Mostrando postagens com marcador Laury Maciel. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Laury Maciel. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Florbela Espanca: Os meus versos

____________________
Rasga esses versos que eu te fiz, Amor!
Deita-os ao nada, ao pó, ao esquecimento,
Que a cinza os cubra, que os arraste o vento,
Que a tempestade os leve aonde for!

Rasga-os na mente, se os souberes de cor,
Que volte ao nada o nada de um momento.
Julguei-me grande pelo sentimento,
E pelo orgulho ainda sou maior!...

Tanto verso já disse o que eu sonhei!
Tantos penaram já o que eu penei!
Asas que passam, todo o mundo as sente...

Rasga os meus versos... Pobre endoidecida!
Como se um grande amor cá nesta vida
Não fosse o mesmo amor de toda a gente!...

Reliquiae  1931

____________________
Poesia de Florbela Espanca, Volume 2 (Livro de Sóror Saudade, Charneca em Flor, Reliquiae) — Apresentação de Laury Maciel — Coleção L&PM Pocket, Volume 298, L&PM, 2002, Porto Alegre — RS; Florbela D'Alma da Conceição Lobo Espanca (1894  1930), portuguesa do Alentejo, poeta e contista, em vida escreveu e publicou Livro de Mágoas (1919), Livro de Sóror Saudade (1923); após sua morte, publicaram-se Reliquiae, Charneca em Flor e os contos As Máscaras do Destino e Dominó Negro (todos em 1931).

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Florbela Espanca: A minha tragédia

____________________
Tenho ódio à luz e raiva à claridade
Do sol, alegre, quente, na subida.
Parece que a minh’alma é perseguida
Por um carrasco cheio de maldade!

Ó minha vã, inútil mocidade,
Trazes-me embriagada, entontecida!...
Duns beijos que me deste, noutra vida,
Trago em meus lábios roxos, a saudade!...

Eu não gosto do sol, eu tenho medo
Que me leiam nos olhos o segredo
De não amar ninguém, de ser assim!

Gosto da Noite imensa, triste, preta,
Como esta estranha e doida borboleta
Que eu sinto sempre a voltejar em mim!...

Livro das Mágoas  1919

____________________
Poesia de Florbela Espanca, Volume I (Trocando Olhares, O Livro D'Ele, Livro das Mágoas) — Apresentação de Laury Maciel — Coleção L&PM Pocket, Volume 297, L&PM, 2002, Porto Alegre — RS; Florbela D'Alma da Conceição Lobo Espanca (1894 1930), portuguesa do Alentejo, poeta e contista, em vida escreveu e publicou Livro das Mágoas (1919), Livro de Sóror Saudade (1923); após sua morte, publicaram-se Reliquiae (1931), Charneca em Flor e os contos As Máscaras do Destino e Dominó Negro (todos em 1931).

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Florbela Espanca: Vaidade

____________________
Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo ! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho... E não sou nada!...

Livro das Mágoas  1919

____________________
Poesia de Florbela Espanca, Volume I (Trocando Olhares, O Livro D'Ele, Livro das Mágoas) — Apresentação de Laury Maciel — Coleção L&PM Pocket, Volume 297, L&PM, 2002, Porto Alegre — RS; Florbela D'Alma da Conceição Lobo Espanca (1894 1930), portuguesa do Alentejo, poeta e contista, em vida escreveu e publicou Livro das Mágoas (1919), Livro de Sóror Saudade (1923); após sua morte, publicaram-se Reliquiae (1931), Charneca em Flor e os contos As Máscaras do Destino e Dominó Negro (todos em 1931).

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Florbela Espanca: Caravelas

____________________
Cheguei a meio da vida já cansada
De tanto caminhar! Já me perdi!
Dum estranho país que nunca vi
Sou neste mundo imenso a exilada.

Tanto tenho aprendido e não sei nada.
E as torres de marfim que construí
Em trágica loucura as destruí
Por minhas próprias mãos de malfadada!

Se eu sempre fui assim este Mar-Morto,
Mar sem marés, sem vagas e sem porto
Onde velas de sonhos se rasgaram.

Caravelas doiradas a bailar...
Ai, quem me dera as que eu deitei ao Mar!
As que eu lancei à vida, e não voltaram!...

Livro de Sóror Saudade  1923

____________________
Poesia de Florbela Espanca, Volume 2 (Livro de Sóror Saudade, Charneca em Flor, Reliquiae) — Apresentação de Laury Maciel — Coleção L&PM Pocket, Volume 298, L&PM, 2002, Porto Alegre — RS; Florbela D'Alma da Conceição Lobo Espanca (1894  1930), portuguesa do Alentejo, poeta e contista, em vida escreveu e publicou Livro de Mágoas (1919), Livro de Sóror Saudade (1923); após sua morte, publicaram-se Reliquiae, Charneca em Flor e os contos As Máscaras do Destino e Dominó Negro (todos em 1931).

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Florbela Espanca: Maria das Quimeras

____________________
Maria das Quimeras me chamou
Alguém... Pelos castelos que eu ergui
P'las flores d'oiro e azul que a sol teci
Numa tela de sonho que estalou.

Maria das Quimeras me ficou;
Com elas na minh'alma adormeci.
Mas, quando despertei, nem uma vi
Que da minh'alma, Alguém, tudo levou!

Maria das Quimeras, que fim deste
Às flores d'oiro e azul que a sol bordaste,
Aos sonhos tresloucados que fizeste?

Pelo mundo, na vida, o que é que esperas?...
Aonde estão os beijos que sonhaste,
Maria das Quimeras, sem quimeras?...

Livro de Sóror Saudade — 1923

____________________
Poesia de Florbela Espanca, Volume 2 (Livro de Sóror Saudade, Charneca em Flor, Reliquiae) — Apresentação de Laury Maciel — Coleção L&PM Pocket, Volume 298, L&PM, 2002, Porto Alegre — RS; Florbela D'Alma da Conceição Lobo Espanca (1894 1930), portuguesa do Alentejo, poeta e contista, em vida escreveu e publicou Livro de Mágoas (1919), Livro de Sóror Saudade (1923); após sua morte, publicaram-se Reliquiae, Charneca em Flor e os contos As Máscaras do Destino e Dominó Negro (todos em 1931).

terça-feira, 6 de maio de 2014

Florbela Espanca: Ao Vento


____________________
O vento passa a rir, torna a passar,
Em gargalhadas ásperas de demente;
E esta minh’alma trágica e doente
Não sabe se há de rir, se há de chorar!

Vento de voz tristonha, voz plangente,
Vento que ris de mim, sempre a troçar,
Vento que ris do mundo e do amar,
A tua voz tortura toda a gente! ...

Vale-te mais chorar, meu pobre amigo!
Desabafa essa dor a sós comigo,
E não rias assim !... O vento, chora!

Que eu bem conheço, amigo, esse fadário
Do nosso peito ser como um Calvário,
E a gente andar a rir p’la vida fora!!...


Livro das Mágoas  1919

Resultado de imagem para florbela espanca desenho
____________________
Poesia de Florbela Espanca, Volume I (Trocando Olhares, O Livro D'Ele, Livro das Mágoas) — Apresentação de Laury Maciel Coleção L&PM Pocket, Volume 297, L&PM, 2002, Porto Alegre RS; Florbela D'Alma da Conceição Lobo Espanca (1894 1930), nascida no Alentejo, Portugal, poeta e contista, em vida escreveu e publicou Livro das Mágoas (1919), Livro de Sóror Saudade (1923); após sua morte, publicaram-se Reliquiae (1931), Charneca em Flor e os contos As Máscaras do Destino e Dominó Negro (todos em 1931).

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Florbela Espanca: A Mulher II

____________________
Ó Mulher! Como és fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada!

Quantas morrem saudosa duma imagem
Adorada que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem
Enquanto a boca ri alegremente!

Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doces almas de dor e sofrimento!


Paixão que faria a felicidade
Dum rei; amor de sonho e de saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!


Livro das Mágoas — 1919

Florbela Espanca num dos retratos mais conhecidos da poetisa.
____________________
Poesia de Florbela Espanca, Volume I (Trocando Olhares, O Livro D'Ele, Livro das Mágoas) — Apresentação de Laury Maciel Coleção L&PM Pocket, Volume 297, L&PM, 2002, Porto Alegre RS; Florbela D'Alma da Conceição Lobo Espanca (1894 1930), nascida no Alentejo, Portugal, poeta e contista, em vida escreveu e publicou Livro das Mágoas (1919), Livro de Sóror Saudade (1923); após sua morte, publicou-se Reliquiae (1931), Charneca em Flor (1931), e os contos As Máscaras do Destino e Dominó Negro, também em 1931...

sábado, 3 de maio de 2014

Florbela Espanca: Impossível

____________________
Disseram-me hoje, assim, ao ver-me triste:
“Parece Sexta-Feira de Paixão.
Sempre a cismar, cismar d’olhos no chão,
Sempre a pensar na dor que não existe...

O que é que tem?! Tão nova e sempre triste!
Faça por ‘star contente! Pois então?!...”
Quando se sofre, o que se diz é vão...
Meu coração, tudo, calado ouviste...

Os meus males ninguém mos adivinha...
A minha Dor não fala, anda sozinha...
Dissesse ela o que sente! Ai quem me dera!...

Os males d’Anto toda a gente os sabe!
Os meus... ninguém... A minha Dor não cabe
Nos cem milhões de versos que eu fizera!... 

Livro das Mágoas — 1919

____________________
Poesia de Florbela Espanca, Volume I (Trocando Olhares, O Livro D'Ele, Livro das Mágoas) Apresentação de Laury Maciel Coleção L&PM Pocket, Volume 297, L&PM, 2002, Porto Alegre RS; Florbela D'Alma da Conceição Lobo Espanca (1894 1930), nascida no Alentejo, Portugal, poeta e contista, em vida escreveu e publicou Livro das Mágoas (1919), Livro de Sóror Saudade (1923); após sua morte, publicou-se Reliquiae (1931), Charneca em Flor (1931), e os contos As Máscaras do Destino e Dominó Negro, também em 1931...

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Florbela Espanca: Eu (Até agora eu não me conhecia)


____________________
Até agora eu não me conhecia,
julgava que era Eu e eu não era
Aquela que em meus versos descrevera
Tão clara como a fonte e como o dia.

Mas que eu não era Eu não o sabia
mesmo que o soubesse, o não dissera...
Olhos fitos em rútila quimera
Andava atrás de mim... e não me via!

Andava a procurar-me 
 pobre louca! 
E achei o meu olhar no teu olhar,
E a minha boca sobre a tua boca!

E esta ânsia de viver, que nada acalma,
E a chama da tua alma a esbrasear
As apagadas cinzas da minha alma!
Charneca em Flor  1931


____________________
Poesia de Florbela Espanca, Volume 2 (Livro de Sóror Saudade, Charneca em Flor, Reliquiae) — Apresentação de Laury Maciel — Coleção L&PM Pocket, Volume 298, L&PM, 2002, Porto Alegre  RS; Florbela D'Alma da Conceição Lobo Espanca (1894  1930), nascida no Alentejo, Portugal, poeta e contista, em vida escreveu e publicou Livro de Mágoas (1919), Livro de Sóror Saudade (1923); após sua morte, publicou-se Reliquiae (1931), Charneca em Flor (1931), e os contos As Máscaras do Destino e Dominó Negro, também em 1931.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Florbela Espanca: Ser Poeta

____________________
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E
dizê-lo cantando a toda a gente!
Charneca em Flor  1931

____________________
Poesia de Florbela Espanca, Volume 2 (Livro de Sóror Saudade, Charneca em Flor, Reliquiae) — Apresentação de Laury Maciel — Coleção L&PM Pocket, Volume 298, L&PM, 2002, Porto Alegre  RS; Florbela D'Alma da Conceição Lobo Espanca (1894  1930), nascida no Alentejo, Portugal, poeta e contista, em vida escreveu e publicou Livro de Mágoas (1919), Livro de Sóror Saudade (1923); após sua morte, publicou-se Reliquiae (1931), Charneca em Flor (1931), e os contos As Máscaras do Destino e Dominó  Negro, também em 1931.