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domingo, 3 de março de 2024

Machado de Assis: Musa Consolatrix


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Que a mão do tempo e o hálito dos homens
Murchem a flor das ilusões da vida,
Musa consoladora,
É no teu seio amigo e sossegado
Que o poeta respira o suave sono.

Não há, não há contigo,
Nem dor aguda, nem sombrios ermos;
Da tua voz os namorados cantos
Enchem, povoam tudo
Da íntima paz, de vida e de conforto.

Ante esta voz que as dores adormece,
E muda o agudo espinho em flor cheirosa,
Que vales tu, desilusão dos homens?
Tu que podes, ó tempo?
A alma triste do poeta sobrenada
À enchente das angústias,
E, afrontando o rugido da tormenta,
Passa cantando, alcíone divina.
Musa consoladora,
Quando da minha fronte de mancebo
A última ilusão cair, bem como
Folha amarela e seca
Que ao chão atira a viração do outono,
Ah! no teu seio amigo
Acolhe-me, e haverá minha alma aflita,
Em vez de algumas ilusões que teve,
A paz, o último bem, último e puro!

[Crisálidas, 1864]
(Poesias Completas, W. M. Jackson, Rio, 1937, págs. 11/12.)

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Panorama da Poesia Brasileira, Volume II — O Romantismo [antologia: vários poetas e poemas], Seleção, Introdução, Traços biobibliográficos e Notas de Edgard Cavalheiro, 1959, Editora Civilização Brasileira, São Paulo — SP; Joaquim Maria Machado de Assis (1839 1908), nascido no Rio de Janeiro, autodidata, é tido como o maior ficcionista brasileiro, além de ter sido poeta; sabe-se que, já aos quinze anos, dominava a língua portuguesa e conhecia o francês e teve seu primeiro texto escrito em versos publicado na Marmota Fluminense, jornal de Francisco de Paula Brito, ali passando a colaborar até 1861; em seu percurso literário publicou seus textos em inúmeros jornais e revistas: O Paraíba e Correio Mercantil (1858), revista O Espelho (crítica teatral, de 1859 a 1860), A Semana Ilustrada, revista Ilustração Brasileira (1876) entre outros veículos literários; escreveu e publicou: Crisálidas (poesias, 1864), Falenas (poesias, 1870), Contos Fluminenses (1870), Ressurreição (romance, 1872), Histórias da Meia-Noite (contos, 1873), A Mão e a Luva (romance, 1874), Americanas (poesias, 1875), Helena (romance, 1876), Iaiá Garcia (romance, 1878), Ocidentais (poesias de feição parnasiana, 1880), Memórias Póstumas de Brás Cubas (romance, 1881), Papéis Avulsos (contos, 1882), Quincas Borba (romance, 1891), Várias Histórias (contos, 1896), Dom Casmurro (romance, 1899), Páginas Recolhidas (contos, ensaios e teatro, 1899) etc, além de peças de teatro; foi fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras.

terça-feira, 16 de janeiro de 2024

Machado de Assis: A flor do embiroçu


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Noite, melhor que o dia, quem não te ama?
(Fil. Elís.) [Filinto Elísio]

Quando a noturna sombra envolve a terra
E à paz convida o lavrador cansado,
À fresca brisa o seio delicado
A branca flor do embiroçu descerra.

E das límpidas lágrimas que chora
A noite amiga, ela recolhe alguma;
A vida bebe na ligeira bruma,
Até que rompe no horizonte a aurora.

Então, à luz nascente, a flor modesta,
Quando tudo o que vive alma recobra,
Languidamente as suas folhas dobra,
E busca o sono quando tudo é festa.

Suave imagem da alma que suspira
E odeia a turba vã! da alma que sente
Agitar-se-lhe a asa impaciente
E a novos mundos transportar-se aspira!

Também ela ama as horas silenciosas,
E quando a vida as lutas interrompe,
Ela da carne os duros elos rompe,
E entrega o seio às ilusões viçosas.

É tudo seu, tempo, fortuna, espaço,
E o céu azul e os seus milhões de estrelas;
Abrasada de amor, palpita ao vê-las,
E a todas cinge no ideal abraço.

O rosto não encara indiferente,
Nem a traidora mão cândida aperta;
Das mentiras da vida se liberta
E entra no mundo que jamais não mente.

Noite, melhor que o dia; quem não te ama?
Labor ingrato, agitação, fadiga,
Tudo faz esquecer tua asa amiga
Que a alma nos leva onde a ventura a chama.

Ama-te a flor que desabrocha à hora
Em que o último olhar o sol lhe estende,
Vive, embala-se, orvalha-se, recende,
E as folhas cerra quando rompe a aurora.

(Poesias Completas, W. M. Jackson,
Rio, 1937, págs. 308/9.)

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Panorama da Poesia Brasileira, Volume II — O Romantismo [antologia: vários poetas e poemas], Seleção, Introdução, Traços biobibliográficos e Notas de Edgard Cavalheiro, 1959, Editora Civilização Brasileira, São Paulo — SP; Joaquim Maria Machado de Assis (1839 1908), nascido no Rio de Janeiro, autodidata, é tido como o maior ficcionista brasileiro, além de ter sido poeta; sabe-se que, já aos quinze anos, dominava a língua portuguesa e conhecia o francês e teve seu primeiro texto escrito em versos publicado na Marmota Fluminense, jornal de Francisco de Paula Brito, ali passando a colaborar até 1861; em seu percurso literário publicou seus textos em inúmeros jornais e revistas: O Paraíba e Correio Mercantil (1858), revista O Espelho (crítica teatral, de 1859 a 1860), A Semana Ilustrada, revista Ilustração Brasileira (1876) entre outros veículos literários; escreveu e publicou: Crisálidas (poesias, 1864), Falenas (poesias, 1870), Contos Fluminenses (1870), Ressurreição (romance, 1872), Histórias da Meia-Noite (contos, 1873), A Mão e a Luva (romance, 1874), Americanas (poesias, 1875), Helena (romance, 1876), Iaiá Garcia (romance, 1878), Ocidentais (poesias de feição parnasiana, 1880), Memórias Póstumas de Brás Cubas (romance, 1881), Papéis Avulsos (contos, 1882), Quincas Borba (romance, 1891), Várias Histórias (contos, 1896), Dom Casmurro (romance, 1899), Páginas Recolhidas (contos, ensaios e teatro, 1899) etc, além de peças de teatro; foi fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras.

sábado, 16 de dezembro de 2023

William Shakespeare: "To be or not to be"


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[traduzido por Machado de Assis]

[Hamlet, Ato 3, Cena 1]

Ser ou não ser, eis a questão. Acaso
É mais nobre a cerviz curvar aos golpes
Da ultrajosa fortuna, ou já lutando
Extenso mar vencer de acerbos males?
Morrer, dormir, não mais. E um sono apenas,
Que as angústias extingue e à carne a herança
Da nossa dor eternamente acaba,
Sim, cabe ao homem suspirar por ele.
Morrer, dormir. Dormir? Sonhar, quem sabe?
Ai, eis a dúvida. Ao perpétuo sono,
Quando o lodo mortal despido houvermos,
Que sonhos hão de vir? Pesá-lo cumpre.
Essa a razão que os lutuosos dias
Alonga do infortúnio. Quem do tempo
Sofrer quisera ultrajes e castigos,
Injúrias da opressão, baldões de orgulho,
Do mal prezado amor choradas mágoas,
Das leis a inércia, dos mandões a afronta,
E o vão desdém que de rasteiras almas
O paciente mérito recebe,
Quem, se na ponta da despida lâmina
Lhe acenara o descanso? Quem ao peso
De uma vida de enfados e misérias
Quereria gemer, se não sentira
Terror de alguma não sabida coisa
Que aguarda o homem para lá da morte,
Esse eterno país misterioso
Donde um viajor sequer há regressado?
Este só pensamento enleia o homem;
Este nos leva a suportar as dores
Já sabidas de nós, em vez de abrirmos
Caminho aos males que o futuro esconde,
E a todos acovarda a consciência.
Assim da reflexão à luz mortiça
A viva cor da decisão desmaia;
E o firme, essencial cometimento,
Que esta idéia abalou, desvia o curso,
Perde-se, até de ação perder o nome.

William Shakespeare

To be or not to be

[Spoken by Hamlet, Act 3 Scene 1]

To be, or not to be: that is the question:
Whether ’tis nobler in the mind to suffer
The slings and arrows of outrageous fortune,
Or to take arms against a sea of troubles,
And by opposing end them? To die: to sleep;
No more; and by a sleep to say we end
The heart-ache and the thousand natural shocks
That flesh is heir to, ’tis a consummation
Devoutly to be wish’d. To die, to sleep;
To sleep: perchance to dream: ay, there’s the rub;
For in that sleep of death what dreams may come
When we have shuffled off this mortal coil,

Must give us pause: there’s the respect
That makes calamity of so long life;
For who would bear the whips and scorns of time,
The oppressor’s wrong, the proud man’s contumely,
The pangs of despised love, the law’s delay,
The insolence of office and the spurns
That patient merit of the unworthy takes,
When he himself might his quietus make
With a bare bodkin? who would fardels bear,
To grunt and sweat under a weary life,
But that the dread of something after death,
The undiscover’d country from whose bourn
No traveller returns, puzzles the will
And makes us rather bear those ills we have
Than fly to others that we know not of?
Thus conscience does make cowards of us all;
And thus the native hue of resolution
Is sicklied o’er with the pale cast of thought,
And enterprises of great pith and moment
With this regard their currents turn awry,
And lose the name of action.
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Antologia de Poetas Estrangeiros — Seleção e Notas de Afonso Telles Alves, [diversos autores e tradutores], Volume VIII da coleção Antologia da Literatura Mundial, [1960], Livraria e Editora Logos Ltda., São Paulo — SP; William Shakespeare (1564 1616), nascido em Stratford-upon-Avon, poeta e dramaturgo inglês, é tido como o mais influente dramaturgo do mundo; de Shakespeare, consta que restaram até nossos dias 38 peças, 3154 sonetos, dois longos poemas narrativos e diversos outros poemas; suas peças foram traduzidas para os principais idiomas do globo e são revisitadas e interpretadas frequentemente pelo teatro, televisão, cinema e literatura que o digam Romeu e Julieta e Hamlet, por exemplo; principais obras: escreveu comédias (Sonho de Uma Noite de Verão, O Mercador de Veneza, A Comédia de Erros, A Megera Domada, A Tempestade, Cimbelino, e tantas outras), tragédias (Tito Andrônico, Romeu e Julieta, Júlio César, Macbeth, Coriolano, Rei Lear, Otelo — O Mouro de Veneza, Hamlet etc.), dramas históricos (Rei João, Ricardo II, Ricardo III, Henrique IV — partes 1 e 2, Henrique V, Henrique VI — partes 1, 2 e 3, Henrique VIII e Eduardo III).

domingo, 13 de dezembro de 2020

Furnandes Albaralhão: Circuito biciado *

 
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Ao mó culéga Machado d’Assis

"Guiando um vonde, g’mia inquieto maturnâiro
Ah! Si eu fosse u fiscale aqui dessa meléca...
De prazeire, nain sai... tumaba uma quiméca..."
Mas u fiscale ulhando u vurro du dinheiro

du chefe du iscritório: "Imbejo-te, parçâiro,
Se eu fosse como tu, câ farra! Câ panquéca!
Cumia tanto, qui rivintaba a cuéca!"
Mas u chefe a fitaire a pança de bendâiro

du supirintendente: "Eu não ser mais maióre,
não têre o que tu tains! Não têre u teu dinhâiro!..."
I u supirintendente a limpare o suóre:

"Iscrêbo como um vurro! É a noute! É u dia intâiro!
Entra sóle, sai sóle! Não há coisa pióre!
Ah! Câim déra qui eu fosse um simples maturnâiro!"


* Nota deste Verso e Conversa: Para efeito de comparação, este atrevido aprendiz de blogueiro transcreve o soneto que deu origem à paródia: Círculo vicioso: Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume: / "Quem me dera que fosse aquela loura estrela, / que arde no eterno azul, como uma eterna vela!" / Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme: // — "Pudesse eu copiar o transparente lume, / que, da grega coluna à gótica janela, / contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela!" / Mas a lua, fitando o sol, com azedume: // — "Mísera! tivesse eu aquela enorme, aquela / claridade imortal, que toda a luz resume!" / Mas o sol, inclinando a rútila capela: // — "Pesa-me esta brilhante auréola de nume... / Enfara-me esta azul e desmedida umbela... / Por que não nasci um simples vagalume?...” (Machado de Assis)
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Humor e Humorismo — Poesias e Versos e Paródias de Poemas Famosos — Antologia, Organização de Idel Becker, 1961, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; Furnandes Albaralhão, pseudônimo de Horácio Mendes Campos (1902 1964), fluminense e carioca, foi poeta satírico e de paródias, escritor, libretista de teatro de revistas, violonista e compositor; publicou o livro de humor Caldo Berde (1ª edição impressa em 1930), no qual apresenta sátiras, paródias de sonetos famosos e pensamentos com linguagem macarrônica, bem à moda do pré-modernista Juó Bananére; Horácio Campos foi um dos muitos colaboradores quase ignorados de uma das várias fases de A Manha, jornal humorístico e satírico do Barão de Itararé — o Aporelly; ao autor de Caldo Berde coube cuidar, com muita arte, do suplemento lusitano de A Manha, escrevendo paródias de poetas portugueses e brasileiros e composições de sua inteira inspiração; trechos de seu livro foram republicados na revista A Pomba (década de 60).

domingo, 11 de outubro de 2020

Heinrich Heine: “Intermezzo Lírico” (Fragmentos)

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[traduzido por Machado de Assis]

Prólogo

Um cavalheiro havia, taciturno,
Que o rosto magro e macilento tinha.
Vagava como quem de algum noturno
Sonho levado, trépido caminha.
Tão alheio, tão frio, tão soturno,
Que a moça em flor e a lépida florinha,
Quando passar tropegamente o viam,
Às escondidas dele escarneciam.

Amiúde buscava a mais sombria
Parte da casa, por fugir à gente:
Daquele posto os braços estendia
Tomado de desejo impaciente.
Uma palavra só não proferia.
Mas, pela meia-noite de repente
Estranho canto e música escutava,
E logo alguém que à porta lhe tocava.

Furtivamente então entrava a amada
O vestido de espumas arrastando,
Tão vivamente fresca e tão corada
Como a rosa que vem desabrochando;
Brilha o véu; pela esbelta e delicada
Figura as tranças soltas vão brincando;
Os meigos olhos dela os dele fitam,
E um ao outro de ardor se precipitam.

Com a força que o amor somente gera,
O peito a cinge, agora afogueado;
O descorado as cores recupera
E o retraído acaba namorado,
O sonhador desfaz-se da quimera...
Ela o excita, com gesto calculado;
Na cabeça lhe lança levemente
O adamantino véu alvo e luzente.

Ei-lo se vê em sala cristalina
De aquático palácio. Com espanto
Olha, e de olhar a fábrica divina
Quase os olhos lhe cegam. Entretanto,
Junto ao úmido seio a bela ondina
O aperta tanto, tanto, tanto, tanto...
Vão as bodas seguir-se. Notas belas
Vêm tirando, das cítaras, donzelas.

As notas vêm tirando e, deleitosas,
Cantam e cada uma a dança tece
Erguendo ao ar as plantas graciosas.
Ele, que todo e todo se embevece,
Deixa-se ir nessas horas amorosas...
Mas o clarão de súbito fenece,
E o noivo torna à pálida tristura
Da antiga e solitária alcova escura.

Livro das Canções — 1827

Heinrich Heine - Pensador
Heinrich Heine

“Lyrisches Intermmezzo” (Bruchstücke)

Prolog

Es war’ mal ein Ritter trübselig und stumm,
Mit hohlen, schneeweissen Wangen;
Er schwankte und schlenderte schlotternd herum,
In dumpfen Träumen befangen.
Er war so hölzern, so täppisch, so links,
Die Blümlein und Mägdlein, die kicherten rings,
Wenn er stolpernd vorbeigegangen.

Oft sass er im finstersten Winkel zu Haus;
Er hatt sich vor Menschen verkrochen.
Da streckte er sehnend die Arme aus,
Doch hat er kein Wörtlein gesprochen.
Kam aber die Mitternachtstunde heran,
Ein seltsames Singen und Klingen begann
An die Türe da hört er es pochen.

Da kommt seine Liebste geschlichen herein,
Im rauschenden Wellenschaumkleide,
Sie blüht und glüht wie ein Röselein,
Ihr Schleier ist eitel Geschmeide.
Goldlocken umspielen die schlanke Gestalt,
Die Äuglein grüssen mit süsser Gewalt
In die Arme sinken sich beide.

Der Ritter umschlingt sie mit Liebesmacht,
Der Hölzerne steht jetzt im Feuer,
Der Blasse errötet, der Träumer erwacht,
Der Blöde wird freier und freier.
Sie aber, sie hat ihn gar schalkhaft geneckt,
Sie hat ihm ganz leise den Kopf bedeckt
Mit dem weissen, demantenen Schleier.

In einen kristallenen Wasserpalast
Ist plötzlich gezaubert der Ritter.
Er staunt, und die Augen erblinden ihm fast
Vor alle dem Glanz und Geflitter.
Doch hält ihn die Nixe umarmet gar traut,
Der Ritter ist Bräutgam, die Nixe ist Braut,
Ihre Jungfrauen spielen die Zither.

Sie spielen und singen, und singen so schön,
Und heben zum Tanze die Füsse;
Dem Ritter dem wollen die Sinne vergehn,
Und fester umschliesst er die Süsse
Da löschen auf einmal die Lichter aus,
Der Ritter sitzt wieder ganz einsam zu Haus,
In dem düstern Poetenstübchen.

Buch der Lieder — 1827
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O Livro de Ouro da Poesia Alemã — Antologia de Poetas da Língua Alemã, (diversos autores e tradutores), Apresentação e Seleção de Geir Campos, edição bilíngue, Clássicos de Bolso, 1985, Ediouro, Rio de Janeiro — RJ; Christian Johann Heinrich Heine (1797 1856), alemão de Dusseldorf, formado em Direito, foi poeta, ensaísta, jornalista e crítico literário; teve boa parte de sua obra lírico-poética musicada por vários compositores de sua época (Franz Shubert, Robert Schumann, Felix Mendelssohn, Brahms, Hugo Wolf, Richard Wagner), e, já no século XX, por José Maria Rocha Ferreira, Hans Werner Henze e Lord Berners; escreveu e publicou Gedichte (Poesias, 1821), Buch der Lieder (poesias, Livro das Canções, 1827), Neue Gedichte (Novos Versos, 1844), Romanzero (poesias, Romanceiro, 1851), Der Doktor Faust — Ein Tanzpoem (Doutor Fausto — um poema-dança, 1851), Die Götter im Exil (Os deuses no exílio, 1853), Letzte Gedichte (publicação póstuma, Últimos Versos, 1869), entre outros títulos.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Machado de Assis: A uma senhora que me pediu versos *

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Pensa em ti mesma, acharás
        Melhor poesia,
Viveza, graça, alegria,
        Doçura e paz.

Se já dei flores um dia,
        Quando rapaz,
As que ora dou têm assaz
        Melancolia.

Uma só das horas tuas
        Valem um mês 
Das almas já ressequidas.

        Os sóis e as luas
Creio bem que Deus os fez
        Para outras vidas. **

Ocidentais — 1880

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Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos:
* Soneto de metros desiguais: os versos ímpares têm 7 sílabas, os pares, 4;
** Outras vidas... capazes de apreciá-los, e não para mim ou os tristes como eu.
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Machado de Assis — Poesia, Coleção Nossos Clássicos, Volume 82, Seleção, Apresentação e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1964, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Joaquim Maria Machado de Assis (1839 1908), nascido no Rio de Janeiro, autodidata, é tido como o maior ficcionista brasileiro, além de ter sido poeta; sabe-se que, já aos quinze anos, dominava a língua portuguesa e conhecia o francês e teve seu primeiro texto escrito em versos publicado na Marmota Fluminense, jornal de Francisco de Paula Brito, ali passando a colaborar até 1861; em seu percurso literário publicou seus textos em inúmeros jornais e revistas: O Paraíba e Correio Mercantil (1858), revista O Espelho (crítica teatral, de 1859 a 1860), A Semana Ilustrada, revista Ilustração Brasileira (1876) entre outros veículos literários; escreveu e publicou: Crisálidas (poesias, 1864), Falenas (poesias, 1870), Contos Fluminenses (1870), Ressurreição (romance, 1872), Histórias da Meia-Noite (contos, 1873), A Mão e a Luva (romance, 1874), Americanas (poesias, 1875), Helena (romance, 1876), Iaiá Garcia (romance, 1878), Ocidentais (poesias de feição parnasiana, 1880), Memórias Póstumas de Brás Cubas (romance, 1881), Papéis Avulsos (contos, 1882), Quincas Borba (romance, 1891), Várias Histórias (contos, 1896), Dom Casmurro (romance, 1899), Páginas Recolhidas (contos, ensaios e teatro, 1899) etc, além de peças de teatro; foi fundador e primeiro Presidente da Academia Brasileira de Letras.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Machado de Assis: No alto *

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O poeta chegara ao alto da montanha,
E quando ia a descer a vertente do oeste,
      Viu uma cousa estranha,
      Uma figura má.

Então, volvendo o olhar ao sutil, ao celeste,
Ao gracioso Ariel, que de baixo o acompanha,
      Num tom medroso e agreste
      Pergunta o que será.

Como se perde no ar um som festivo e doce,
      Ou bem como se fosse
      Um pensamento vão,

Ariel se desfez sem lhe dar mais resposta.
      Para descer a encosta
      O outro estendeu-lhe a mão.

Ocidentais — 1880

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Nota de Péricles Eugênio da Silva Ramos:
* Baseia-se o soneto  na oposição entre Ariel e Caliban, personagens do The Tempest de Shakespeare; o primeiro era um gracioso espírito do ar, o segundo um escravo disforme.
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Machado de Assis — Poesia, Coleção Nossos Clássicos, Volume 82, Seleção, Apresentação e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1964, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Joaquim Maria Machado de Assis (1839 — 1908), nascido no Rio de Janeiro, autodidata, é tido como o maior ficcionista brasileiro, além de ter sido poeta; sabe-se que, já aos quinze anos, dominava a língua portuguesa e conhecia o francês e teve seu primeiro texto — escrito em versos — publicado na Marmota Fluminense, jornal de Francisco de Paula Brito, ali passando a colaborar até 1861; em seu percurso literário publicou seus textos em inúmeros jornais e revistas: O Paraíba e Correio Mercantil (1858), revista O Espelho (crítica teatral, de 1859 a 1860), A Semana Ilustrada, revista Ilustração Brasileira (1876) entre outros veículos literários; escreveu e publicou: Crisálidas (poesias, 1864), Falenas (poesias, 1870), Contos Fluminenses (1870), Ressurreição (romance, 1872), Histórias da Meia-Noite (contos, 1873), A Mão e a Luva (romance, 1874), Americanas (poesias, 1875), Helena (romance, 1876), Iaiá Garcia (romance, 1878), Ocidentais (poesias de feição parnasiana, 1880), Memórias Póstumas de Brás Cubas (romance, 1881), Papéis Avulsos (contos, 1882), Quincas Borba (romance, 1891), Várias Histórias (contos, 1896), Dom Casmurro (romance, 1899), Páginas Recolhidas (contos, ensaios e teatro, 1899) etc, além de peças de teatro; foi fundador e primeiro Presidente da Academia Brasileira de Letras.

sábado, 8 de abril de 2017

Machado de Assis: Spinoza

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Gosto de ver-te, grave e solitário,
Sob o fumo de esquálida candeia,
Nas mãos a ferramenta de operário,
E na cabeça a coruscante idéia. *

E enquanto o pensamento delineia
Uma filosofia, o pão diário
A tua mão a labutar granjeia
E achas na independência o teu salário.

Soem cá fora agitações e lutas,
Sibile o bafo aspérrimo do inverno,
Tu trabalhas, tu pensas, e executas

Sóbrio, tranqüilo, desvelado e terno,
A lei comum, e morres, e transmutas
O suado labor no prêmio eterno. **

Ocidentais — 1880

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Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos:
* (Versos 3 e 4) Baruch ou Benedictus de Spinosa (1632  1677), que deixou nome como filósofo, fazia lentes;
** Prêmio eterno: a glória.
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Machado de Assis — Poesia, Coleção Nossos Clássicos, Volume 82, Seleção, Apresentação e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1964, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Joaquim Maria Machado de Assis (1839 — 1908), nascido no Rio de Janeiro, autodidata, é tido como o maior ficcionista brasileiro, além de ter sido poeta; sabe-se que, já aos quinze anos, dominava a língua portuguesa e conhecia o francês e teve seu primeiro texto escrito em versos publicado na Marmota Fluminense, jornal de Francisco de Paula Brito, ali passando a colaborar até 1861; em seu percurso literário publicou seus textos em inúmeros jornais e revistas: O Paraíba e Correio Mercantil (1858), revista O Espelho (crítica teatral, de 1859 a 1860), A Semana Ilustrada, revista Ilustração Brasileira (1876) entre outros veículos literários; escreveu e publicou: Crisálidas (poesias, 1864), Falenas (poesias, 1870), Contos Fluminenses (1870), Ressurreição (romance, 1872), Histórias da Meia-Noite (contos, 1873), A Mão e a Luva (romance, 1874), Americanas (poesias, 1875), Helena (romance, 1876), Iaiá Garcia (romance, 1878), Ocidentais (poesias de feição parnasiana, 1880), Memórias Póstumas de Brás Cubas (romance, 1881), Papéis Avulsos (contos, 1882), Quincas Borba (romance, 1891), Várias Histórias (contos, 1896), Dom Casmurro (romance, 1899), Páginas Recolhidas (contos, ensaios e teatro, 1899) etc, além de peças de teatro; foi fundador e primeiro Presidente da Academia Brasileira de Letras.