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[traduzido por Marcos Antônio
Siscar]
Acompanhado
do modo de usar
Pautar a
folha e caprichar na letra:
Versos
fiados à mão e de um pé uniforme,
Marcando o passo, quatro a quatro, em pelotão;
Indicando a cesura, eis que um deles dorme…
Soldado de chumbo, ele dorme em posição.
Sobre o railway do Pindo está a
linha, a forma;
E nos fios do telégrafo: — são quatro, acima;
Em cada poste, a rima — um exemplo: pro forma.
Cada verso é um fio, cada estaca uma rima.
—
Telegrama — 20 palavras. — Tu vens e medes
(Soneto — é um soneto —), ó Musa de Arquimedes.
— A prova do soneto é uma adição;
— Soma-se
4 e 4 = 8! E logo em seguida
Soma de 3 e 3! — Manter Pégaso à brida:
“Ó lira! Ó delírio! Ó…” — Soneto — Atenção!
Pico da
Maladetta. — Agosto
1 Sonnet*
Avec la
manière de s’en servir
Réglons
notre papier et formons bien nos lettres:
Vers
filés à la main et d’un pied uniforme,
Emboîtant bien le pas, par quatre en peloton;
Qu’en marquant la césure, un des quatre s’endorme…
Ça peut dormir debout comme soldats de plomb.
Sur le railway du Pinde est la
ligne, la forme;
Aux fils du télégraphe: — on en suit quatre, en long;
À chaque pieu, la rime — exemple: chloroforme**.
— Chaque vers est un fil, et la rime un jalon.
—
Télégramme sacré — 20*** mots. — Vite à mon aide…
(Sonnet — c’est un sonnet —****) ô Muse d’Archimède!
— La preuve d’un sonnet est par l’addition:
— Je pose
4 et 4 = 8! Alors je procède,
En posant 3 et 3! — Tenons Pégase raide:
“Ô lyre! Ô délire! Ô…” — Sonnet — Attention!
Pic de la
Maladetta. — Août.
Notas do
tradutor Marcos Antônio Siscar:
* 1
Soneto — Estamos aqui na seção do livro chamada “7”. O
poema é uma paródia do formalismo parnasiano. A derisão começa já com o uso do
algarismo no título, que substitui o artigo definido “Um”. (AC [Augusto de Campos, tradutor]);
** A rima de “forme” com
“chloroforme” sugere as propriedades soníferas da poesia parnasiana. A tradução
por “pro forma” conserva a idéia de arte pela arte, ou, mais precisamente, de
arte pela forma;
*** O algarismo “20”, além de poder
ser ouvido como “vain” (vão, sem valor), quantifica com rigorosa gratuidade as
palavras do telegrama que segue (excetuando-se os verbos de ligação, pronomes,
artigos, preposições, algarismos, interjeições e a conjunção “e” —
telegraficamente, portanto).
****
“Sonnet — c’est un sonnet —” de Le Misantrophe, de Molière. Trata-se do
anúncio tautológico que faz Oronte do seu soneto, numa das cenas mais
conhecidas da peça (ato I, cena 2). Corbière compara seu próprio soneto com o
mau soneto (“precioso”) de Oronte.
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Os Amores amarelos — Tristan
Corbière, Introdução, Tradução e Notas de Marcos Antônio Siscar, edição
bilíngue, 1996, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Tristan Corbière, ou
Édouard-Joachim Corbière (1845 — 1875), francês de Morlaix — Finistère-Bretagne,
estudou em regime de internato num liceu de Saint-Brieuc e em regime de
externato num liceu de Nantes, foi poeta simbolista e caricaturista; de sua
biografia consta que seus primeiros poemas e caricaturas vieram à luz durante o
período em que foi aluno interno e que seu mais antigo poema, com data de 1860,
satiriza um professor de história; escreveu e publicou um único livro em vida, Les
Amours jaunes (Os Amores amarelos, 1873) e a revista La Vie Parisienne registra
alguns de seus poemas; o livro é considerado um fracasso total e não obteve
reconhecimento público; o poeta só teve seu trabalho valorizado após Paul Verlaine
o citar em Les Poètes maudits, 1883; consta que tal recomendação bastou para trazer
Tristan Corbière ao público e firmá-lo como um dos mestres reconhecidos do Simbolismo;
sua poética é considerada precursora do Surrealismo; de saúde frágil, morreu de
tuberculose aos 29 anos de idade; em 1891, pelas mãos do editor Léon Vanier,
vem a público a 2ª edição de Os Amores amarelos e, desta vez, foi absorvida e benquista
nos meios literários; depois, vieram outras edições e reimpressões.