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VIII
O poema não vem.
E quando vem é falho,
impreciso.
Este canto sem nome
é um apelo
aos homens à escuta
e às mulheres.
Há tempos que sua ausência
ronda os caminhos do sono
envolve-se igual à rede
no mistério de minha vida.
Boiavam antes os peixes
à tona do pensamento.
Havia estrelas do mar
no fundo dos castiçais.
II
Manhã raiada ou soluço
perdido na madrugada,
transformado em folha, fruto,
brotando igual à palmeira
em terra sem tradição
mesmo assim,
tragam esta poesia
que é preciso falar
da amiga que se indo embora
demora até voltar.
E deste amor de pensá-la
sem revê-la
nascerá o meu canto
mais sentido
que o cantar dos amantes
satisfeitos.
III
Homens distantes do mundo
sucumbidos pelo sonho,
dia virá em que as naus
estarão sem nenhum porto
e as velas sem direção.
Nem haverá uma estrela
buscando o brilho de outrora
e sem ela algum poeta
fazendo um último apelo:
— Procurem o poema virgem.
Manhã raiada ou soluço
perdido na madrugada...
(Balada de Alzira — 1951)
Baladas —
Hilda Hilst, Organização e plano de edição de Alcir Pécora, 2003, Editora Globo,
São Paulo — SP; Hilda de Almeida Prado Hilst (1930 — 2004), paulista de Jaú,
formada em Direito pela Universidade de São Paulo, foi poeta, ficcionista e dramaturga;
escreveu e publicou: em poesia, Presságio (1950), Balada de Alzira (1951), Balada
do Festival (1955), Roteiro do Silêncio (1959), Trovas de muito amor para um amado
senhor (1960), Ode Fragmentária (1961), Sete Cantos do Poeta para o Anjo (1962),
Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão (1974), Da Morte. Odes Mínimas (1980),
Cantares de Perda e Predileção (1983), Poemas Malditos, Gozosos e Devotos
(1984), Amavisse (1989), Alcoólicas (1990), Bufólicas (1992), Exercícios (2002)
entre outros títulos; ficção: Fluxofloema (1970), Qadós (1973), Tu não te moves
de ti (1980), A Obscena Senhora D (1982), Contos d'escárnio (1992), Cartas de um
sedutor (1991) etc.; dramaturgia: Teatro Reunido, volume I (2000); Hilda Hilst teve
seu trabalho reconhecido nos meios literários, foi detentora de muitas premiações
e teve obras traduzidas para o francês, italiano, espanhol, inglês e alemão; em
1965, em Campinas — SP, construiu a Casa do Sol, ali passou a residir, e dali passou
a produzir seus textos; hoje, a Casa do Sol é a sede do Instituto Hilda Hilst, o
qual objetiva preservar a sua obra e o local onde a autora trabalhou.















