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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

S. T. Coleridge: Desalento: Uma Ode

 
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[traduzido por Paulo Vizioli]

Ontem à noite vi que a lua nova
À lua velha abraça!
Temo, temo, senhor, que ela nos traga
A tormenta e a desgraça.
Balada de Sir Patrick Spence

I
Bem! Se era sábio-em-tempo o Bardo que compôs
          A grandiosa balada de Sir Patrick Spence,
          A noite de hoje não se esvai sem que se adense
Sobre ela o vento, mais febril e mais veloz
Que a aura que em flocos fofos molda a nuvem no ar,
Ou, soluçando , geme lânguida, a arranhar
As cordas do alaúde eólico alaúde1
                   Que melhor estaria na quietude.
          Pois eis a Lua Nova, fúlgida-de-inverno!
          E, por luz espectral coberta, eis que discerno
          (Por espectral luz flutuante recoberta,
          Mas dentro de aro argênteo que a circunda e aperta)
A Lua Velha no seu colo, que anuncia
          O aguaceiro e a rajada, impetuoso açoite.
Mas quem dera, oh! que já se inflasse a ventania,
          E viesse a chuva oblíqua e torrencial da noite!
Tais sons, que me instigavam a alma mesmo quando
          A estavam assustando
O impulso antigo poderiam devolver,
Gritando à surda dor, forçando-a a viver!

II
Uma dor sem espasmo, inane, escura e triste,
          Dor modorrenta, apática, contida,
          Para a qual nem alívio nem saída
                   Em lágrimas ou palavra existe...
Senhora!2 Neste estado negro e sem alentos
(Nem o tordo me atrai para outros pensamentos),
          Por todo o entardecer, sereno e perfumado,
Eu o ocidente tenho estado a contemplar,
          E seu tom peculiar de verde amarelado;
E ainda o contemplo... mas com que vazio olhar!
E em estrias e flocos vejo as nuvens belas
Que passam sua moção para as estrelas,
As estrelas que fluem entre elas ou além
Ou fúlgidas ou foscas sempre lá porém;
E essa lua crescente, imóvel como flor
No seu lago de azul, sem astros, sem vapor.
Vejo sublime encanto em todas na amplidão...
Eu vejo, mas não sinto, quão formosas são!

III
          Meus dons inatos3 se atrofiam;
          E de que afinal me serviriam
Para erguer de meu peito o peso deprimente?
          Isto seria afã mendace,
Mesmo que para sempre eu contemplasse
Aquela verde luz que paira no ocidente.
Sei que em formas externas não terão seu centro
O impulso e a vida, cujas fontes estão dentro.

[ . . . ]

S. T. Coleridge

Dejection: An Ode

Late, late yestreen I saw the new Moon,
With the old Moon in her arms;
And I fear, I fear, my Master dear!
We shall have a deadly storm.
Ballad of Sir Patrick Spence.

I
Well! If the Bard was weather-wise, who made
          The grand old ballad of Sir Patrick Spence,
          This night, so tranquil now, will not go hence
Unroused by winds, that ply a busier trade
Than those which mould yon cloud in lazy flakes,
Or the dull sobbing draft, that moans and rakes
Upon the strings of this Eolian lute,
                   Which better far were mute.
          For lo! the New-moon winter-bright!
          And overspread with phantom light!
          (With swimming phantom light o'erspread
          But rimmed and circled by a silver thread)
I see the old Moon in her lap, foretelling
          The coming-on of rain and squally blast.
And oh! that even now the gust were swelling,
          And the slant night-shower driving loud and fast!
Those sounds which oft have raised me, whilst they awed,
          And sent my soul abroad,
Might now perhaps their wonted impulse give,
Might startle this dull pain, and make it move and live!

II
A grief without a pang, void, dark, and drear,
          A stifled, drowsy, unimpassioned grief,
          Which finds no natural outlet, no relief,
                   In word, or sigh, or tear
O Lady! in this wan and heartless mood,
To other thoughts by yonder throstle woo'd,
          All this long eve, so balmy and serene,
Have I been gazing on the western sky,
          And its peculiar tint of yellow green:
And still I gaze and with how blank an eye!
And those thin clouds above, in flakes and bars,
That give away their motion to the stars;
Those stars, that glide behind them or between,
Now sparkling, now bedimmed, but always seen:
Yon crescent Moon, as fixed as if it grew
In its own cloudless, starless lake of blue;
I see them all so excellently fair,
I see, not feel, how beautiful they are!

III
          My genial spirits fail;
          And what can these avail
To lift the smothering weight from off my breast?
          It were a vain endeavour,
          Though I should gaze for ever
On that green light that lingers in the west:
I may not hope from outward forms to win
The passion and the life, whose fountains are within.

[ . . . ]

Notas do tradutor Paulo Vizioli:
1. A “harpa eólica”, — também conhecida como “lira eólica” ou “alaúde eólico”, [alaúde] — era um instrumento muito comum nos lares europeus do século passado. Com suas cordas distendidas sobre uma caixa sonora retangular, era geralmente fixada nas janelas, onde as variações do vento a faziam vibrar em sequências de acordes musicais. Seu nome, evidentemente, se prende a Éolos, o deus dos ventos.
2. Esta “Senhora” vaga e misteriosa, à qual o poema é endereçado, era Sara Hutchinson, a grande paixão extraconjugal do autor.
3. O adjetivo genial é, às vezes, de difícil tradução. Geralmente significa “cordial”, “benévolo”, “benéfico”. Aqui, entretanto, parece prender-se às suas conotações iniciais, relacionando-se com a idéia de “gênio” ou, mais apropriadamente, “engenhosidade”, “habilidades naturais”. Daí a nossa opção por “dons inatos”, ...
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S. T. Coleridge — Poemas e excertos da “Biografia Literária”, texto poético bilíngue, Introdução, Seleção, Tradução e Notas de Paulo Vizioli, 1995, Editora Nova Alexandria, São Paulo — SP; Samuel Taylor Coleridge (1772 1834), inglês de Ottery St. Mary, Devonshire, frequentou o liceu do Christ’s Hospital Scholl, em Londres, e o Jesus College University of Cambridge, foi poeta do Romantismo, crítico literário, fílósofo e teólogo; criou o periódico The Watchman (O Sentinela), de curta duração, e ali publicou seus textos, e os primeiros poemas em 1796; posteriormente, criou outro periódico, o The Friend (O Amigo) o qual, por falta de sustentação financeira, também durou pouco; suas obras: Poems on various subjects [or Sonnets from Various Authors] (1796), Lyrical Ballads (coletânea em conjunto com o poeta William Wordsworth, 1798), Dejection: An Ode (Desalento: Uma Ode, 1892), Biographia Literaria (crítica literária, escrita em 1815 e publicada em dois volumes, 1817), Sibylline Leaves (Folhas Sibilinas, 1817), Aids to Reflection (1825), Church and State (1830) e outros textos; a obra Lyrical Ballads (1798), vinda a público com três poemas de Coleridge (The Rime of the Ancient Mariner, Kubla Khan e Christabel [excerpt]) e outros dezessete do poeta e amigo Wordsworth, e em cuja 2ª edição fora acrescida de um Prefácio de autoria de Wordsworth, é considerada um marco inicial do movimento romantista, o Romantismo, na Inglaterra; em 1824 foi eleito membro da Royal Society of Literature; durante sua vida adulta, Coleridge, que na infância fora acometido de febre reumática e outras doenças, fizera tratamento médico com láudano, um “anódino composto de ópio e diluído em álcool”, além de sofrer as dores de sua enfermidade, também viu-se dependente daquela droga.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

S. T. Coleridge: A Balada do Velho Marinheiro [trecho da Parte VII]

 
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[traduzido por Paulo Vizioli]

[ . . . ]

Parte VII

O Eremita do Bosque,

Vive o Ermitão piedoso nesse bosque anoso
Que desce para o mar.
Quão doce eleva a sua voz altissonante!
Com marinheiros vindos de qualquer quadrante
Ele ama conversar.

De manhã se ajoelha, e ao meio-dia, e à tarde...
Tem fofo travesseiro:
O velho e apodrecido toco de carvalho
Que o musgo envolve inteiro.

O bote aproximou-se; ouvi as suas vozes:
“Ora, é estranho, é irreal!
As belas luzes onde estão, que ainda há pouco
Nos faziam sinal?”

Aproxima-se do navio com espanto.

“Estranho, à fé!” disse o Eremita... “Nem resposta
Deram a nosso brado!
A tabica empenada! E vede o seu velame
Ressequido e esgarçado!
Nunca vi nada igual em minha vida, a menos
Que seja comparado

Aos espectros das folhas mortas, essa turba
Que ao leito do regato entope e rouba,
Quando na moita de hera a neve se demora
E o mocho pia para o lobo que devora
Os filhotes da loba.”

“Meu Deus! Meu Deus! Como é sinistro seu aspecto...”
(É do outro a voz aflita.)
“Estou morto de medo...” “Avante, avante!” clama
Animado o Eremita.

O bote veio e se encostou junto ao navio:
Eu não falei nem me movi.
O bote veio e se encostou sob o navio;
E um som súbito ouvi.

[ . . . ]

S. T. Coleridge

The Rime of the Ancient Mariner *

[ . . . ]

PART VII

The Hermit of the Wood,

This Hermit good lives in that wood
Which slopes down to the sea.
How loudly his sweet voice he rears!
He loves to talk with marineres
That come from a far countree.

He kneels at morn, and noon, and eve —
He hath a cushion plump:
It is the moss that wholly hides
The rotted old oak-stump.

The skiff-boat neared: I heard them talk,
“Why, this is strange, I trow!
Where are those lights so many and fair,
That signal made but now?”

Approacheth the ship with wonder.

“Strange, by my faith!” the Hermit said —
“And they answered not our cheer!
The planks looked warped! and see those sails,
How thin they are and sere!
I never saw aught like to them,
Unless perchance it were

Brown skeletons of leaves that lag
My forest-brook along;
When the ivy-tod is heavy with snow,
And the owlet whoops to the wolf below,
That eats the she-wolf’s young.”

“Dear Lord! it hath a fiendish look —
(The Pilot made reply)
I am a-feared”— “Push on, push on!”
Said the Hermit cheerily.

The boat came closer to the ship,
But I nor spake nor stirred;
The boat came close beneath the ship,
And straight a sound was heard.

[ . . . ]

* Nota do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página expõe que o longo poema The Rime of the Ancient Mariner (A Balada do Velho Marinheiro) é composto de 144 estrofes distribuídas em 7 seções e totalizando mais de 620 versos.
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S. T. Coleridge — Poemas e excertos da “Biografia Literária”, texto poético bilíngue, Introdução, Seleção, Tradução e Notas de Paulo Vizioli, 1995, Editora Nova Alexandria, São Paulo SP; Samuel Taylor Coleridge (1772 1834), inglês de Ottery St. Mary, Devonshire, frequentou o liceu do Christ’s Hospital Scholl, em Londres, e o Jesus College University of Cambridge, foi poeta do Romantismo, crítico literário, fílósofo e teólogo; criou o periódico The Watchman (O Sentinela), de curta duração, e ali publicou seus textos, e os primeiros poemas em 1796; posteriormente, criou outro periódico, o The Friend (O Amigo) o qual, por falta de sustentação financeira, também durou pouco; suas obras: Poems on various subjects [or Sonnets from Various Authors] (1796), Lyrical Ballads (coletânea em conjunto com o poeta William Wordsworth, 1798), Dejection: An Ode (Desalento: Uma Ode, 1892), Biographia Literaria (crítica literária, escrita em 1815 e publicada em dois volumes, 1817), Sibylline Leaves (Folhas Sibilinas, 1817), Aids to Reflection (1825), Church and State (1830) e outros textos; a obra Lyrical Ballads (1798), vinda a público com três poemas de Coleridge (The Rime of the Ancient Mariner, Kubla Khan e Christabel [excerpt]) e outros dezessete do poeta e amigo Wordsworth, e em cuja 2ª edição fora acrescida de um Prefácio de autoria de Wordsworth, é considerada um marco inicial do movimento romantista, o Romantismo, na Inglaterra; em 1824 foi eleito membro da Royal Society of Literature; durante sua vida adulta, Coleridge, que na infância fora acometido de febre reumática e outras doenças, fizera tratamento médico com láudano, um “anódino composto de ópio e diluído em álcool”, além de sofrer as dores de sua enfermidade, também viu-se dependente daquela droga.

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

S. T. Coleridge: Geada à meia-noite

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[traduzido por Paulo Vizioli]

A geada executa as suas funções secretas,
Sem auxílio de vento. O pio da coruja
Alto soou... e ei-lo de novo! alto como antes.
Ora os que habitam meu chalé, todos no leito,
Deixaram-me naquela solidão que nutre
As cismas mais abstrusas. Salvo que, a meu lado,
Meu filhinho no berço dorme calmamente.
Está calmo, de fato! E tanto, que perturba
E desconcerta o meditar, com sua estranha
E extrema quietude. Mar outeiro e bosque,
A populosa aldeia! Mar e outeiro e bosque,
E os incontáveis burburinhos desta vida,
Mudos quais sonhos! A azulada chama tênue
Pousa em meu fogo baixo e nem sequer tremula;
Só esse véuzinho1, que adejava preso à grade,
Ali adeja ainda, a única coisa inquieta.
Com seus meneios nesta paz da natureza
Parece que ele tem comigo uma empatia,
É alguma forma companheira, cujo débil
E travesso trapear o divagante Espírito
Que busca em toda parte um eco ou um espelho
De si interpreta à sua maneira, transformando
O pensamento num brinquedo.

                                              Porém, oh!
Quantas vezes na escola, com a mente crédula
E cheia de presságios, não olhei as grades
Para observar esse adejante estranho! E quantas,
De pálpebras abertas, não andei sonhando
Com a vila natal, a igreja e a velha torre,
Cujos sinos dobravam de manhã à noite
(A música do pobre) todo dia de feira
Tão doce o som, que me agitava e me incutia
Um selvagem prazer, caindo em meus ouvidos
Como mensagem de coisas que viriam!
E a olhar ficava, até que as dádivas sonhadas
Me embalassem, e o sono prolongasse os sonhos!
E devaneava assim toda a manhã seguinte,
Ante o severo preceptor2, com olhos fixos
Num estudo fingido em meu livro a nadar 
Salvo se a porta se entreabrisse para um rápido
Olhar furtivo (o coração ainda aos saltos),
Pois o rosto do estranho ainda esperava ver,
Ou conterrâneo, ou tia, ou minha amada irmã,
Com quem brincava quando em roupas infantis!

         Criancinha querida, que no berço dormes,
Teu leve respirar, nesta profunda calma,
Vem preencher esses vazios intercalados
E as pausas momentâneas de meu pensamento!
Oh lindo filho meu! Faz-me vibrar o peito
Com suave alegria contemplar-te assim,
E imaginar que aprenderás outras noções,
E em cenários diversos! Pois eu fui criado
Numa cidade grande, em meio a escuros claustros,
Sem nada ver de belo fora o céu e os astros.
Mas tu, minha criança, irás tal como a brisa
Por lagos e por praias, sob as penhas íngremes
De uma antiga montanha, e sob as nuvens no alto,
Que em si refletem esses lagos e essas praias,
E aquelas penhas; e hás de ver e ouvir assim
As formas ímpares e os sons inteligíveis
Daquela língua eterna, que teu Deus profere,
O Deus que desde sempre ensina que ele se acha
Em toda coisa, e toda coisa se acha nele.
É o grande Mestre universal, que moldará
O teu espírito; e, ao dar, fa-lo-á pedir.

         Todas as estações, portanto, ser-te-ão doces,
Seja quando o verão à terra toda veste
De verde, ou quando o pintarroxo pousa e canta
No galho nu de uma musgosa macieira,
Entre restos de neve, e o colmo do telhado
Fumega no degelo; seja quando as gotas
Caem do beiral, nos transes quietos da tormenta,
Ou, sentindo as funções secretas da geada,
Pendem do teto à noite quais pingentes miúdos,
Silenciosos luzindo à Lua silenciosa.

T. S. Coleridge

Frost at Midnight

The Frost performs its secret ministry,
Unhelped by any wind. The owlet's cry
Came loud and hark, again! loud as before.
The inmates of my cottage, all at rest,
Have left me to that solitude, which suits
Abstruser musings: save that at my side
My cradled infant slumbers peacefully.
'Tis calm indeed! so calm, that it disturbs
And vexes meditation with its strange
And extreme silentness. Sea, hill, and wood,
This populous village! Sea, and hill, and wood,
With all the numberless goings-on of life,
Inaudible as dreams! the thin blue flame
Lies on my low-burnt fire, and quivers not;
Only that film, which fluttered on the grate,
Still flutters there, the sole unquiet thing.
Methinks, its motion in this hush of nature
Gives it dim sympathies with me who live,
Making it a companionable form,
Whose puny flaps and freaks the idling Spirit
By its own moods interprets, every where
Echo or mirror seeking of itself,
And makes a toy of Thought.

                                                But O! how oft,
How oft, at school, with most believing mind,
Presageful, have I gazed upon the bars,
To watch that fluttering stranger! and as oft
With unclosed lids, already had I dreamt
Of my sweet birth-place, and the old church-tower,
Whose bells, the poor man's only music, rang
From morn to evening, all the hot Fair-day,
So sweetly, that they stirred and haunted me
With a wild pleasure, falling on mine ear
Most like articulate sounds of things to come!
So gazed I, till the soothing things, I dreamt,
Lulled me to sleep, and sleep prolonged my dreams!
And so I brooded all the following morn,
Awed by the stern preceptor's face, mine eye
Fixed with mock study on my swimming book:
Save if the door half opened, and I snatched
A hasty glance, and still my heart leaped up,
For still I hoped to see the stranger's face,
Townsman, or aunt, or sister more beloved,
My play-mate when we both were clothed alike!

         Dear Babe, that sleepest cradled by my side,
Whose gentle breathings, heard in this deep calm,
Fill up the intersperséd vacancies
And momentary pauses of the thought!
My babe so beautiful! it thrills my heart
With tender gladness, thus to look at thee,
And think that thou shalt learn far other lore,
And in far other scenes! For I was reared
In the great city, pent 'mid cloisters dim,
And saw nought lovely but the sky and stars.
But thou, my babe! shalt wander like a breeze
By lakes and sandy shores, beneath the crags
Of ancient mountain, and beneath the clouds,
Which image in their bulk both lakes and shores
And mountain crags: so shalt thou see and hear
The lovely shapes and sounds intelligible
Of that eternal language, which thy God
Utters, who from eternity doth teach
Himself in all, and all things in himself.
Great universal Teacher! he shall mould
Thy spirit, and by giving make it ask.

         Therefore all seasons shall be sweet to thee,
Whether the summer clothe the general earth
With greenness, or the redbreast sit and sing
Betwixt the tufts of snow on the bare branch
Of mossy apple-tree, while the nigh thatch
Smokes in the sun-thaw; whether the eave-drops fall
Heard only in the trances of the blast,
Or if the secret ministry of frost
Shall hang them up in silent icicles,
Quietly shining to the quiet Moon.

Notas do tradutor Paulo Vizioli:
1. Esse “véuzinho”, que nada mais é que um pedaço de fuligem a trapear preso a uma das barras da grade da lareira, adquire para Coleridge conotações inesperadas, tendo merecido dele a seguinte nota: “Em todas as partes do Reino esses véus são chamados de estranhos, acreditando-se que prenunciam a chegada de algum amigo ausente”.
2. O “severo preceptor” é o Rev. James Boyer, sobre o qual o poeta discorre no Capítulo I de sua Biografia Literária.
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S. T. Coleridge — Poemas e excertos da “Biografia Literária”, texto poético bilíngue, Introdução, Seleção, Tradução e Notas de Paulo Vizioli, 1995, Editora Nova Alexandria, São Paulo — SP; Samuel Taylor Coleridge (1772 1834), inglês de Ottery St. Mary, Devonshire, frequentou o liceu do Christ’s Hospital Scholl, em Londres, e o Jesus College University of Cambridge, foi poeta do Romantismo, crítico literário, fílósofo e teólogo; criou o periódico The Watchman (O Sentinela), de curta duração, e ali publicou seus textos, e os primeiros poemas em 1796; posteriormente, criou outro periódico, o The Friend (O Amigo) o qual, por falta de sustentação financeira, também durou pouco; suas obras: Poems on various subjects [or Sonnets from Various Authors] (1796), Lyrical Ballads (coletânea em conjunto com o poeta William Wordsworth, 1798), Dejection: An Ode (Desalento: Uma Ode, 1892), Biographia Literaria (crítica literária, escrita em 1815 e publicada em dois volumes, 1817), Sibylline Leaves (Folhas Sibilinas, 1817), Aids to Reflection (1825), Church and State (1830) e outros textos; a obra Lyrical Ballads (1798), vinda a público com três poemas de Coleridge (The Rime of the Ancient Mariner, Kubla Khan e Christabel [excerpt]) e outros dezessete do poeta e amigo Wordsworth, e em cuja 2ª edição fora acrescida de um Prefácio de autoria de Wordsworth, é considerada um marco inicial do movimento romantista, o Romantismo, na Inglaterra; em 1824 foi eleito membro da Royal Society of Literature; durante sua vida adulta, Coleridge, que na infância fora acometido de febre reumática e outras doenças, fizera tratamento médico com láudano, um “anódino composto de ópio e diluído em álcool”, além de sofrer as dores de sua enfermidade, também viu-se dependente daquela droga.

sexta-feira, 5 de setembro de 2025

S. T. Coleridge: Aparição & Sobre a Poesia de Donne & Epitáfio

 
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[traduzido por Paulo Vizioli]

Aparição

Todo aspecto terreno e semelhança,
Tudo o que do nascer trouxe de herança,
Passou. Em sua face iluminada
Não existe nenhum sinal de nada
Germinando onde a pedra se fendeu…
O que se vê é um espírito só seu
Pois é ela, ela própria, ela somente,
Brilhando no seu corpo transparente.

— o —

Sobre a Poesia de Donne

Com Donne, que em dromedário faz trotar a musa,
Atiçador de ferro em “nó do amor” se encruza*;
Dédalo é a fantasia, a rima é atleta coxo,
O engenho é fogo e fole, a idéia é prensa e arrocho.

— o —

Epitáfio

Pára, filho de Deus! Detém-te, bom cristão,
E piedoso vem ler. Um poeta, ou o que
Parecia ser ele, jaz neste torrão.
Ergue uma prece pelo pobre S. T. C.,
Afim de que ele, que na luta contra a sorte
Encontrou morte em vida, encontre vida em morte.
Não glória graça; fama não mercê porém,
A Cristo suplicou. Assim faças também!

S. T. Coleridge

Phantom

All look and likeness caught from earth
All accident of kin and birth,
Had pass'd away. There was no trace
Of aught on that illumined face,
Uprais'd beneath the rifted stone
But of one spirit all her own;
She, she herself, and only she,
Shone through her body visibly.

— o —

On Donne’s Poetry

With Donne, whose muse on dromedary trots,
Wreathe iron pokers into true-love knots;
Rhyme's sturdy cripple, fancy's maze and clue,
Wit's forge and fire-blast, meaning's press and screw.

— o —

Epitaph

Stop, Christian passer-by! Stop, child of God,
And read with gentle breast. Beneath this sod
A poet lies, or that which once seem’d he.
O, lift one thought in prayer for S. T. C.;
That he who many a year with toil of breath
Found death in life, may here find life in death!
Mercy for praise to be forgiven for fame
He ask’d, and hoped, through Christ. Do thou the same!

* Nota de Paulo Vizioli, tradutor e organizador deste S. T. Coleridge — Poemas:
'O “nó do amor” é uma espécie de laço tradicionalmente associado ao sentimento amoroso. Há referências a ele até mesmo em Os Contos de Cantuária de Chaucer, que é do século 14. No “Prólogo Geral”, por exemplo, o Monge vem descrito com um “nó do amor” na extremidade da fivela que lhe prende o capuz'.
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S. T. Coleridge — Poemas e excertos da “Biografia Literária”, texto poético bilíngue, Introdução, Seleção, Tradução e Notas de Paulo Vizioli, 1995, Editora Nova Alexandria, São Paulo — SP; Samuel Taylor Coleridge (1772 1834), inglês de Ottery St. Mary, Devonshire, frequentou o liceu do Christ’s Hospital Scholl, em Londres, e o Jesus College — University of Cambridge, foi poeta do Romantismo, crítico literário, fílósofo e teólogo; criou o periódico The Watchman (O Sentinela), de curta duração, e ali publicou seus textos, e os primeiros poemas em 1796; posteriormente, criou outro periódico, o The Friend (O Amigo) o qual, por falta de sustentação financeira, também durou pouco; suas obras: Poems on various subjects [or Sonnets from Various Authors] (1796), Lyrical Ballads (coletânea em conjunto com o poeta William Wordsworth, 1798), Dejection: An Ode (Desalento: Uma Ode, 1892), Biographia Literaria (crítica literária, escrita em 1815 e publicada em dois volumes, 1817), Sibylline Leaves (Folhas Sibilinas, 1817), Aids to Reflection (1825), Church and State (1830) e outros textos; a obra Lyrical Ballads (1798), vinda a público com três poemas de Coleridge (The Rime of the Ancient Mariner, Kubla Khan e Christabel [excerpt]) e outros dezessete do poeta e amigo Wordsworth, e em cuja 2ª edição fora acrescida de um Prefácio de autoria de Wordsworth, é considerada um marco inicial do movimento romantista, o Romantismo, na Inglaterra; em 1824 foi eleito membro da Royal Society of Literature; durante sua vida adulta, Coleridge, que na infância fora acometido de febre reumática e outras doenças, fizera tratamento médico com láudano, um “anódino composto de ópio e diluído em álcool”, além de sofrer as dores de sua enfermidade, também viu-se dependente daquela droga.

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

S. T. Coleridge: A Harpa Eólica*

 
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[traduzido por Paulo Vizioli]

composto em Clevedon, Somersetshire

Oh minha Sara pensativa! Tua face
Macia no meu braço, que conforto estar
Junto à nossa casinha, toda recoberta
De jasmim de alva flor e mirto latifólio
(Esses justos emblemas de Inocência e Amor),
E olhar as nuvens, que de luz eram tão ricas,
Se apagando em tristeza, e ver do lado oposto
O sereno fulgor (que do Saber é próprio)
Da estrela vespertina! Aromas delicados
Roubam-se ao feijoal! Ora emudece o mundo,
Enquanto o baixo murmurar do mar distante
Nos falta de silêncio.

E essa Harpa, a mais singela,
Que à janela está presa de comprido! Escuta!
Como, afagada pelo vento instável, lembra
Tímida virgem, que, tentada pelo amado,
Deita censura tão suave que, por força,
O incita a nova falta! E agora as suas cordas
Varridas com vigor as notas sucessivas
Em ondas de prazer imergem e se elevam,
Num feitiço sonoro fácil e flutuante,
Como o dos Elfos que cavalgam a aura branda
E vêm, no entardecer, dos Reinos Encantados,
Onde, em melífero jardim, as Melodias,
Como aves livres e sem pés do Paraíso,**
Pairam, sem pausa ou pouso, em asas indomadas!
Oh! A vida una, fora e dentro de nós mesmos,
Que enfrenta as moções todas e se faz sua alma,
Que é luz no som, ou um poder qual som na luz,
Ritmo no pensamento, e em toda parte júbilo...
Teria sido, quero crer, até impossível
Deixar de amar a tudo em mundo assim povoado,
Onde a brisa gorjeia, e o ar parado é Música
Que está a cochilar sobre o instrumento seu.
E assim, oh meu Amor! quando, a meio caminho
Da encosta elém, ao meio-dia estendo os membros,
Enquanto observo, por semi-cerradas pálpebras,
Os diamantes de luz dançando sobre o mar,
Tranquilo a meditar sobre a tranquilidade 
Ah, quantos pensamentos soltos e espontâneos,
E quantas fantasias tolas e fugazes
Meu passivo e indolente cérebro atravessam,
Como as várias rajadas rudes e sem rumo
Que vêm e adejam sobre esta Harpa subjugada!

E se a animada natureza não for mais
Que Harpas orgânicas de formas diferentes,
Vibrando em pensamento quando entre elas passa,
Plástico e vasto, um hálito intelectual,
Ao mesmo tempo a Alma de cada e o Deus de todos?

Mas teu olhar mais sério lança, oh minha amada,
Doce reprovação. Não podes aceitar
Pensamentos assim, obscuros e profanos,
E pedes que eu caminhe humilde com meu Deus.
Oh meiga filha da família de Jesus!
Bem o disseste, e santamente depreciaste
Essas formulações da mente impenitente,
Bolhas que brilham e que sobem e que estouram
Na borbulhante fonte da Filosofia.
Oh não, sempre sem culpa possa eu discorrer
Sobre Ele, o Incompreensível! Salvo quando o louvo
Com temor e com Fé que sente interiormente;
Ele curou a mim com graças redentoras,
A mim, que sou um homem pecador e mísero,
Obscuro e extraviado, e deu-me possuir
A paz, esta casinha, e a ti, minha adorada!

S. T. Coleridge

The Eolian Harp

composed at Clevedon, Somersetshire

My pensive Sara! thy soft cheek reclined
Thus on mine arm, most soothing sweet it is
To sit beside our Cot, our Cot o’ergrown
With white-flower’d Jasmin, and the broad-leav’d Myrtle,
(Meet emblems they of Innocence and Love!)
And watch the clouds, that late were rich with light,
Slow saddening round, and mark the star of eve
Serenely brilliant (such would Wisdom be)
Shine opposite! How exquisite the scents
Snatch’d from yon bean-field! and the world so hush’d!
The stilly murmur of the distant Sea
Tells us of silence.

                            And that simplest Lute,
Placed length-ways in the clasping casement, hark!
How by the desultory breeze caressed,
Like some coy maid half yielding to her lover,
It pours such sweet upbraiding, as must needs
Tempt to repeat the wrong! And now, its strings
Boldlier swept, the long sequacious notes
Over delicious surges sink and rise,
Such a soft floating witchery of sound
As twilight Elfins make, when they at eve
Voyage on gentle gales from Fairy-Land,
Where Melodies round honey-dropping flowers,
Footless and wild, like birds of Paradise,
Nor pause, nor perch, hovering on untam’d wing!
O! the one Life within us and abroad,
Which meets all motion and becomes its soul,
A light in sound, a sound-like power in light,
Rhythm in all thought, and joyance every where
Methinks, it should have been impossible
Not to love all things in a world so fill’d;
Where the breeze warbles, and the mute still air
Is Music slumbering on her instrument.

    And thus, my Love! as on the midway slope
Of yonder hill I stretch my limbs at noon,
Whilst through my half-clos’d eye-lids I behold
The sunbeams dance, like diamonds, on the main,
And tranquil muse upon tranquillity;
Full many a thought uncall’d and undetain’d,
And many idle flitting phantasies,
Traverse my indolent and passive brain,
As wild and various as the random gales
That swell and flutter on this subject Lute!

    And what if all of animated nature
Be but organic Harps diversely fram’d,
That tremble into thought, as o’er them sweeps
Plastic and vast, one intellectual breeze,
At once the Soul of each, and God of all?

    But thy more serious eye a mild reproof
Darts, O belov’d Woman! nor such thoughts
Dim and unhallow’d dost thou not reject,
And biddest me walk humbly with my God.
Meek Daughter in the family of Christ!
Well hast thou said and holily disprais’d
These shapings of the unregenerate mind;
Bubbles that glitter as they rise and break
On vain Philosophy’s aye-babbling spring.
For never guiltless may I speak of him,
The Incomprehensible! save when with awe
I praise him, and with Faith that inly feels;
Who with his saving mercies heal’d me,
A sinful and most miserable man,
Wilder’d and dark, and gave me to possess
Peace, and this Cot, and thee, heart-honor’d Maid!

Notas de Paulo Vizioli, tradutor e organizador deste S. T. Coleridge — Poemas:    
          * ‘A “harpa eólica”, — também conhecida como “lira eólica” ou “alaúde eólico”, — era um instrumento muito comum nos lares europeus do século passado. Com suas cordas distendidas sobre uma caixa sonora retangular, era geralmente fixada nas janelas, onde as variações do vento a faziam vibrar em sequências de acordes musicais. Seu nome, evidentemente, se prende a Éolos, o deus dos ventos.
          ** “Ao prepararem as peles das maravilhosas aves do paraíso a fim de exportá-las para a Europa (um tráfico que só foi proibido em 1924), os habitantes da Nova Guiné e ilhas vizinhas retiravam-lhes as pernas. Por isso, muitos dos contemporâneos de Coleridge acreditavam que tais aves não tivessem pernas, vivendo a flutuar nos ares e tendo o néctar como alimento.
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S. T. Coleridge — Poemas e excertos da “Biografia Literária”, texto poético bilíngue, Introdução, Seleção, Tradução e Notas de Paulo Vizioli, 1995, Editora Nova Alexandria, São Paulo — SP; Samuel Taylor Coleridge (1772 1834), inglês de Ottery St. Mary, Devonshire, frequentou o liceu do Christ’s Hospital Scholl, em Londres, e o Jesus College University of Cambridge, foi poeta do Romantismo, crítico literário, fílósofo e teólogo; criou o periódico The Watchman (O Sentinela), de curta duração, e ali publicou seus textos, e os primeiros poemas em 1796; posteriormente, criou outro periódico, o The Friend (O Amigo) o qual, por falta de sustentação financeira, também durou pouco; suas obras: Poems on various subjects [or Sonnets from Various Authors] (1796), Lyrical Ballads (coletânea em conjunto com o poeta William Wordsworth, 1798), Dejection: An Ode (Desalento: Uma Ode, 1892), Biographia Literaria (crítica literária, escrita em 1815 e publicada em dois volumes, 1817), Sibylline Leaves (Folhas Sibilinas, 1817), Aids to Reflection (1825), Church and State (1830) e outros textos; a obra Lyrical Ballads (1798), vinda a público com três poemas de Coleridge (The Rime of the Ancient Mariner, Kubla Khan e Christabel [excerpt]) e outros dezessete do poeta e amigo Wordsworth, e em cuja 2ª edição fora acrescida de um Prefácio de autoria de Wordsworth, é considerada um marco inicial do movimento romantista, o Romantismo, na Inglaterra; em 1824 foi eleito membro da Royal Society of Literature; durante sua vida adulta, Coleridge, que na infância fora acometido de febre reumática e outras doenças, fizera tratamento médico com láudano, um “anódino composto de ópio e diluído em álcool”, além de sofrer as dores de sua enfermidade, também viu-se dependente daquela droga.