terça-feira, 30 de setembro de 2014

Jorge Nagao: Dica Literária

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Escritor/a ou poeta,
não fique doente.
Cuide-se.
Coma e beba
com moderação.

Se, um dia,
o mal estar ameaçar
a sua saúde,
preste atenção:
fuja do mundo real,
mergulhe
em suas fantasias,
use a imaginação.

Longe da realidade,
você terá saúde.
Pronto: sarau!
Escritor/a e poeta,
não fique doente:
Ficção!

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Outros textos do Nagao?

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Jorge Nagao, nascido em 1952, paulista de Vera Cruz, bancário sobrevivente hoje aposentado, é cronista, frasista, humorista, poeta, enfim um ativista da palavra; foi um dos impulsionadores, colaboradores e editores do jornaleco Na Moita (1991 1997), um devezenquandário que circulou pelos balcões, mesas e banheiros das seções da ex-Agência Centro BB São Paulo; aposentou-se no lumiar deste milênio após ter prestado serviços no Banco do Brasil por quase três décadas; escreveu Pacote Bancário e outros poemas e paródias (1983) e participou da coletânea Damas de Ouro & Valetes de Espada Crônicas do baralho, organização de Leonel Prata (MGuarnieri Editorial, São Paulo SP, 2009); participou também dos jornalecos Brinque (cultural do Sindicato dos Bancários de São Paulo) e Paupite (feito por funcionários da Ag. BB Avenida Paulista).

Alberto Isaac: Na paisagem de Itapetininga ainda resistem as carroças

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                    Mesmo em tempos modernos como agora, com o transporte considerado dos mais rápidos  motos, caminhões, caminhonetes e outros veículos utilitários  destacam-se nas ruas da cidade, igual medida institucionalizada, a movimentação das inúmeras carroças, que trafegam em velocidade moderada pelas ruas de Itapetininga.
                    Elas, já foram em épocas passadas, em número bem expressivo, superando inclusive outras conduções que executavam serviços de bagageiros e, atualmente, em quantidade ainda razoável, executam qualquer trabalho em que são necessárias viagens pelos quadrantes da cidade. Obedecendo rigidamente as leis de trânsito, com carrinhos devidamente equipados, animais bem preparados e aptos para o encargo, fazem os mais diversos carretos, desde entulho, até mudanças, transportando também sacos de alimentos, areia e aparelhos domésticos.
                    Um dos mais antigos carroceiros, Luiz Carlos Bueno, 55 anos, com quase 30 na profissão, conta as dificuldades por que passa, porquanto o preço de seu serviço oscila entre R$ 5 e R$ 10, “dependendo do lugar onde se deseja levar o carreto”. O mais longe, como Chapada Grande, cobra-se R$ 15 e o mais perto, R$ 5, esclarece Osmar de Oliveira, 34 anos, há 8 nesta profissão que ele diz conhecer muito bem.
                    Com uma taxa paga à Prefeitura, de R$ 40 anualmente, os carroceiros encontram-se seriamente preocupados com os rumores de que a Prefeitura pretende transferí-los para outro ponto da cidade. Nesse local, final da avenida Peixoto Gomide,imediações do Cofesa, encontramo-nos há quase quatro décadas e nenhum prefeito incomodou-se com o nosso trabalho, destacando-se a afeição que tinham por nós Tardelli e Bárbara”, dizem os profissionais que têm seu ponto naquele local.
                    Com muita responsabilidade e sem cometer nenhum deslize no trabalho que executam, os carroceiros afirmam que o gasto mensal com o tratamento e cuidado com o animal chega a atingir R$ 130, enquanto que a média de ordenado, por mês, “com muito trabalho chega a R$ 300, afirma Osmar de Oliveira.
                    Eles entendem que esta categoria de serviço proporciona economia às classes menos favorecidas, que não possuem recursos para pegar caminhão ou outro meio de transporte destinados a carretos.
                    Acrescentam que todos os carrinhos são de segurança absoluta, com aros pneumáticos e suportam uma carga de até 200 quilos, “nunca excedendo este peso”. Gostariam também que a Prefeitura  fornecesse a todos os que se dedicam  a esta profissão um crachá, para que o cliente ficasse mais tranqüilo quando contratasse algum serviço.

                    UM POUCO DE HISTÓRIA
                    As carroças de tração animal, de modo geral puxadas por burros ou bestas e mais comumente por cavalo ou jumento, usualmente por um só animal, acredita-se que sejam originárias de Portugal, da região dos Açores.
                    Esse transporte foi utilizado para carregar material bélico, antes e também depois da motorização que predominou em todos os setores. As carroças foram utilizadas no transporte de terra para preparar o leito de rodovias e ferrovias, além de serviços de bombeiros, bondes, limpeza de vias públicas e conduções escolares.
                    Padeiros, leiteiros e armazéns utilizavam-se das corrocinhas para a entrega das mercadorias. Os carroções do 5º. Batalhão de Caçadores aqui aquartelados executavam o transporte da estação da antiga Sorocabana, que procediam de trens. Toda produção de tijolos e telhas das olarias eram transportadas por carroças, existindo as frotas desses veículos pertencentes a Pedro Orsi e à família Fagundes, sendo que os Mazzarino fabricavam carroças e todo o arreame era fornecido pela antiga Casa Zebu.
                    Apesar do progresso e transformações, os bagageiros resistem, indomitamente, desenvolvendo atividades em favor da comunidade e não esquecendo que Patrício Pereira, carroceiro, simboliza até hoje a grandeza da classe desses heróicos servidores anônimos de Itapetininga.

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Vivas Memórias, Alberto Isaac — histórias, personagens, crônicas, volume I, 2009, Editora Correio de Itapetininga, Itapetininga — SP; Alberto Isaac, nascido em 1925, de Itapetininga SP, comerciante, professor, cronista e jornalista, é colunista do jornal Correio de Itapetininga; colaborou com os jornais O Estado de São Paulo, O Diário de São Paulo, Diário de Sorocaba, Folha de Itapetininga, Aparecida do Sul.

Millôr Fernandes: poemillôres

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ODE A UM QUASE CALVO

Ontem, hoje e amanhã
o homem o cabelo parte
parte o cabelo com arte
até que o cabelo parte.
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POESIA COM LAMENTAÇÃO
 DO LOCAL DE NASCIMENTO

Tudo que eu digo, acreditem,
Teria mais solidez
Se em vez de carioquinha
Eu fosse um sábio chinês.

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Antologia de Humorismo e Sátira (de Gregório de Matos a Vão Gôgo) — por R. Magalhães Júnior, 1957, Editora Civilização Brasileira S.A., Rio de Janeiro — RJ; Millôr Fernandes (1923 2012), ou Milton Viola Fernandes, ou Vão Gôgo, ou Adão Junior, carioca do Méier, nascido em 16 de agosto de 1923 mas registrado em 27 de maio de 1924, transitou por inúmeras áreas ligadas às artes e a outros ofícios: foi escritor, dramaturgo, jornalista, humorista, tradutor, chargista, frasista, desenhista, poeta (de haikais) e caricaturista; escreveu, traduziu e adaptou mais de uma centena de peças de teatro (Shakespeare, Pirandello, Molière, Racine, Brecht, Tchekov, Gorki, Fassbinder e muitos outros)  entre as peças de teatro originais destacam-se os clássicos, Liberdade, liberdade (com Flávio Rangel, 1965), É... (1977), Homem do princípio ao fim (1978), Flávia, cabeça, tronco e membros (1963), Um elefante no caos (1962), Os órfãos de Jânio (1980); escreveu ainda 30 anos de mim mesmo (1972), O livro vermelho dos pensamentos de Millôr (1973), Todo o homem é minha caça (1981), Poemas (1984), Millôr definitivo  A Bíblia do Caos (1994), Tempo e contratempo (1998), entre dezenas de livros editados; o multi artista, que também fez roteiros para cinema, transitou pelos periódicos O Cruzeiro, A Cigarra, Tribuna da Imprensa, Correio da Manhã, Revista Diners, Veja, O Pasquim, Isto É, Jornal do Brasil, O Dia, Folha de São Paulo, Diário Popular (Portugal) entre outros veículos informativos.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Machado de Assis: A Mosca Azul


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               Era uma mosca azul, asas de ouro e granada,
                       Filha da China ou do Indostão.
               Que entre as folhas brotou de uma rosa encarnada.
                       Em certa noite de verão.

E zumbia, e voava, e voava, e zumbia,
       Refulgindo ao clarão do sol
E da lua — melhor do que refulgiria
       Um brilhante do Grão-Mogol.

              Um poleá que a viu, espantado e tristonho,
                     Um poleá lhe perguntou:
              — "Mosca, esse refulgir, que mais parece um sonho,
                    Dize, quem foi que to ensinou?"

Então ela, voando e revoando, disse:
       — "Eu sou a vida, eu sou a flor
Das graças, o padrão da eterna meninice,
       E mais a glória, e mais o amor".

             E ele deixou-se estar a contemplá-la, mudo
                    E tranqüilo, como um faquir,
             Como alguém que ficou deslembrado de tudo,
                    Sem comparar, nem refletir.

Entre as asas do inseto a voltear no espaço,
        Uma coisa me pareceu
Que surdia, com todo o resplendor de um paço,
        Eu vi um rosto que era o seu.

              Era ele, era um rei, o rei de Cachemira,
                    Que tinha sobre o colo nu
              Um imenso colar de opala, e uma safira
                    Tirada ao corpo de Vishnu.

Cem mulheres em flor, cem nairas superfinas,
        Aos pés dele, no liso chão,
Espreguiçam sorrindo as suas graças finas,
        E todo o amor que têm lhe dão.

             Mudos, graves, de pé, cem etíopes feios,
                    Com grandes leques de avestruz,
             Refrescam-lhes de manso os aromados seios,
                    Voluptuosamente nus.

Vinha a glória depois; — quatorze reis vencidos,
           E enfim as páreas triunfais
De trezentas nações, e os parabéns unidos
           Das coroas ocidentais.

                   Mas o melhor de tudo é que no rosto aberto
                            Das mulheres e dos varões,
                   Como em água que deixa o fundo descoberto,
                            Via limpos os corações.

Então ele, estendendo a mão calosa e tosca.
        Afeita a só carpintejar,
Com um gesto pegou na fulgurante mosca,
        Curioso de a examinar.

                  Quis vê-la, quis saber a causa do mistério.
                           E, fechando-a na mão, sorriu
                  De contente, ao pensar que ali tinha um império,
                           E para casa se partiu.

Alvoroçado chega, examina, e parece
        Que se houve nessa ocupação
Miudamente, como um homem que quisesse
        Dissecar a sua ilusão.

                 Dissecou-a, a tal ponto, e com tal arte, que ela,
                         Rota, baça, nojenta, vil
                 Sucumbiu; e com isto esvaiu-lhe aquela
                         Visão fantástica e sutil.

Hoje quando ele aí vai, de aloé e cardamomo
        Na cabeça, com ar taful
Dizem que ensandeceu e que não sabe como
        Perdeu a sua mosca azul.

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Antologia da Literatura Mundial — Antologia de Poetas Brasileiros, Seleção e Notas de Afonso Telles Alves, Quarta edição, 1961, Livraria e Editora Logos Ltda., São Paulo — SP; Joaquim Maria Machado de Assis (1839 1908), nascido no Rio de Janeiro, autodidata, é tido como o maior ficcionista brasileiro, além de ter sido poeta; sabe-se que, já aos quinze anos, dominava a língua portuguesa e conhecia o francês e teve seu primeiro texto escrito em versos publicado no Marmota Fluminese, jornal de Francisco de Paula Brito, ali passando a colaborar até 1861; em seu percurso literário publicou seus textos em inúmeros jornais e revistas: O Paraíba e Correio Mercantil (1858), revista O Espelho (crítica teatral, de 1859 a 1860), A Semana Ilustrada, revista Ilustração Brasileira (1876) entre outros veículos literários; escreveu e publicou: Crisálidas (poesias, 1864), Falenas (poesias, 1870), Contos Fluminenses (1870), Ressureição (romance, 1872), Histórias da Meia-Noite (contos, 1873), A Mão e a Luva (romance, 1874), Americanas (poesias, 1875), Helena (romance, 1876), Iaiá Garcia (romance, 1878), Ocidentais (poesias de feição parnasiana, 1880), Memórias Póstumas de Brás Cubas (romance, 1881), Papéis Avulsos (contos, 1882), Quincas Borba (romance, 1891), Várias Histórias (contos, 1896), Dom Casmurro (romance, 1899), Páginas Recolhidas (contos, ensaios e teatro, 1899) etc, além de peças de teatro; foi fundador e primeiro Presidente da Academia Brasileira de Letras.

Maria Eugênia Celso: Meu home

Antologia De Humorismo E Sátira - Raymundo Magalhães Júnior ...
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Nesse mundo toda gente
Vancês há de certamente
De cumigo aconcordá,
Só fala memo dereito
Daquilo que no seu peito
Lhe dá gosto ou lhe consome,
Pois eu falo do meu home
Do que havéra de falá?...

Pras muié, besta ou sabida,
E é o home que faz a vida
Seja uma praga ou um vidão,
Home ruim, que o parta o raio!
O meu, se me dá trabaio,
Também dá satisfação!

Meu home tem óio garço,
Num pode nunca sê farso
Uns óio bunito assim!
Quando entonces qué um agrado
E bota o oiá bem quebrado
Sinto logo arrevirado
Tudo aqui dentro de mim...

O meu home usa bigode
As moda diz que não pode,
Mas dexa as moda falá!...
Bigode dá fidarguia
E minha vó me dizia
Que beijo sem tê bigode
É feito sopa sem sá.

Meu home ronca drumindo
Que inté parece um truvão.
Tem gente que isso arrelia,
Eu chego achá ronco lindo!
E é mió roncá drumindo
Do que vivê todo dia
A lhe aturá roncação.

Meu home fala bunito
Prosá feito ele, ninguém!
Eu sei que as veis tá mintindo,
Mas ele minte tão bem
Que eu, sem querê, vô ingulindo
E afiná sempre aquerdito
Que rezão ele é que tem.

Os outro diz que ele é brabo,
Um mandão, que nem o diabo
Nunca medo lhe meteu!
Eu cá sei cumo é que eu ando,
Marombando, marombando,
Ele pensa que tá mandando,
Prú fim, quem manda sou eu.

Pra eu assim lhe querê tanto
Num me pois ele quebranto
Nem feitiço me botô,
Bastô só que ele queresse
Prá que dele logo sesse
Inteirinho o meu amô!

Mas se um dia adescubrisse
Que ele andava a me cinzá,
Se outra muié persentisse
Im redó dele a tentá,
Era capaz, — já lhe disse 
Era capaz de matá!
Mas o diacho tem tal ronha
E eu co'ele sô tão pamonha,
Meu Deus do céu, que vregonha,
Era capaz de perdoá!...

Nossa Senhora da Penha,
Nossa Senhora do Ó,
De meu amô pena tenha
E de seu Fio no nome
De mim também tenha dó!
Pras outra tem tantos home
Me guarda o meu pra mim só!

Blog do Castorp: Maria Eugênia Celso - Conformidade
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Antologia de Humorismo e Sátira (de Gregório de Matos a Vão Gôgo) por R.Magalhães Júnior, 1957, Editora Civilização Brasileira S.A., Rio de Janeiro RJ; Maria Eugênia Celso Carneiro de Mendonça (1886 1963), que também utilizou o pseudônimo Baby-flirt, mineira de São João Del Rey, filha do Conde e Condessa Afonso Celso e neta do Visconde de Ouro Preto presidente do Gabinete Imperial por ocasião da deposição do Imperador Dom Pedro II , foi jornalista, escritora, poeta, teatróloga e sufragista; ainda criança, com a deposição da Família Imperial, mudou-se para Petrópolis RJ, e ali estudou no Colégio Sion, onde aprendeu o idioma francês, o qual dominava tão bem quanto à nossa língua; colaborou com os jornais da época, entre os quais o Correio da Manhã, O Jornal, Diário Carioca, Jornal do Comércio e Jornal do Brasil; participante ativa do Movimento Feminista, em favor da emancipação política e social da mulher, dedicou-se a trabalhos de assistência junto às Damas da Cruz Verde, tornou-se uma das lideranças a criarem a maternidade Pro Mater do Rio de Janeiro e batalhou pelo direito das mulheres ao voto; escreveu Em Pleno Sonho (poesia, 1920), Vicentinho (prosa, 1925), Fantasias e Matutadas (poesia, 1925), Desdobramento (contos, 1926), Alma Vária (poesia), Jeunesse (poesia), O Solar Perdido (poesia, 1945), O Diário de Ana Lúcia, De Relance (crônicas), Ruflo de Asas (teatro em verso), Síntese Biográfica da Princesa Isabel (biografia); uma de suas facetas na literatura foi o humorismo matuto; em 1955, teve suas Poesias Completas (sem conter os versos em francês) editadas por José Olímpio; representou o Brasil em Conferência da Unesco, em Paris, e em outras missões culturais.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

José J. Veiga: Fronteira

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                    EU ERA ainda muito criança, mas sabia uma infinidade de coisas que os adultos ignoravam. Sabia que não se deve responder aos cumprimentos dos glimerinos, aquela raça de anões que a gente encontra quando menos espera e que fazem tudo para nos distrair de nossa missão; sabia que nos lugares onde a mãe-do-ouro aparece à flor da terra não se deve abaixar nem para apertar os cordões dos sapatos, a cobiça está em toda parte e morde manso; sabia que ao ouvir passos atrás ninguém deve parar ou correr, mas manter a marcha normal, quem mostrar sinais de medo está perdido na estrada.
                    A estrada é cheia de armadilhas, de alçapões, de mundéus perigosos, para não falar em desvios tentadores, mas eu podia percorrê-la na ida e na volta de olhos fechados sem cometer o mais leve deslize. Era por isso que eu não gostava de viajar acompanhado, a preocupação de salvar outros do desastre tirava-me o prazer da caminhada, mas desde criança eu era perseguido pela insistência dos que precisavam viajar e tinham medo do caminho, parecia que ninguém sabia dar um passo sem ser orientado por mim, chegavam a fazer romaria lá em casa, aborreciam minha mãe com pedidos de interferência; e como eu não podia negar nada a minha mãe eu estava sempre na estrada acompanhando uns e outros. Mal chegava de uma viagem era informado de que fulano, ou sicrano, ou viúva de trás da igreja, ou o ancião que perdera a filha afogada estava a minha espera para nova caminhada. E sempre tinham urgência, negócios inadiáveis a tratar em outros lugares, se eu não lhes fizesse esse favor estariam perdidos, desgraçados, ou desmoralizados. Como poderia eu recuar e dar-lhes as costas, como se não tivesse nada a ver com os problemas deles? A responsabilidade seria muito grande para meus ombros infantis. Minha mãe preparava a minha matula, dizia “coitado de meu filho, não tem descanso”, beijava-me na testa e lá ia eu a percorrer de novo a mesma estrada, como se eu fosse um burro cativo, levando às vezes gente que eu nem conhecia, e cujos negócios me eram remotos ou estranhos.
                    Minha única esperança de liberdade era crescer depressa para ser como os adultos, completamente incapazes de irem sozinhos daqui ali; mas quando eu baixava os olhos para olhar o meu corpo de menino, e via o quanto eu ainda estava perto do chão, vinha-me um desânimo, um desejo maligno de adoecer e morrer e deixar os adultos entregues ao seu destino. Eu nunca soube há quanto tempo estava naquela vida, nem tinha lembrança de haver conhecido outra. Teria eu nascido com alpercatas nos pés e trouxinha às costas? Era difícil dizer que não, embora a hipótese parecesse inconcebível.
                    Se seu me queixava a outras pessoas, elas faziam um ar compungido, engrolavam qualquer coisa para dizer que cada um tem que aceitar o seu destino, e eu compreendia que eles também estavam me reservando para quando precisassem de mim; outros presenteavam-me com garruchinhas de espoleta, automoveizinhos de corda, quando não um par de botinas novas. Tudo o que eles queriam de mim era resignação e presteza. Naturalmente eu podia acabar com aquilo a qualquer hora, mas e a responsabilidade?
                    Mas não se pense que as minhas caminhadas para lá e para cá fossem uma rotina desinteressante; nada disso. Raro era o dia em que eu não aprendia alguma coisa nova, e embora a descoberta só tivesse utilidade na estrada, eu a recolhia para utilização futura, ou para ampliação de meus conhecimentos. Foi ao abaixar-me num córrego para beber água que fiz uma descoberta a meu ver muito importante: descobri que, quando se derruba uma moeda em água corrente, não se deve pensar em recuperá-la. Quem tentar fazê-lo poderá ficar o resto da vida à beira da água retirando moedas. É como se a pessoa “sangrasse” a areia do fundo da água e depois não conseguisse estancar o jorro de moedas.
                    Talvez eu não devesse ter contado isso a meu pai, pois não era difícil prever o que aconteceria. Ele riu em minha cara, e chamou-me fantasista. Como eu insistisse, ofendido, ele reptou-me a prová-lo. Ainda aí eu poderia ter desconversado, mas não: aceitei o desafio, como se tratasse de um ponto de honra. Levei-o à beira de um córrego, mandei-o soltar uma moeda na água e só à força conseguimos tirá-lo de lá dias depois; e para impedi-lo de voltar, tivemos de interná-lo. Disseram que a culpa foi minha, mas não consigo sentir-me culpado.
                    Depois disso notei que as pessoas passaram a me evitar. A princípio pensei que estivessem sendo gentis, tivessem decidido dar-me afinal um descanso, depois de tantos anos de trabalho pesado; mas depois verifiquei que a situação era mais séria, nem na rua conversavam comigo, os poucos que eu conseguia deter estavam sempre apressados, davam uma desculpa e se afastavam sem nem olhar para trás.
                    De repente ocorreu-me um pensamento medonho: será que minha mãe também pensava e sentia como os outros? Nesse caso, que martírio não seria a sua vida, preocupada todo o tempo em esconder de mim os seus sentimentos! Alarmado com essa possibilidade, eu a observei durante dias, escutei-a no sono, tentando surpreender uma palavra, um gesto, qualquer coisa que me denunciasse o seu estado de espírito. Às vezes me parecia que o meu medo estava confirmado, mas no minuto seguinte eu estava novamente em dúvida. A única maneira de esclarecer tudo era naturalmente abrir-me com ela. Mas logo que comecei a expor-lhe o meu caso percebi o erro que havia cometido. Estava eu certo de querer a verdade, e não a compaixão de minha mãe? Qual seria nesse caso o papel de uma boa mãe dar-me o que eu queria ou o que eu temia? Que direito tinha eu de forçá-la a uma decisão dessa ordem?
                    Quando acabei de falar ela abraçou-me chorando e só conseguia dizer: “Meu filho, meu filho tão infeliz!”
                    Qual seria o sentido dessa frase aparentemente tão clara? Seria pena pela minha sorte de guia forçado, pela minha capacidade de amedrontar os outros ou estaria ela pensando na minha sina de amedrontador da própria mãe? Chorei também, mas depois percebi que eu não tinha motivo nenhum para chorar, eu estava chorando mais por formalidade, porque o que havia eu feito para estar naquela situação? Que culpa tinha eu da minha vida?
                    Enxuguei as lágrimas e senti-me como se tivesse acabado de subir ao alto de uma grande montanha, de onde eu podia ver embaixo o menino de calça curta que eu havia deixado de ser, emaranhado em seus ridículos problemas infantis, pelos quais eu não sentia mais o menor interesse. Voltei-lhe as costas sem nenhum pesar e desci pelo outro lado assoviando e esfregando as mãos de contente.

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Os Cavalinhos de Platiplanto Contos, 1986, 16a. Edição, Difel Difusão Editorial S/A, São Paulo SP; J. J. Veiga, ou José Jacintho Pereira Veiga (1915 1999), goiano de Corumbá de Goiás, ali terminou seus estudos secundários e, transferindo-se para o Rio de Janeiro, formou-se em Direito; foi locutor de rádio, jornalista, redator, ficcionista e tradutor, tendo trabalhado nos periódicos Tribuna da Imprensa, O Globo, Reader's Digest, na BBC Londres e na coordenação do Depto. Editorial da FGV Fundação Getúlio Vargas; considerado um dos maiores autores do realismo fantástico na literatura brasileira, escreveu e publicou Os Cavalinhos de Platiplanto (1959), A Hora dos Ruminantes (1966), A Máquina Extraviada (1967), Sombras de Reis Barbudos (1972), Os Pecados da Tribo (1976), O Professor Burrim e as Quatro Calamidades (1978), De Jogos e Festas (1980), Torvelinho Dia e Noite (1985), A Casca da Serpente (1989), O Risonho Cavalo do Príncipe (1993), Objetos Turbulentos (1997) e outros títulos; teve edições publicadas nos Estados Unidos, Inglaterra, México, Espanha, Dinamarca, Suécia, Noruega e Portugal; além de ter sido laureado diversas vezes nos meios literários, foi agraciado, em 1997, com o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra.