
A Mário de
Andrade
Vamos dar um
tiro no ouvido,
Vamos?
Largar essa vida
largar esse
mundo
comprar o último
bilhete
e desembarcar na
estação central do Infinito perante
a comissão importante
de arcanjos
bem-aventurados
profetas — vivôôôô!
Vamos acabar com
isso,
dar o fora nas
aporrinhações.
Adeus
contrariedades.
Nunca mais
desastres
nem calos
nem desejos
nem percevejos
nem nada.
Só um gesto
PUM PUM
Acabou-se.
Já estou cansado
da Metro, da Paramount,
de todas as
marcas inclusive a barbante.
Ó fita pau.
Repetir é cansar
dobrado.
Me dá o braço,
vamos s'embora.
A vida foi feita
pros trouxas
que esperdiçam
as riquezas do coração
nessa lenga lenga
infindável
e depois vão
dormir o sono abençoado dos burros
justos pra recomeçar no
dia
seguinte cedinho.
Vida que não é
vida...
(Suspirei
foi pra abrir o
peito,
soltar o último
desgosto.)
Estou pronto pra
sair.
Vamos sair
juntos?
É mais divertido
e enche mais os
jornais: um suicídio duplo, hein?
que mina pros repórteres
e pros
cidadãos que gostam de
misturar
o café matinal com
histórias
de Smith and Wess.
A noite está
fria.
Noite
indiferente.
Vamos morrer
daqui a um minuto
(se você não
roer a corda)
e no entanto o
Cruzeiro do Sul parece dizer: que m'importa.
E astros águas e
terras repetem maquinalmente: que m'importa.
Eles têm razão.
Nós também
temos.
Dois
contribuintes de menos,
que perderá o
Brasil com isso.
No frio da noite
os amorosos multiplicam a espécie.
O Brasil é tão
grande.
Mais grande que
o mundo inteiro.
Estamos
caceteados, vamos s'embora.
Adeus minha
terra
terra bonita
pintada de verde
com bichos
esquisitos e moleques treteiros,
abençoada pelo
Deus brasileiro das felicidades e descarrilamentos.
Meu povo
amigos inimigos
canalha miúda
me despeço de
todos sem exceção.
Apesar de ser
inútil,
lembrem de mim
nas suas orações.
Está na hora.
Agora vamos.
Me acompanhe
nesse passo
tão complicado.
Me ajude a morrer,
morre com a
gente,
irmãozinho.
Vamos fazer a
grande besteira:
rebentar os
miolos
e ir receber no
céu o castigo de nossos amores
e o prêmio de nossas devassidões.
(Verde — revista
mensal de arte e cultura,
nº 4, dezembro de 1927, Cataguases — MG)
nº 4, dezembro de 1927, Cataguases — MG)

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Verde (Revistas do Modernismo
1922 — 1929), edição fac-similar, Prefácio / Ensaio de Júlio Castañon Guimarães e
Organização de Pedro Puntoni e Samuel Titan Jr., 2014 — Imprensa Oficial do
Estado de São Paulo, São Paulo — SP; Carlos Drummond de Andrade (1902 — 1987), mineiro
de Itabira, poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e
nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa, publicadas em
livros, jornais e revistas, pelo país afora e no resto do mundo; sua obra: Alguma
Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942);
Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos
Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola
de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro
do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A
Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira
de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A
Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O
Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Noticias & Não Notícias
faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977);
Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Amar
Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e
tantos outros títulos...