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terça-feira, 10 de março de 2026

Góngora: Ora que a competir com teu cabelo . . . [soneto]

 
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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos *]

13 – 1582

Ora que a competir com teu cabelo
ouro brunhido ao sol reluz em vão,
e com desprezo, no relvoso chão,
vê tua branca fronte o lírio belo;

ora que ao lábio teu, para colhê-lo,
se olha mais do que ao cravo temporão,
e ora que triunfa com desdém loução
teu colo do cristal, que luz com zelo;

colo, cabelo, fronte, lábio ardente
goza, enquanto o que foi na hora dourada
ouro, lírio, cristal, cravo luzente

não só em prata ou víola cortada
se torna, mas tu e isso juntamente
em terra, em fumo, em pó, em sombra, em nada.

Luis de Góngora

13 – 1582

      Mientras por competir con tu cabello,
oro bruñido al sol relumbra en vano,
mientras con menosprecio en medio el llano
mira tu blanca frente el lilio bello;

      mientras a cada labio, por cogello,
siguen más ojos que al clavel temprano,
y mientras triunfa con desdén lozano
del luciente cristal tu gentil cuello;

      goza cuello, cabello, labio y frente,
antes que lo que fué en tu edad dorada
oro, lilio, clavel, cristal luciente,

      no sólo en plata o víola troncada
se vuelva, mas tú y ello juntamente
en tierra, en humo, en polvo, en sombra, en nada.

* Nota de Péricles Eugênio da Silva Ramos: Assinala D. A. [Dámaso Alonso, filólogo, 1898 —1990] que sobre este soneto se tem apontado influência do de Bernardo Tasso com anáforas de mentre nos três primeiros versos ímpares, mas as imagens variam, diz o ensaísta, dentro do habitual nos sonetos do tema do Carpe diem. Os versos 9 e 11 são correlativos: o colo é cristal, o cabelo é ouro, a fronte é lírio e o lábio é cravo. V. 12: A acentuação de víola na 6ª sílaba parece indicar observância por G. [Góngora], neste caso, da quantidade latina.
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Poemas de Góngora — Tradução, Introdução e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, edição bilíngue, 1988, Art Editora, São Paulo — SP; Luis de Góngora y Argote (1561 1627), espanhol e cordobês, estudou no Colegio de la Compañía de Jesús de Córdoba, foi poeta do período barroco, dramaturgo e padre; foi/é considerado líder da corrente literária autodenominada cultismo e desenvolvedor de um estilo, o gongorismo, reconhecido pelo uso sistemático continuado de ‘hipérboles, metáforas obscuras e dubiedades’ em seus textos; fez estudos religiosos em Salamanca, matriculou-se em Cânones, ordenou-se sacerdote; sabia latim, lia italiano e português; desde 1580, o ambiente literário da época já reconhecia Gôngora, mencionava-o e citava parte dos textos gongorianos, reproduzindo soneto em obra de outro literato; em 1603, em Valladolid, Gôngora teve “incansável carreira como poeta da nobreza e da realeza”, em 1605, já em Córdoba, seus poemas compuseram a antologia Flores de Poetas Ilustres; andejou por Madrid, Alcalá, Álava, Pontevedra, Granada, sempre expondo seus poemas e criando outros; em 1617, já poeta renomado, ordenou-se padre, tinha 56 anos de idade, assumiu o cargo de Capelão Real em Madrid e também foi cônego da Catedral de Córdoba; consta de sua biografia que, em vida, o poeta não publicou nenhum livro, suas poesias circularam em manuscritos; antologias publicadas no século XX foram baseadas no "manuscrito Chacón ([3 tomos], 1625-1628)”, feito/compilado por dom Antonio Chacón [y Ponce de Léon], amigo de Góngora; obra poética (“94 romances, 121 ‘letrillas’ e outras composições de ‘arte menor’, 167 sonetos, 33 composições de ‘arte maior’ e 3 poemas longos): Fábula de Polifemo y Galatea (1612 1613), Soledades (1612 1613), Panegírico Al Duque de Lerma (longo poema “de estilo elevado”, 1617), Fábula de Píramo y Tisbe (1618); Góngora, além dos sonetos e dos romances poéticos, também compôs duas peças teatrais: Las finezas de Isabela e El doctor Carlino; quase sempre o poeta passou por dificuldades e “angústias” financeiras, particularmente na velhice quando, doente, se viu “incapaz até mesmo de segurar a pena”; no ambiente literário, conviveu e rivalizou com os também poetas e dramaturgos Francisco de Quevedo (1580 1645) e Lope de Vega (1562 1635).

quarta-feira, 26 de março de 2025

John Keats: Ao Ver os Mármores de Elgin


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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]

Fraco está meu espírito a mortalidade
Oprime-me demais, qual sono indesejado;
Cada pico ou abismo de divino fado
De que não deixo de morrer me persuade,

Morrer como águia enferma, o olhar ao céu voltado.
É contudo um prazer amável prantear
Que eu os nebulosos ventos não haja de guardar
Frescos para o olho da manhã, mal descerrado.

Essas glórias que a ideia forma vagamente
Cercam de intensa má vontade o coração:
Tais maravilhas trazem dor e confusão

Que mesclam a grandeza grega com o inclemente
Passar do velho Tempo com um mar fremente
  Um sol a sombra de sublime condição.

John Keats

On Seeing the Elgin Marbles *

My spirit is too weak mortality
    Weighs heavily on me like unwilling sleep,
    And each imagin’d pinnacle and steep
Of godlike hardship tells me I must die
Like a sick Eagle looking at the sky.
    Yet ’tis a gentle luxury to weep
    That I have not the cloudy winds to keep,
Fresh for the opening of the morning’s eye.
Such dim-conceived glories of the brain
    Bring round the heart an undescribable feud;
So do these wonders a most dizzy pain,
    That mingles Grecian grandeur with the rude
Wasting of old time with a billowy main
    A sun a shadow of a magnitude.

* Nota do tradutor Péricles Eugênio da Silva Ramos: Keats foi ver os mármores que lorde Elgin trouxera da Grécia, os do frontão sul do Partenon, em companhia de Haydon, a quem enviou um par de sonetos a propósito. Isso antes de 3 de março de 1817 — data em que Haydon agradeceu a remessa —, tendo sido os dois sonetos publicados no Examiner e no Champion quase em seguida, no dia 9. [verso] 8 — olho da manhã: o sol. [verso] 14 — the shadow of a magnitude: “a concepção de algo tão grandioso que só pode ser obscuramente apreendido” (Allott).
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Poemas de John Keats — edição bilíngue, Tradução, Introdução e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, Coleção Toda Poesia 1, 1987, 2ª edição revista, Art Editora, São Paulo — SP; John Keats (1795 1821), britânico de Londres, teve educação irregular, abandonou os estudos e as práticas de medicina para se dedicar às letras e foi o último dos expoentes do Romantismo na literatura inglesa, ao lado de Byron e Shelley, seus contemporâneos; compôs odes e sonetos, teve seu primeiro poema, o soneto ‘O Solitude’, publicado no Examiner, jornal editado por seu amigo Leigh Hunt, jornalista, ensaísta e também poeta; suas obras: Poems (1817), Endymion (Endimião, 1818), Hyperion (inconcluso, 1819), The Eve of St. Agnes and Other Poems (A Véspera de Santa Inês, poema narrativo, 1820), Isabella, Lamia; morreu jovem, em Roma, de tuberculose.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

John Keats: Esta Mão Viva


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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]

Esta mão viva, agora quente e pronta
Para um sincero aperto, se estivesse fria
E ao silêncio gélido da tumba,
Viria de tal forma te obsedar os dias
E esfriar-te as noites sonhadoras
Que quererias esgotar o sangue de teu coração
Para que em minhas veias
Pudesse inda uma vez correr a vida rubra
E tranquila tivesses a consciência:
Vê-a, aqui está, estendo-a para ti.

John Keats

This Living Hand *

This living hand, now warm and capable
Of earnest grasping, would, if it were cold
And in the icy silence of the tomb,
So haunt thy days and chill thy dreaming nights
That thou wouldst wish thine own heart dry of blood
So in my veins red life might stream again,
And thou be conscience-calm’dsee here it is
I hold it towards you.

* Nota do tradutor Péricles Eugênio da Silva Ramos: Estes versos foram escritos, talvez, em novembro ou dezembro de 1819, numa página do manuscrito de “The Cap and Bells”, parece que durante a composição do poema. Supõem alguns que fossem dirigidos a Fanny Brawne; outros que se destinavam a utilização posterior, em peça ou poema. Como se vê, simples conjeturas.
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Poemas de John Keats — edição bilíngue, Tradução, Introdução e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, Coleção Toda Poesia 1, 1987, 2ª edição revista, Art Editora, São Paulo — SP; John Keats (1795 1821), britânico de Londres, teve educação irregular, abandonou os estudos e as práticas de medicina para se dedicar às letras e foi o último dos expoentes do Romantismo na literatura inglesa, ao lado de Byron e Shelley, seus contemporâneos; compôs odes e sonetos, teve seu primeiro poema, o soneto ‘O Solitude’, publicado no Examiner, jornal editado por seu amigo Leigh Hunt, jornalista, ensaísta e também poeta; suas obras: Poems (1817), Endymion (Endimião, 1818), Hyperion (inconcluso, 1819), The Eve of St. Agnes and Other Poems (A Véspera de Santa Inês, poema narrativo, 1820), Isabella, Lamia; morreu jovem, em Roma, de tuberculose.

quarta-feira, 10 de julho de 2024

John Keats: Ao Sono


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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]

Tu que embalsamas meia-noite, a sossegada,
    E que bondoso fechas, com esse toque atento,
Olhos, da luz guardados, a que a treva agrada,
    Ensombrecidos em divino esquecimento;
Sono, ó bem suave! fecha, se isso te convém,
    Em meio a este hino teu, meus olhos que consentem,
Ou que tua papoula atire, só no amém,
    Em torno ao leito meu esmolas que acalentem.
    Salva-me então do inquisitivo pensamento,
Que pelas trevas com suas forças vem
Cavar como toupeira: ou voltar-me-á a brilhar
    No travesseiro o dia, em si tão doloroso!
Na fechadura faze a chave, hábil, girar,
    E sela de minha alma o escrínio silencioso.

John Keats

To Sleep *

O soft embalmer of the still midnight,
    Shutting, with careful fingers and benign,
Our gloom-pleas'd eyes, embower'd from the light,
    Enshaded in forgetfulness divine:
O soothest Sleep! if so it please thee, close
    In midst of this thine hymn my willing eyes,
Or wait the "Amen," ere thy poppy throws
    Around my bed its lulling charities.
Then save me, or the passed day will shine
Upon my pillow, breeding many woes,
    Save me from curious Conscience, that still lords
Its strength for darkness, burrowing like a mole;
    Turn the key deftly in the oiled wards,
And seal the hushed Casket of my Soul.

* Nota do tradutor Péricles Eugênio da Silva Ramos: Em data de 30 de abril de 1819, Keats transcreveu para George e Georgina [seu irmão e sua cunhada] este soneto experimental em matéria de rimas, que obedecem ao seguinte esquema: abab cdcd bc efef, prendendo o sistema de rimas da sextilha final às da oitava. 11 [11º verso] — lords, hoards. Há no original um problema textual, sendo a variante hoards de [Richard] Woodhouse, mas perfilhada uma vez por Keats. Há precedente para lords no Endimião, explicando Garrod que neste soneto significa “captained”, “marshalled”. “Conscience marshals, arrays, disposes proudly and boastfully, its power for darkness.” Na tradução o problema desaparece na paráfrase: com suas forças vem.
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Poemas de John Keats — edição bilíngue, Tradução, Introdução e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, Coleção Toda Poesia 1, 1987, 2ª edição revista, Art Editora, São Paulo — SP; John Keats (1795 1821), britânico de Londres, teve educação irregular, abandonou os estudos e as práticas de medicina para se dedicar às letras e foi o último dos expoentes do Romantismo na literatura inglesa, ao lado de Byron e Shelley, seus contemporâneos; compôs odes e sonetos, teve seu primeiro poema, o soneto ‘O Solitude’, publicado no Examiner, jornal editado por seu amigo Leigh Hunt, jornalista, ensaísta e também poeta; suas obras: Poems (1817), Endymion (Endimião, 1818), Hyperion (inconcluso, 1819), The Eve of St. Agnes and Other Poems (A Véspera de Santa Inês, poema narrativo, 1820), Isabella, Lamia; morreu jovem, em Roma, de tuberculose.

sábado, 27 de abril de 2024

Carvalho Júnior*: Antropofagia**

 
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[a Fontoura Xavier, poeta socialista]

Mulher! ao ver-te nua, as formas opulentas
Indecisas luzindo à noite, sobre o leito,
Como um bando voraz de lúbricas jumentas,
Instintos canibais refervem-me no peito.

Como a besta feroz a dilatar as ventas
Mede a presa infeliz por dar-lhe o bote a jeito,
Do meu fúlgido olhar às chispas odientas
Envolvo-te, e, convulso, ao seio meu t'estreito:

E ao longo de teu corpo elástico, onduloso,
Corpo de cascavel, elétrico, escamoso,
Em toda essa extensão pululam meus desejos,

Os átomos sutis, os vermes sensuais,
Cevando a seu talante as fomes bestiais
Nessas carnes febris, esplêndidos sobejos!

(Parisina, pág. 89)


Notas:
* Do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: em 60 Poetas Trágicos [L&PM, 2016], o organizador Sergio Faraco registra acerca do poeta Carvalho Junior:
Foi um dos nossos primeiros parnasianos, aposto aos românticos por um traço que um crítico chamou de realismo urbano. Ele chocou os contemporâneos pelo naturalismo com que abordava temas eróticos, mas não chocou quem era sábio: foi elogiado por Machado de Assis, que comentou seus sonetos no livro Crítica [e variedades], nos seguintes termos: ‘Nunca, em nenhum outro poeta nosso, apareceu essa nota violenta, tão exclusivamente carnal [...]. Crus em demasia são os seus quadros; mas não é comum aquele vigor, não é vulgar aquele colorido’. E conclui: ‘Um poeta de raça’. Carvalho Junior é o nosso Baudelaire. Esse poeta soberbo morreu quando era pouco mais do que um menino e nos legou apenas duas dúzias de poemas.
** De Péricles Eugênio da Silva Ramos, organizador deste Panorama da Poesia Brasileira, Volume III – Parnasianismo:
Antropofagia — dedicada “a Fontoura Xavier, poeta socialista”’.
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Panorama da Poesia Brasileira, Volume III — Parnasianismo, por Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1959, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Francisco Antônio de Carvalho Júnior (1855 1879), nascido no Rio de Janeiro, formou-se pela Faculdade de Direito de São Paulo (hoje USP Largo São Francisco), foi promotor público, juiz e poeta considerado como um dos precursores do simbolismo; Péricles registra que “junto com Teófilo Dias, Carvalho Júnior pode ser tomado como o principal poeta do realismo brasileiro”; escreveu e publicou Parisina (1879), uma parte desse volume póstumo, enfeixada sob o título “Hespérides”, contém 22 composições poéticas; foi colaborador do jornal paulistano A República; morreu jovem, sofria do coração.

quarta-feira, 10 de abril de 2024

W. B. Yeats: A Fascinação do que é Difícil *


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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]

A fascinação do que é difícil, a fascinação
Secou-me as veias e alugou o júbilo
Espontâneo e o prazer do coração.
Nosso potro, algo tem-no incomodado:
Fingindo não possuir sangue sagrado
Ou de nuvem em nuvem não saltar no Olimpo,
Ele tem de tremer com relho, esforço, tranco e suor,
Como a puxar pedra britada. Ergo o clamor
Contra as peças que hão de montar-se de cinquenta jeitos,
A guerra diária aos toleirões e maus sujeitos.
O negócio do teatro, o gerenciar os homens.
Juro que antes de nova aurora despontar
Encontrarei o estábulo e o ferrolho hei de puxar.

W. B. Yeats

The Fascination of What's Difficult

The fascination of what's difficult
 Has dried the sap out of my veins, and rent
 Spontaneous joy and natural content
 Out of my heart. There's something ails our colt
 That must, as if it had not holy blood
 Nor on Olympus leaped from cloud to cloud,
 Shiver under the lash, strain, sweat and jolt
 As though it dragged road metal. My curse on plays
 That have to be set up in fifty ways,
 On the day's war with every knave and dolt,
 Theatre business, management of men.
 I swear before the dawn comes round again
 I'll find the stable and pull out the bolt.

* Nota do tradutor Péricles Eugênio da Silva Ramos: O título do poema passou a ser frase corrente. Os versos foram escritos entre setembro de 1909 e março de 1910, e figuram em The Green Helmet, deste último ano. Nessas linhas, Yeats se lamenta de ter deixado a prática da poesia lírica a fim de dedicar-se ao teatro irlandês, tarefa difícil e trabalhosa. Realmente, ele se fez gerente de teatro em 1904. Pégaso, em vez de voar, como que puxa pedras britadas, mas o poeta, no final, demonstra sua intenção de libertá-lo.
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Poemas de  W. B. Yeats, Tradução, Introdução e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos e Apresentação de Antônio Houaiss, edição bilíngue, Coleção Toda Poesia 4, 1987, Art Editora, São Paulo — SP; William Butler Yeats ou W. B. Yeats (1865 1939), irlandês nascido em Dublin, foi poeta e dramaturgo, representante máximo do Renascimento Literário irlandês e um dos escritores mais destacados do século XX; o poeta andejou por diversos estilos e escolas literárias e foi co-fundador do Abbey Theatre; escreveu e publicou Mosada: A Dramatic Poem (1886), The Wanderings of Olsin and Other Poems (1889), John Sherman and Dhoya, two stories (1891), Poems (1895), The Secret Rose — short stories (1897), The Wind Among the Reeds (O Vento entre os Juncos, 1899), Plays in Prose and Verse, Written for an Iris Theatre (1919), Discoveries — A Volume of Essays (1907), The Green Helmet and Other Poems (1910), Four Plays for Dancers (Quatro Peças para Dançarinos, 1921), The Cat at the Moon (1924), October Blast — poetry (1927), The Winding Stair and Other Poems (1933), entre tantos outros textos em verso e prosa e para teatro.

sábado, 9 de março de 2024

W. B. Yeats: Leda e o Cisne

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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]

Súbito golpe: as grandes asas a bater
Sobre a virgem que oscila, a coxa acariciada
Por negros pés, a nuca, um bico a vem reter;
O peito inane sobre o peito, ei-la apresada.

Dedos incertos de terror, como empurrar
Das coxas bambas o emplumado resplendor?
Pode o corpo, sob esse impulso de brancor,
O coração estranho não sentir pulsar?

Um tremor nos quadris engendra incontinenti
A muralha destruída, o teto, a torre a arder
E Agamêmnon, o morto.
                                       Capturada assim,

E pelo bruto sangue do ar sujeita, enfim
Ela assumiu-lhe a ciência junto com o poder,
Antes que a abandonasse o bico indiferente?

W. B. Yeats

Leda and the Swan

A sudden blow: the great wings beating still
Above the staggering girl, her thighs caressed
By the dark webs, her nape caught in his bill,
He holds her helpless breast upon his breast.

How can those terrified vague fingers push
The feathered glory from her loosening thighs?
And how can body, laid in that white rush,
But feel the strange heart beating where it lies?

A shudder in the loins engenders there
The broken wall, the burning roof and tower
And Agamemnon dead.
                                      Being so caught up,

So mastered by the brute blood of the air,
Did she put on his knowledge with his power
Before the indifferent beak could let her drop?

(1923)

* Nota do tradutor Péricles Eugênio da Silva Ramos:
     "Zeus tomou a forma de cisne para apossar-se de Leda, mulher de Tíndaro, rei da Lacônia.
     [verso] 9-11: Helena, então engendrada, seria a causa da ruína de Tróia; Clitemnestra, também filha do cisne, matou Agamêmnon, seu marido, ao voltar este de Tróia.
     O soneto foi escrito em 18 de setembro de 1923."
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Poemas de  W. B. Yeats, Tradução, Introdução e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos e Apresentação de Antônio Houaiss, edição bilíngue, Coleção Toda Poesia 4, 1987, Art Editora, São Paulo — SP; William Butler Yeats ou W. B. Yeats (1865 1939), irlandês nascido em Dublin, foi poeta e dramaturgo, representante máximo do Renascimento Literário irlandês e um dos escritores mais destacados do século XX; o poeta andejou por diversos estilos e escolas literárias e foi co-fundador do Abbey Theatre; escreveu e publicou Mosada: A Dramatic Poem (1886), The Wanderings of Olsin and Other Poems (1889), John Sherman and Dhoya, two stories (1891), Poems (1895), The Secret Rose — short stories (1897), The Wind Among the Reeds (O Vento entre os Juncos, 1899), Plays in Prose and Verse, Written for an Iris Theatre (1919), Discoveries — A Volume of Essays (1907), The Green Helmet and Other Poems (1910), Four Plays for Dancers (Quatro Peças para Dançarinos, 1921), The Cat at the Moon (1924), October Blast — poetry (1927), The Winding Stair and Other Poems (1933), entre tantos outros textos em verso e prosa e para teatro.

domingo, 4 de fevereiro de 2024

W. B. Yeats: E daí? *


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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]

Na escola achava, cada amigo mais chegado,
que ele viria a ser um homem celebrado;
pensando o mesmo, ele viveu com esse humor,
fartando os seus vinte anos de labor;
"E daí?" "E daí?" — cantou o fantasma de Platão.

Tudo o que ele escreveu, tudo foi lido;
Depois de certos anos tinha já obtido
dinheiro suficiente para sua precisão,
e amigos que deveras foram seus amigos;
"E daí?" "E daí?" — cantou o fantasma de Platão.

Seus sonhos mais felizes realizaram-se:
uma velha casinha; esposa, filha; um filho ele houve,
e em seu quintal cresciam ameixeira e couve;
poetas e intelectuais juntavam-se-lhe à mão;
"E daí?" "E daí?" — cantou o fantasma de Platão.

"A obra está feita", pensou ele, envelhecido,
"segundo o que em menino dei por decidido;
que os tolos raivem, eu não me desviei em nada,
alguma coisa eu trouxe à perfeição";
"E daí?" — cantou mais alto a sombra de Platão.

W. B. Yeats

What Then?

His chosen comrades thought at school
He must grow a famous man;
He thought the same and lived by rule,
All his twenties crammed with toil;
'What then?' sang Plato's ghost, 'What then?'

Everything he wrote was read,
After certain years he won
Sufficient money for his need,
Friends that have been friends indeed;
'What then?' sang Plato's ghost, 'What then?'

All his happier dreams came true 
A small old house, wife, daughter, son,
Grounds where plum and cabbage grew,
Poets and Wits about him drew;
'What then.?' sang Plato's ghost, 'What then?'

‘The work is done,’ grown old he thought,
'According to my boyish plan;
Let the fools rage, I swerved in naught,
Something to perfection brought;’
But louder sang that ghost 'What then?'

* Nota do tradutor Péricles Eugênio da Silva Ramos:
     "O poema, escrito em 1936 para The Erasmian, foi chamado por Yeats “um melancólico poema biográfico”. John McNeill, seu professor na High School, dizia que, durante uma longa conversa, o estudante Yeats “lhe confidenciara todos os seus planos para o futuro quanto a escrever e recitar poesia planos a que se agarrou com firmeza e realizou plenamente”.
     A conclusão a se tirar do poema é que a capacidade humana é limitada diante da infinita possibilidade, como aponta Tuohy; ou então, digamos, que uma perfeição não exclui muitas outras. Ou ainda, como quer Ellmann, o refrão, platonicamente, duvida da realidade essencial do que foi feito."
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Poemas de  W. B. Yeats, Tradução, Introdução e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos e Apresentação de Antônio Houaiss, edição bilíngue, Coleção Toda Poesia 4, 1987, Art Editora, São Paulo — SP; William Butler Yeats ou W. B. Yeats (1865 1939), irlandês nascido em Dublin, foi poeta e dramaturgo, representante máximo do Renascimento Literário irlandês e um dos escritores mais destacados do século XX; o poeta andejou por diversos estilos e escolas literárias e foi co-fundador do Abbey Theatre; escreveu e publicou Mosada: A Dramatic Poem (1886), The Wanderings of Olsin and Other Poems (1889), John Sherman and Dhoya, two stories (1891), Poems (1895), The Secret Rose — short stories (1897), The Wind Among the Reeds (O Vento entre os Juncos, 1899), Plays in Prose and Verse, Written for an Iris Theatre (1919), Discoveries — A Volume of Essays (1907), The Green Helmet and Other Poems (1910), Four Plays for Dancers (Quatro Peças para Dançarinos, 1921), The Cat at the Moon (1924), October Blast — poetry (1927), The Winding Stair and Other Poems (1933), entre tantos outros textos em verso e prosa e para teatro.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

Carvalho Júnior *: Lusco-fusco

 
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Da alcova na penumbra andavam flutuando
Em tênue confusão fantasmas indecisos,
Gerados ao fulgor da luz reverberando
Nos límpidos cristais e nos dourados frisos.

Era como um sabbat fantástico e nefando!
Das velhas saturnais talvez tivesse uns visos
A enorme projeção das sombras vacilando
Esguias e sutis sobre os tapetes lisos.

Havia no ambiente uns mórbidos perfumes;
Os bronzes, os biscuits se olhavam com ciúmes,
Nos dunkerques, de pé, por dentro das redomas.

Enquanto eu, sem temor, ao lado de uma taça,
Um conto oriental relia entre a fumaça
De um charuto havanês de excêntricos aromas.

(Parisina, pág. 91)


* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: em 60 Poetas Trágicos [L&PM, 2016], o organizador Sergio Faraco registra acerca do poeta Carvalho Junior:
Foi um dos nossos primeiros parnasianos, aposto aos românticos por um traço que um crítico chamou de realismo urbano. Ele chocou os contemporâneos pelo naturalismo com que abordava temas eróticos, mas não chocou quem era sábio: foi elogiado por Machado de Assis, que comentou seus sonetos no livro Crítica [e variedades], nos seguintes termos: ‘Nunca, em nenhum outro poeta nosso, apareceu essa nota violenta, tão exclusivamente carnal [...]. Crus em demasia são os seus quadros; mas não é comum aquele vigor, não é vulgar aquele colorido’. E conclui: ‘Um poeta de raça’. Carvalho Junior é o nosso Baudelaire. Esse poeta soberbo morreu quando era pouco mais do que um menino e nos legou apenas duas dúzias de poemas.”
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Panorama da Poesia Brasileira, Volume III — Parnasianismo, por Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1959, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Francisco Antônio de Carvalho Júnior (1855 1879), nascido no Rio de Janeiro, formou-se pela Faculdade de Direito de São Paulo (hoje USP Largo São Francisco), foi promotor público, juiz e poeta considerado como um dos precursores do simbolismo; Péricles registra que “junto com Teófilo Dias, Carvalho Júnior pode ser tomado como o principal poeta do realismo brasileiro”; escreveu e publicou Parisina (1879), uma parte desse volume póstumo, enfeixada sob o título “Hespérides”, contém 22 composições poéticas; foi colaborador do jornal paulistano A República; morreu jovem, sofria do coração.

terça-feira, 5 de abril de 2022

P. B. Shelley: Hino de Apolo

 
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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]

I
As Horas vígeis que me guardam, se deitado,
     Veladas com a tapeçaria constelada
Do vasto luar copado;
     Fazendo voar dos olhos meus a sonharada,
Acordam-me quando a Mãe delas, a cinzenta Aurora,
Lhes diz que lua e sonhos foram já embora.

II
O domo azul do céu, galgo-o ao me levantar;
     Caminho sobre os montes, sobre as ondas,
E deixo o manto meu sobre a espuma do mar;
     Minha presença aclara as cavernas redondas,
Calçam com fogo as nuvens os meus passos
E o ar deixa a verde Terra nua para os meus abraços.

III
Meus dardos, os raios de sol, com os quais mortal
     Sou para o engano, que ama a noite e teme o dia;
O homem que faz ou que imagina o mal
     Voa de mim, e de meu raio que gloria;
Ganham as boas mentes e ações francas nova força,
Até que a noite para débil a distorça.

IV
Os arco-íris e as nuvens nutro, e as flores belas
     Com suas etéreas cores; o globo lunar
E, em seus pousos eternos, as estrelas,
     Meu poder, como um manto, os vem cercar;
As lâmpadas que acendem Terra ou Céu
São porção de um poder, que é o meu.

V
No píncaro do céu ao meio-dia eu estadeio,
     Depois, com passos relutantes, lento eu me despenho
Nas nuvens do cair do sol atlântico; em seu seio;
     Elas choram a mágoa de eu partir, franzem o cenho.
Que olhar dá mais prazer do que o sorriso ideal
Com que as acalmo da ilha ocidental?

VI
Sou eu o olho com o qual o Universo
     Contempla-se a si mesmo e sabe-se divino;
Toda harmonia de instrumento ou verso
     E minha, e a medicina, e a fala do destino,
E toda a luz da arte ou natureza: é jus portanto,
A vitória e o louvor pertencem ao meu canto.

P. B. Shelley

Hymn of Apollo

I
The sleepless Hours who watch me as I lie,
     Curtained with star-inwoven tapestries
From the broad moonlight of the sky,
     Fanning the busy dreams from my dim eyes,
Waken me when their Mother, the gray Dawn,
Tells them that dreams and that the moon is gone.

II
Then I arise, and climbing Heaven's blue dome,
     I walk over the mountains and the waves,
Leaving my robe upon the ocean foam;
     My footsteps pave the clouds with fire; the caves
Are filled with my bright presence, and the air
Leaves the green earth to my embraces bare.

III
The sunbeams are my shafts, with which I kill
     Deceit, that loves the night and fears the day;
All men who do or even imagine ill
     Fly me, and from the glory of my ray
Good minds and open actions take new might,
Until diminished by the reign of night.

IV
I feed the clouds, the rainbows, and the flowers
     With their ethereal colours; the Moon's globe,
And the pure stars in their eternal bowers
     Are cinctured with my power as with a robe;
Whatever lamps on Earth or Heaven may shine
Are portions of one power, which is mine.

V
I stand at noon upon the peak of Heaven,
     Then with unwilling steps I wander down
Into the clouds of the Atlantic even;
     For grief that I depart they weep and frown;
What look is more delightful than the smile
With which I soothe them from the western isle?

VI
I am the eye with which the Universe
     Beholds itself and knows it is divine;
All harmony of instrument or verse,
     All prophecy, all medicine, is mine,
All light of art or Nature; to my song
Victory and praise in its own right belong.
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P. B. Shelley: Ode ao Vento Oeste e outros poemas — Organização e Tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 2009, 2ª edição, Editora Hedra, São Paulo — SP; Percy Bysshe Shelley (1792 — 1822), inglês nascido em Field Place, Horsham, foi poeta, ensaísta e dramaturgo do Romantismo da Inglaterra; de família abastada, fez seus estudos na Syon House Academy Brentford e no Eton College, uma escola secular nos arredores do Castelo de Windsor; depois, matriculou-se na University College Oxford, de onde foi expulso por ter publicado anonimamente um panfleto, The Necessity of Atheism, enviado aos bispos e outras personalidades, com um convite para debate e, intimado pelas autoridades escolares, ter-se calado, não respondendo se o folheto era ou não de sua autoria; com um professor de clássicos estudou de Horácio e Virgílio a Homero; traduziu O Banquete, de Platão; conheceu Lord Byron, John Keats, Leigh Hunt e outros escritores e poetas de sua época, convivendo com eles; obras: Zastrozzi (romance, 1810), Original Poetry by Victor and Cazire (em coautoria com sua irmã Elizabeth Shelley, 1810), The Cenci, a Tragedy, in Five Acts (Os Cenci, uma Tragédia em 5 Atos, 1819), The Masque of Anarchy (1819), Una Favola (original em italiano, 1819), Ode to the West Wind (Ode ao Vento Oeste, 1819), Prometheus Unbound, A Lyrical Drama, in Four Acts (Prometeu Libertado, 1820), Adonais — elegia sobre a morte de John Keats (1821), Hellas, A Lyrical Drama (1821), e outros títulos; O poeta Shelley morreu no mar, quando o barco em que velejava desapareceu na neblina de uma tempestade, tendo seu corpo sido encontrado; Robert Schumann, Samuel Barber, Berthold Goldschmidt e outros compositores musicaram textos do poeta.