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[traduzido
por Péricles Eugênio da Silva Ramos *]
13 – 1582
Ora que a
competir com teu cabelo
ouro brunhido ao sol reluz em vão,
e com desprezo, no relvoso chão,
vê tua branca fronte o lírio belo;
ora que
ao lábio teu, para colhê-lo,
se olha mais do que ao cravo temporão,
e ora que triunfa com desdém loução
teu colo do cristal, que luz com zelo;
colo,
cabelo, fronte, lábio ardente
goza, enquanto o que foi na hora dourada
ouro, lírio, cristal, cravo luzente
não só em
prata ou víola cortada
se torna, mas tu e isso juntamente
em terra, em fumo, em pó, em sombra, em nada.
13 – 1582
Mientras
por competir con tu cabello,
oro bruñido al sol relumbra en vano,
mientras con menosprecio en medio el llano
mira tu blanca frente el lilio bello;
mientras
a cada labio, por cogello,
siguen más ojos que al clavel temprano,
y mientras triunfa con desdén lozano
del luciente cristal tu gentil cuello;
goza
cuello, cabello, labio y frente,
antes que lo que fué en tu edad dorada
oro, lilio, clavel, cristal luciente,
no sólo
en plata o víola troncada
se vuelva, mas tú y ello juntamente
en tierra, en humo, en polvo, en sombra, en nada.
* Nota de Péricles Eugênio da
Silva Ramos: Assinala D. A. [Dámaso Alonso, filólogo, 1898 —1990] que sobre este soneto se tem apontado
influência do de Bernardo Tasso com anáforas de mentre nos
três primeiros versos ímpares, mas as imagens variam, diz o ensaísta, dentro do
habitual nos sonetos do tema do Carpe diem.
Os versos 9 e 11 são correlativos: o colo é cristal, o cabelo é ouro, a fronte
é lírio e o lábio é cravo. V. 12: A acentuação de víola na
6ª sílaba parece indicar observância por G. [Góngora], neste caso, da
quantidade latina.
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Poemas de
Góngora — Tradução, Introdução e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, edição
bilíngue, 1988, Art Editora, São Paulo — SP; Luis de Góngora y Argote (1561 — 1627),
espanhol e cordobês, estudou no Colegio de la Compañía de Jesús de Córdoba, foi
poeta do período barroco, dramaturgo e padre; foi/é considerado líder da corrente
literária autodenominada cultismo e desenvolvedor de um estilo, o gongorismo, reconhecido
pelo uso sistemático continuado de ‘hipérboles, metáforas obscuras e dubiedades’
em seus textos; fez estudos religiosos em Salamanca, matriculou-se em Cânones, ordenou-se sacerdote; sabia
latim, lia italiano e português; desde 1580, o ambiente literário da época já reconhecia
Gôngora, mencionava-o e citava parte dos textos gongorianos, reproduzindo soneto
em obra de outro literato; em 1603, em Valladolid, Gôngora teve “incansável carreira
como poeta da nobreza e da realeza”, em 1605, já em Córdoba, seus poemas compuseram
a antologia Flores de Poetas Ilustres; andejou por Madrid, Alcalá, Álava, Pontevedra,
Granada, sempre expondo seus poemas e criando outros; em 1617, já poeta renomado,
ordenou-se padre, tinha 56 anos de idade, assumiu o cargo de Capelão Real em Madrid
e também foi cônego da Catedral de Córdoba; consta de sua biografia que, em vida,
o poeta não publicou nenhum livro, suas poesias circularam em manuscritos; antologias publicadas no século XX
foram baseadas no "manuscrito Chacón ([3 tomos], 1625-1628)”,
feito/compilado por dom Antonio Chacón [y Ponce de Léon], amigo de Góngora; obra
poética (“94 romances, 121 ‘letrillas’ e outras composições de ‘arte menor’, 167
sonetos, 33 composições de ‘arte maior’ e 3 poemas longos): Fábula de Polifemo y
Galatea (1612 — 1613), Soledades (1612 — 1613), Panegírico Al Duque de Lerma (longo
poema “de estilo elevado”, 1617), Fábula de Píramo y Tisbe (1618); Góngora, além
dos sonetos e dos romances poéticos, também compôs duas peças teatrais: Las finezas de Isabela e El doctor
Carlino; quase sempre o poeta passou por dificuldades
e “angústias” financeiras, particularmente na velhice quando, doente, se viu “incapaz
até mesmo de segurar a pena”; no ambiente literário, conviveu e rivalizou com os
também poetas e dramaturgos Francisco de Quevedo (1580 — 1645) e Lope de Vega (1562
— 1635).

