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Eu fiz, um dia, uma viage
lá p'ras banda do Sur
i truxe u'a mula preta
iguarzinha a do Raur.
Tinha seis parmo de artura,
cumprimento, ela ganhava!
Quanto mais capim cumia,
mais a mula se espichava.
Pramórde sê tão cumprida,
quarqué cerca ela pulava.
Tocava a espora na bicha,
bem na artura da paleta,
i a mula, dando um corcovo,
me jugava na sarjeta.
Nunca vi mula danada,
de tanta disinvortura!
De tanto pulá nas pedra,
gastava inté as ferradura.
C'os pulo daquela mula,
me isfriava inté as frissura.
Sortava fogo p'ros óio,
parecia um Lucifé;
si o cabra num fosse bamba,
prifiria andá de a pé.
Quando eu ia p'ra cidade,
pela rua que eu passava,
quando via moça bunita,
a mula inté se impinava:
as moça corria de medo,
quando a mula se apinchava.
Um dia, batendo estrada,
eu me incontrei c'um tropêro
que ofereceu pela mula,
mil e duzentos cruzêro.
Eu respondi: — "Nem te ligo,
seu barriga de alifante,
minha mula eu num disponho:
dinhêro tenho bastante".
O marvado, só de inveja,
na mula ponhô quebrante...
Um dia, vim da cidade,
veja o que me aconteceu:
sortei a mula no pasto,
i um gafanhoto mordeu.
A mula ficô tristonha,
mais nem gemê num gemeu;
durô, malemá, quatro hora,
deu treis suspiro i morreu.
I acabô-se a mula preta
que tanto susto me deu.
Favas de Ingá — 1950
Pitoco e outros poemas — Coleção
Pé Vermeio, Organização, edição e apresentação de Maria das Mercês Rocha Leite, 1ª edição, 2007, Editora Petra, Tatuí — SP; este poema foi publicado originalmente em Favas de Ingá; Nhô
Bentico e Abílio Víctor (1899 — 1952) foram uma só pessoa, um só
poeta, caipira, gráfico e radialista itapetiningano; pioneiro dos reclames
rimados para o comércio, Abílio Soares Víctor, poeta dialetal, escreveu
e publicou Folhas do Mato (1938), Versos Humorísticos, Favas de Ingá (1950) e Poemas Sertanejos.