— Moreninha, dás-me um beijo?
— E o que me dá, meu senhor?
— Este cravo...
— Ora, esse cravo!
De que me serve uma flor?
Há tantas flores nos campos!
Hei-de agora, meu senhor,
Dar-lhe um beijo por um cravo?
É barato; guarde a flor.
— Dá-me o beijo, moreninha,
Dou-te um corte de cambraia.
— Por um beijo tanto pano!
Compro de graça uma saia!
Olhe que perde na troca,
Como eu perdera com a flor;
Tanto pano por um beijo...
Sai-lhe caro, meu senhor.
— Anda cá... ouve um segredo...
— Ai, pois quer fiar-se em mim?
Deus o livre; eu falo muito,
Toda a mulher é assim...
E um segredo... ora um segredo!...
Pelos modos que lhe vejo
Quer o meu beijo de graça,
Um segredo por um beijo!?
— Quero dizer-te aos ouvidos
Que tu és uma rainha...
— Acha, pois? e o que tem isso?
Quer ser rei, por vida minha?
— Quem dera que tu quisesses...
— Não duvide que o farei;
Meu senhor, case com ela,
A rainha o fará rei...
— Casar-me?... inda sou tão moço...
— Como é criança esta ovelha!
Pois eu p'ra beijar crianças,
Adeusinho, já sou velha.
____________________
Páginas de Ouro da Poesia Brasileira (vários autores) — Seleção e Prefácio de Alberto de Oliveira, 1911, H. Garnier,Livreiro Editor, Rio de Janeiro — RJ; Bruno Henrique de Almeida Seabra (1837 — 1876), paraense, foi poeta lírico, romancista, comediógrafo, folhetinista e exímio pintor de cenas, costumes e tipos nacionais; escreveu A Heloísa americana (1876), As cinzas de um livro (1859), Flores e Frutos (1862), Memórias de um pobre diabo (1868), O barão, o comendador e o frade (1876), O Doutor Pancrácio (1858), O romance de um cético (1876), Paulo (1862), Raimundo ou os néscios da academia (1866) etc.
— Este cravo...
— Ora, esse cravo!
De que me serve uma flor?
Há tantas flores nos campos!
Hei-de agora, meu senhor,
Dar-lhe um beijo por um cravo?
É barato; guarde a flor.
— Dá-me o beijo, moreninha,
Dou-te um corte de cambraia.
— Por um beijo tanto pano!
Compro de graça uma saia!
Olhe que perde na troca,
Como eu perdera com a flor;
Tanto pano por um beijo...
Sai-lhe caro, meu senhor.
— Anda cá... ouve um segredo...
— Ai, pois quer fiar-se em mim?
Deus o livre; eu falo muito,
Toda a mulher é assim...
E um segredo... ora um segredo!...
Pelos modos que lhe vejo
Quer o meu beijo de graça,
Um segredo por um beijo!?
— Quero dizer-te aos ouvidos
Que tu és uma rainha...
— Acha, pois? e o que tem isso?
Quer ser rei, por vida minha?
— Quem dera que tu quisesses...
— Não duvide que o farei;
Meu senhor, case com ela,
A rainha o fará rei...
— Casar-me?... inda sou tão moço...
— Como é criança esta ovelha!
Pois eu p'ra beijar crianças,
Adeusinho, já sou velha.
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Páginas de Ouro da Poesia Brasileira (vários autores) — Seleção e Prefácio de Alberto de Oliveira, 1911, H. Garnier,Livreiro Editor, Rio de Janeiro — RJ; Bruno Henrique de Almeida Seabra (1837 — 1876), paraense, foi poeta lírico, romancista, comediógrafo, folhetinista e exímio pintor de cenas, costumes e tipos nacionais; escreveu A Heloísa americana (1876), As cinzas de um livro (1859), Flores e Frutos (1862), Memórias de um pobre diabo (1868), O barão, o comendador e o frade (1876), O Doutor Pancrácio (1858), O romance de um cético (1876), Paulo (1862), Raimundo ou os néscios da academia (1866) etc.