segunda-feira, 30 de setembro de 2024

Antônio Osório: Fazendeiro

 
____________________
à Maria José e ao Jan

Fazendeiro de aquedutos,
surribas,
eucaliptos à procura de água.

Fazendeiro vivente
de aveias, alcachofras,
batatas, beringelas,
sabendo como crescem
e são prestáveis.

Fazendeiro com bacelo
e qualquer coisa de eterno,
o vinho, bornal dos homens
e das vacas quando parem.

Fazendeiro com coelhos, ovos,
patos, novilhos, que alimenta
e trata como filhos
de outrem, a seu cargo.

Fazendeiro com casal
pertencente a ratazanas, pombos,
cachorros,
os ossos das estações.

Fazendeiro com sótão
de aranhas, cemitério
de lanternas, enxadas,
remoções de arreios, espantalhos,

a adega com vazios tonéis,
garrafas revestidas a pó
e dedadas, póstumas algumas,
almudes de mosto velho,
agora casa de palha, alfaias
e pardais.

Fazendeiro de romãs
que se abrem no dia de finados,
burocrata de nêsperas,
escrevendo maçã como ancas,
celeiros.

(A Ignorância da Morte — 1978)

____________________
Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; António Gabriel Maranca Osório de Castro (1933 2021), português de Setúbal, formado em Direito e em Ciências Jurídicas pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, foi poeta, ensaísta e advogado; desde 1954 colaborou em revistas literárias, fundou a revista Anteu (1972) e, no mesmo ano, estreou com seu livro A Raiz Afetuosa; colaborou regularmente com o J.L. — Jornal de Letras, Artes e Ideias (Lisboa), foi diretor da Foro das Letras, revista da Associação Portuguesa de Escritores Juristas e, como advogado, fundou e dirigiu a Revista de Direito do Ambiente e Ordenamento do Território; suas obras: a já citada A Raiz Afetuosa (1972), A Ignorância da Morte (1978), O Lugar do Amor (1981), Antologia de um Emigrante do Paraíso (1981), Décima Aurora (1982), Adão, Eva, e o Mais (1983), Planetário e Zoo dos Homens (1990), Casa das Sementes (2006), A Luz Fraterna (2009), todos de poesia, e A Mitologia Fadista (ensaios, 1974); tem obras traduzidas e publicadas no Brasil, Espanha, França, Bélgica, Itália, Alemanha, Romênia, Croácia, Estados Unidos ..., além de poemas em revistas francesas, inglesas e catalãs; pertenceu à Academia de Ciências de Lisboa; recebeu premiações: Prêmio Literário Município de Lisboa (1982), Prêmio P.E.N. Clube Português de Poesia (1991), Prêmio Autores (2010); o poeta António Osório foi também fazendeiro na Aldeia de Irmãos, Azeitão.

domingo, 29 de setembro de 2024

Gabriela Mistral: A chuva lenta

____________________
[traduzido por Thiago de Mello]

Esta água medrosa e triste
como criança que padece,
antes de tocar a terra
desfalece.

Quieta a árvore, quieto o vento
e no silêncio estupendo
este fino pranto amargo
caindo.

O céu parece um imenso
coração, que se abre amargo.
Não chove: é um sangue lento
e longo.

E dentro do lar os homens
não sentem esta amargura,
este envio de água triste
da altura.

Este longo e fatigante
descender de águas vencidas,
para esta terra tendida
e transida.

Chove... e como chacal trágico
a noite espreita na serra.
O que vai surgir na sombra,
desta Terra?

Dormireis, quando lá fora
cai, sofrendo, esta água inerte.
Esta água letal, irmã
da morte.

(de Desolación, 1922)

Gabriela Mistral

La lluvia lenta

Esta agua medrosa y triste,
como un niño que padece,
antes de tocar la tierra
     desfallece.

Quieto el árbol, quiero el viento,
¡y en el silencio estupendo,
este fino llanto amargo
     cayendo!

El cielo es como un inmenso
corazón que se abre, amargo.
No llueve: es un sangrar lento
     y largo.

Dentro del hogar, los hombres
ni sienten esta amargura,
este envío de agua triste
     de la altura.

Este largo y fatigante
descender de aguas vencidas.
hacia la Terra yacente
     y transida.

[Bajando el agua inerte,
callada como un ensueño,
como las criaturas leves
de los sueños.] *

Llueve… y como un chacal trágico
La noche acecha en la sierra.
¿Qué va a surgir, en la sombra,
     de la Tierra?

¿Dormiréis, mientras afuera
cae, sufriendo, esta agua inerte,
esta agua letal, hermana
     de la Muerte?

(Desolación — 1922)

* Nota do blogue Verso e Conversa: Nas pesquisas feitas pelo atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página, o poema La lluvia lenta, no original, é composto por 8 (oito) estrofes; neste Poeta da América de Canto Castelhano, A chuva lenta, contém 7 (sete) estrofes traduzidas por Thiago de Mello, sempre restando, porém, a possibilidade de que tenha havido falha de edição na digitação e/ou diagramação do poema.
____________________
Poetas da América de Canto Castelhano [várias autorias]: Introdução, Seleção, Tradução e Notas de Thiago de Mello, e Apresentação de Roberto Fernández Retamar, 1ª edição, 2011, Global Editora, São Paulo — SP; Gabriela Mistral (1889 1957), pseudônimo de Lucila de María del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga, chilena de Vicuña, educada por sua meia irmã, Ermelina Molina Alcayaga, em sua cidade natal a família não tinha dinheiro para custear sua formação em pedagogia , foi ajudante de professora, professora, poeta, educadora, diplomata e feminista; em 1904, começou a trabalhar como professora ajudante em La Serena, e também deu início a seus primeiros textos, os quais foram publicados no jornal serenense El Coquimbo e, depois, no La Voz de Elqui, de Vicuña; em 1908, deu aulas em La Cantera e em Los Cerritos; só em 1910, validou seus conhecimentos na Escola Normal nº 1 de Santiago e obteve o título oficial de Professora do Estado, passando a desenvolver a docência no nível secundário; posteriormente, mesmo sem ter frequentado o Instituto Pedagógico da Universidade do Chile, foi contratada pelo governo do México “para assentar as bases de seu novo modelo educacional, modelo que atualmente se mantém vigente quase em sua essência ...”; em 1914, depois de obter a primeira premiação em concurso de literatura, por seus Sonetos de la Muerte, passou a fazer uso do pseudônimo Gabriela Mistral; como educadora, visitou o México, os Estados Unidos e a Europa, e foi professora convidada nas universidades de Barnard, Middlebury e Porto Rico; suas obras: em poesia: Sonetos de la Muerte (1914), Desolación (1922), Ternura (1924), Tala (1938), Lagar (1954), Poema de Chile (1967), em prosa: Lecturas para Mujeres (1923), Recados Contando a Chile (1957), e outros títulos em verso e prosa; Gabriela Mistral trabalhou como cônsul de seu país em diversas cidades da Europa e da América e teve sua poesia traduzida para o inglês, francês, italiano, alemão, sueco e também por autores brasileiros; por sua obra, entre outras premiações, foi laureada com o Prêmio Nobel de Literatura, em 1945.

sábado, 28 de setembro de 2024

Goethe: À que está ausente *


____________________
[traduzido por Pedro de Almeida Moura]

Será mesmo verdade que fugiste de mim?
Que tu, querida, me abandonaste?
Bem suave, ainda, em meus ouvidos soa
Cada palavra tua, a tua voz...

Bem como o olhar do viandante,
Em vão, pela manhã, o céu perscruta, e busca,
No alto, entre as nuvens, a cotovia perdida,
Assim meu angustiado olhar o teu procura.
E os meus cânticos todos te chamam:
Volta, para perto de mim, amada minha!

Goethe

An die Entfernte

So hab ich wirklich dich verloren,
Bist du, o Schöne, mir entflohn?
Noch klingt in den gewohnten Ohren
Ein jedes Wort, ein jeder Ton.

So wie des Wandrers Blick am Morgen
Vergebens in die Lüfte dringt,
Wenn, in dem blauen Raum verborgen,
Hoch über ihm die Lerche singt:

So dringet ängstlich hin und wieder
Durch Feld und Busch und Wald mein Blick;
Dich rufen alle meine Lieder;
O komm, Geliebte, mir zurück!

(c. 1778)

* Nota do Organizador Samuel Pfromm Netto: À que está ausente (An die Entfernte). Músicas de Schubert, Zelter, L. Berger, Reichardt, Tomasek. Esta poesia figura entre as “Lieder”, na obra de Goethe e foi escrita por volta de 1778, quando o poeta tinha 29 anos de idade.
____________________
Goethe: Poesias escolhidas [múltiplos tradutores], Organização, Apresentação, Musicografia goetheana e Notas sobre poesias incluídas de Samuel Pfromm Netto e Biografia — A Vida de Goethe e Cronologia de Emil Schostal, 2005, 2ª edição, Editora Átomo e Edições PNA, São Paulo — SP; Johann Wolfgang von Goethe (1749 1832), alemão de Frankfurt am Main (no antigo Sacro Império Romano-Germânico), teve na infância educação de múltiplas faces, formou-se em Direito, polímata, foi poeta, romancista, dramaturgo, diretor teatral, teórico de arte, filósofo, diplomata e funcionário do governo; Goethe realizou suas primeiras obras poéticas (canções e odes) ainda jovem; obras: Die Laune des Verliebten (1768), Götz von Berlinchingen (1771 e 1773), Prometheus (1774), Os Sofrimentos do Jovem Werther (Die Leiden des jungen Werther, 1774), Clavigo (drama, 1774), Urfaust (Fausto Zero, 1775), Egmont (1775), Ifigênia em Táurides (Iphigenie auf Tauris [prosa] 1779 e 1786 [versos]), Torquato Tasso (1789), Xenien (em conjunto com Friedrich Schiller, 1796), O Aprendiz de Feiticeiro (1797), Hermann e Dorothea (1798), Die natürliche Tochter (18011803), Fausto (parte I, 1806), Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (1807), Teoria das Cores (Farbenlehre, 1810), Aus meinem Leben Dichtung und Wahreit (De minha vida. Poesia e verdade, autobiografia, 18111833), Viagem à Itália (relatos autobiográficos, 18131817), West-östlicher Divan (Divã Ocidento-Oriental, 1819, e versão ampliada em 1827), Fausto (parte II, publicação póstuma, 1832) e muitas outras publicações em poesia, prosa e para dramaturgia; o poeta fez parte de dois movimentos literários importantes na Alemanha, o romantismo e o expressionismo, e influenciou a literatura em todo o mundo; Goethe teve muito de sua poesia musicada por centenas de compositores, entre os quais Beethoven, Franz Schubert, Anna Amalia, Hermann Behn, Hector Berlioz, Arrigo Boito, Johannes Brahms, Luigi Dallapicola, Robert Franz, François Gounod, Franz Liszt, Johann Carl Gottfried Lowe, Gustav Mahler, Mozart, Robert Schumann, Tchaikovsky, Giuseppe Verdi, Richard Wagner...

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

Áurea Pires: Primeira esperança


____________________
Quando és tu, branca flor que resplandeces
Na sombria mansão do meu destino?
Serás ainda uma quimera, um desses
Falsos encantos de um fulgor divino?!

Fala!... Piedade para o pequenino
Ser que te implora em fervorosas preces
Se és um sonho, o teu brilho diamantino
Esconde e foge, porque me enlouqueces!

Porém tu brilhas ainda mais!... Ligeira
Eu me aproximo... e como uma criança
Vendo alguma teteia feiticeira,

Estendo a mão, que trêmula te alcança!...
Não és um sonho, não!... És a primeira
E talvez minha última esperança!

19 — 6 — [18]99.
[revista A Mensageira, de 15 de Dezembro de 1899,
Ano II, nº 35, São Paulo — SP]

____________________
A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira (1897 a 1900), Diretora: Presciliana Duarte de Almeida, Edição fac-similar, Volume II, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; Áurea Pires da Gama (1876 1949), fluminense de Angra dos Reis, fez seus primeiros estudos em Minas Gerais e os concluiu no Rio de Janeiro, foi poetisa e professora; aos 14 anos escreveu o soneto Impossível, publicado no jornal O Astro, de Barbacena MG; a partir de 1906 fixou residência em Cruzeiro SP, ali foi cofundadora do Externato Cruzeiro e passou a dedicar-se ao magistério; suas obras: Flocos de Neve (1896), Indiana (1902), Pétalas (1908), Paquetá (1919) e Entre o mar e a floresta (1922); colaborou com a revista A Mensageira, registando ali alguns de seus versos; foi biografada por Elmo Elton no livro Áurea Pires da Gama: perfil de uma poetisa angreense, publicado em 1974; a poetisa foi casada com o escritor, juiz, desembargador e político Antônio Chichorro da Gama.

quinta-feira, 26 de setembro de 2024

Georg Trakl: Humanidade


____________________
[traduzido por Cláudia Cavalcanti]

Humanidade posta ante abismos de chama,
Um rufo de tambores, frontes de guerreiros tenebrosos,
Passos pela névoa de sangue; negro ferro exclama;
Desespero, noite em cérebros pesarosos:
Aqui a sombra de Eva, caça e rubra dinheirama.
Nuvens que a luz atravessa, vespertina refeição.
Em pão e vinho deve um doce silêncio residir.
E aqueles lá reunidos, doze são.
À noite sob ramos de oliveira gritam ao dormir;
São Tomé mergulha na ferida a mão.

(1912)

Georg Trakl

Menschheit

Menschheit vor Feuerschlünden aufgestellt,
Ein Trommelwirbel, dunkler Krieger Stirnen,
Schritte durch Blutnebel; schwarzes Eisen schellt,
Verzweiflung, Nacht in traurigen Gehirnen:
Hier Evas Schatten, Jagd und rotes Geld.
Gewölk, das Licht durchbricht, das Abendmahl.
Es wohnt in Brot und Wein ein sanftes Schweigen,
Und jene sind versammelt zwölf an Zahl.
Nachts schrein im Schlaf sie unter Ölbaumzweigen;
Sankt Thomas taucht die Hand ins Wundenmal.

(1912)
____________________
De Profundis e Outros Poemas — Georg Trakl, Edição bilíngue, Organização, Posfácio e Tradução de Cláudia Cavalcanti, 1994, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Georg Trakl (1887 1914), austríaco de Salzburgo (antigo Império Austríaco), mestre em Farmácia, foi poeta expressionista; na Primeira Guerra, voluntariou-se e exerceu o ofício de farmacêutico em Hospital Militar; Georg Trakl publicou em vida apenas um livro, Poemas (Gedichte, 1913), além de textos esparsos em edições da revista expressionista austríaca Der Brenner e em outros jornais; logo após sua morte, publicou-se Sebastião no Sonho (Sebastian im Traum, 1915); de sua curta biografia, consta que o poeta nutria uma paixão desmedida por sua irmã mais nova, Gretl, personagem presente em grande parte de sua poesia, sentimento esse também compartilhado por ela, a quem se atribui uma forte personalidade e a decidida condução da relação incestuosa; Georg e Gretl, ambos dependentes de narcóticos, cometeram suicídio: ele em novembro de 1914, e ela, já mentalmente transtornada, em 1917.

quarta-feira, 25 de setembro de 2024

Vicente Huidobro: Monumento ao mar

 
____________________
[traduzido por Thiago de Mello]

Paz sobre a constelação cantante das águas
Entrechoques como os ombros da multidão
Paz no amor às ondas de boa vontade
Paz sobre a lápide dos naufrágios
Paz sobre os tambores do orgulho e as pupilas tenebrosas
E como eu sou o tradutor das ondas
Paz também sobre mim

[ . . . ]

Este é o mar
O mar com as suas próprias ondas
Com os seus próprios sentidos
O mar tratando de romper suas cadeias
E querendo imitar a eternidade
Querendo ser pulmão ou neblina de pássaros penando
Ou o jardim dos astros que afastamos
Ou que acaso nos arrastam
Quando voam de repente todas as pombas da lua
E se faz mais escuro que as encruzilhadas da morte
O mar entra na carroça da noite
E se afasta até o mistério das paragens profundas
E apenas se escutam o ruído das rodas
E a asa dos astros que penam no céu

Este é o mar
Saudando de longe a eternidade
Saudando os astros esquecidos
E as estrelas conhecidas
Este é o mar que desperta como o pranto de outra criança
O mar abrindo os olhos querendo o sol com suas pequenas mãos
trêmulas
O mar empurrando as ondas
Suas ondas que embaralham os destinos
Levanta-te e saúda o mar dos homens

[ . . . ]

Porém sou vagabundo e tenho medo de que me escutes
Tenho medo das tuas vinganças
Esquece minhas maldições e cantemos juntos essa noite
Te faz homem, te digo, como eu às vezes me faço mar
Esquece os presságios funestos
Esquece a explosão dos meus prados
As mãos aqui te estendo como flores
Façamos as pazes, te digo,
Tu és o mais poderoso
Que eu aperte as tuas mãos nas minhas
E seja feita paz entre nós dois.

[ . . . ]

Vicente Huidobro

Monumento al mar

Paz sobre la constelación cantante de las aguas
Entrechocadas como los hombros de la multitud
Paz en el mar a las olas de buena voluntad
Paz sobre la lápida de los naufragios
Paz sobre los tambores del orgullo y las pupilas tenebrosas
Y si yo soy el traductor de las olas
Paz también sobre mí.

[ . . . ]

Este es el mar
El mar con sus olas propias
Con sus propios sentidos
El mar tratando de romper sus cadenas
Queriendo imitar la eternidad
Queriendo ser pulmón o neblina de pájaros en pena
O el jardín de los astros que pesan en el cielo
Sobre las tinieblas que arrastramos
O que acaso nos arrastran
Cuando vuelan de repente todas las palomas de la luna
Y se hace más oscuro que las encrucijadas de la muerte

El mar entra en la carroza de la noche
Y se aleja hacia el misterio de sus parajes profundos
Se oye apenas el ruido de las ruedas
Y el ala de los astros que penan en el cielo
Este es el mar
Saludando allá lejos la eternidad
Saludando a los astros olvidados
Y a las estrellas conocidas.

Este es el mar que se despierta como el llanto de un niño
El mar abriendo los ojos y buscando el sol con sus pequeñas manos
temblorosas
El mar empujando las olas
Sus olas que barajan los destinos

Levántate y saluda el amor de los hombres

[ . . . ]

Pero soy vagabundo y tengo miedo que me oigas
Tengo miedo de tus venganzas
Olvida mis maldiciones y cantemos juntos esta noche
Hazte hombre te digo como yo a veces me hago mar
Olvida los presagios funestos
Olvida la explosión de mis praderas
Yo te tiendo las manos como flores
Hagamos las paces te digo
Tú eres el más poderoso
Que yo estreche tus manos en las mías
Y sea la paz entre nosotros

[ . . . ]

(Últimos Poemas — 1948, póstumo)
____________________
Poetas da América de Canto Castelhano [várias autorias]: Introdução, Seleção, Tradução e Notas de Thiago de Mello, e Apresentação de Roberto Fernández Retamar, 1ª edição, 2011, Global Editora, São Paulo — SP; Vicente García Huidobro Fernández (1893 1948), chileno de Santiago do Chile, foi poeta e escritor de vanguarda estética; o poeta passou boa parte de sua vida na Europa, transitando entre a França e a Espanha e foi um dos promotores da poesia de vanguarda na América Latina; teve participação ativa nas revistas Sic e Nord-Sud, ao lado de Apollinaire e outros; foi o mentor do que passou a se chamar criacionismo poético, e que consistia em buscar a inovação na poesia como uma necessidade e uma obsessão, um paroxismo na procura do novo, um bilinguismo textual; suas obras: Ecos del Alma (1911), La gruta del silencio e Canciones en la noche (ambos em 1913), Pasando y pasando e Las pagodas ocultas (ambos em 1914), Adán e El espejo de agua (ambos em 1916), Horizon carré (1917), Poemas árticos, Ecuatorial, Tour Eiffel e Hallali (todos em 1918), Manifestes (1925), Mio Cid Campeador (1929), Altazor o el viaje en paracaídas (1931), Sátiro, o El poder de las palabras (1939) e tantos outros títulos; Huidobro escreveu algumas de suas obras em francês; em diferentes períodos, colaborou com as revistas de arte Dada (Espanha), Nord-Sud e L’Esprit Noveau (França), Vanity Fair (Estados Unidos) e dirigiu, em conjunto com Tristan Tzara, o caderno literário da revista Feuielle Volante; também participou como fundador e/ou co-fundador das revistas Musa Joven e Azul (Chile), entre outras atividades; escreveu roteiro para o filme cubista Cagliostro, fez crítica de cinema na imprensa argentina, foi conferencista e deu palestras sobre poesia; durante a 2ª Guerra, alistou-se nas tropas aliadas, participou como correspondente de guerra na França, transmitiu crônicas do campo de batalha para A Voz da América; foi militante do partido comunista chileno.

terça-feira, 24 de setembro de 2024

T. S. Eliot: As palavras deslocam-se, a música se move . . . [trecho de Burnt Norton, Quarteto nº 1]

 
____________________
[traduzido por Oswaldino Marques]

[ . . . ]

V

As palavras deslocam-se, a música se move
Apenas no tempo, mas tão-só aquilo que é vivente
Pode morrer. As palavras, depois do discurso, culminam
No silêncio. Apenas graças à forma, o molde,
Podem as palavras ou a música atingir
A quietude, tal perpetuamente se move em sua inércia
Um inerte jarro chinês.
Não a inércia do violino, enquanto a nota perdura,
Não isso unicamente, mas a coexistência,
Ou digamos que o fim ao começo preceda
E o final e o começo estejam sempre lá
Antes do começo e depois do final.
E tudo é sempre agora. As palavras retesam-se,
Sob a tensão, resvalam, deslizam, perecem,
Degeneram na imprecisão, não se mantêm no lugar,
Não ficam em sossego. Vozes lancinantes
A descompor, a motejar, ou apenas proseando,
Assediam-nas sempre. A Palavra no deserto
É alvo de maior ataque das vozes de tentação,
A sombra lacrimosa na dança funérea,
O alto lamento da quimera inconsolada.

O pormenor do arquipélago é movimento,
Como na imagem dos dez degraus.
O desejo em si mesmo é movimento
Não em si mesmo desejável;
O amor, em si, é não-movente,
Somente a causa e o fim do movimento,
Intemporal e carecente de desejo
Exceto no aspecto do tempo
Colhido na forma da limitação
Entre não-ser e ser.
Súbito, num dardo de luz solar
Mesmo enquanto o pó se move
A oculta risada se eleva
Das crianças na folhagem
Rápida agora, aqui, agora, sempre
Ridículo o tempo triste, esbanjado,
Espraiando-se em antes e depois.

T. S. Eliot

Burnt Norton [Quartet Nº 1]

[ . . . ]

V

Words move, music moves
Only in time; but that which is only living
Can only die. Words, after speech, reach
Into the silence. Only by the form, the pattern,
Can words or music reach
The stillness, as a Chinese jar still
Moves perpetually in its stillness.
Not the stillness of the violin, while the note lasts,
Not that only, but the co-existence,
Or say that the end precedes the beginning,
And the end and the beginning were always there
Before the beginning and after the end.
And all is always now. Words strain,
Crack and sometimes break, under the burden,
Under the tension, slip, slide, perish,
Decay with imprecision, will not stay in place,
Will not stay still. Shrieking voices
Scolding, mocking, or merely chattering,
Always assail them. The Word in the desert
Is most attacked by voices of temptation,
The crying shadow in the funeral dance,
The loud lament of the disconsolate chimera.

The detail of the pattern is movement,
As in the figure of the ten stairs.
Desire itself is movement
Not in itself desirable;
Love is itself unmoving,
Only the cause and end of movement,
Timeless, and undesiring
Except in the aspect of time
Caught in the form of limitation
Between un-being and being.
Sudden in a shaft of sunlight
Even while the dust moves
There rises the hidden laughter
Of children in the foliage
Quick now, here, now, always —
Ridiculous the waste sad time
Stretching before and after.

"Burnt Norton", in Collected Poems: 1909—1935 (1936),
Four Quartets (poems, 1943) 
____________________
T. S. Eliot: Crime na Catedral [peça teatral, tradução de Maria da Saudade Cortesão] e Quatro Quartetos [poesias, tradução de Oswaldino Marques], Estudo Introdutivo e Vida e Obra de T. S. Eliot  por Francis Scarfe [Tradução de Emanuel Brasil], Ilustração de Carzou e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a T. S. Eliot, por Kjell Strömberg [Tradução de Emanuel Brasil], — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1970, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; T. S. Eliot ou Thomas Stearns Eliot (1888 1965), estadunidense de St. Louis, Missouri, naturalizado inglês em 1927, formou-se em Letras Clássicas e doutorou-se em Filosofia na Universidade de Harvard, em Boston, foi poeta, professor universitário, dramaturgo, crítico literário, jornalista e editor; seus primeiros estudos se deram na Academia Smith, ainda em St. Louis, e na Academia Milton, em Massachusetts; Eliot também esteve na Alemanha por dois anos, em um período de pesquisas, e fez estágio em Oxford Inglaterra; enquanto estudante em Harvard, alguns de seus poemas e outros textos foram publicados na revista universitária Harvard Advocate na qual o poeta fez parte do quadro de editores; após formado, mudando-se para Londres, se empregou no Loyd Banks, tornou-se editor assistente do jornal londrino The Egoist, além de ter colaborado assiduamente com outros periódicos literários, entre os quais a revista The Athenaeum, criou a The Criterion — revista trimestral de literatura e filosofia, a ela se dedicando por 17 anos, e, ao mesmo tempo, compôs a diretoria da Faber & Faber, empresa editorial; suas obras: Poems (1920), Selected Essays: 1917—1932 (crítica literária, 1932), The Rock: a Pageant Play (teatro, 1934), Collected Poems: 1909—1935 (1936), Murder in the Cathedral (drama, 1935), Old Possum’s Book of practical Cats (Os Gatos, 1939), Four Quartets (poesias, 1943); The Cocktail Party (comédia, 1950), The Elder Statesman (comédia, 19581959) e tantos outros textos em verso e prosa e para dramaturgia; recebeu premiações por sua obra, uma delas o Prêmio Nobel de Literatura em 1948.

segunda-feira, 23 de setembro de 2024

Carlos Drummond de Andrade: Conversa de amigos

____________________
6.XII.1977

Meu capitão, alvíssaras! O AI-5
vai ser cassado, e tudo fica brinco

na vida brasileira: uma só lei
que defenda e proteja toda a grei

sem o estranho fantasma dessa Carta
roída pelo apêndice-lagarta.

Boas falas, amigo. Celebremos
o sol da liberdade, com extremos

de carinho e fervor, que bem merece
o seu raiar, depois de tanta prece,

tanto esperar e tanto renunciar,
entre crer e descrer e duvidar

e voltar a insistir, em pensamento,
em palavra e silêncio, contra o vento.

Quer dizer que amanhã já temos novo
estatuto ditado pelo povo?

Bem. Não é tanto assim. Foi dado o mote,
mas não vá com tanta sede ao pote.

Carece ter cuidado, jeito e calma,
não esmoreça e nem tropece a alma…

Capítulo importante: salvaguardas
que sejam eficazes qual bombardas,

mas não venham, com pinta diferente,
mascarar o AI-5 eternamente.

Estou contigo. Em dose pra leão
qualquer remédio acaba com a Nação.

Mas há os “homens bons”, e com cautela
os vai ouvindo o Senador Portela.

De todas essas vozes concordantes,
uníssonas em pedir o quanto antes

o regresso ao estado de direito
(aspiração ardente em cada peito),

há de surgir a fórmula correta
que não seja de mágico ou de poeta,

capaz de garantir a liberdade
com sua irmã responsabilidade.

Deve ser forte o Estado? Também forte
que seja o cidadão, de Sul a Norte,

consciente, vibrante, em sua fé,
escolhendo melhor do que Pelé.

Aguardemos, portanto, na vigília
de toda gente: em forma de família.

E que me contas mais? Outros assuntos?
Não sei se deva pô-los assim juntos.

Enfim, grande lição vem de Israel
e do Egito, que, surdos ao tropel

de interesses guerreiros e rancores,
curam velhas feridas, velhas dores,

seguindo no bordado da esperança
de um futuro de luz e de bonança.

De Carnaval já vejo indícios mil
aqui no Rio: erige-se o perfil

de arquibancadas para o grande samba
daqui a meses… Cáspite, caramba!

O mais importa pouco. Mil buracos?
A gente se acostuma, e volta, aos cacos,

para casa, escapando dos assaltos
(uns escapam), driblando os sobressaltos

do moderno viver, tão mais gostoso
quanto mais o sentimos pavoroso.

Não sejas tão azedo. Olha, o Natal
já vem pintando… e é o maior Sinal.

Amar se aprende amando — 1985

____________________
Amar Se Aprende Amando, poesia de convívio e de humor — Carlos Drummond de Andrade, 6ª edição, 1986, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Drummond de Andrade (1902 1987), mineiro de Itabira, poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa publicadas em livros, jornais e revistas pelo país afora e no resto do mundo; suas obras: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Notícias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e outros textos...