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domingo, 20 de março de 2022

Tristan Corbière: 1 Soneto

 
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[traduzido por Marcos Antônio Siscar]

Acompanhado do modo de usar

Pautar a folha e caprichar na letra:

Versos fiados à mão e de um pé uniforme,
Marcando o passo, quatro a quatro, em pelotão;
Indicando a cesura, eis que um deles dorme…
Soldado de chumbo, ele dorme em posição.

Sobre o railway do Pindo está a linha, a forma;
E nos fios do telégrafo: são quatro, acima;
Em cada poste, a rima um exemplo: pro forma.
Cada verso é um fio, cada estaca uma rima.

Telegrama 20 palavras. Tu vens e medes
(Soneto  é um soneto ), ó Musa de Arquimedes.
A prova do soneto é uma adição;

Soma-se 4 e 4 = 8! E logo em seguida
Soma de 3 e 3! Manter Pégaso à brida:
“Ó lira! Ó delírio! Ó…” Soneto Atenção!

Pico da Maladetta. Agosto

Tristan Corbière

1 Sonnet*
Avec la manière de s’en servir

Réglons notre papier et formons bien nos lettres:

Vers filés à la main et d’un pied uniforme,
Emboîtant bien le pas, par quatre en peloton;
Qu’en marquant la césure, un des quatre s’endorme…
Ça peut dormir debout comme soldats de plomb.

Sur le railway du Pinde est la ligne, la forme;
Aux fils du télégraphe: on en suit quatre, en long;
À chaque pieu, la rime exemple: chloroforme**.
— Chaque vers est un fil, et la rime un jalon.

— Télégramme sacré 20*** mots. Vite à mon aide…
(Sonnet c’est un sonnet ****) ô Muse d’Archimède!
La preuve d’un sonnet est par l’addition:

Je pose 4 et 4 = 8! Alors je procède,
En posant 3 et 3! Tenons Pégase raide:
“Ô lyre! Ô délire! Ô…” Sonnet Attention!

Pic de la Maladetta. — Août.

Notas do tradutor Marcos Antônio Siscar:
* 1 Soneto — Estamos aqui na seção do livro chamada “7”. O poema é uma paródia do formalismo parnasiano. A derisão começa já com o uso do algarismo no título, que substitui o artigo definido “Um”. (AC [Augusto de Campos, tradutor]);
** A rima de “forme” com “chloroforme” sugere as propriedades soníferas da poesia parnasiana. A tradução por “pro forma” conserva a idéia de arte pela arte, ou, mais precisamente, de arte pela forma;
*** O algarismo “20”, além de poder ser ouvido como “vain” (vão, sem valor), quantifica com rigorosa gratuidade as palavras do telegrama que segue (excetuando-se os verbos de ligação, pronomes, artigos, preposições, algarismos, interjeições e a conjunção “e” — telegraficamente, portanto).
**** “Sonnet — c’est un sonnet — de Le Misantrophe, de Molière. Trata-se do anúncio tautológico que faz Oronte do seu soneto, numa das cenas mais conhecidas da peça (ato I, cena 2). Corbière compara seu próprio soneto com o mau soneto (“precioso”) de Oronte.
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Os Amores amarelos — Tristan Corbière, Introdução, Tradução e Notas de Marcos Antônio Siscar, edição bilíngue, 1996, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Tristan Corbière, ou Édouard-Joachim Corbière (1845  1875), francês de Morlaix Finistère-Bretagne, estudou em regime de internato num liceu de Saint-Brieuc e em regime de externato num liceu de Nantes, foi poeta simbolista e caricaturista; de sua biografia consta que seus primeiros poemas e caricaturas vieram à luz durante o período em que foi aluno interno e que seu mais antigo poema, com data de 1860, satiriza um professor de história; escreveu e publicou um único livro em vida, Les Amours jaunes (Os Amores amarelos, 1873) e a revista La Vie Parisienne registra alguns de seus poemas; o livro é considerado um fracasso total e não obteve reconhecimento público; o poeta só teve seu trabalho valorizado após Paul Verlaine o citar em Les Poètes maudits, 1883; consta que tal recomendação bastou para trazer Tristan Corbière ao público e firmá-lo como um dos mestres reconhecidos do Simbolismo; sua poética é considerada precursora do Surrealismo; de saúde frágil, morreu de tuberculose aos 29 anos de idade; em 1891, pelas mãos do editor Léon Vanier, vem a público a 2ª edição de Os Amores amarelos e, desta vez, foi absorvida e benquista nos meios literários; depois, vieram outras edições e reimpressões.

domingo, 17 de agosto de 2014

José Lino Grünewald: Soneto — Sol e Sal da Pura Forma

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A palavra soneto vem de som (son, desde o provençal). Daí, o diminutivo, sonetto, lançado na Itália, terra onde, pelo menos na fase inicial, mais brilhou: do siciliano Giacomo de Lentino (século XIII) e também Pier delle Vigne, passando por Guittone d'Arezzo (segundo consta, o primeiro a estabelecer as regras de obrar essa forma fixa), e Guido Guinizelli, chegamos ao trio sem igual: Cavalcanti, Dante e Petrarca.

Depois de Petrarca, o soneto inundou o mundo. Na França, com Marot e a turma da Plèiade (Ronsard, Du Bellay, etc); na Espanha, com Garcilaso de La Vega; na Inglaterra, de Surrey e Sir Thomas Wyatt, até desembocar no gênio de Shakespeare; em Portugal, com outro trio inigualável na língua: Sá de Miranda, Luís de Camões e Diogo Bernardes. Veio o barroco logo em seguida e, principalmente, o marinismo de Giambattista Marino, quando imagens e sons dentro do verbo se entrelaçavam nos notáveis jogos de sutileza formal e conceitual: basta lembrar Gôngora.

Na época pré-moderna e  moderna, o gênero continuou dando as cartas. Baudelaire, na França, introduziu inovações na métrica e nos sistemas de rima. E lá o acompanharam simbolistas ou paralelos, como Verlaine, Rimbaud, Corbière, Laforgue e, principalmente, Mallarmé. O soneto francês promovia a glória do verso alexandrino (doze sílabas, divididas em dois hemistíquios de seis), além do octossílabo. Esse modelo era mais fácil na estirpe de Racine porque, na língua francesa, há uma grande freqüência de palavras oxítonas.

E no idioma inglês permanecia a ascendência das quatorze linhas, com os grandes nomes de Wordsworth, Keats, Elizabeth Barret Browning ou Dante Gabriel Rosseti. Vale ressaltar que o soneto inglês, em geral, desde Wyatt e Shakespeare, ao contrário do módulo de dois quartetos e dois tercetos com rimas alternadas, utiliza aquele de três quartetos e um dístico final, rimando os dois versos. Evidentemente que, em especial a partir do século passado — com as grandes correntes ou escolas literárias — a forma fixa (quatorze linhas) sofreu alterações de superestrutura e, com maior freqüência, nos esquemas rimários. Faziam-se até com versos brancos (sem rima).

No Brasil, o soneto foi praticamente introduzido pelos poetas barrocos: Gregório de Matos, Manuel Botelho de Oliveira etc. Mas foi com os parnasianos que encontrou a sua grande glória, e nisso já emerge novamente outra trindade: Olavo Bilac, Raimundo Correia e Alberto de Oliveira. Mas, se levam à glória da popularidade, são obrigados a dividir o bastão com os simbolistas. Nem tanto os mais divulgados, como Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens, porém nomes como os de Da Costa e Silva, Pedro Kilkerry, Raul de Leoni.

O século atual assistiu, em Portugal, ao esplendor de Fernando Pessoa, logo seguido, quase em mesmo brilho, no soneto, por Mário de Sá-Carneiro. Aqui, no entanto, os nossos grandes poetas modernos também souberam esmerar-se no gênero e tivemos contribuições originais e da maior voltagem de um Manuel Bandeira, um Jorge de Lima, um Carlos Drummond de Andrade, um Vinícius de Moraes, um Mário Faustino.

O soneto, pode-se dizer, é quase um esporte em matéria de poesia. Mário Faustino dizia que o fazia a fim de "exercitar a munheca" — com o objetivo de se preparar para as grandes obras épicas, alentadas. De qualquer modo, muito exige do saber do metrônomo, do saber contar funcionalmente as sílabas e forjar rimas ricas. Em sumo, o soneto, em si, instiga eventuais amadores e profissionais do versejar.

A elaboração desta antologia atendeu aos seguintes critérios:
  1. o soneto consagrado, independentemente do gosto do organizador ou do próprio público atual; exemplos típicos disso são o Alma Minha Gentil Que Te Partiste (com este seu famoso cacófato), de Camões, ou o Mal Secreto, de Raimundo Correia;
  2. o grande soneto, seja clássico, barroco, parnasiano, simbolista ou moderno, seja com Sá de Miranda, Diogo Bernardes, Camões, Gregório de Matos, a turma da Fênix Renascida, Bilac, Raimundo Correia, Alberto de Oliveira, Cruz e Sousa, Pedro Militão Kilkerry, Da Costa e Silva, Manuel Bandeira, Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, Jorge de Lima etc;
  3. o soneto inventivo, original, tendo, como alguns exemplos, aquele de uma sílaba só, de Martins Fontes, aquele soneto espacializado (sem título), de Mário Faustino, ou a seqüência da Afrodite Anadiómena (formada quase toda por palavras novas, mediante a permuta de sílabas), do português Jorge de Sena;
  4. o soneto sobre o soneto, em suma, expressões ou meditações estéticas e/ou vivenciais sobre o próprio ato de fazer, redigir, escrever, como no caso de Oficina Irritada, de Carlos Drummond de Andrade;
  5. um soneto que, independentemente de oferecer ou não outros aspectos estéticos ou inventivos, criou alguma expressão verbal que ficou na memória do público ou mesmo tornou-se integrante da da fala ou de citações  estão aí exemplos, como "pálido de espanto", de Olavo Bilac, ou "um urubu pousou na minha sorte", de Augusto dos Anjos;
  6. o gênero de soneto, tido, vamos dizer assim, como "obsceno", do qual o maior representante é o lendário e anedótico Bocage  aliás, um extraordinário poeta além disso — de quem a Editora Nova Fronteira lança uma antologia.
Voltamos a dizer: o soneto é a mais popular e, agora, tradicional, das formas fixas. Em seu contexto, conciso e concentrado, em suas regras de jogo verbal e de versificação altamente policiada e autopoliciada, fizeram os poetas seus exercícios ou seus talismãs. Vamos à viagem — sem esquecer de lembrar que esta antologia está vulnerável à críticas sobre omissões ou exageros. Mas, quem há de?

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Escreviver, Prefácio de Décio Pignatari, 1987, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; José Lino Fabião Grünewald (1931 2000), nascido no Rio de Janeiro RJ, foi poeta, ensaísta, crítico de cinema, tradutor, jornalista e advogado; participou da revista literária Noigandres, divulgadora do movimento literário concretista no país, na década de 50; obra poética: Um e dois (1958) e Escreviver(1987); antologias organizadas: Grandes sonetos da nossa língua(1987), Grandes Poetas da Língua Inglesa do Século XIX (tradução, edição bilíngüe, 1988), Os poetas da Inconfidência (1989), Poetas Franceses do Século XIX (tradução, edição bilíngüe, 1991), Pedras de toque da poesia brasileira (1996) e outros títulos; ensaio: Um filme é um filme: o cinema de vanguarda dos anos 60 (2001) etc.; colaborou com críticas de cinema, literárias e de música nos jornais Correio da Manhã, O Globo, Jornal do Brasil, Tribuna da Imprensa, Última Hora, O Estado de São Paulo, Jornal da Tarde e Folha de São Paulo; traduziu textos de Mallarmé, Merleau-Ponty, Walter Benjamin, Ezra Pound e outros.