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segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Abílio Victor (Nhô Bentico): A mula preta do sur

O poema abaixo é uma paródia da música Moda da Mula Preta, de Raul Torres, compositor de moda de viola caipira; para ouvir a dupla Raul e Florêncio cantando, é só clicar no título acima. 
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Eu fiz, um dia, uma viage
lá p'ras banda do Sur
i truxe u'a mula preta
iguarzinha a do Raur.

Tinha seis parmo de artura,
cumprimento, ela ganhava!
Quanto mais capim cumia,
mais a mula se espichava.
Pramórde sê tão cumprida,
quarqué cerca ela pulava.

Tocava a espora na bicha,
bem na artura da paleta,
i a mula, dando um corcovo,
me jugava na sarjeta.

Nunca vi mula danada,
de tanta disinvortura!
De tanto pulá nas pedra,
gastava inté as ferradura.
C'os pulo daquela mula,
me isfriava inté as frissura.

Sortava fogo p'ros óio,
parecia um Lucifé;
si o cabra num fosse bamba,
prifiria andá de a pé.

Quando eu ia p'ra cidade,
pela rua que eu passava,
quando via moça bunita,
a mula inté se impinava:
as moça corria de medo,
quando a mula se apinchava.

Um dia, batendo estrada,
eu me incontrei c'um tropêro
que ofereceu pela mula,
mil e duzentos cruzêro.

Eu respondi:  "Nem te ligo,
seu barriga de alifante,
minha  mula eu num disponho:
dinhêro tenho bastante".
O marvado, só de inveja,
na mula ponhô quebrante...

Um dia, vim da cidade,
veja o que me aconteceu:
sortei a mula no pasto,
i um gafanhoto mordeu.

A mula ficô tristonha,
mais nem gemê num gemeu;
durô, malemá, quatro hora,
deu treis suspiro i morreu.
I acabô-se a mula preta
que tanto susto me deu.
Favas de Ingá  1950

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Pitoco e outros poemas — Coleção Pé Vermeio, Organização, edição e apresentação de Maria das Mercês Rocha Leite, 1ª  edição, 2007, Editora Petra, Tatuí SP; este poema foi publicado originalmente em Favas de Ingá; Nhô Bentico e Abílio Víctor (1899 1952) foram uma só pessoa, um só poeta, caipira, gráfico e radialista itapetiningano; pioneiro dos reclames rimados para o comércio, Abílio Soares Víctor, poeta dialetal, escreveu e publicou Folhas do Mato (1938), Versos Humorísticos, Favas de Ingá (1950) e Poemas Sertanejos.