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domingo, 27 de abril de 2025

Giosuè Carducci: A morte de Eugênio Napoleão

 
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[traduzido por Jamil Almansur Haddad]

Este a inconsciente azagaia bárbara
prostrou tirando dos olhos fúlgidos
vida em que riam as visões
flutuantes pelo azul imenso.

Outro beijado pelas austríacas
plumas, sonhando pela alba gélida
a diana e o rufo pugnasse,
dobrou como pálido jacinto.

Ambos das mães distantes: e as mórbidas
tranças florentes de puerícia
eram como à espera do sulco
da maternal carícia. E em vez,

a sombra viu estas almas núbiles
sem um conforto: e até nem o pátrio
louvor seguia os rastros seus
com voz de amor e com voz de glória.

Isto não foi, ó filho de Hortênsia,
o prometido na infância,
pois em Paris tu lhe pediste
a sorte longe de rei de Roma.

De Sebastopol paz e vitória
iam ninando com as asas límpidas
o pequeno: Europa admirava:
a coluna esplendia como um fogo.

Mas de dezembro, mas de brumário
cruento é o lodo, a neblina é pérfida:
não crescen arbustos pela aura,
ou dão frutos de dinza e veneno.

Ó solitária casa de Ajaccio,
que grandes qüercos sombreiam vírides
e os cumes coroam serenos
diante de quem o amor é cantiga!

Aí Letícia, belo nome itálico,
feito de dor por todos os séculos,
esposa foi: foi mãe ditosa
por breve tempo e apenas e ali,

lançado aos tronos o raio último,
dadas ao povo leis de concórdia,
devias, cônsul, entre o mar
e o deus a que oras retirar-te.

Familiar sombra, mora Letícia
na casa vaga: nenhuma auréola
cesária a cinge: ora a mãe corsa
existe posta entre tumbas e aras.

Sou fatal filho, o de olhos de águia,
as filhas, bem como a aurora esplêndidas,
netos que são bela esperança,
todos fenecem bem longe dela.

Vai pelas noites a corsa Níobe,
está na porta aonde iam férvidos
para o batismo os filhos e ora
estende os braços pelo mar árduo.

Implora, implora, se das Américas,
se da Inglaterra, se da ardente África
alguém de sua trágica prole
a morte faça vir ao seu seio.

(Odes bárbaras)


Per la morte di Napoleone Eugenio

Questo la inconscia zagaglia barbara
prostrò, spegnendo li occhi di fulgida
vita sorrisi da i fantasmi
fluttuanti ne l’azzurro immenso.

L’altro, di baci sazio in austriache
piume e sognante su l’albe gelide
le dïane e il rullo pugnace,
piegò come pallido giacinto.

Ambo a le madri lungi; e le morbide
chiome fiorenti di puerizia
pareano aspettare anche il solco
de la materna carezza. In vece

balzâr ne ’l buio, giovinette anime,
senza conforti; né de la patria
l’eloquio seguivali al passo
co i suon’ de l’amore e de la gloria.

Non questo, o fósco figlio d’Ortensia,
non questo avevi promesso al parvolo:
gli pregasti in faccia a Parigi
lontani i fati del re di Roma.

Vittoria e pace da Sebastopoli
sopían co ’l rombo de l’ali candide
il piccolo: Europa ammirava:
la Colonna splendea come un faro.

Ma di decembre, ma di brumaio
cruento è il fango, la nebbia è perfida:
non crescono arbusti a quell’aure,
o dan frutti di cenere e tòsco.

O solitaria casa d’Aiaccio,
cui verdi e grandi le querce ombreggiano
e i poggi coronan sereni
e davanti le risuona il mare!

Ivi Letizia, bel nome italico
che omai sventura suona ne i secoli,
fu sposa, fu madre felice,
ahi troppo breve stagione! ed ivi,

lanciata a i troni l’ultima folgore,
date concordi leggi tra i popoli,
dovevi, o consol, ritrarti
fra il mare e Dio cui tu credevi.

Domestica ombra Letizia or abita
la vuota casa; non lei di Cesare
il raggio precinse: la còrsa
madre visse fra le tombe e l’are.

Il suo fatale da gli occhi d’aquila,
le figlie come l’aurora splendide,
frementi speranza i nepoti,
tutti giacquer, tutti a lei lontano.

Sta ne la notte la còrsa Niobe,
sta sulla porta donde al battesimo
le uscíano i figli, e le braccia
fiera tende su ’l selvaggio mare:

e chiama, chiama, se da l’Americhe,
se di Britannia, se da l’arsa Africa
alcun di sua tragica prole
spinto da morte le approdi in seno.

(Odi Barbare [prima edizione] — 1877)
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Poesias Escolhidas: Giosuè Carducci, Tradução e Notas de Jamil Almansur Haddad, Estudo Introdutivo e Vida e Obra de Giosuè Carducci, por Paul Renucci, Ilustrações de Michel Cauvet e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Giosuè Carducci, por Gunnar Ahlström — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1971, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Giosuè Alessandro Giuseppe Carducci ou Joshua Carducci (1835 1907), italiano de Val di Castello, comuna de Pietrasanta, hoje Pietrasanta-Carducci, estudou na Scuola Normale de Pisa, formou-se em Filosofia e Filologia, além de ter sido professor por quase meio século, foi poeta e crítico; até os quatorze anos, Carducci não teve outro mestre além de seus pais o pai, médico “sem fortuna”, era “sustentado por uma clientela camponesa miserável” e também não era favorecido na busca de uma “clínica mais afortunada” por manter suas opiniões políticas não ao gosto das comunidades por onde passava, assim vivia mudando de localidade e de sede de clínica; foi em Florença que o poeta, já aos quatorze anos, passou a frequentar o colégio Scuole Pio, fez dois anos de retórica, escreveu seus primeiros sonetos, depois frequentou um curso de ciências e continuou com seus estudos“, o gosto já adquirido pela leitura cresceu, leu Os Noivos, de Manzoni, os épicos Ilíada, de Homero, Eneida, de Virgílio, Jerusalém Libertada, de Torquato Tasso, os “poemas cavaleirescos” Orlando Amoroso, de Boiardo, e Orlando Furioso, de Ariosto; deu aulas em estabelecimentos secundários de San Miniato al Tedesco e Pistóia e, desde os vinte e cinco anos, lecionou Literatura Italiana na Faculdade de Letras da Universidade de Bolonha; também escreveu poemas por quase meio século o primeiro que se tem conservado, A Dio, um soneto a Deus, foi escrito em maio de 1848, e o último, uma quadra, O Castelo de São Martinho, traz a data de 10 de novembro de 1902; suas obras: em poesia: Rime (1857), Inno a Satana (1863), Levia Gravia [1857—1870?] (1868), Poesie (edição, num só volume, de Deccenalli [1860—1870], Levia Gravia [1857—1870] e Juvenilia [1850—1857], 1871), Primavere elleniche (1872), Nuove poesie (1873, e 2ª edição melhorada e aumentada, 1875), Odi Barbare (primeira série, 1877), Juvenilia [1850—1857] (edição definitiva, 1880), Nuove Odi Barbare (1882, 2ª edição melhorada e aumentada, 1886), Ça Ira (1883), Rime Nuove (1887), Terze Odi Barbare (1889), Rime e Ritme (1899), em prosa: Ricordi Autobiografici, Saggi e Frammenti [1850—1907], Prose Giovanili [1851—1859], Primi Sagi [1857—1865], Poeti e Figure del Risorgimento [1858—1901], Petrarca e Boccacio [1861—1882], Scritti di Storia e di Erudizione [1862—1895], Dante [1864—1904], Discorsi Letterari e Storicci [1868—1897], Leopardi e Manzoni [1873—1898], todas publicadas entre 1940 e 1942, além de outras publicações e reedições em verso e prosa; Giosuè Carducci foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1906.