____________________
Que a mão do tempo e o hálito dos homens
Murchem a flor das ilusões da vida,
Musa consoladora,
É no teu seio amigo e sossegado
Que o poeta respira o suave sono.
Não há, não há contigo,
Nem dor aguda, nem sombrios ermos;
Da tua voz os namorados cantos
Enchem, povoam tudo
Da íntima paz, de vida e de conforto.
Ante esta voz que as dores adormece,
E muda o agudo espinho em flor cheirosa,
Que vales tu, desilusão dos homens?
Tu que podes, ó tempo?
A alma triste do poeta sobrenada
À enchente das angústias,
E, afrontando o rugido da tormenta,
Passa cantando, alcíone divina.
Musa consoladora,
Quando da minha fronte de mancebo
A última ilusão cair, bem como
Folha amarela e seca
Que ao chão atira a viração do outono,
Ah! no teu seio amigo
Acolhe-me, — e haverá minha alma aflita,
Em vez de algumas ilusões que teve,
A paz, o último bem, último e puro!
[Crisálidas,
1864]
(Poesias
Completas, W. M. Jackson, Rio, 1937, págs. 11/12.)
____________________
Panorama da
Poesia Brasileira, Volume II — O Romantismo [antologia:
vários poetas e poemas], Seleção, Introdução, Traços biobibliográficos e Notas de
Edgard Cavalheiro, 1959, Editora Civilização Brasileira, São Paulo — SP; Joaquim Maria Machado de Assis (1839 — 1908), nascido
no Rio de Janeiro, autodidata, é tido como o maior ficcionista brasileiro, além
de ter sido poeta; sabe-se que, já aos quinze anos, dominava a língua portuguesa
e conhecia o francês e teve seu primeiro texto — escrito em versos — publicado na
Marmota Fluminense, jornal de Francisco de Paula Brito, ali passando a colaborar
até 1861; em seu percurso literário publicou seus textos em inúmeros jornais e revistas:
O Paraíba e Correio Mercantil (1858), revista O Espelho (crítica teatral, de 1859
a 1860), A Semana Ilustrada, revista Ilustração Brasileira (1876) entre outros veículos
literários; escreveu e publicou: Crisálidas (poesias, 1864), Falenas (poesias, 1870),
Contos Fluminenses (1870), Ressurreição (romance, 1872), Histórias da Meia-Noite
(contos, 1873), A Mão e a Luva (romance, 1874), Americanas (poesias, 1875), Helena
(romance, 1876), Iaiá Garcia (romance, 1878), Ocidentais (poesias de feição parnasiana,
1880), Memórias Póstumas de Brás Cubas (romance, 1881), Papéis Avulsos (contos,
1882), Quincas Borba (romance, 1891), Várias Histórias (contos, 1896), Dom Casmurro
(romance, 1899), Páginas Recolhidas (contos, ensaios e teatro, 1899) etc, além de
peças de teatro; foi fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras.




/https://skoob.s3.amazonaws.com/livros/389983/NOSSOS_CLASSICOS_82_MACHADO_DE_ASSIS___1400000536B.jpg)


