domingo, 28 de fevereiro de 2021

Hilda Hilst: O poema não vem. E quando vem é falho, impreciso. . . .

 
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VIII

O poema não vem.
E quando vem é falho,
impreciso.
Este canto sem nome
é um apelo
aos homens à escuta
e às mulheres.

Há tempos que sua ausência
ronda os caminhos do sono
envolve-se igual à rede
no mistério de minha vida.

Boiavam antes os peixes
à tona do pensamento.

Havia estrelas do mar
no fundo dos castiçais.

II

Manhã raiada ou soluço
perdido na madrugada,
transformado em folha, fruto,
brotando igual à palmeira
em terra sem tradição
mesmo assim,
tragam esta poesia
que é preciso falar
da amiga que se indo embora
demora até voltar.
E deste amor de pensá-la
sem revê-la
nascerá o meu canto
mais sentido
que o cantar dos amantes
satisfeitos.

III

Homens distantes do mundo
sucumbidos pelo sonho,
dia virá em que as naus
estarão sem nenhum porto
e as velas sem direção.
Nem haverá uma estrela
buscando o brilho de outrora
e sem ela algum poeta
fazendo um último apelo:

Procurem o poema virgem.
Manhã raiada ou soluço
perdido na madrugada...

(Balada de Alzira — 1951)

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Baladas — Hilda Hilst, Organização e plano de edição de Alcir Pécora, 2003, Editora Globo, São Paulo — SP; Hilda de Almeida Prado Hilst (1930 2004), paulista de Jaú, formada em Direito pela Universidade de São Paulo, foi poeta, ficcionista e dramaturga; escreveu e publicou: em poesia, Presságio (1950), Balada de Alzira (1951), Balada do Festival (1955), Roteiro do Silêncio (1959), Trovas de muito amor para um amado senhor (1960), Ode Fragmentária (1961), Sete Cantos do Poeta para o Anjo (1962), Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão (1974), Da Morte. Odes Mínimas (1980), Cantares de Perda e Predileção (1983), Poemas Malditos, Gozosos e Devotos (1984), Amavisse (1989), Alcoólicas (1990), Bufólicas (1992), Exercícios (2002) entre outros títulos; ficção: Fluxofloema (1970), Qadós (1973), Tu não te moves de ti (1980), A Obscena Senhora D (1982), Contos d'escárnio (1992), Cartas de um sedutor (1991) etc.; dramaturgia: Teatro Reunido, volume I (2000); Hilda Hilst teve seu trabalho reconhecido nos meios literários, foi detentora de muitas premiações e teve obras traduzidas para o francês, italiano, espanhol, inglês e alemão; em 1965, em Campinas SP, construiu a Casa do Sol, ali passou a residir, e dali passou a produzir seus textos; hoje, a Casa do Sol é a sede do Instituto Hilda Hilst, o qual objetiva preservar a sua obra e o local onde a autora trabalhou.

sábado, 27 de fevereiro de 2021

João Alphonsus: A pedra no caminho

 
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          Este poeta mineiro, nascido à sombra do pico do Cauê, na antiga cidade de Itabira, hoje de Presidente Vargas, é uma das figuras mais discutidas pró e contra da poesia nacional. Em torno de alguns dos seus poemas chegaram a formar deliciosos equívocos dos choques das gerações, como por exemplo a respeito de “No meio do caminho”:

          No meio do caminho tinha uma pedra
          tinha uma pedra no meio do caminho
          tinha uma pedra
          no meio do caminho tinha uma pedra.

          Nunca me esquecerei desse acontecimento
          na vida de minhas retinas tão fatigadas.
          Nunca me esquecerei que no meio do caminho
          tinha uma pedra
          tinha uma pedra no meio do caminho
          no meio do caminho tinha uma pedra.

          Me lembro bem de que esses versos, publicados em Belo Horizonte por volta de 1925, causaram funda irritação entre os intelectuais que detinham a liderança da tabela, como se diz em linguagem esportiva. Desde os gramáticos, revoltados com o emprego do verbo “ter” pelo impessoal “haver”: não se devia dizer: “tinha uma pedra”, brasileirismo grosseiro, erro crasso de português; e sim “havia” uma pedra no meio do caminho. Mas ao o literato repelia o verso e se irritava com a falta de significação do que estava pronunciando: uma pedra no caminho, um desaforo! Nem sentido, nem poesia... Não se lhe poderia responder mesmo porque o literato recusaria lições que devia procurar a chave do poema no cansaço mental, no desânimo, no desalento que ressumbra dos versos quase desesperados na sua incapacidade expressional, monotônica do poeta “incapaz e frágil diante da vida” (como disse Mário de Andrade a respeito desse poema, na Revista Nova, em março de 1931).

          Há tempos alguém se lembrou de transformar em sonetos, ou em versos rimados e metrificados, algumas poesias modernistas. Eu aconselharia a esses vates incompreensíveis e até molestos sobretudo inartísticos que fornecessem aos leitores (aos do Jornal do Comércio, por exemplo) sempre uma réplica assim, de cada uma das suas malsinadas obrinhas. Os seus livros seriam assim organizados: numa página, o futurismo, para satisfazer aos que impam de apreciadores sutis de hermetismos poéticos; na outra página, o passadismo, ao alcance de qualquer apreciador da arte cada vez mais viva quanto mais velha... Para mostrar como isso seria praticável, vou fornecer aqui um soneto interpretativo daquele poema da pedra. A sério, já se vê. Preencho os claros ou os escuros do poema com as necessidades da métrica e da rima, que às vezes forçam a imagens ou expressões nem sempre muito justas (além de que, sou um poeta conscientemente aposentado):

         No meio do caminho sem sentido
          Em que a minha retina se cansava,
          Em face ao meu espírito perdido
          Naquela lassidão estranha e escrava,

          No meio do caminho sem sentido,
          Só uma pedra... Nada mais se achava!
          Que tudo se perdeu no amortecido,
          Morto marasmo de vulcão sem lava...

          Que tudo se perdeu na estrada infinda...
          Só a pedra ficou sob o meu passo
          E na retina se conserva ainda!

          Nem coração, furor, ódio, carinho,
          Nada restou senão este cansaço,
          A pedra, a pedra, a pedra no caminho!

(João Alphonsus, “A pedra no caminho”.
Folha da Manhã, São Paulo, 25.10.1942.)

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Uma Pedra No Meio Do Caminho — Biografia De Um Poema, Seleção e Montagem de Carlos Drummond de Andrade, edição ampliada, Organização, Pesquisa, Apresentação e Notas de Eucanaã Ferraz, 2010, Instituto Moreira Salles, São Paulo — SP; João Alphonsus de Guimaraens (1901 1944), mineiro de Conceição de Mato Dentro, iniciou seus estudos em Mariana MG e, mudando-se para Belo Horizonte, concluiu a graduação em Direito, foi advogado, promotor de justiça, jornalista, contista e poeta modernista; publicou seus primeiros poemas na revista Fon-Fon, em 1918; fundou a revista Verde, em parceria com Antonio Mendes e outros companheiros; bibliografia: Galinha Cega (contos, 1931), Totônio Pacheco (romance, 1934), Rola-Moça (romance, 1938), A Pesca da Baleia (contos, 1942), Eis a noite! (contos, 1943), Contos e Novelas (1965); teve obras premiadas.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Massaud Moisés: Simbolismo [na literatura brasileira]

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                    I. Preliminares *

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                    5. O nosso movimento simbolista não constituiu época literária autônoma; misturou-se ao Parnasianismo. O apego à forma deitava fundas raízes em nossa tradição literária para ceder facilmente aos ímpetos renovadores do Simbolismo: herdeiros da cultura portuguesa e tendo recebido o modelo simbolista através do exemplo que vinha de Lisboa, não estranha que o gosto pela versificação rigorosa, clássica, estivesse arraigado entre nós. O Romantismo custou a romper os módulos neoclássicos, que vigoravam praticamente desde o século XVII. E o Parnasianismo, renegando o conteúdo sentimental da revolução romântica, pouco fez para que o culto da forma ganhasse aceitação, a ponto de, resistindo às tentativas de mudança, permanecer até a modernidade, como denunciam as obras de Cassiano Ricardo e Jorge de Lima. Nem mesmo o Simbolismo lhe recusou o influxo: atesta-o a freqüência com que o soneto foi cultivado, inclusive com preciosismos parnasianos.1
                    Nas minúcias, entretanto, a métrica simbolista diferiu da parnasiana: “no interior do verso é que se mostravam mais audaciosos. O deslocamento da cesura, e até a ausência dela; a divisão do alexandrino segundo medida ternária, pareceram, e ainda parecerão a alguns, falta de música”.2 E ainda no corte do decassílabo e no eneassílabo, no emprego do pentassílabo e do hendecassílabo trocaicos, do verso de 17 e 19 sílabas, e finalmente na inovação do verso livre.3 Quanto a este, seu aparecimento se processou tardiamente: os primeiros simbolistas, ainda vulneráveis ao formalismo parnasiano, não o empregaram. A utilização consciente do novo recurso se deveu a Adalberto Guerra Duval (Palavras que o vento leva..., 1900),4 mas permaneceu ¨fruto isolado, até o aparecimento de Histórias do Meu Casal, de Mário Pederneiras, em 1906, e a estréia de Hermes Fontes, com Apoteoses, em 1908”,5 tornando-se comum no Modernismo. Além disso, os simbolistas, inspirados nos temas medievais, ressuscitaram a vilanela, o canto real, o rondó, o rondel, o pantum, a balada.6 Quanto ao vocabulário, seguiam o estímulo francês, com o seu caráter medievalizante, litúrgico, funeral, hermético e esotérico, a que não faltaram incidências maçônicas.
                    Outro aspecto a ponderar são os fatores históricos: o fulcro sócioeconômico-cultural da Nação havia-se transferido para o sul, mercê do desenvolvimento a partir da segunda metade do século XVIII, com a descoberta e exploração de jazidas auríferas, e sobretudo após a transladação da corte de D. João VI para o Rio de Janeiro, em 1808. Desde o Arcadismo, e mais precisamente com o Romantismo, o foco central de nossa atividade literária havia-se deslocado para o sul, conseqüente à mudança do eixo econômico, primeiro em torno do minério e, mais tarde, do café. E a tal ponto se enraizou na região sulina que nem o efêmero sonho dum eldorado amazônico, estimulado pela borracha, conseguiu desviar o rumo dos acontecimentos. O Sul apresentava condições ideais para a aclimação duma estética refinada, flor de estufa das civilizações, como era o Simbolismo. Inicialmente nucleado em Santa Catarina e no Paraná, cedo o movimento se transferiu para o Rio de Janeiro, onde encontrou ambiente intelectual ainda mais apropriado: nesse trânsito, as razões mesológicas cedem, ao menos em parte, pois Curitiba e Florianópolis continuavam a ser palco de manifestações simbolistas, a razões de ordem socieconômico-cultural.
                    Por fim, cumpre examinar as relações entre o Simbolismo e o Modernismo. Do ângulo da liberdade criadora e do à vontade formal, não há dúvida que as raízes do Modernismo devem ser procuradas no Simbolismo. Ainda mais: algumas tendências simbolistas penetraram o Modernismo (como o referido grupo de espiritualistas), enquanto outras vieram a influenciar poetas, como Manuel Bandeira, Mário de Andrade, e outros. O verso livre, instrumento anarquizante das hostes modernistas, é legado simbolista. Admitindo-se que “toda a poesia moderna tem no Simbolismo o seu ponto de partida”,7 o Modernismo se identifica como uma espécie de Simbolismo inconsciente, ou a sua continuação.8 “Não restam mais dúvidas que o melhor de nossa poesia modernista tem suas origens nos poetas simbolistas. Suas ousadias e experiências foram bastante fecundas, e aí estão para atestar o quanto os modernistas de 22, e mesmo os de agora, lhes devem. De resto, um dos chefes da revolução de 22 Oswald de Andrade, reconheceu isso quando declarou, certa vez, que a linha ascendente da moderna poesia brasileira deriva do Simbolismo.”9 O mesmo se poderia dizer da prosa introspectiva duma Clarice Lispector, dum Lúcio Cardoso, dum Cornélio Pena. Mesmo na ficção de Oswald de Andrade, como nas Memórias Sentimentais de João Miramar (1924), se adivinham expedientes cinematográficos e algo surrealistas de possível extração simbolista. Por vias subterrâneas, ou às escâncaras, o Modernismo manteve com o Simbolismo um comércio benéfico: o primeiro, continuando aspectos do segundo, procurava pôr em prática ideais de arte que o outro, tendo-os apenas vislumbrado, se apressou a comunicar à geração subseqüente, na esperança de vê-los concretizados.

                    [ . . . ]


Notas do autor de História da Literatura Brasileira — Simbolismo (1893 — 1922):
* Retomam-se, de forma abreviada, os capítulos iniciais do meu livro O Simbolismo, vol. IV dA Literatura Brasileira. S. Paulo, Cultrix, 1966
1. Péricles Eugênio da Silva Ramos, op. cit. [Poesia Simbolista, S. Paulo, Melhoramentos, 1965], pp. 27-8.
2. Andrade Muricy, op. cit. [Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro, 3 vols., Rio de Janeiro, INL, 1952 (2² ed., 2 vols., Rio de Janeiro, INL, 1973)], vol. I, p. 42.
3. Idem, ibidem, pp. 41-3; Péricles Eugênio da Silva Ramos, op. cit., pp. 25-8.
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos preconiza para Alberto Ramos um papel pelo menos de precursor, porquanto “adotou uma ‘prosa ritmada’ (1894) que era verso livre sem esse nome” (Poesia Parnasiana, S. Paulo, Melhoramentos, 1967, p. 247).
5. Andrade Muricy, op. cit., vol. 1, p. 42.
6. Idem, ibidem, pp. 46-7; Péricles Eugênio da Silva Ramos, Poesia Simbolista, pp. 27-8.
7. Otto Maria Carpeaux, Origens e Fins, Rio de Janeiro, Casa do Estudante do Brasil, 1944, p. 313.
8. Idem, ibidem, p. 328; Alceu de Amoroso Lima, op. cit., p. 55.
9. Fernando Góes, O Simbolismo, vol. IV do Panorama da Poesia Brasileira, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1959, p. 18.
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História da Literatura Brasileira — Simbolismo (1893 — 1922): Massaud Moisés, 1988, 2ª edição, Editora Cultrix, São Paulo — SP; Massaud Moisés (1928 2018), paulista e paulistano, formado pela USP Universidade de São Paulo, foi professor titular de Literatura Portuguesa do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da mesma universidade, onde também desenvolveu importantes trabalhos de pesquisa na área e dirigiu o Centro de Estudos Portugueses, além de ter sido professor visitante em várias universidades norte-americanas e na Universidade de Santiago de Compostela Espanha; bibliografia: Fernando Pessoa: o Espelho e a Esfinge (1958), A Literatura Portuguesa (1960), Poemas escolhidos de Cruz e Sousa (introdução e seleção, 1961), O Simbolismo — volume IV d’A Literatura Brasileira (1966), A Criação Literária — Poesia (1967), A Criação Literária — Prosa (1967), A Literatura Portuguesa através dos textos (1968), O Conto Português (1975), Dicionário de Termos Literários (1974), Pequeno Dicionário de Literatura Portuguesa (em colaboração com outros especialistas, 1981), Literatura: Mundo e Forma (1982), História da Literatura Brasileira, 3 volumes — Origens, Barroco e Arcadismo; Realismo e Romantismo; Simbolismo (1983-1984-1985) etc. etc. etc.; o autor e professor teve muitas de suas reeditadas várias vezes; em 2015, Massaud Moisés doou sua biblioteca pessoal, com livros e todo mobiliário, para a Casa de Portugal, em São Paulo; foi membro da Academia Paulista de Letras.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Elizabeth Bishop: canção do tempo das chuvas

 
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[traduzido por Paulo Henriques Britto]

Oculta, oculta,
na névoa, na nuvem,
a casa que é nossa,
sob a rocha magnética,
exposta a chuva e arco-íris,
onde pousam corujas
e brotam bromélias
negras de sangue, liquens
e a felpa das cascatas,
vizinhas, íntimas.

Numa obscura era
de água
o riacho canta de dentro
da caixa torácica
das samambaias gigantes;
por entre a mata grossa
o vapor sobe, sem esforço,
e vira para trás, e envolve
rocha e casa
numa nuvem só nossa.

À noite, no telhado,
gotas cegas escorrem,
e a coruja canta sua copla
e nos prova
que sabe contar:
cinco vezes  sempre cinco 
bate o pé e decola
atrás das rãs gordas, que
coaxam de amor
em plena cópula.

Casa, casa aberta
para o orvalho branco
e a alvorada cor
de leite, doce à vista;
para o convívio franco
com lesma, traça,
camundongo
e mariposas grandes;
com uma parede para o mapa
ignorante do bolor;

escurecida e manchada
pelo toque cálido
e morno do hálito,
maculada, querida,
alegra-te! Que em outra era
tudo será diferente.
(Ah, diferença que mata,
ou intimida, boa parte
da nossa mínima, humilde
vida!) Sem água

a grande rocha ficará
desmagnetizada, nua
de arco-íris e chuva,
e o ar que acaricia
e a neblina
desaparecerão;
as corujas irão embora,
e todas as cascatas
hão de murchar ao sol
do eterno verão.

Sítio da Alcobacinha
Fazenda Samambaia
Petrópolis

Elizabeth Bishop

song for the rainy season

Hidden, oh hidden
in the high fog
the house we live in,
beneath the magnetic rock,
rain-, rainbow-ridden,
where blood-black
bromelias, lichens,
owls, and the lint
of the waterfalls cling,
familiar, unbidden.

In a dim age
of water
the brook sings loud
from a rib cage
of giant fern; vapor
climbs up the thick growth
effortlessly, turns back,
holding them both,
house and rock,
in a private cloud.

At night, on the roof,
blind drops crawl
and the ordinary brown
owl gives us proof
he can count:
five times — always five —
he stamps and takes off
after the fat frogs that,
shrilling for love,
clamber and mount.

House, open house
to the white dew
and the milk-white sunrise
kind to the eyes,
to membership
of silver fish, mouse,
bookworms,
big moths; with a wall
for the mildew’s
ignorant map;

darkened and tarnished
by the warm touch
of the warm breath,
maculate, cherished;
rejoice! For a later
era will differ.
(O difference that kills,
or intimidates, much
of all our small shadowy
life!) Without water

the great rock will stare
unmagnetized, bare,
no longer wearing
rainbows or rain,
the forgiving air
and the high fog gone;
the owls will move on
and the several
waterfalls shrivel
in the steady sun.

Sítio da Alcobaçinha
Fazenda Samambaia
Petrópolis
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Questões de viagem — Elizabeth Bishop, Tradução e Notas de Paulo Henriques Britto, edição bilíngue, 2020, poesia de bolso, 1ª edição, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Elizabeth Bishop (1911 1979), estadunidense de Worcester, Massachusets, foi poeta e escritora; viveu no Brasil entre 1951 e 1969, residindo no Rio de Janeiro e em Petrópolis e, depois, em Ouro Preto, onde adquiriu uma casa; escreveu reportagens para a revista Time-Life, reunidas na obra Brasil; bibliografia: North & South (1946), A Cold Spring Poems: North & South — A Cold Spring (1955), Questions of Travel (com numerosos poemas feitos no Brasil, 1965), The Complete Poems (1969), Geography III (1976), Edgar Allan Poe & The Juke-Box: Uncollected Poems, Drafts, and Fragments (editado e anotado por Alice Quinn, 2006) e outros textos; verteu para o inglês poemas de Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Morais, Manuel Bandeira, João Cabral do Melo Neto, Joaquim Cardozo, os quais constaram de uma edição por ela organizada, An Anthology of Twentieth-Century Brazilian Poetry (1972), em parceria com Emanuel Brasil; recebeu prêmios por sua obra, entre os quais o Pulitzer e o National Book Award; em sua estada em terras brasileiras, Elizabeth Bishop envolveu-se amorosamente com a arquiteta autodidata e paisagista Lota de Macedo Soares (Maria Carlota), com quem passou a conviver, e cuja história é mostrada no filme Flores Raras (2013), dirigido por Bruno Barreto, e tendo no elenco a atriz Gloria Pires como Lota, e a atriz australiana Miranda Otto representando a poeta.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Konstantinos Kaváfis: Os passos *

 
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[traduzido por José Paulo Paes]

Em leito ebúrneo, de que são ornatos
águias de coral, dorme profundamente
Nero o seu sono tranqüilo, inconsciente, afortunado,
no vigoroso florescimento da carne,
na bela afirmação da juventude.

Mas no aposento alabastrino onde está encerrado
o antigo larário dos Enobarbos,
como os Lares se mostram perturbados.
Os deuzinhos domésticos tiritam
e forcejam por esconder os seus corpos minúsculos.
Isso porque ouviram um ruído sinistro,
um ruído funesto a subir pela escada;
são passadas de ferro que sacodem toda a escada.
Ora desfalecentes, os Lares miseráveis
vão-se esconder no fundo do larário,
um ao outro atropela, um com o outro colide,
caem uns sobre os outros, os pequenos deuses,
pois compreenderam que tipo de ruído é aquele:
conheceram enfim os passos das Erínias.

(1909)

Konstantinos Kaváfis

ΤΑ ΒΉΜΑΤΑ

Σ’ εβένινο κρεββάτι στολισμένο
με κοραλλένιους αετούς, βαθυά κοιμάται
ο Νέρων — ασυνείδητος, ήσυχος, κ’ ευτυχής•
ακμαίος μες στην ευρωστία της σαρκός,
και στης νεότητος τ’ ωραίο σφρίγος.

Aλλά στην αίθουσα την αλαβάστρινη που κλείνει
των Aηνοβάρβων το αρχαίο λαράριο
τι ανήσυχοι που είν’ οι Λάρητές του.
Τρέμουν οι σπιτικοί μικροί θεοί,
και προσπαθούν τ’ ασήμαντά των σώματα να κρύψουν.
Γιατί άκουσαν μια απαίσια βοή,
θανάσιμη βοή την σκάλα ν’ ανεβαίνει,
βήματα σιδερένια που τραντάζουν τα σκαλιά.
Και λιγοθυμισμένοι τώρα οι άθλιοι Λάρητες,
μέσα στο βάθος του λαράριου χώνονται,
ο ένας τον άλλονα σκουντά και σκουντουφλά,
ο ένας μικρός θεός πάνω στον άλλον πέφτει
γιατί κατάλαβαν τι είδος βοή είναι τούτη,
τάνοιωσαν πια τα βήματα των Εριννύων.

(1909)

* Nota do tradutor José Paulo Paes: Os passos — Os Enobarbos eram os antepassados de Nero, cujo pai, marido de Agripa, chama-se Gneo Domício Enobarbo. Os antigos romanos costumavam ter uma pequena capela doméstica, o larário, onde guardavam os Lares, isto é, as divindades tutelares da casa. As Erínias, Fúrias ou Eumênides eram as deusas da violência e do terror na mitologia grega. Representadas como gênios alados, com os cabelos entremeados de serpentes, ficavam postadas à entrada do inferno e chicoteavam impiedosamente suas vítimas, já que tinham por missão punir os crimes e vingar os inocentes.
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Poemas — Konstantinos Kaváfis, Seleção, Estudo crítico, Notas e Tradução direta do grego por José Paulo Paes, Coleção Poiesis, 1982 — Editora Nova Fronteira — Rio de Janeiro — RJ; Konstantinos Kaváfis (1863 1933), greco-otomano de Alexandria Egito, à época Império Otomano, foi poeta; ainda em sua primeira infância Kaváfis e família mudaram-se para Liverpool, no Reino Unido e, depois, retornou para Alexandria e ali viveu; teve seus primeiros versos escritos em inglês, e dominava também os idiomas francês e italiano, além do grego; em vida, o poeta não publicou nenhum livro, seus poemas foram distribuídos em feuilles volantes (folhas soltas) ou então divulgados em alguns veículos literários, entre os quais a revista ateniense Panathenea e o jornal de língua grega Hespera, editado em Leipzig, e também teve impressos dois opúsculos (o primeiro, em 1904, com dezesseis folhas, e o segundo, com vinte e quatro); já postumamente, em 1935, através de seus amigos e herdeiros literários Aleko e Rika Singopoulos, editou-se um livro contendo 154 poemas, os considerados canônicos, e cujo conteúdo constituía basicamente de uma coletânea das diversas feuilles volantes anteriormente divulgadas; o poeta deixou-nos outros textos, inéditos, inacabados ou repudiados, os quais não fizeram parte da edição de 1935.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Araújo Figueredo: Recordando

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(Para a alma de Cruz e Sousa)

Recordas? Esta praia é a mesma onde viveste
Longos anos comigo. É a mesma na brancura,
A mesma na alegria, a mesma na frescura;
E se espelha no mar o mesmo azul celeste.

Os versos virginais que sempre lhe fizeste,
E os que eu também lhe fiz, rimados de doçura,
Correm por esse mar, pela imensa planura:
São perfumes sutis de um roseiral agreste.

Recordas? Esta praia é sempre a mesma praia,
E quando morre o sol, e quando a luz desmaia,
Continua a embalar, entre os ventos dispersos,

Esse anseio de amor, que sonhamos outrora,
E que palpita e vibra, e que renasce e chora,
E vive a soluçar nos meus e nos teus versos.

(“Praias da minha terra”, in Poesias, pág. 15.)

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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 1, (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; Juvêncio de Araújo Figueredo (1865 1927), catarinense de Desterro, hoje cidade de Florianópolis, foi tipógrafo, jornalista, promotor público, professor e poeta; colaborou em vários jornais, tanto de sua terra como de vários pontos do país; além de promotor, exerceu outras funções públicas; foi fundador de um colégio na cidade de Laguna SC, onde também lecionou durante dois anos; em alguns dos periódicos por onde transitou também atuou como tipógrafo; bibliografia: Madrigais (1888), que ele mesmo compôs, como tipógrafo profissional, Ascetérios (1904), e deixou inéditos outros dois volumes de poemas, um deles, Praias de minha terra (1927) e também a autobiografia, incompleta, No Caminho do Destino; em 1966, foi editado Poesias — Edição comemorativa do Centenário.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Zeferino Brazil: Eu não sou deste mundo. Eu venho de outra Vida, . . . [soneto]

 
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Eu não sou deste mundo. Eu venho de outra Vida,
De uma estranha região, deslumbrante e afastada,
E, saudoso, recordo a existência passada
Nessa Terra de Luz para sempre perdida.

Conservo na retina a paisagem dourada
Dessa pátria remota, harmoniosa e florida,
Que era, para minh’alma a Terra-Prometida
E de onde há muito tempo ela anda desterrada.

Ah! foi lá que eu vivi uma existência leda,
Sonhos de ouro a sonhar, quimeras perseguindo,
Sob céus de cristal, por montanhas de seda.

E não raro diviso, através de um risonho
Crepúsculo de névoa, esse mavioso e lindo,
Encantado país da Delícia e do Sonho.

(Teias de Luar 1924)

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História da Literatura Brasileira — Simbolismo: Massaud Moisés, 1988, 2ª edição, Editora Cultrix, São Paulo — SP; Zeferino Antônio de Souza Brazil (1870 1942), gaúcho de Taquari, foi cronista, romancista, dramaturgo, crítico literário e sobretudo poeta parnasiano e simbolista, tendo recebido o epíteto de "príncipe dos poetas riograndenses"; colaborou com os periódicos Jornal do Comércio, Correio do Povo, Última Hora e Gazeta do Comércio entre outros veículos, nos quais fazia uso, além do seu nome verdadeiro, também de vários pseudônimos (Nilo Castanheira, João Simplício, Lúcifer, Til, Eça de Oliveira, Brás Patife Júnior, José dos Cantinhos, Tic, Tac, Diabo Coxo, Vasco de Montarroyos, Phoebus de Montalvão, Luiz Denis, etc.); escreveu e publicou: Alegros e Surdinas (versos dos 15 anos, 1891), Traços Cor de Rosa (versos, 1892), Comédia da Vida (1896), Juca, o Letrado (estudo da psicologia mórbida, 1900), Vovó Musa (1903), Visão do Ópio (1906), Na Torre de Marfim (1910), Comédia da Vida, versos alegres para gente triste — segunda série (1914) O Meio: psicofisiologia do alcoolismo (1922), Teias de Luar (1924), Boêmia de Pena (prosa velha, 1932), Alma Gaúcha (1935), entre outros títulos.

Langston Hughes: Variações de sonho

 
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[traduzido por Lúcia Granja]

Abrir bem os braços
Ao sol de algum lugar
Girar e dançar até
O branco dia acabar.
Descansar depois na sombra
De alta árvore ao poente
Enquanto, escura como eu, cai
     A noite mansamente...
É o meu sonho!

Abrir bem os braços
Para o sol à minha frente,
Até o fim do breve dia.
Descansar ao poente...
Alta árvore esguia...
E, negra como eu, a noite
     Vindo ternamente.

Langston Hughes

Dream variations

To fling my arms wide
In some place of the sun,
To whirl and to dance
Till the white day is done.
Then rest at cool evening
Beneath a tall tree
While night comes on gently,
     Dark like me —
That is my dream!

To fling my arms wide
In the face of the sun,
Dance! Whirl! Whirl!
Till the quick day is done.
Rest at pale evening...
A tall, slim tree…
Night coming tenderly
     Black like me.

(The Norton anthology of American literature.
New York, W. W. Nortonj & Co. — 1979)
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Transverso — coletânea de poemas traduzidos (onze poetas e dez tradutores), Organização, Nota liminar e Posfácio de José Paulo Paes e notas dos diversos tradutores, Editora Unicamp, Campinas — SP; James Mercer Langston Hughes (1902 1967), nascido em Joplin Missouri, USA, foi poeta, novelista, contista, dramaturgo, colunista e um dos expoentes do movimento cultural afro-americano Harlem Renaissance (Renascença do Harlem) dos anos 1920; sua formação universitária se deu na Universidade de Columbia, em Nova York, e na Universidade de Lincoln, na Pensilvânia; transportou para a poesia os ritmos e a cadência da música do seu povo, notadamente o blues; além de escrever poesias, contos e artigos para revistas e jornais, também fez documentários, peças teatrais e programas de rádio e tevê; bibliografia: The Weary Blues (poesia, 1926), Not Without Laughter (romance, 1930), Dear Lovely Death (poesia, 1931), The Negro Mother and Other Dramatic Recitations (1931), The Dream Keeper and Other Poems (1932), Let America Be America Again (1938), The Big Sea (autobiografia, 1940), Shakespeare in Harlem (poesia, 1942), Simple Speaks His Mind (prosa, 1950), Simple Stakes a Wife (prosa, 1950), Tambourines to Glory (prosa, 1958), Five Plays by Langston Hughes (drama, 1963), Mule Bone (drama), e outros títulos em verso, prosa e para dramatização; Langston Hughes traduziu textos do cubano Nicolás Guillén, Cuba Libre (poemas, 1948) e da chilena Gabriela Mistral, Selected Poems of Gabriela Mistral (poemas, 1957); antes de se firmar como literato, teve os ofícios de assistente de cozinheiro, lavador e busboy, além de, trabalhando como marinheiro, ter viajado à África e à Europa.