais? Um e outra têm afinação.
     Valem-se os dois: mau gato a rato mau convém.
     Sujeira vem atrás, se amamos sujidão;
     À honra fugimos, foge-nos a retidão 3,
     Neste bordel que em boa vida nos mantém.

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Ballade de la grosse Margot

Se j'ayme et sers la belle de bon hait.
     M'en devez vous tenir ne vil ne sot?
     Elle a en soy des biens a fin souhait.
     Pour son amour sains bouclier et passot;
     Quand viennent gens, je cours et happe un pot,
     Au vin m'en fuis, sans demener grand bruit;
     Je leur tens eaue, frommage, pain et fruit.
     S'ilz payent bien, je leur dis “Bene stat;
     Retournez cy, quand vous serez en ruit,
     En ce bordeau ou tenons notre estat!"

Mais adoncques il y a grand deshait
     Quand sans argent s'en vient couchier Margot;
     Veoir ne la puis, mon coeur a mort la hait.
     Sa robe prens, demi-ceint et surcot,
     Si luy jure qu'il tendra pour l’escot.
     Par les costés se prent “c’est Antecrist”
     Crie, et jure par la mort Jhesucrist
     Que non fera. Lors j’empongne un esclat;
     Dessus son nez luy en fais ung escript,
     En ce bordeau ou tenons notre estat.

Puis paix se fait et me fait ung gros pet
     Plus enflé qu'ung velimeux escharbot.
     Riant, m'assiet son poing sur mon sommet,
     Gogo me dit, et me fiert le jambot.
     Tous deux yvres, dormons comme ung sabot.
     Et, au resveil, quand le ventre luy bruit,
     Monte sur moy, que ne gaste son fruit.
     Soubz elle geins, plus qu'un aiz me fait plat;
     De paillarder tout elle me destruit,
     En ce bordeau ou tenons nostre estat.

Vente, gresle, gelle, j'ai mon pain cuit.
     Ie suis paillart, la paillarde me suit.
     Lequel vault mieulx? Chascun bien s'entresuit.
     L'ung vault l'autre; c'est a mau rat mau chat.
     Ordure aimons, ordure nous assuit;
     Nous deffuyons onneur, il nous deffuit,
     En ce bordeau ou tenons notre estat.

Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos:
* “O Testamento”, v. 15911627. O título é de Marot. Quanto à “Grosse Margot” há os que a tomam como personagem real; outros, como o nome de uma hospedaria, à sombra de Notre-Dame; P. Champion vê a influência das “sottes ballades”, nas quais se narravam amores populares e ridículos com mulheres sujas, fétidas e corcundas, mas não julga que a balada de Villon seja mero exercício literário. Na primeira estrofe, “há um Villon que abre a porta, que segura a vela, que procura a comida e a bebida do cliente” (Favier);
1 Eu... rumor;] “É o que se diz do marido complacente que deixa o quarto à companheira, quer vá ou não buscar o vinho na adega enquanto a mulher lucra ou se diverte no leito conjugal” (Favier);
2 Anticristo] ou o poeta ou Margot, conforme o editor;
3 1116 ...] No orig. (versos 11 a 16) há um acróstico, “Villon”, que desta vez não pude manter.
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Villon — Balada dos Enforcados e Outros Poemas, Tradução, Introdução e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 2008, Editora Hedra, São Paulo — SP; François Villon (1431 desaparecido em 1463), pseudônimo de François de Montcorbier ou François de Loges, francês e parisiense, fez bacharelado, licenciatura e mestrado na Faculdade de Artes da Universidade de Paris e é considerado o precursor dos poetas malditos do romantismo; ainda estudante, envolveu-se em episódio de roubo de um marco da escola, feriu de morte um sacerdote que lhe provocara e, Villon, também ferido, deixou Paris, mas depois obteve duas cartas de remissão pelo homicídio; após, participou do roubo do tesouro do Colégio de Navarra e, descoberto por deduragem de um outro que deu com a língua nos dentes, novamente ausentou-se de Paris, tendo levado vida errante na província, andejado pelas estradas e se misturado com marginais; consta ter sido preso em Orléans, depois libertado por indulto de Luís XI e, de retorno a Paris, foi outra vez encarcerado, agora no Châtelet; mais uma vez, por envolver-se em rixa de companheiros com os escreventes de mestre Ferrebouc, foi condenado à morte, mas a pena foi depois transformada em desterro de Paris, por dez anos, sentença essa dada pela Corte do Parlamento; foi nessa ocasião que escreveu a célebre Balada dos Enforcados; paralela a essa vida de errância crescia a sua fama como poeta, o mais faz parte das lendas criadas em torno de seu nome e de seus escritos; eis o que nos relata e nos apresenta Péricles Eugênio da Silva Ramos em sua ‘Notícia sobre François Villon’, deste Villon — Balada dos Enforcados...; sua bibliografia: entre tantas baladas e rondós, Le Lais (Legado, 1457), Le Testament (O Testamento, 1461), Ballade des Pendus (Balada dos Enforcados, 1462).

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

François Villon: Balada das Pequenas Falas *

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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]

Moscas no leite eu as conheço bem,
Conheço o homem pelo seu trajar,
Conheço o tempo bom e o mau também,
Pela macieira a fruta sei julgar,
Conheço a árvore se a goma espiar,
Conheço quando tudo é claro, enfim:
Conheço o ocioso e o que é de trabalhar,
Tudo conheço, caso exclua a mim.

Pelo colete o gibão sei de alguém,
O monge sei pelo hábito que usar,
Sei o amo pelo criado que mantém,
A freira, pelo véu que ela ostentar,
O trapaceiro, pelo linguajar,
O louco, pois de creme faz festim **,
Pelo tonel o vinho sei notar,
Tudo conheço, caso exclua a mim.

Sei se o mulo e o cavalo não convêm,
Sei a carga que podem suportar,
Isabel e Beatriz, sei qual é quem,
Sei os tentos que servem de somar,
Sei a visão do sono separar,
Sei dos boêmios a heresia ruim ***,
Sei de Roma o poder transmilenar,
Tudo conheço, caso exclua a mim.

Príncipe, eu sei, de tudo estou a par,
Conheço os de tez branca ou de carmim,
Sei que a Morte vem tudo consumar,
Tudo conheço, caso exclua a mim.

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Ballade des Menus Propos

Je congnois bien mouches en let,
Je congnois à la robe l’homme,
Je congnois le beau temps du let,
Je congnois au pommier la pomme.
Je congnois l’arbre à veoir la gomme,
Je congnois quand tout est de mesmes,
Je congnois qui besongne ou chomme
Je congnois tout, fors que moy mesmes.

Je congnois pourpoint au colet,
Je congnois le moyne à la gonne,
Je congnois le maistre au varlet,
Je congnois au voille la nonne,
Je congnois quant pipeur jargonne,
Je congnois fols nourris de cresmes,
Je congnois le vin à la tonne,
Je congnois tout, fors que moy mesmes.

Je congnois cheval et mulet,
Je congnois leur charge et leur somme,
Je congnois Bietris et Belet,
Je congnois get qui nombre et somme,
Je congnois vision et somme,
Je congnois la faulte des Boesmes,
Je congnois le povoir de Romme,
Je congnois tout, fors que moy mesmes.

Prince, je congnois tout en somme,
Je congnois coulourez et blesmes,
Je congnois Mort qui tout consomme,
Je congnois tout, fors que moy mesmes.


Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos:
** O título da balada foi dado por P. L. Jacob (1854);
** Segundo a tradição, os loucos se alimentavam de queijo;
*** Alusão à heresia dos hussitas na Boêmia. Condenado pelo Concílio de Constança, João Huss foi queimado vivo em 1415. Seus partidários encetaram rebeliões que só terminaram em 1471.
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Poemas de François Villon — Tradução, Notícia e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, Coleção Toda Poesia 2, 1986, Art Editora, São Paulo — SP; François Villon (1431  desaparecido em 1463), pseudônimo de François de Montcorbier ou François de Loges, francês e parisiense, fez bacharelado, licenciatura e mestrado na Faculdade de Artes da Universidade de Paris e é considerado o precursor dos poetas malditos do romantismo; ainda estudante, envolveu-se em episódio de roubo de um marco da escola, feriu de morte um sacerdote que lhe provocara e, Villon, também ferido, deixou Paris, mas depois obteve duas cartas de remissão pelo homicídio; após, participou do roubo do tesouro do Colégio de Navarra e, descoberto por deduragem de um outro que deu com a língua nos dentes, novamente ausentou-se de Paris, tendo levado vida errante na província, andejado pelas estradas e se misturado com marginais; consta ter sido preso em Orléans, depois libertado por indulto de Luís XI e, de retorno a Paris, foi outra vez encarcerado, agora no Châtelet; mais uma vez, por envolver-se em rixa de companheiros com os escreventes de mestre Ferrebouc, foi condenado à morte, mas a pena foi depois transformada em desterro de Paris, por dez anos, sentença essa dada pela Corte do Parlamento; foi nessa ocasião que escreveu a célebre Balada dos Enforcados; paralela a essa vida de errância crescia a sua fama como poeta, o mais faz parte das lendas criadas em torno de seu nome e de seus escritos; eis o que nos relata e nos apresenta Péricles Eugênio da Silva Ramos em sua ‘Notícia sobre François Villon’, deste Poemas; sua bibliografia: entre tantas baladas e rondós, Le Lais (Legado, 1457), Le Testament (O Testamento, 1461), Ballade des Pendus (Balada dos Enforcados, 1462).

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

François Villon: Balada Final *

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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]

(O Testamento, vv. 1996-2023) **

Do mísero Villon, o testamento
Aqui se encerra, aqui tem conclusão,
Vinde todos ao seu sepultamento
Se ouvirdes a sineta do pregão,
Com roupas rubras como vermelhão ***,
Que ele mártir de amores sucumbiu.
Foi isso o que jurou por seu colhão ****,
Quando ele deste mundo se partiu.

E creio bem nesse esclarecimento:
Foi enxotado como um porcalhão
Por seus amores, de que modo odiento!
Tanto que, desde aqui até o Rossilhão,
Mato não há, matinho nem matão,
Que não tivesse, e nisso não mentiu,
Algum trapo tirado ao seu calção,
Quando ele deste mundo se partiu.

Assim é, e assim sendo, em complemento,
Quando morreu, ele era um farrapão;
Também, quando morreu, que sofrimento!
Do amor o trespungia o aguilhão;
Mais pontiagudo do que o fuzilhão
De um talabarte, assim ele o sentiu
(E isso nos causa grande admiração)
Quando ele deste mundo se partiu.

Príncipe, da nobreza de um falcão,
Sabei o que ele fez quando caiu:
Tombou do vinho tinto em profusão,
Quando ele deste mundo se partiu.

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Ballade Finale

Icy se clost le testament
Et finist du pouvre Villon.
Venez a son enterrement,
Quant vous orrez le carillon,
Vestuz rouges com vermillon,
Car en amours mourut martir;
Ce jura il sur son couillon
Quand de ce monde voult partir.

Et je croy bien que pas n'en ment;
Car chassié fut comme un souillon
De ses amours hayneusement,
Tant que, d'icy a Roussillon,
Brosses n'y a ne brossillon,
Qui n'eust, ce dit-il sans mentir,
Ung lambeau de son cotillon,
Quand de ce monde voult partir.

Il est ainsi, et tellement,
Quand mourut n'avoit qu'un haillon;
Qui plus, en mourant, mallement 
L'espoignoit d'Amours l'esguillon:
Plus agu que le ranguillon
D'un baudrier luy faisoit sentir,
C'est de quoy nous esmerveillon,
Quand de ce monde voult partir.

Prince, gent comme esmerillon,
Sachiez qu’il fist au departir:
Ung traict but de vin morillon,
Quant de ce monde voult partir.


Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos:
* O título é o que figura em André Mary (editor de François Villon: Ouvres);
** Em ‘Notícia sobre François Villon’ deste Poemas de François Villon, o tradutor Péricles Eugênio nos informa que a obra O Testamento “compreende 183 oitavas (1488 versos), com o esquema de rimas ababbcbc, e em cujas estrofes se intercalam 16 baladas e 3 rondós, cerca de um quarto do poema, com 535 versos;
*** “As vestes rubras lembram a cor dos ornamentos litúrgicos da festa dos santos mártires, entre os quais se alinha Villon. Simbolizando o sangue das vítimas, o vermelho apela para a vingança divina” (Pierre Michel, Villon: Poésies complètes);
**** Thuasne vê nesse juramento grotesco uma deformação do brocardo Testis unus testis nullus para Testiculus, testis nullus. De qualquer modo, o testiculus, etimologicamente, é a “pequena testemunha”.
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Poemas de François Villon — Tradução, Notícia e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, Coleção Toda Poesia 2, 1986, Art Editora, São Paulo — SP; François Villon (1431  desaparecido em 1463), pseudônimo de François de Montcorbier ou François de Loges, francês e parisiense, fez bacharelado, licenciatura e mestrado na Faculdade de Artes da Universidade de Paris e é considerado o precursor dos poetas malditos do romantismo; ainda estudante, envolveu-se em episódio de roubo de um marco da escola, feriu de morte um sacerdote que lhe provocara e, Villon, também ferido, deixou Paris, mas depois obteve duas cartas de remissão pelo homicídio; após, participou do roubo do tesouro do Colégio de Navarra e, descoberto por deduragem de um outro que deu com a língua nos dentes, novamente ausentou-se de Paris, tendo levado vida errante na província, andejado pelas estradas e se misturado com marginais; consta ter sido preso em Orléans, depois libertado por indulto de Luís XI e, de retorno a Paris, foi outra vez encarcerado, agora no Châtelet; mais uma vez, por envolver-se em rixa de companheiros com os escreventes de mestre Ferrebouc, foi condenado à morte, mas a pena foi depois transformada em desterro de Paris, por dez anos, sentença essa dada pela Corte do Parlamento; foi nessa ocasião que escreveu a célebre Balada dos Enforcados; paralela a essa vida de errância crescia a sua fama como poeta, o mais faz parte das lendas criadas em torno de seu nome e de seus escritos; eis o que nos relata e nos apresenta Péricles Eugênio da Silva Ramos em sua ‘Notícia sobre François Villon’, deste Poemas; bibliografia: entre tantas baladas e rondós, Le Lais (Legado, 1457), Le Testament (O Testamento, 1461), Ballade des Pendus (Balada dos Enforcados, 1462).

sábado, 9 de dezembro de 2017

François Villon: Balada dos Provérbios *

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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]

Tanto a cabra cavou-se que mau pouso sente,
Tanto o pote vai à água que há de se quebrar,
Tanto se esquenta o ferro que se põe candente,
Tanto o malham que irá em pedaços terminar;
Tanto se afasta alguém que o deixam de lembrar,
Tanto quanto o prezamos é o valor de alguém,
Tanto ele é mau que muitos hão de o desprezar,
Tanto clamamos por Natal que ele enfim vem.

Tanto alguém fala que de si mesmo dissente,
Tanto vale o bom nome como em graça estar,
Tanto promete alguém que enfim desdiz o assente,
Tanto se pede que afinal se há de ganhar,
Tanto algo é caro, tanto é mais de procurar,
Tanto o procuram que hão de o conseguir também,
Tanto é comum, é tanto menos de buscar,
Tanto clamamos por Natal que ele enfim vem.

Tanto o cão é estimado que acha o que o alimente,
Tanto corre a canção, que até se faz trautear,
Tanto se guarda a fruta, que apodrece, gente!
Tanto a praça é forçada, que há de se entregar,
Tanto se apressa que não vai sair-se bem;
Tanto abraçamos que o abraçado há de arriar,
Tanto clamamos por Natal que ele enfim vem.

Tanto graceja alguém, que não ri finalmente,
Tanto se gasta que a camisa vai faltar,
Tanto alguém dá que não tem mais o que apresente,
Tanto vale “aí tens” como algo a se gozar,
Tanto alguém ama a Deus, que a Igreja há de acatar **,
Tanto se esbanja que o pedir por fim advém,
Tanto o vento se move que há de o norte aflar,
Tanto clamamos por Natal que ele enfim vem.

Príncipe, tanto vive que cria juízo, o alvar;
Tanto alguém vai que a vez da volta sobrevém,
Tanto lhe batem que até siso há de mostrar,
Tanto clamamos por Natal que ele enfim vem.

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François Villon

Ballade des Proverbes

Tant grate chievre que mal gist,
Tant va le pot a l'eaue qu'il brise,
Tant chauffe-on le fer qu'il rougist,
Tant le maille on qu'il se debrise,
Tant vault l'homme comme on le prise,
Tant s'eslongne il qu'il n'en souvient,
Tant mauvais est qu'on le desprise,
Tant crie l'on Noel qu'il vient.

Tant parle on qu’on se contredist,
Tant vault bon bruyt que grace acquise,
Tant promet on qu’on s’en desdist,
Tant prie on que chose est acquise,
Tant plus est chiere et plus est quise,
Tant la quiert on qu’on y parvient,
Tant plus commune et moins requise,
Tant crie l’on Noel qu’il vient.

Tant ayme on chien qu'on le nourrist,
Tant court chanson qu'elle est apprise,
Tant garde on fruit qu'il se pourrist,
Tant bat on place qu'elle est prise,
Tant tarde on que fault entreprise,
Tant se haste on que mal advient,
Tant embrasse on que chiet la prise,
Tant crie l'on Noel qu'il vient.

Tant raille on que plus on n’en rit,
Tant despent on qu'on n'a chemise,
Tant est on franc que tout y frit,
Tant vault “tien” que chose promise,
Tant ayme on Dieu qu'on suit l'Eglise,
Tant donne on qu'emprunter convient,
Tant tourne vent qu'il chiet en bise,
Tant crie l'on Noel qu'il vient.

Prince, tant vit fol qu'il s'avise,
Tant va il qu'après il revient,
Tant le mate on qu'il se ravise,
Tant crie l'on Noel qu'il vient.


Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos:
* Deve-se o título a P. L. Jacob (1854);
** “A religião de Villon também se define em um só provérbio. A fé completamente simples do filho da pobre paroquiana do mosteiro, essa fé que é tão-só amor de Deus e nada deve à inteligência dos mestres teólogos da Sorbonne, essa fé mantém o poeta no seio da Igreja, seja o que for que pense dela. Mas é preciso muito amor a Deus para seguir a Igreja naqueles temos de lutas e de incertezas” (Favier, Jean).
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Poemas de François Villon — Tradução, Notícia e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, Coleção Toda Poesia 2, 1986, Art Editora, São Paulo — SP; François Villon (1431  desaparecido em 1463), pseudônimo de François de Montcorbier ou François de Loges, francês e parisiense, fez bacharelado, licenciatura e mestrado na Faculdade de Artes da Universidade de Paris e é considerado o precursor dos poetas malditos do romantismo; ainda estudante, envolveu-se em episódio de roubo de um marco da escola, feriu de morte um sacerdote que lhe provocara e, Villon, também ferido, deixou Paris, mas depois obteve duas cartas de remissão pelo homicídio; após, participou do roubo do tesouro do Colégio de Navarra e, descoberto por deduragem de um outro que deu com a língua nos dentes, novamente ausentou-se de Paris, tendo levado vida errante na província, andejado pelas estradas e se misturado com marginais; consta ter sido preso em Orléans, depois libertado por indulto de Luís XI e, de retorno a Paris, foi outra vez encarcerado, agora no Châtelet; mais uma vez, por envolver-se em rixa de companheiros com os escreventes de mestre Ferrebouc, foi condenado à morte, mas a pena foi depois transformada em desterro de Paris, por dez anos, sentença essa dada pela Corte do Parlamento; foi nessa ocasião que escreveu a célebre ‘Balada dos Enforcados’; paralela a essa vida de errância crescia a sua fama como poeta, o mais faz parte das lendas criadas em torno de seu nome e de seus escritos; eis o que nos relata e nos apresenta Péricles Eugênio da Silva Ramos em sua ‘Notícia sobre François Villon’, deste Poemas; bibliografia: entre tantas baladas e rondós, Le Lais (Legado, 1457), Le Testament (O Testamento, 1461), Ballade des Pendus (Balada dos Enforcados, 1462).